Fome

Posted in Magic Story on 5 de Outubro de 2020

By Brandon O'Brien

Brandon O'Brien is a writer, performance poet, and game designer from Trinidad and Tobago whose work can be found in Uncanny Magazine, Fireside Magazine, and New Worlds, Old Ways: Speculative Tales from the Caribbean. He is also the former Poetry editor of FIYAH: A Magazine of Black Speculative Fiction.

Bem nos limites da Cidade Livre de Nimana, um homem usando robes cinzentos caminhou pela noite escura na direção dos acampamentos, puxando o colarinho para perto do corpo, se protegendo da brisa. Ele ficou de olho em todos enquanto seguia caminho pelo mercado de rua. Os locais percebiam que ele era um forasteiro sem nem mesmo espiar a face sob o capuz — ele caminhava cuidadosamente, como se tivesse ouvido todos os piores rumores sobre a cidade. Os olhos de alguns ladrões ali perto se arregalaram ao absorver os detalhes menos notáveis sobre ele: o peso das bolsas de moedas, um pergaminho no bolso de dentro dos seus robes. Estava no ar que ele servia a alguém que lhe pagava bem — mas que lhe causava um medo terrível.

Perto do final do mercado estavam as tendas onde aventureiros mercenários locais faziam seus negócios. Ali, a reconstrução era mais lenta e lares inteiros ainda estavam repartidos, apesar de que os escombros tinham sido retirados, abrindo espaço para mais do comércio costumeiro da cidade. O homem de robes viu tritões gritando com açougueiros pelo preço de carnes que tiraram de monstros e ambulantes inventando histórias sobre as quinquilharias que tentavam vender. Além deles estavam os expedicionários em si, trocando histórias e conferindo suas ferramentas na fraca luz compartilhada de tochas e da lua, esperando que alguém viesse até eles oferecendo trabalho.

Ele sabia a quem estava procurando. Seu empregador o tinha enviado em busca de um espadachim que frequentava o mercado para beber. Esse homem era parte de um dos grupos mais brutais e eficientes de Guul Draz, um bando de viajantes sem nome que se importavam pouco com a emoção da aventura ou da descoberta; se importavam apenas com dinheiro. Isso agradava tanto a ele quanto a seu empregador — eles não queriam alguém que fosse vadiar ou fizesse um espetáculo da coisa toda. Eles só queriam o caminho limpo.

Logo, ele encontrou o homem polindo a lâmina de uma espada curta em sua camisa de linho, apoiado contra a parede ao lado de um par de tanoeiros idosos que vendiam peles de bestas exóticas. O espadachim olhou para cima e encontrou os olhos do homem de robes o encarando. “Precisa de algo, amigo?”

“Por acaso você é o Tarsa?”

O homem suspirou enquanto assentia. “Siga-me, então.”


Anowon, the Ruin Thief
Anowon, o Ladrão da Ruína | Ilustração: Magali Villeneuve

Nenhum dos dois tinha notado o vampiro atrás deles, perseguindo o emissário pelo mercado inteiro. Ele tinha puxado o capuz da sua longa capa vermelho-sangue acima da cabeça para esconder sua palidez. Esse vampiro tinha aprendido bem como se esconder ultimamente, a não chamar atenção. Era um homem odiado na maioria dos lugares, assassino e ladrão com mais infâmia do que renome, um alvo de palavras vis para alguns e surras ainda mais vis para o resto. Os grupos expedicionários que o deixavam viajar com deles o faziam com hesitação, com seus facões ao alcance da mão enquanto dormiam.

Ele suspeitava que seguir este enviado seria o primeiro passo para acabar com isso. De fato, Anowon acreditava que este homem seria seu caminho para a redenção.

Quando Tarsa chegou nas tendas, ele fez um gesto para dois aventureiros, que se endireitaram como profissionais para cumprimentar a dupla. Uma pessoa kor com cabelos prateados ofereceu a ele um copo de bronze com algo transparente, de aroma forte. “Aonde você planeja enviar a melhor equipe expedicionária que Nimana tem a oferecer, senhor?”

O homem de robes azuis rejeitou a bebida com um aceno de mão. “Não precisamos de gracejos. Não sou ninguém notável — simplesmente a voz viajante de um benfeitor afoito para empregá-los.”

Anowon ficou para trás, ouvindo a conversa atentamente de um beco ali perto. Ele esperava ter encontrado o emissário sozinho, convencê-lo de fazer uma expedição e depois encontrar sua própria equipe, mas agora não havia mais jeito. Talvez este grupo fosse o suficiente. Grandes histórias sobre o grupo de Tarsa eram contadas em Nimana, sobre a atitude imperturbável deles e seu senso de viagem preciso. Ele também ouvira algo que o emissário certamente ainda não sabia...

“Parece que um membro de seu grupo não está aqui?” Indagou o homem, abaixando o capuz para coçar seus cabelos pretos como azeviche, olhando pela tenda. “Me disseram que você tinha um complemento de quatro pessoas, mas—”

Tarsa fez uma interjeição rápida, com o cenho franzido e frustrado. “Nós... perdemos um dos nossos em uma viagem até Ondu.” Ele olhou para a pessoa kor, cujos punhos cerraram assim que ouvira a pergunta, soltando-os quando seus olhos se encontraram. “Mas você não precisa se preocupar com o nosso trabalho por isso, senhor.”

