A Guerra da Centelha: Ravnica — Cinzas

Posted in Magic Story on 12 de Junho de 2019

By Greg Weisman

Greg Weisman is best known as the creator and producer of Gargoyles, and the writer-producer of Young Justice, Star Wars Rebels, and The Spectacular Spider-Man. He's the author of five novels: Rain of the Ghosts, Spirits of Ash and Foam, World of Warcraft: Traveler, World of Warcraft: Traveler - The Spiral Path, and War of the Spark: Ravnica.

Conto anterior: Operação Desespero

Se você está lendo o livro War of the Spark: Ravnica também escrito por Greg Weisman e quer evitar saber o final, saiba que os seguintes capítulos do livro se sobrepõem a este conto: Capítulos 50–67.

Um aviso a pais e mães: observem que este conto contém assuntos que podem ser inadequados para leitores mais jovens.

I.

Então, várias coisas tinham dado certo. O Farol Izzet, o Sol Imortal, a Ponte Planar, e o fluxo de Eternos vindos de Amonkhet tinham todos sido desativados. Todas as guildas tinham entrado na luta, e o Senhor Fayden, o Senhor Karn, a Dona Samut e o Senhor Sarkhan Vol até voltaram de Amonkhet com uma lança grande impressionante, propriedade de uma deusa chamada Hazoret, que já foi bem útil em batalha. Dois dos quatro Eternos-deuses — mais um grande número de sinistrões em tamanho normal — tinham sido destruídos. E o melhor de tudo: A Hekara estava viva de novo! Tudo muito bom, sabe?

Mas nem tudo são flores num banho de sol, não. Na verdade, nem sol tinha. A tal da ancianomancia do Nicol Bolas criou uma tempestade de magia que caiu sobre toda Ravnica como se fosse uma noite artificial, pontuada pelas centelhas roubadas de planinautas que voavam como cometas até o dragão e até a pedra mística que flutuava entre seus chifres, alimentando o poder dele. Muitos planinautas perderam suas centelhas e suas vidas para o exército de Eternos que ainda ocupava o nosso mundo. A tentativa de assassinato da Dona Cabelo-de-Corvo, Liliana Vess, tinha falhado, e a necromante ainda controlava os Eternos para Nicol Bolas. E, claro, o novo Pacto das Guildas Vivo — O Mestre Niv-Mizzet, o Mente de Fogo — estava em estado catatônico no chão das ruínas da embaixada, e toda sua energia mística tinha sido gasta para matar apenas um dos Sinistrões-Deuses.

E ainda tinha o próprio Nicol Bolas. O Dragão Ancião ainda estava sentado no seu trono, como se nenhum dos nossos esforços tivesse adiantado alguma coisa.

A maioria de nós tinha voltado à sede do Senado Azorius para nossa segunda reunião de cúpula nesse dia incrivelmente longo e incrivelmente horrível.

O Senhor Jura estava falando de novo com a multidão de planinautas, ravnicanos em guildas, e comigo: “Sabíamos que acabaria em uma luta. Tentar trazer Niv-Mizzet de volta foi um esforço válido, mas até mesmo com a ajuda dele seria uma luta. Então tudo bem, vamos sem a ajuda do Mente de Fogo. Mas não é como se não tivéssemos esperança alguma. Diminuímos o bando de Eternos. Destruímos metade dos Eternos-deuses. Agora precisamos acabar com isso, usando a Lâmina Negra contra Nicol Bolas.”

Ele falava com tanta confiança e autoridade que dava uma tranquilizada, sabe?

“O plano desta vez é bem simples. Agora, Nicol Bolas moveu a maior parte das suas forças para sua Cidadela. Então em resposta vamos lançar um ataque gigantesco, em duas frentes. No nível do chão, cada membro de guilda, cada planinauta — diabos, cada ravnicano que conseguir segurar uma arma — vai lançar um ataque de frente. Com tudo. De uma vez só. Todo mundo. A não ser que você saiba voar, ou consiga pegar carona em algo que voe. Então, enquanto o grupo de chão mantiver os Eternos ocupados, eu, Aurélia e o restante das nossas forças aéreas vamos atacar por cima. Vou usar minha invulnerabilidade para chegar perto. E então eu vou atingir Nicol Bolas com a Lâmina Negra. E isso tudo vai acabar.” Ele fazia parecer bem simples, bem fácil.

Até demais . . .

Eu ouvi o Senhor Vrona pedir uma espada para a Mestra Lavínia.

O Mestre Zarek o puxou para um canto e disse: “Você não é um lutador.”

“Somos todos, hoje.”

Enquanto isso, as Sentinelas estavam fazendo um espetáculo com a renovação dos seus Juramentos. O Senhor Jura começou, erguendo a Lâmina Negra mais uma vez e dizendo: “Nunca mais. Em mundo nenhum. Pelo Portão Marinho, por Zendikar e por todos os seus povos, pela justiça e pela paz, eu serei uma sentinela. E quando algum novo perigo vier a ameaçar o Multiverso, eu estarei lá, com as Sentinelas ao meu lado.”

Achei que o juramento fosse igual para todos, mas o do Senhor Beleren foi mais breve: “Nunca mais. Pelo bem do Multiverso, eu serei uma sentinela.”

Ah, tá. Variações sobre o mesmo tema. Pelo menos fica mais interessante assim.

A Dona Chandra deu um passo à frente e falou: “Cada mundo tem seus tiranos, seguindo seus próprios desejos sem preocupação alguma com os povos em que pisam. Então, eu digo: nunca mais. Se isso significa que as pessoas vão poder viver em liberdade, eu serei uma sentinela. Com todos vocês.”

O Senhor Teferi entoou: “Desde tempos imemoriáveis, os fortes foram uma praga sobre os fracos. Nunca mais. Pelos perdidos e esquecidos, eu serei uma sentinela.”

Daí, sorrindo para o outros, o Senhor Juba D’Ouro disse, rouco: “Eu vi tiranos com ambições sem limites. Criaturas que se viam como deuses ou pretores ou cônsules, mas pensavam apenas nos próprios desejos e não de seus povos. Populações inteiras foram enganadas. Civilizações foram lançadas para dentro de guerras. Pessoas que simplesmente tentavam viver suas vidas, tiveram que sofrer. Que morrer. Nunca mais. Até que todos tenham encontrado seus lugares, eu serei uma sentinela.”

Por fim, esses cinco se viraram para a Dona Revane. Ela parecia, como sempre, relutante para falar. E então ela olhou para a Dona Chandra, que mordia o lábio e olhava para ela apreensiva.

Então, a elfa sorriu. Aconteceu por um instante, mas eu vi. Ela deu um passo à frente e a sua voz suave era clara como um sino: "Eu vi um mundo ser devastado, a terra reduzida a poeira e cinzas. Sem ser impedido, o mal consumirá a tudo em seu caminho. Nunca mais. Por Zendikar e pela vida que ela nutre, pela vida de todos os planos, eu serei uma sentinela.”

A Dona Chandra sorriu feliz. E ela não era a única. Os seis Juramentos foram mais do que inspiradores.

O Senhor Jura olhou para a multidão e perguntou: “Mais alguém?”

As pessoas se entreolhavam, olhavam para o chão. A Dona Jaya deu um sorrisinho. O Senhor Karn cruzou seus brações de prata. Por um segundo, pareceu que a Mestra Kaya ia falar — antes de perder o ímpeto. Ninguém deu um passo à frente. Ninguém falou.

Eu e o Teyo trocamos um olhar. Eu pensei que ele seria ótimo como Sentinela, mas ele não tinha confiança suficiente para se destacar — não por ter medo de lutar pelos outros, mas porque ele não se achava qualificado o suficiente para lutar com esses grandes heróis.

Eu cochichei: “Eles teriam sorte de ter você.”

“Eu não sei,” sussurrou ele. “E você?”

Eu ri. “Você não pode proteger o Multiverso se estiver preso em um plano de existência só, e se os seus colegas não podem te ver ou te ouvir, né?”

Ele assentiu com relutância e disse: “Bom, se eles não quiserem você, eu não quero entrar.”

Eu dei um soco nele nessa hora.

“Ai.”


II.

Eu vi o Senhor Jura e o Senhor Beleren dando o braço para a Dona Chandra e levando-a para longe da multidão. Curiosa, eu segui eles por trás do cadáver petrificado da Mestra Isperia para, sabe, ouvir a conversa dos outros.

Olha, é a minha especialidade, vai.

“O que foi?” perguntou ela, em voz alta.

O Senhor Beleren fez um gesto com as mãos para que ela abaixasse a voz.

Ela inspirou fundo e disse: “O que foi?” em um tom consideravelmente mais baixo.

O Senhor Jura disse: “Temos um trabalho especial para você. Queremos que você volte a Nova Prahv e ligue o Sol Imortal de volta.”

“O quê?” Ela gritou de novo. “Você sabe como foi difícil desligar aquela droga?”

Os três trocaram olhares, o que parou sua fúria.

Ela se inclinou e sussurrou: “Vocês não confiam que os outros planinautas não vão fugir.”

O Senhor Beleren sacudiu a cabeça. “Não é isso. Queremos que o Sol faça o serviço que era intencionado. Impedir que o Bolas suma.”

O Senhor Jura concordou: “De um jeito ou de outro, isso vai acabar hoje.”

“Bom, mandem outra pessoa então,” disse ela. “Porque vocês estão doidos que eu vou perder essa luta.”

O Senhor Jura deu uma risadinha nessa hora. “Ninguém pensou nisso.”

O Senhor Beleren disse: “Leve quem você precisar. Ligue o Sol, deixe uma guarda forte. Depois você volta para a batalha.”

“Eu não sei,” reclamou ela. “O Bolas quer o Sol ligado. Nem sei se é boa ideia.”

“Parece uma ideia ótima, para mim.” Nós quatro nos viramos para olhar. O Senhor Dack Fayden estava sentado nas costas de Isperia, com um sorrisão. “Desculpe. Não quis ouvir a conversa de vocês.”

A Dona Chandra bufou, zombando. “Olha onde você tá sentado. Claro que queria ouvir.”

“Bom, sim. Eu vejo as Sentinelas poderosas se escondendo atrás da esfinge morta e fico um pouco curioso.”

Viu? Não sou só eu. Talvez seja uma coisa que ladrões façam sempre.

“Só um pouco?” Perguntou o Senhor Beleren com uma sobrancelha erguida.

“Só um pouquinho,” confirmou o Senhor Fayden. “Olha, eu sei que não sou parte dessa sessão de estratégia, mas eu vou dar minha opinião ainda assim. Ninguém quer passar por isso de novo. E se o Bolas sair daqui, vocês sabem que vai acontecer de novo. Eu concordo com o grandão,” ele apontou para o Senhor Jura com o queixo. “De um jeito ou de outro, isso vai acabar hoje.”