Ondu. Os ouvidos de Anowon estremeceram com a menção do lugar. Mesmo que ele não conseguisse o trabalho, talvez encontrar esse grupo em particular ainda fosse uma pequena serendipidade.

“É uma pena, imagino,” disse o emissário, “quero dizer, é irônico que eu venho oferecer um serviço em Ondu — serviço tal que meu empregador sabe ser tremendamente perigoso.”

Serendipidade mesmo, Anowon sussurrou para si.

A pessoa kor ficou tensa novamente. “Que tipo de perigo você quer dizer?"

O emissário inclinou a cabeça em sua direção. “Nadino, certo?” Ele nem esperou que respondesse e continuou. “Vocês já tiveram a chance de ver o Enclave Celeste da Ilha de Jwar?”

Nadino perdeu o fôlego, e Tarsa se virou instintivamente com olhos reconfortantes. “Sim, já vimos,” respondeu ele, com suavidade.

“Ah...” Uma batida de coração se passou em silêncio antes que o emissário continuasse. “Talvez não seja—”

“Não.” Nadino falou entredentes. “Apenas um acidente de trabalho. Vamos ouvir você.”

Tarsa retorceu a face. “Eu, pelo menos, quero uma revanche com aquela coisa.”

“Gragorja, é como a chamam,” adicionou o emissário. “Essa é, de fato, a sua presa. Ela vem incomodando as rotas de viagem vertical pela área, o que não é bom para o negócio de expedições. Meu cliente pagará o preço que vocês quiserem, se vencerem sua revanche.”

Nadino riu feito criança. “Claro. Decapitação precisa de extra.”

“Extra?” O emissário sorriu largamente. “Meu cliente está disposto a oferecer um pagamento por cabeça.”

“E quanto a esse... cliente?”

“Não é da sua conta. Vocês só precisam saber que o pagamento é bom.” Ele procurou uma bolsa de veludo azul profundo e a jogou à frente deles. Tarsa, por instinto, a pegou antes de cair. Tinha o peso de cento e cinquenta peças, facilmente. “Para cobrir seus gastos. Claro que vocês também podem ficar com o que encontrarem, mas lembrem-se que estamos pagando por controle de pragas, não para passear.”

Anowon buscou por um de seus papéis em um bolso de sua capa enquanto os outros falavam. Aquele Enclave Celeste tinha algo a oferecer para ele também, se ele conseguisse convencê-los—

Suas anotações caíram embaralhadas na rua quando um elfo o agarrou por trás, e seu cotovelo se prendeu no pescoço de Anowon. “Ô chefe!” Gritou o elfo, para Tarsa. “Parece que apareceu um espião aqui!”

“Me solta, seu...” Todas as palavras que ocorreram a Anowon para acabar a frase eram amargas. Ele estava tentando ao máximo não ser amargo. Ele sabia que haveria bastante disto. Era por isso que ele estava escondido, o que, vendo agora, foi uma ideia terrível por este mesmo motivo. Também era por isso que ele não poderia revidar, não importando como seria fácil subjugar a todos. Ele não queria adicionar a hostilidade, especialmente já que sua face ainda estava oculta—

“Mostre sua face, sombra!” Gritou o emissário, com a falsa bravura de alguém que nunca entrara em uma briga ou dado uma ordem antes.

O elfo tirou o capuz de Anowon. A visão de seu rosto pálido e pintado foi o suficiente para que Tarsa desembainhasse sua espada.

“Não!” Anowon gorgolejou, erguendo as mãos em submissão. “Não quero fazer mal algum! Deixem-me só—” ele apontou para baixo, para seus papeis.

Nadino se ajoelhou para pegar a folha mais próxima, apertando os olhos para ela antes de passá-la para Tarsa. “Anotações sobre os Enclaves Celestes... parece que o sábio favorito de todo mundo está louco para ver o interior de um deles.”

Tarsa gesticulou para que o elfo o soltasse e Anowon caiu ao chão, coletando seus papéis. “Percebo que você seguiu esse homem até aqui para roubar nosso trabalho?”

O vampiro sacudiu a cabeça. “Eu quero... ir lá ver.”

Nadino cruzou os braços. “Não é da nossa conta.”

Anowon parou para absorver os olhares tensos e enraivecidos de todos, e depois se ergueu para encontrar os olhos de Tarsa. “Não importa o que pensam de mim, eu só peço para estudar a coisa. De qualquer modo, seria útil para vocês levar outra pessoa. Permitam que eu ocupe essa vaga.” Ele se virou de frente para Tarsa. “Ofereço meus serviços ao seu grupo por uma fração dos seus ganhos.”

“E o que você ganharia com isso?” Perguntou Tarsa.

Ele parou, procurando pela palavra antes de responder. “Conhecimento.”


O grupo de Tarsa detestava o acordo, mas como satisfez o emissário, eles se conformaram. Anowon mal ganharia cinco por cento dos ganhos, mas teria direito a quaisquer papeis que encontrassem. Relíquias eram outro problema; o vampiro concordou em deixar Tarsa arbitrar, insistindo que ele não tinha interesse em ouro ou armas. Quando perguntaram o que ele esperava encontrar além destes prêmios, ele respondeu: “Coisas muito mais valiosas.”

Por causa daquele tom arrogante, o elfo clérigo Eret vasculhava as bolsas do sábio quando o grupo dormia, procurando por sinais de algum motivo mais sombrio.