Os outros se viraram para a Dona Chandra. Os ombros dela caíram. “Tá bom,” disse ela.

Eu a vi chamar a Dona Saheeli, a Dona Revane e um pequeno esquadrão dos membros de guilda mais durões que ela encontrou. Elas saíram para Nova Prahv.

Eu e o Senhor Fayden vimos a saída delas. Ele assentiu e falou baixinho, suspirando: “Boa sorte, garotas.”

E então ele se virou e saiu, falando sozinho: “Tem um badulaque dourado gigantesco a algumas quadras daqui, e ao invés de ir atrás dele eu vou lutar contra um Dragão Ancião. Que baita ladrão . . .”


III.

Nosso pequeno exército marchou na direção da praça do Décimo Distrito quase em silêncio.

Acho que todo mundo estava ocupado com seus pensamentos sombrios. Todo mundo ali tinha mais a perder do que eu, pelo jeito. No caso, eu não tinha Centelha para coletar, e os Eternos não me viam ou ouviam. Provavelmente, eu estava em menor perigo do que o resto.

Por outro lado, eu só tive meia dúzia de pessoas na minha vida. Se eu perder alguém — como eu achei que tinha perdido a Hekara hoje de manhã — o meu mundo encolheria consideravelmente. (Não era provável que outras pessoas com quem eu me importava conseguiriam ressurreições.) Mas entender isso era metade da batalha, sabe? Se eu fosse um pouquinho . . . invulnerável, eu usaria esse poder para garantir que meus amigos e família estivessem vivos e em segurança.

Então talvez eu estivesse mais confiante do que o resto quando o Teyo e a Mestra Kaya e a Hekara e todo mundo cruzou a cidade. Eu vi a Rainha Vraska se aproximar atrás do Senhor Beleren, e queria testar minhas teorias sobre os dois.

Além disso, eu já tô escutando tanta conversa hoje . . .

“Jace,” disse ela, com a voz embargada.

Ele olhou, parou, e sorriu. Ele pousou a mão gentilmente na nuca da górgona e encostou a testa na dela. “Olá, Capitã,” sussurrou ele. Tão baixinho que se eu não estivesse completamente invadindo o espaço pessoal deles eu nunca teria ouvido.

Ela sussurrou também: “Você não sabe o que eu fiz.”

Ele disse: “Eu sei, até. Mas não é culpa sua. Você não tinha todas as suas memórias, e eu cheguei tarde.”

Ela afastou a cabeça da dele e continuou sussurrando: “Com certeza chegou tarde. Mas a verdade é que eu tinha minhas memórias. Mas não mudou nada.”

Ele deu de ombros. “Olha,” disse ele, “eu já tentei matar uma ex hoje. Podemos guardar a angústia até que o Bolas esteja morto, ou a gente esteja?”

Ela deu um sorriso triste. “Ah, eu virei ex, agora?”

Eu sabia!

“Espero que não,” disse ele, parecendo estar em pânico de repente.

“Não tem que ser um casal primeiro pra depois virar ex?”

“Espero que sim,” disse ele. “Uhh, a primeira parte, a segunda não.” Ele parecia tão vulnerável. Me lembrou o Teyo, por algum motivo.

Ela disse: “Então amanhã a gente tenta . . . depois que o Bolas estiver morto, ou a gente esteja?”

“De qualquer modo?”

“De qualquer modo.”

Ele assentiu com a cabeça. “Certo. Mas, de novo, espero que seja a primeira opção, e não a segunda.”

“Certo.”

Ela estendeu a mão, o que fez o Senhor Zarek olhar sério para os dois. O Senhor Beleren sorriu e deu um aceno de zombaria. Então ele e a rainha caminharam de mãos dadas até o destino que nos esperava . . .


IV.

Era muito pior do que eu imaginava.

Nós corremos até a Cidadela, e a maioria das nossas forças dava gritos de guerra. (Eu não. Não faz muito sentido dar um grito de guerra que ninguém consegue ouvir.) Minhas facas estavam ainda embainhadas, já que a minha mãe insistiu que eu pegasse emprestado com ela um machado leve de batalha. Não tenho muita certeza de que foi uma melhoria. “Leve” ou não, ainda era uma arma mais pesada do que eu estava acostumada, e o meu braço provavelmente não é tão forte quanto o que devia ser para a filha de Ari Shokta. Mas ela se sentia melhor me vendo mais armada. E já que ela podia me ver e se preocupar, eu obedeci.

Com o poder — e até a altura — aumentando a cada minuto, o dragão ainda estava sobre sua pirâmide, com as asas desfraldadas, com aquela gema estranha flutuando entre seus chifres ainda coletando Centelhas roubadas voando de planinautas caídos.

Novos planinautas caídos.

Os planinautas não caídos — ou não caídos ainda — estavam lado a lado com guerreiros das guildas contra a silenciosa Horda Medonha.

Era o caos. O caos verdadeiro. Ainda assim, os dois lados estavam em uma batalha mais equilibrada do que esperávamos. Tinha menos Eternos do que tinha antes e — graças ao Senhor Fayden, à Dona Samut e aos outros — não tinham mais reforços chegando.