O empregador do emissário já tinha comissionado a viagem pelo mar de Nimana até Jwar, tripulada apenas por um marujo responsável por trazer o barco de volta. A tensão de ficar preso pela água com um vampiro atingiu aos três quase que imediatamente. Nadino não teve problema em expressar sua frustração na frente de Anowon, ameaçando-o com cada fôlego caso se aproximasse demais ou falasse sem permissão. Eret era mais silencioso, mais precavido, nunca ousando dormir quando ele podia manter um olho aberto para impedir uma lâmina ou uma mordida. Tarsa preferia delegar para ele qualquer tarefa difícil, elogiando jocosamente a força e resiliência do vampiro como sendo o melhor para cuidar sozinho das velas enquanto atravessavam os ventos fortes da Gorja da Serpente. Em certo ponto, as cordas estavam tão tesas em seus braços que Anowon se preocupou brevemente se as tempestades os destroncariam.

O vampiro aturava tudo com um estoicismo frio. Sua palavra mais frustrada saiu quando Nadino ameaçou pela terceira vez alimentar partes dele a seu companheiro gnarlid, Folgazão, caso ele passasse dos limites. “Garanto a você, não quero fazer mal algum. Depois de matarmos Gragorja, nunca mais cruzaremos caminhos.”

Eles chegaram às praias da Ilha de Jwar poucas horas antes do anoitecer. Anowon se retraiu. Era sempre pior escalar no escuro, mas Tarsa já tinha insistido que eles terminariam a noite o mais perto possível do Enclave Celeste. Ele foi o primeiro da pequenina embarcação a coletar suas bolsas de equipamento, quase solenemente carregando seu peso enquanto os três outros aventureiros e seu bichinho chifrudo desembarcavam.

Atrás de si, Anowon conseguiu ouvir uma voz sombria e rouca falando uma língua desconhecida. Tinha um tom de ameaça, como uma leitura de sua alma, prometendo um sofrimento por vir. Ele se virou e viu dois rostos de pedra projetados da areia e da grama para encará-los, suas bocas abertas revelando um brilho azul pálido que parecia tremular levemente, como a luz de vagalumes.

Anowon ficou parado, transfixo. Quanto mais ele ouvia, mais ele poderia jurar que conseguia discernir algum significado, quase ganhando clareza, sumido em ruído no momento seguinte. Doeu, duas vezes; uma vez com sua mente latejando, e outra com o desejo de compreender. Ele se virou para os outros. “Vocês... estão ouvindo isso—”

Eret deu-lhe um tapa forte na nuca, despertando-o de seu transe. “Vejam só a cara deste pobre homem. Não me diga que nosso bravo sábio da ruína está com medo dos faduun!”

Anowon se virou, pronto para se jogar contra o elfo. Seus olhos se encontraram, e a outra mão de Eret foi imediatamente até a lâmina na cintura. Brevemente, os pensamentos de Anowon viajaram até a imagem deste elfo empalidecendo enquanto ele bebia sua vida até a última gota, o som dele lamentando, pedindo ajuda, até sua voz acabar-se em nada—

“Tem algum problema aqui?” Indagou Tarsa. Do canto do olho de Anowon, ele conseguiu ver a mão do guerreiro se aproximando de sua espada.

“Nenhum,” respondeu Anowon.

A noite já tinha caído até que eles chegaram na rota superior mais segura para o Enclave Celeste. Tarsa mandou Anowon ir à frente enquanto o restante do grupo pegava suas coisas e seguia caminho vertical pelas escarpas de pedra. Dependendo de sua visão superior para guiá-lo pela escuridão, ele prendia as cordas, ajudado apenas pelo brilho fraco e azulado da Praia que ia até o centro da ilha. Os outros três seguiam ressabiados. Eret ia perguntar algo a seu capitão, mas, com um olhar gélido, Tarsa o suprimiu.

O peso dos três corpos amarrados ao dele, combinado com a gravidade puxando-o para baixo, parecia ser um teste. Paciência, pensou ele. Quando isto tudo acabar, toda sua insensatez anterior estaria para trás. Se ele estivesse certo sobre os Enclaves Celestes, ele teria o poder e o conhecimento que buscava há tanto tempo. E caso ele se comportasse com aquele poder, permanecesse humilde como esteve durante sua época simples desvendando os textos do Portão Marinho, ele talvez pudesse até ficar com este poder.

O gnarlid de Nadino já tinha dado um jeito de subir a escarpa e, conforme o trio de aventureiros foi emergindo um a um do paredão, recebia a cada um deles com lambidas em suas faces. A pessoa kor apontou para cima ao noroeste, sem nem erguer a cabeça da demonstração de afeto do seu bichinho. “As rochas elevadas dessas falésias ficam mais próximas juntas e já foram preparadas para escalada. Entraremos por lá. Nesse ponto não tem muita luz, então ou fazemos tudo rápido ou fazemos ao nascer do dia.”

Anowon mal estava ouvindo. Ele já tinha saltado da beirada para a plataforma mais próxima, parando ao pousar para contrabalançar o peso de sua mochila. “Acampem se quiserem,” disse ele. “Eu quero ir lá ver.”

“Qual é o seu problema, sábio?” Gritou Nadino. “Esqueceu que o nosso trabalho é tirar uma hidra dessas ruínas?”

"Eu prometo tomar cuidado—”

“—você pode morrer!”