Borborigmo varria a área à frente dele, usando duas maças para despedaçar os sinistrões por todos os lados. O Senhor Fayden lutava na sombra do ciclope, usando um feitiço que magnetizava o lazotep, fazendo com que os sinistrões batessem um no outro e, bom, ficassem grudados. Enquanto tentavam se libertar, eles costumavam tropeçar e cair, deixando eles abertos a ataques. O Senhor Fayden então acabava com os Eternos usando uma espada. Era extremamente eficiente.

A Dona Samut corria pelos Eternos em alta velocidade, cortando cabeças com suas espadas curvas. Eu estava longe demais para ouvir o que ela dizia, mas eu sabia que cada cabeça removida era outro Eterno que “estava livre.”

O Senhor Vorel cruzava o campo de batalha com um passo firme e determinado. Um dia ele tinha sido líder de um clã Gruul, e agora lutando de perto, dá para ver uma demonstração feroz das suas origens bárbaras — das quais eu compartilho, claro — com uma pitadinha Simic, já que ele usava uma maça biomântica para puxar o que restava de carne dentro dos sinistrões e virá-los do avesso. As explosões de entranhas e lazotep eram bem espetaculares.

Eu vi o Senhor Juba D’Ouro agitando um machado de dois lados em um Eterno após o outro. E eu vi o Senhor Karn esmagar a cabeça de um Eterno entre suas mãos de metal.

A Rainha Vraska lutava como um demônio, usando seu cutelo com a precisão de um bisturi, e seu olhar de górgona para transformar em estátuas de pedra os Eternos que ela ainda não tinha cortado ao meio. Às vezes, no calor da batalha, ela fazia as duas coisas.

O Senhor Beleren lutava ao lado dela (eu acho) com várias ilusões dele mesmo atraindo Eternos para o Senhor Juba D’Ouro ou a Dona Jaya ou o Senhor Karn matarem, e ocasionalmente usando telecinese para fazer o serviço.

Uma tropa de magos Izzet usava lança-chamas nos Eternos — e quase chamuscaram o Senhor Beleren no caminho. Ele gritou um aviso psíquico que ressoou bem alto no meu cérebro.

Eita. Então é essa a sensação.

Nada parecido com o meu esquema psíquico. Eu nem saberia fazer isso aí.

O Senhor Teferi criava bolhas de tempo lento em torno dos sinistrões, desligando-as apenas quando o Mestre da Lança Boruvo ou Ari e Gan Shokta estavam posicionados bem o suficiente para destruí-los.

Um planinauta vampiro estava cortando cabeças de Eternos com uma força assustadora, enquanto uma planinauta kor fazia espetos de rocha para empalar três ou quatro por vez.

Encarceradores Azorius — que não costumam ser a minha coisa favorita em Ravnica — derrubavam ainda mais Eternos sob a liderança da Mestra Lavínia.

Assassinos Dimir e cultistas Rakdos despedaçaram uma falange inteira de Eternos.

No caso, todo mundo estava lá trabalhando junto. Foi meio histórico isso, sabe?

Mas numa luta dessas você nem sempre vence.

Um Eterno agarrou o Senhor Fayden pelas costas. (Eu estava ocupada demais matando meus sinistrões e longe demais para ajudar, mas eu meio que vi tudo acontecer.) Ele conseguiu enfeitiçar o lazotep do seu atacante; o crânio magnetizado puxou para trás abruptamente, deixando a cabeça dele mole atrás dos ombros.

Mas era tarde demais. Por um segundo, quase pareceu que o Senhor Fayden estava desaparecendo, transplanando, acho eu. Mas a Dona Chandra deve ter conseguido reativar o Sol Imortal. Ele voltou para onde estava, com os dedos dos Eternos ainda cravados no braço dele.

Ele tentou erguer sua espada para cortar fora a mão do Eterno, mas parecia que ele estava sem forças, já, sem nem conseguir segurar a espada. Ela escorregou por entre os dedos e caiu no ladrilho aos seus pés.

E então ele gritou — alto o suficiente para ouvir acima do ruído da batalha, até de onde eu estava lutando. O Eterno tinha alcançado a coisa que fazia Dack Fayden ser quem ele era, e a roubou dele. Enquanto a centelha do Dack era arrancada dele, parecia que o corpo estava sendo completamente drenado, e todo o tecido mole, deixando só pele e osso.

O Eterno pegou fogo. A centelha roubada se lançou pelo ar, para alimentar a gema do dragão, e o poder dele.

E o Senhor Fayden parou de gritar quando o corpo do seu assassino caiu em um colapso junto com o dele.


V.

Eu tinha mais determinação do que nunca para proteger as pessoas que eu amava. Eu imaginava que meus pais e padrinho meio que conseguiam cuidar de si mesmos. No caso, são guerreiros treinados — e sem centelha, eles não podiam ser mortos pelos Eternos com um só toque. Mas com o Teyo e a Mestra Kaya a história era diferente. Eles eram vulneráveis ao infinito.

Quanto a Hekara . . . ela já era mortal como bruxa da navalha, então a teoria é que ela seria exponencialmente mais poderosa como bruxa sanguinária. Mas a verdade é que ela sempre foi mais artista do que guerreira. E além disso a ressurreição dela claramente mudou algo nela em relação a mim. E se ela mudou de outras maneiras também? E se ela não fosse a mesma pessoa irada que ela era?

Então eu me concentrei em proteger esses três.

Surpreendentemente, eu não precisava me preocupar muito com o Teyo, que ficou dono de si. Talvez ele não tivesse muita habilidade agressiva — além de jogar uma miniesfera de luz em oponentes — mas ele estava alerta, rápido e pronto com seus escudos para defender a todos do nosso lado que estivessem em apuros.

E então de repente o menino com pouca habilidade agressiva descobriu que podia usar seus escudos como aríete, empurrando-os para onde estavam Borborigmo ou o Senhor Vorel ou a Dona, uhh . . . Dona Lobisomem.

Enquanto isso, a Mestra Kaya tinha sua proteção. Flanqueada pelo Impositor-Chefe Bilagru e outro gigante Orzhov, eu a vi enfiar suas duas adagas fantasma em alguns cérebros de sinistrões.

Mas ela estava passando muito tempo na sua forma fantasmagórica, e parecia estar cansando. Ela passava por dentro de um Eterno, materializava sua mão, e esfaqueava sua adaga fantasma atravessando o crânio dele. E então ela deixava a mão fantasma e materializava os pés, enquanto corria até outra criatura. Mas a urgência e a ameaça e a miríade de distrações inerentes a uma batalha a deixava imprudente, e eu via que ela estava cada vez mais exausta. Eu tentei ajudar, indo de Eterno a Eterno e acabando com eles com meu machado emprestado, sem ser notada por ninguém além dela.

“Bem,” eu gritei acima do ruído da batalha, “crescer entre os Gruul tem que contar pra alguma coisa! E crescer com a minha condição em particular ocasionalmente conta bem mais!”

Passei bastante tempo protegendo a Kaya — mas bem mais tempo protegendo a Hekara. Eu era meio que uma sombra para a minha amiga, que se cuidava até bem para uma morta . . . e nunca precisava saber quantas vezes eu tive que despachar um sinistrão tentando atacá-la pelas costas.

Então talvez ela não possa me ver, mas eu posso ver que ela está a salvo. É uma coisa importante, sabe? Ou pelo menos não é nada.


VI.

Eu me senti presa em uma das bolhas temporais do Senhor Teferi. Tudo aconteceu tão rápido e ao mesmo tempo parecia acontecer lentamente. A batalha ia voando. A batalha parecia interminável. Era difícil se concentrar nos minutos que se passavam, muito menos os segundos.

Eu não fazia ideia de quanto tempo nós estávamos lutando quando um berrante soou e eu olhei para cima e vi a grande aeronave dos Boros, o Parélio II avançando pelo céu. Anjos desciam das suas portinholas. (Incluindo um anjo raro com quatro asas, liderando vários esquadrões de uma só vez, e Vossa Senhoria Maladola, que finalmente teve a chance de lutar um pouco como ela disse que queria.) Cavaleiros celestes Boros e viajantes celestes Selesnyanos voavam sobre pégasos, grifos e águias. Magos Izzet em esferas voadoras de mizzium deslizavam pela batalha aérea ao lado de goblins em patinetes-celestes e fadas Izzet em pipas-labareda. Um único dragão hipersônico pequeno voava lado a lado com um dragoneptero, um dragonete vapóreo, um dragonete safírico, um dragonete do vento, e um nadador do céu Simic que normalmente estaria tentando comer os outros. Mas não hoje.

Juntos, eles derrotavam o pouco que restava da cobertura aérea dos Eternos. Foi aí que eu vi o Senhor Jura voando em um pégaso. Nós todos vimos, e nós todos comemoramos. Ele estava com a espada que poderia acabar com tudo isso — acabando com Nicol Bolas.

O problema era que . . . não era só a gente que estava prestando atenção.

Eu vi a Dona Cabelo-de-Corvo que parecia estar fazendo a mímica dos movimentos de uma arqueira, erguendo um arco imaginário quando suas tatuagens — ou o que quer que seja aquilo — brilhava em púrpura. Eu olhei para a Eterna-deusa Oketra, que a imitou com seu arco gigante e verdadeiro demais. A Dona Liliana e Oketra miraram em sincronia no Senhor Jura. Eu gritei um aviso — que absolutamente ninguém ouviu — quando necromante e Eterna-deusa juntas soltaram uma flecha do tamanho de uma lança.

Mas a flecha de Oketra não encontrou um alvo no Senhor Jura. Ao invés disso, os dois metros de flecha empalaram sua montaria. O pégaso perfurado tombava do céu.

O Senhor Jura, ainda segurando a Lâmina Negra, tombou com a montaria para trás da Cidadela, fora do nosso campo de visão.


VII.

Quando o Senhor Jura caiu, a batalha teve uma pausa. Um hiato que afetou não só o nosso lado, mas o do inimigo também. Por um momento os Eternos pareceram hesitar sem explicação. Será que a Dona Cabelo-de-Corvo também foi pega de surpresa? Não, isso não fazia sentido. Foi ela quem fez a Oketra atirar sua flecha.

O momento não durou, é claro. A batalha foi retomada por ambos os lados.

E então alguém gritou: “OLHEM! A CIDADELA! OLHEM!”

Eu vi a fumaça primeiro. Depois as chamas. E então o demônio alado gigantesco com a coroa de fogo.

A Hekara batia palmas, tilintava seus sininhos e comemorava com muito alarde o seu profano líder de guilda: “Pega ele, Chefe!” Ela se virou para o Mestre Zarek, a Mestra Kaya e a Rainha Vraska gritando: “Falei que ele estava no bonde. Ele adorou o plano!”