“Então eu prometo morrer com cuidado!” Ele mordeu a língua e deu um suspiro fundo e sibilado. “Peço desculpas. Eu não planejo perturbar nada. Minha pesquisa—”

Tarsa encontrou os olhares frustrados dos demais e se amaldiçoou com um murmúrio enquanto dizia a eles para continuar. Em uma tentativa nervosa de trazer leveza à expedição, Anowon continuou. “É algo fortuito, encontrar essas cordas aqui. Não há muitos aventureiros que deixariam um caminho para colegas.”

Nadino se retraiu. "...Foi Orien quem deixou essas.”

“Orien?” Anowon parou. “Era o seu—”

Tarsa pigarreou alto. “Siga em frente, vampiro.”

Ele assentiu e continuou.

A vista à frente já tinha arrebatado a parte egoísta de Anowon. Rocha semicircular, ainda com a obsidiana vermelha serrilhada e as estrias pálidas da terra aonde caíra, agora flutuava acima deles, rica com histórias mais antigas do que o dia em que Zendikar tremeu e se quebrou para se defender.

Anowon, the Ruin Thief
Colunata do Enclave Celeste | Ilustração: Johannes Voss

Apenas os Enclaves Celestes, pensou ele, poderiam ensinar algo tão inegável quanto eles mesmos. Tanto da história de Zendikar foi construída pelo erro, pensou ele. Até mesmo ele nomeara a civilização que dera forma a esta terra pelas criaturas que a transformaram e quase a destruíram — as mesmas criaturas que tentaram roubar as próprias mentes dos vampiros da Casa Ghet e virá-los contra os seus. Enquanto isso tudo acontecia, Anowon se escondia, estudava a batalha pelas sombras, recusando-se a se envolver. Mas os Enclaves Celestes se ergueram para corrigir a história, revelando um caminho perdido dentro do passado de Zendikar. Ele podia apenas esperar que, entre os tesouros que trouxessem consigo, estivesse a revelação de como esse mundo trouxe à tona os clãs — e seus grão-vampiros — que os Eldrazi tentaram corromper e controlar. Talvez responder a essa pergunta lhe daria algum status novo. Pelo menos, poderia absolvê-lo de sua antiga covardia.

Assim que ele parou nos portões do Enclave Celeste, ele tirou um caderno de sua mochila. Estava caindo aos pedaços, praticamente uma pilha de papeis dentro de uma capa. Mas ele o segurava como um tomo antigo, virando páginas até uma série de linhas e padrões interligados.

Eret alcançou Anowon, observando o vampiro enquanto analisava as muralhas do Enclave Celeste e se inclinava sobre as anotações para compará-las. Antes que o elfo pudesse perguntar, Anowon já tinha decidido que ser gentil o devolveria alguma boa vontade.

“Eu venho estudando as tesselações que aventureiros anotaram sobre outros locais e notei uma distinção sutil em seus padrões. Suspeito que isto seja um texto.” Ele apontou com o canto de seu caderno. “Eu acredito que os antigos kor escreveram nessas paredes, o que faz delas uma fonte útil para descobrir o propósito deste espaço.”

“Então é para isso que você está aqui?” Zombou Nadino, parando no portão para descansar. “Para estudar?”

“Eu... era melhor como estudante,” murmurou ele. Ele pensou que era mentira logo depois de ter falado. Ele tinha feito tantas coisas amargas em busca de conhecimento, fazendo dele pouco mais do que um saqueador. Mas antes — quando ele só estava disposto a saber, quando estava no Portão Marinho, quando Tenihas da Casa Ghet o acolheu e o ensinou a valorizar as histórias — ele era melhor, antes de perder esses momentos para sua sede de sangue. Ou pior, para sua fome de poder.

“Nem isso, por confissão sua.” Eret olhou com curiosidade para os entalhes nas paredes do Enclave Celeste. “Se tem algo que nós, escaladores, sabemos sobre nós mesmos, é que a única coisa que vale a pena saber é o toque de uma corda robusta e o brilho de uma boa quinquilharia. Tem certeza de que pode confiar em nós para” — ele gesticulou para as paredes — “traduzir kor antigo?”

“Não foram os aventureiros quem traduziram. Eles apenas anotaram. Padrões, curvas, profundidades... foco. Você consegue ver isso por si só.” Anowon apontou para bem dentro do Enclave Celeste, onde a noite tinha criado uma sombra profunda demais para continuar. “Tem laboratórios lá para dentro, ao longo dessa parede da esquerda.”

Tarsa cuidadosamente enrolou um pouco de corda em volta do braço enquanto se aproximava do portão, olhando para os entalhes. “Então essas marcações são... instruções?” Perguntou ele.

“De certo modo.” Anowon passou as mãos sobre uma linha central do padrão tesselado na parede, observando-o se entrelaçar com os vizinhos até virar para a esquerda, dobrando uma esquina. “É um mérito desta língua que não seja apenas texto. Ela também é um mapa.”

Nadino suspirou. “Pena que não vai nos ajudar a encontrar—”

Um rugido foi ouvido da escuridão à frente deles. Tarsa mal estalou os dedos e sua equipe assumiu posições atrás das muralhas entalhadas. Nadino fez uma pequena bola de fogo voar ao lado da cabeça de Anowon, pelo portão, corredor adentro. Com sua luz, ele viu três cabeças em amarelo pálido e três fileiras de dentes que pareciam armadilhas de caça.