Lorde Rakdos. Profanador. Demônio. Líder de Guilda. Parun. Tão grande quanto um dragão, com braços e pernas musculosos na proporção de um lutador gigantesco. Dois pares de chifres - um par para cima, fazendo a volta para trás e para fora, e o outro para baixo como um carneiro gigante. Olhos amarelos e incendiados. Dentes afiados como navalhas em um sorriso perturbador. Uma barba de esporões ósseos emergindo de um maxilar largo. Asas de morcego. Cascos rachados. Uma pele vermelho-sangue vestida com correntes e crânios. O seu cenho era uma coroa de chamas. Era um mal que se igualava a muitos outros.

Mas será que consegue se igualar a Nicol Bolas?

E então eu vi o Senhor Jura sobre a cabeça do demônio. Se erguendo entre as muitas chamas da coroa do Lorde Rakdos. A aura branca de invulnerabilidade do Senhor Jura deve estar protegendo-o das chamas, mas de onde eu olhava ele só parecia estar bem no centro incandescente de uma conflagração infernal.

Ele ainda tinha a Lâmina Negra desembainhada e pronta, e eu pulava torcendo para o heroi e o demônio enquanto eles voavam bem alto e mergulhavam com tudo na direção da Cidadela e do seu mestre. O rugido do Profanador ecoou por toda a praça.

O rugido foi um erro.

Chamou a atenção de Nicol Bolas. O dragão se virou bem a tempo e conjurou uma mágica de incapacitação que afastou o Lorde Rakdos com um estouro. Mas o Senhor Jura saltou acima do estouro, usando o impulso do demônio para se lançar sobre o Bolas com a Lâmina Negra pronta para o ataque.

Eu prendi a respiração quando o Senhor Jura, com as duas mãos na empunhadura, apontou a espada na direção da ruga entre os olhos do Dragão Ancião.

Me disseram que a espada já tinha matado um demônio enorme, um Eterno-deus, e até um Dragão Ancião como o Nicol Bolas.

É isto. Vai acabar com tudo.

Com um golpe descendente, Senhor Jura aplicou toda sua força na arma . . .

A Lâmina Negra se despedaçou contra o cenho invencível de Nicol Bolas.

E junto com a Lâmina Negra, se despedaçaram todas as esperanças de todas as almas em Ravnica.


VIII.

Enquanto o dragão gargalhava, o Senhor Jura caía. Ele caiu pesado no topo da Cidadela. Eu não sabia dizer se ele estava morto.

Eu me senti dormente.

A Dona Liliana Vess ficou de pé na frente do corpo caído dele. Eu ouvi dizer — ou ouvi conversas — que a Dona Liliana e o Senhor Jura eram amigos até pouco tempo atrás. Eu meio que me perguntei o que ela estava pensando. Mas ela estava longe demais para eu ler suas emoções ou pensamentos, ou até mesmo ver seu rosto.

Mas eu não estava longe demais para ver que ela deu alguns passos à frente enquanto o mana sombrio começou a girar em torno dela. E enquanto rodopiava, os Eternos — mais uma vez — pararam de lutar com a gente. Ao invés disso, todos ficaram parados por uns cinco segundos . . . antes de todos os sinistrões e as duas Deusas-sinistronas virarem para marchar até o Nicol Bolas.

Eu sabia ali mesmo que a Dona Cabelo-de-Corvo tinha trocado de lado. Não tinha como saber por quê — não mais do que eu entendia por que ela lutava pelo dragão desde o começo. Mas a Dona Liliana controlava os Eternos, e eles tinham se virado contra seu mestre ao comando da mestra deles.

Com nada mais para lutar, eu meio que fiquei lá parada, meio besta. Assistindo . . .

Eu achei que tinha visto a Dona Liliana gritar alguma coisa para o Bolas, mas eu não entendi as palavras. O que quer que ela tenha dito, eu sentia a confusão do dragão flutuando pela minha consciência. A confusão foi seguida pelo desprezo.

Eu tentava estudar a Dona Cabelo-de-Corvo. Tinha outra coisa acontecendo com ela, e no começo eu não entendi direito o que era. Daí pareceu que ela estava brilhando de dentro para fora. Brilhando . . . e dissolvendo.

É, isso aí. Tinha menos dela; salpicos empretecidos e fagulhas roxas estavam sendo carregadas pelo vento. Eu fiquei vendo ela se despedaçar, desintegrar, um pouquinho de cada vez.

Não parece um jeito agradável de morrer . . .

Oketra e Bontu — as duas Eternas-deusas que restavam — ainda estavam tentando chegar no Bolas, mas o dragão irradiava uma energia mágica pura e inalterada que as mantinham longe.

Eu olhei de novo para a Dona Cabelo-de-Corvo, que já tinha menos cabelo: ia caindo do seu couro cabeludo aos pedaços.

E então o Senhor Jura estava lá, logo atrás dela, com a mão no ombro da Dona Liliana. Ele brilhava em branco, e aquele brilho branco começou a se estender para ela, sobre ela, em torno dela.

Enquanto a Dona Liliana brilhava com a luz branca e pura dele, a forma dela começou a se remontar. O cabelo preto e comprido voltou para ela. Ela estava inteira de novo.

Mas, mas . . .

Em troca, a morte queimada estava transferindo para ele. Ele acendia e despedaçava como ela estava há alguns segundos. Ele ergueu a cabeça e eu tenho quase certeza que ouvi ele . . . uivar, antes de irromper em uma chama preta e desintegrar inteiramente na frente de todo mundo. Tudo o que sobrou foi um pedaço de armadura que caiu aos pés da Dona Cabelo-de-Corvo. Armadura e cinzas, e elas voaram rapidamente pelo vento.