Antes que Anowon conseguisse pensar no nome daquela coisa, Eret já o empurrara para fora do caminho, para uma coluna externa. Tarsa assobiou para Nadino e a pessoa kor disparou para a direita, atraindo os olhos da cabeça da direita, atingindo-a com explosões conjuradas de fogo e gelo alternadas. Foi o suficiente para separá-las — suas cabeças agora estavam divididas por uma única coluna aberta, e suas mandíbulas estalavam a apenas metros deles.

“Algum plano em mente, chefe?” Perguntou Eret.

Tarsa sacudiu a cabeça. “Aquela coisa consegue partir rocha com o pescoço se tiver motivação. E nós somos uma motivaçãozinha bem apetitosa.”

Anowon pensou rápido. O emissário tinha dito a eles que a hidra tinha adaptado sua visão às entranhas da terra antes mesmo do Enclave Celeste se erguer, que conseguia enxergar calor como se fosse o nascer do sol e sentir movimento pelos corredores mais escuros. Ele gritou sua ideia repentina para Tarsa. “Vocês precisam ficar frios!”

“Frios?” O capitão entendeu a ideia antes de chamar Nadino. “Vamos precisar de gelo!” Ele gesticulou na direção do corredor — além de Gragorja. “Coloque neve naquela parede!”

Anowon o pegou pela mão. “Tão perto assim da criatura?”

“Sim.” Tarsa tocou levemente sua têmpora. “Perto como craca. Vamos desaparecer bem abaixo dela.” Ele estalou os dedos novamente e os olhos de sua equipe se concentraram no próximo sinal. Ele murmurou uma contagem até três antes de cortar o ar com a lâmina, e eles saíram em disparada para a parede interna.

Anowon deslizou, com impulso gerado pela inclinação do piso elevado. No canto do seu olho, Nadino girava o cajado em gancho acima da cabeça enquanto corria, e Anowon via que um colchão de gelo macio se juntava acima do corredor. Logo antes dos aventureiros colidirem contra a parede, a fera atacou a pedra acima deles, atingindo Anowon na testa e empurrando com força suficiente para chocar a cabeça dele contra o piso de pedra. Ele sentiu o golpe tão bruto, a dor tão quente, que ele se perguntou até onde as garras tinham atingido. Ele ouviu um grunhido à sua direita e, logo antes de conseguir se virar, um cobertor de neve caiu sobre si e ele sentiu uma colisão amaciada à esquerda.

Ele parou sob a cobertura escura da neve, levando a mão à cabeça. A coisa rugiu para o ar e depois parou, confusa. Ela esperou por minutos que, contra a pele de Anowon, pareceram invernos inteiros. O som do fôlego da criatura parecia chacoalhar as paredes. Depois, confiante de que os três pedaços de carne quente e seu vampiro tagarela tinham desaparecido de vista, a coisa saiu correndo em busca de comida em outro lugar.

Ele continuou em silêncio enquanto ouvia a neve se mexer em volta dele, seguida pela voz de Nadino. “Foi uma ideia boa, capitão. Agora... quem está pintando o gelo de vermelho?”


Levou algum tempo para Anowon se levantar. Na pausa, ele sentiu que ouvia a ilha falando com ele mais uma vez. Estaria ela o tranquilizando? Dando-lhe dúvida? Será que até mesmo os faduun incognoscíveis estavam rindo dele feito crianças? Uma raiva e uma confusão fervilharam nele e ele se sentiu oco e tonto.

Tarsa ergueu seu corpo ferido da poça do que fora neve e começara a curá-lo quando Anowon fez um gesto, pedindo por sua mochila. Ele retirou dois frascos de sangue de dentro, aproveitando o tempo para suas mãos se estabilizarem ao segurá-los.

Tarsa deu um passo para trás. “De quem é esse sangue?”

“As minhocas e baratas que garatujam pelas ruínas são fáceis de fazer sangrias,” resmungou Anowon, “e eu preciso de sangue.” Ele tirou a rolha de um deles e o levou à boca, faminto. Apenas um toque seria o suficiente para fechar suas feridas e restaurar sua percepção. Ele se virou e viu os outros dois aventureiros dormindo amontoados, e Folgazão atrás de suas cabeças como um grande travesseiro gnarlid, e Tarsa ajoelhado ao lado deles, com dificuldade para passar uma atadura no braço.

“Espere,” disse Anowon, levantando-se. “Na minha casa eu aprendi todo tipo de—”

“Não venha me tratar com magias Malakir, vampiro,” sibilou Tarsa. Em sua indignação, ele puxou as bandagens com força demais e retraiu-se.

“Nenhuma, então.” Anowon soltou seu segundo frasco e ergueu as mãos enquanto se aproximava. “Deixe que eu enrolo para você.”

Tarsa estremeceu quando o vampiro se aproximou, mas eventualmente acabou relaxando. Anowon pegou a beirada das bandagens e circundou o braço dele cuidadosamente, acolhendo o ferimento. A hidra poderia ter arrancado o braço do homem caso tivesse se prendido alguns centímetros a mais. Anowon suspirou ao ver o sangue, reprimindo sua sede instintiva. “Apertado demais?”

Tarsa sacudiu a cabeça. “Obrigado.”

“Não foi nada.” Anowon sorriu sem graça. “Aventureiros devem cuidar uns dos outros.”

Algo em seus olhos impressionou a Tarsa. “Por que você está aqui?”

“Eu sei que é inconveniente. Assim que o sol nascer, podemos encontrar a—”

“Não.” Tarsa se endireitou. “Por que viajar conosco? Por que continuar em jornadas? Todas as grandes casas odeiam ou temem você — tanto as expedicionárias quanto as de vampiros. A maior parte do povo já não suporta vampiros. O que tem aqui de tão importante para você?”