O Senhor Jura está morto. Mas, mas . . . ele era para ser o heroi que ia salvar todo mundo, não era?

Nós todos olhamos para o Nicol Bolas. Mesmo dali do chão ele parecia convencido.

Dessa vez eu ouvi a Dona Cabelo-de-Corvo gritar distintamente e furiosa, quando fez um gesto empurrando com os dois braços. Oketra e Bontu avançaram em resposta, se aproximando do Nicol Bolas dos dois lados, mesmo contra o poder que o Dragão Ancião soltava. Cada Eterna-deusa deu um passo na direção de Bolas — quando o poder dele as empurrou dois passos.

Eu pensei que estávamos perdidos.

Então de algum lugar o Senhor Juba D’Ouro gritou: “Vejam!


IX.

A lança bifurcada de Hazoret estava enfiada no tórax do dragão, e havia sangue e vísceras pingando de cada ponta. O sangue e as vísceras dele. De algum modo não foi o suficiente para matá-lo, não depois daquele poder todo, de todas as centelhas que ele absorveu - mas ficou óbvio que o ferimento era significativo e provava que ele ainda podia ser ferido. Então por um segundo eu meio que senti esperança de novo, sabe?

O Dragão Ancião olhou para trás. Flutuando atrás dele e segurando a lança estava o Mestre Niv-Mizzet, que enfiou mais ainda a lança nas costas do Bolas; o grunhido dele ecoou por toda a praça.

Com o bater de uma asa, o Dragão Ancião mandou o Mente de Fogo renascido para longe. Ele caiu no chão a alguns quilômetros dali.

Bom, acabou a esperança . . .

O tempo parou. E era tarde demais quando o dragão notou que tinha se esquecido da Dona Liliana, que deu a ela a oportunidade de atacar com sua própria arma de duas pontas.

Suas duas Eternas-deusas se moveram para matar, e estavam bem em cima do Bolas. O dragão conseguiu obliterar Oketra.

Mas, talvez enfraquecido pelo esforço — ou pela lança ainda enfiada no tórax — ele foi lento demais para parar Bontu, que mordeu seu antigo mestre no punho.

Imediata e automaticamente, Bontu começou a coletar todas as centelhas que a ancianomancia tinha dado ao dragão. Todas elas, ao mesmo tempo. Bontu absorveu essas centelhas, mas não podia contê-las. Ela se rompeu em fragmentos, explodindo com um clarão tão forte que eu fui obrigada a apertar bem os olhos.

Quando eu abri os olhos de novo, a primeira coisa que eu vi foi o exército de Eternos subindo a escadaria da Cidadela, na direção do dragão. E logo atrás dele, um segundo exército de ravnicanos e planinautas. Eu tive que correr para alcançar.

Um vórtice de centelhas roubadas rodopiava acima da cabeça do Bolas. E então elas simplesmente evaporaram, cada uma delas dissipando para o nada.

Eu tinha dado mais ou menos três passos até ali, e eu vi o Nicol Bolas começar a dissolver, igual o Senhor Jura tinha dissolvido há alguns momentos atrás. E assim como o Senhor Jura, o dragão uivou enquanto desintegrava, átomo por átomo, com suas partículas voando pelo vento.


X.

Acabou. Nicol Bolas tinha desaparecido. Apenas a gema entre seus chifres ficou. Eu a vi cair no topo da Cidadela, quicar algumas vezes, e rolar não muito longe dos pés da Dona Cabelo-de-Corvo.

As nuvens de tempestade anti-naturais se dispersaram, abrindo-se para o sol do fim da tarde.

Nós todos ficamos ali parados, sem certeza se podíamos acreditar — se podíamos confiar nessa crença — de que o pesadelo tinha acabado.

Então, espontaneamente, a comemoração irrompeu dos combatentes na praça, eu inclusa. Fitilhos verdes em espirais de celebração voavam pelo ar. Todo tipo de gente — homens e mulheres de várias espécies — subiam nas ruínas da estátua de Nicol Bolas como se fosse um parquinho para crianças. Crianças de verdade apareceram do nada e subiram na dormente Vitu-Ghazi (apesar do meu padrinho ter tentado desamparado afastá-las).

A Dona Liliana estava sozinha no topo da Cidadela agora, com uma muralha de Eternos imóveis e desativados separando-a dos ravnicanos e planinautas na escadaria da pirâmide. Então a multidão saiu do seu estupor coletivo e, liderados por Borborigmo e pelo Senhor Minotauro-Rabugento, nos ocupamos cortando a Horda Medonha pelas costas. Partindo em pedaços. Bem pequenininhos. Os sinistrões não tentaram se defender enquanto a gente esmagava e cortava todos eles. (Eu me vi fazendo também.) Eu fiquei de olho na Dona Cabelo-de-Corvo. Eu sabia que ela podia controlar os Eternos, e eu queria saber rápido se ela ia decidir reativar eles — talvez para se proteger.

Ela se ajoelhou. Eu não conseguia ver o que ela estava fazendo. Daí ela se levantou e, com uma nuvem preta, transplanou.

Eu não entendi isso aí. Eu tinha tanta certeza de que o Sol Imortal tinha sido reativado. Não foi por isso que o Senhor Fayden não pôde escapar do seu destino? Mas eu suponho que, depois do dragão ter sido destruído, ele deve ter sido desligado de novo.