Anowon parou para encontrar as palavras. “Essas pedras são mais velhas do que os nomes de algumas das suas cidades. Quando pensamos em Zendikar, pensamos nas cicatrizes mais profundas da terra — os antigos kor construíram esse lugar antes delas terem acontecido. Talvez este lugar tenha conhecimentos que não compreendemos. Talvez o que eles soubessem, o que aprenderam, possa mudar Zendikar.”

Era parte da verdade. Havia coisas que ele esperava aprender, coisas que ele secretamente esperava que recuperassem o seu favor. Talvez os Enclaves Celestes guardassem segredos sobre Zendikar que ele poderia comparar com as histórias de Eldrazi que revelariam uma magia antiga por trás do Turbilhão, ou até mesmo desbloquear o segredo de criar novos grão-vampiros por acidente. Talvez a ascensão deles seja o início de uma nova era de calamidade que ele poderia prevenir como penitência por falhar contra os Eldrazi. E enquanto ele se segurava à ideia de que traria glória a ele ser o primeiro a descobrir tudo isto... ele também estava cansado. Tão afoito para curar o mundo, para nunca mais vê-lo sofrer. Só poder estudá-lo sem que cada verdade revelasse um ferimento sobre o terreno. Estar em paz — consigo mesmo, com seus estudos, com o próprio solo de Zendikar.

...Tá bom.” Tarsa se apoiou na espada para conseguir sentar-se confortavelmente contra a parede do corredor. “Imagino que você queira estudar agora mesmo. Você tem os olhos para isso. Além disso, alguém tem que ficar de vigia, e eles detestariam que fosse você.” Ele gesticulou para o corredor. “Vai em frente. E, pela sua própria segurança, peça ajuda quando você a vir, não quando ela vir você.”

O vampiro assentiu, pegando os itens essenciais de sua mochila e os amarrando em um pano solto contra o peito enquanto ele se aventurava mais para dentro da escuridão, seguindo as linhas em alto relevo na pedra.


A manhã seguinte encontrou Anowon em uma empolgação jubilosa. Simplesmente estar nos corredores do Enclave Celeste já era tão importante para ele. Ele não estava mais desenleando um substantivo ou uma preposição rara dos entalhes — elas estavam se tornando sentenças inteiras. A linha mais à esquerda do Enclave Celeste de Ondu era em si um tratado, sobre o trabalho de antepassados kor sobre o terreno daqui. Cada aposento tinha um tesouro já nas paredes. Até onde ele podia ver, sua linguagem de escolha era uma longa linha marcada brevemente nas beiradas por caminhos paralelos e interseções que davam forma a letras. Ele conseguia discernir as beiradas dos textos, menções dos mais novos compostos alquímicos e de variações nos métodos e de resultados inesperados. Era uma pena que tantos desses trabalhos que encontrava estivessem entalhados na pedra ou em papel encharcado. Até que ele absorvesse tudo o que ele tinha lido em sua mente, ele saberia qual o próximo passo.

Ele voltou ao corredor da entrada e fez um sinal para Tarsa segui-lo. O restante do grupo estava acordado e se uniu a eles, com Eret cuidando dos ferimentos do capitão enquanto caminhavam. “Estávamos prestes a procurar por você,” disse o guerreiro, olhando a lâmina de sua espada larga antes de guardá-la. “Vamos encontrar Gragorja e não ter motivo para ficar mais uma noite aqui.”

“As paredes talvez possam ajudar,” disse Anowon, radiante com a alegria do conhecimento.

Nadino franziu o cenho. “Não é hora de se gabar com história. Devemos nos concentrar na missão—”

“Eu estou concentrado na missão.” Ele encarou Tarsa com confiança. “Confiem em mim.”

Ele os levou de volta para o corredor, até suas interseções perpendiculares estranhas que se dividiam em ainda mais cômodos de pedra e paredes mais espessas que seus caminhos. Alguns eram salas de poções onde agora havia vidro quebrado e mato abundante com os insetos que restaram. Outros eram grandes salões tingidos de preto com todo tipo de coisa que aconteceu antes do Enclave Celeste afundar. Enquanto caminhavam, os olhos de Anowon seguiam o caminho dos entalhes recitando baixinho o que liam: “A instalação do continente de Ondu, construída para experimentos finos de armamento e ferramentas de cerco para conflitos potenciais com forças externas...

“Que forças externas?” Nadino se viu sussurrando.

Anowon conseguia imaginar uma resposta — e se uma força oponente emergisse de outro mundo, como as que ele vira? Mas a história contada era outra. “Esse foi o Enclave Celeste que se rebelou contra a capital antiga dos kor em Makindi. Quando este caiu e levou a capital junto, também enterrou sua civilização inteira.”

“Então isso aqui é um estoque de armamento?” Tarsa bateu uma palma, afoito. “Eu andava querendo ver como é uma antiga espada kor na minha mão. Parece que você não vai sair daqui com muitas relíquias, Anowon.”

Anowon ergueu uma pilha de pergaminhos cobertos de pedra e enrolados em panos. “Creio que tenha conseguido prêmios suficientes deste lugar. Só precisamos terminar nosso trabalho.”

“Então... para onde você está nos levando?” Eret encarava as tesselações, como se esperasse conseguir desvendá-las.

“Eles mantinham uma sala de provas neste Enclave Celeste — um cômodo para testar seus experimentos. Muitos deles não eram... inanimados.”

“Eles faziam experimentos nas bestas daqui...” Nadino meneou a cabeça. “Devem ter encontrado maneiras de alterar a vida selvagem. Seja com a própria magia do lugar, ou pelo próprio trabalho. Este Enclave Celeste... pode muito bem ser o que criou Gragorja.”

“E muitas outras coisas. Eles descobriram por meio da ciência que os Eldrazi seriam expostos pela brutalidade,” respondeu Anowon, quase sem pensar. “Eles revelaram que esse mundo é bruto e gritava. Que tinha sua própria vontade, e nós continuamos a impor as nossas sem ouvi-lo.”

Eles chegaram por fim em um par de portas duplas feitas de rocha, altas como o próprio Enclave Celeste, seguradas entreabertas por vinhas que irromperam do centro e as puxaram apenas o suficiente para que um corpo esbelto conseguisse passar. Nadino utilizou a lâmina para cortar as vinhas, e a vegetação se debateu contra a dor. Após sua passagem, Tarsa e Eret forçaram a porta para conseguirem passar, soltando poeira e chacoalhando as paredes com o raspar de pedra intocada.

Eles adentraram para ver Nadino olhando para baixo, para uma pilha de panos em retalho. Estava nas cores do seu grupo, no pano da echarpe de um kor, mas com quase nada de fio sobrando para cobrir uma das mãos. A pessoa kor olhou para Tarsa, lutando contra as lágrimas. “Aquela maldita... coisa... arrastou ele até aqui... o rasgou todo...

Tarsa colocou a mão robusta em seu ombro. “Eu sei que dói. É por isso que viemos. Para termos a nossa vingança. Mantenha-se firme.”

Anowon observou a cena da entrada, enquanto estudava a parede larga. Era isto. Alta e larga o suficiente para que uma hidra conseguisse fazer o caos em um gado desavisado — ou até mesmo um ou outro elfo raro — trazido para o abate, com um mezanino alto para que pesquisadores a estudassem de cima. Certamente a hidra deveria ser menor na época — a que eles viram poderia facilmente subir os pilares e se alimentar de quem estivesse nas sacadas acima. Talvez ela até tenha tentado, e conseguido. “Aqui, estaremos prontos para ela.”

Tarsa estalou os dedos. “Quando ela chegar, Nadino fica no local mais alto e continua se movendo para atingir a criatura. Eu vou tentar o mesmo. Eret, concentre-se em dar suporte a Nadino e fique pronto para nos ajudar a fugir. E Anowon—”

O vampiro os ignorava, perdido ao vasculhar os armários dos salões em busca de algo que sobrevivera à queda destes povos. De fato, dúzias de frascos e papeis, sem quebra ou cicatriz, estavam lá, e ele enfiou todos os que podia em sua mochila.

“Maldito sábio!” Tarsa foi até ele a passos largos. “Depois de tudo o que você nos contou, você sabe muito bem que não podemos deixá-lo sair daqui com nenhum desses venenos.”

“Nós fizemos um acordo, Tarsa.” Ele falava calmamente, sem o desdém de quem era antigamente. “Isto é apenas para pesquisa, eu garanto—”

“Eu não ligo. Se alguma alma conseguir fazer o que essas coisas fazem, podem varrer vilarejos inteiros... você quer que as pessoas saibam disso? Como misturar um horror desses para si?”

“Em mãos benevolentes, esses estudos podem ser úteis. No Portão Marinho, ou—”

“Qualquer uma que saiba como distorcer Zendikar são as mãos erradas.”

Houve um grito penetrante vindo de cima. Tarsa estalou os dedos e seu grupo assumiu posições, seus ganchos de escalada lançados para as beiradas das sacadas para fazer um balanço acima do piso. “Anowon!” Gritou Tarsa. “Fique pronto para subir.”

Ele suspirou e assentiu, ajustando os ganchos em suas roupas, fazendo uma nota mental de consertar as cordas mais tarde. “E até lá?”

“Nós a atraímos.”

Gragorja, Skyclave Ravager
Gragorja, Ruína do Enclave Celeste | Ilustração: Filip Burburan

Nadino aproveitou a deixa para uivar câmara adentro, e Eret fez o mesmo. Gragorja respondeu guinchando, avançando pelos salões superiores do Enclave Celeste e cambaleando do teto para dentro da câmara. Ao cair, o grupo fez suas movimentações — Nadino atingiu o ventre dela com espículas de gelo afiados e as lâminas de seus próprios ganchos de escalada, Tarsa se apoiou em suas cordas com golpes e saltos mortais enquanto flanqueava a hidra.

Anowon teve dificuldades para acompanhar. Ele nunca foi bom caçador. Ele só ganhava mais fervor se finalmente sucumbisse à sua sede: esta seria uma bela refeição de sangue quando morresse, e talvez ele até gostasse mais da bebida enquanto viva. Ele mirou, a fim de engasgar um dos pescoços com as sobras de sua corda, esperando que a gravidade fizesse a maior parte do trabalho. Ela mal apertou a carne, arrastando a cabeça para baixo, para um golpe fácil.

Tarsa aproveitou e esfolou o queixo da criatura com sua espada, circundando-a para terminar o restante da cara. Ele sabia que o ferimento só duraria um pouco, antes de uma nova fileira de dentes espiculados e olhos penetrantes emergir de dentro. Nadino teve o mesmo problema com a cabeça que estava mais longe — uma bola de fogo na garganta abriu caminho para mais duas mandíbulas emergirem se debatendo a poucos metros de seu cajado. Folgazão, por sua vez, mal conseguia morder as garras traseiras da coisa, mas continuava fazendo sua parte.

Já não está dando certo, concluiu Anowon. Mais ações imprudentes como essa e eles seriam carne fresca. Ele cortou sua corda e rolou para longe do caminho da hidra, buscando em sua mochila por algo que ele reconhecesse.

“É melhor você não desertar, miserável—!” Nadino não conseguiu quebrar o foco por tempo suficiente para continuar xingando. “O que você está fazendo?”

“Buscando respostas!” Gritou ele, olhando as cores dos frascos que ele tinha guardado. Vermelho profundo e azul claro e verde rico e poções ainda mais coloridas brilhavam dentro do vidro, dançando em suas garrafas. Ele sabia que tinha lido sobre algumas das composições dos antigos kor que foram bem-sucedidas. Uma dessas deve dar a eles alguma vantagem.

Ele a encontrou. Um amarelo turvo na garrafa, pouco maior que um dedo, que parecia mudar de estado sozinha, de um tufo de gás a um âmbar sólido. Os textos a descreviam como uma ferramenta potencial de supressão, algo para manter combatentes e feras selvagens imóveis. Entretanto, ele não tinha chegado no ponto da leitura que dizia como funcionava. “Para o alto!”

Ele pegou outra corda com gancho em sua bolsa e mirou na sacada. A hidra o notaria logo, e ele estava em melhor alcance do que o resto para ser moído fino entre aqueles dentes. Ele se ergueu o mais rápido que conseguiu, certificando-se de não quebrar a garrafa em sua mão.

Gragorja abriu todas suas bocas, cheias de dentes, apenas para ele. Ela se estendeu para morder a corda e errou por pouco. Um arranhão no braço quase fez o vampiro escorregar, e a garrafa caiu da sua mão. Ele murmurou um xingamento, com os olhos fixos na garrafa caindo. Naquele momento, uma pequenina lâmina apareceu girando, partindo o vidro contra o lábio de uma cabeça da hidra, e o metal afiado rasgou sua bochecha. Anowon se virou bem a tempo de ver Nadino retraindo a mão.

Quando a garrafa quebrou, a poção explodiu em uma nuvem de poeira na cara da hidra, espalhando devagar pelo seu pescoço, como uma nuvem deslizando morro abaixo. Tudo o que tocava ficava cinza e serrilhado, como se fervesse sua pele e a petrificasse ao mesmo tempo, selando a adaga no lado de sua cabeça. Em alguns segundos, todas as cabeças da fera eram de uma rocha afiada e espiculada, apontando para o grupo acima com suas muitas bocas abertas. O corpo abaixo tentou correr, como se esperasse escapar o destino onde agora estava preso, antes do peso das cabeças o fazer cambalear e cair, cada uma delas quebrando com um eco que ressoou pelo teto aberto.

O som derrubou Anowon de volta ao chão. Ele se levantou atrapalhado, para se afastar da fumaça da garrafa, mas a magia tinha terminado seu trabalho. Tudo o que restava dela começou a se espalhar a um dedo de distância dele ali parado, temeroso, sem nem respirar. E então a fumaça parou logo antes da unha e ele caiu de joelhos, aliviado e exausto.

Nadino gritou de suas cordas, sorrindo largamente. “E aquela história de morrer com cuidado, vampiro miserável?!”


As cabeças não amaciaram.

“Igual ao trato de antes, então,” ralhou Tarsa, preparando para amarrá-las à mochila de Anowon.

O vampiro suspirou, imóvel. “Eu compreendo.”

Naquele momento, Eret o cutucou com o cotovelo. “É claro que não. Dividimos o peso. Afinal, é o jeito mais rápido de descermos.”

Ele e Nadino amarraram suas cordas na boca do Enclave Celeste, deslizando até lá embaixo com o impulso de uma hidra petrificada em suas costas.

No caminho de volta para a praia, Tarsa pousou a mão no ombro do vampiro. “Você aturou muito de nós sem reclamar. Fomos vis com você. E ainda assim você nos salvou.” Ele gesticulou para a pequena pilha de panos enrolados nas costas de Nadino, os restos do caído Orien, ao adicionar: “Você nos deixou vingar nosso parceiro e prestar condolências.” Ele sorriu com afeto. “Eu agradeço. Você pode ser nosso quarto gancho sempre que quiser.”

Anowon assentiu, sorrindo convencido para si mesmo. Ele tinha acabado de notar que esse sentimento era o que ele desejava esse tempo todo. Não era glória, nem prestígio, mas... pertencimento. Saber que seu conhecimento tinha valor. Ele esperava que esse sentimento permanecesse, que ele pudesse desvendar mais do antigo passado de Zendikar e compartilhar esse conhecimento para ganhar mais dessa sensação.

Enquanto isso, atrás dele, enquanto caminhavam, Nadino segurava o riso, acarinhando o topo da cabeça de Folgazão que carregava na boca uma pilha de pergaminhos dentro a bolsa de Anowon, coberta de saliva. Assim que notou, ele parou para ponderar se talvez tivesse perdido tanto quanto já tinha ganho.

Quando a resposta lhe veio, ele sorriu e se virou para fazer carinho no queixo do gnarlid.

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