Uma planinauta de branco foi embora em seguida. Eu vi a Dona Yanling e o Senhor Yanggu partirem com seu cachorro de três caudas (que pareceu virar pedra logo antes deles sumirem). Outros também, que eu não sabia os nomes.

Eu ouvi a Dona Samut chamar: “Não está certo! Esse é o meu povo. Eles devem ser destruídos, eu sei. Mas não desse jeito. Dêem um pouco de dignidade.”

“É por isso que estamos aqui,” disse a Dona Jaya e, com um aceno de cabeça para a Dona Chandra, elas começaram. Enquanto o minotauro, o ciclope e a filha de Amonkhet vigiavam, as duas piromantes se moviam pelo que restou da Horda Medonha, queimando cada um deles — meticulosamente, até virar cinzas.

Eu não fiquei para assistir. Eu passei alguns minutos procurando pelos meus pais. Eu os encontrei juntos num abraço meio embaraçoso. Eu chamei atenção da Ari. Ela me apontou para Gan Shokta. Nos abraçamos. Eu devolvi o machado da mãe. Daí eu fui procurar pelos meus amigos.

Nesse ponto, o sol começava a se pôr atrás das torres de Ravnica, ou pelo menos as que ainda estavam de pé. A noite caía. E não a noite artificial da anciomancia, a de verdade. Crepúsculo. Pôr-do-sol. E a noite depois. Com outra manhã e outro dia depois desse.

Nós sobrevivemos.

Ou a maioria de nós . . .

Em torno de mim, as pessoas celebravam. E quem não estava comemorando carregava os feridos e moribundos.

E os mortos.


XI.

Eu não sei onde ela achou os fantoches.

A Hekara estava sentada em um pedaço de alvenaria quebrada, ocupada celebrando sozinha nossa vitória importante com dois fantoches de mão estupidamente realistas: versões dela mesma e do Mestre Zarek. Era um espetáculo maravilhoso para uma plateia que consistia dela mesma, e da sua Rata.

“Você é a minha Rata.”

“Eu sou sua Rata.”

É claro que ela não percebia particularmente a minha presença. Mas eu ainda gostei muito da apresentação. Ela fez as vozes para as duas mãos.

“Nós derrotamos o dragão do mal, né, Hekara?” Disse o Fantoche Zarek com uma imitação bem-sucedida, talvez um pouco esganiçada, do líder da guilda Izzet.

“Mas é claro que sim,” respondeu a Fantoche Hekara com um tom barítono afetado esquisito que não parecia nem um pouco com a Hekara, o que francamente era hilário.

“E para isso você só precisou ter uma morte horrível.”

“Claro. Mas foi uma só. Não me importo de morrer uma vez só. E nem de vez em quando. Sabe, por uma boa causa. Ou pelo amor ao entretenimento.”

Eu podia ter assistido por horas, mas o Teyo interrompeu. Eu não sei quanto tempo ele estava atrás de mim, mas ele foi até a Hekara e disse: “Emissária, você lembra da sua amiga Rata? Araithia?”

A Hekara disse: “Claro que me lembro da Rata! Eu adoro a Rata! Cadê?”

Eu fiquei tão feliz que achei que iria chorar.

O Teyo apontou onde eu estava. Acho que pensei que ela tentaria se concentrar em mim, e daí talvez tentar aprender a me ver de novo.

Mas ela só pareceu confusa. Então o Teyo pegou a mão com o fantoche da Hekara e tentou guiar a mão dela até a minha.

Ela hesitou, resistiu. Ela parecia nervosa e desconfortável de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes enquanto dizia: “Sabe, eu não me lembro direito como é o rosto da Rata. Que esquisito isso, né?”

O Teyo não sabia o que dizer. Mas isso não era novidade para mim. Até mesmo as pessoas que podiam me ver tinham a tendência de se esquecer de mim se eu ficasse longe por muito tempo. Até a minha mãe — mesmo que ela nunca admita — começa a esquecer que teve filha se eu ficar longe por muito tempo. Acho que não esperava que fosse tão rápido com a Hekara. Mas não é como se fosse uma surpresa, sabe?

Então eu fiquei grata de ver a conversa sendo interrompida pelo som de asas de couro, e pelo fedor de enxofre. O próprio Lorde Rakdos estava descendo para falar com sua Emissária.

“VENHA, MULHER,” disse ele em sua voz sepulcral e retumbante, “RAVNICA É NOSSA NOVAMENTE. A LONGA BATALHA ABATEU OS HUMORES, E O CIRCO MACABRO DEVE SE APRESENTAR PARA A MULTIDÃO, E ALIVIAR A TODOS CORAÇÕES. TEMOS ARTISTAS PARA ENCONTRAR, ATOS PARA PREPARAR E UMA PLATEIA PRONTA PARA ESQUECER OS HORRORES DO DIA — QUEIMANDO. SANGRANDO E QUEIMANDO.”

“Ah, certinho,” disse a Hekara, enquanto se permitia ser carregada na mão do demônio como se fosse um fantoche em tamanho real da Hekara pronta para falar as palavras do seu mestre. Eles voaram para longe juntos, com a Hekara dando gritinhos: “Queime! Sangre! Queime!”

Tá, beleza, ela não pensou em mim duas vezes.

Machuca, tá? Machuca. É isso que você quer ouvir?”

Mas quando eu olhei para cima, eu vi o Teyo tão impactado. Por ele, eu tentei fazer uma cara boazinha. Eu sorri, dei de ombros, e disse: “Eu perdi a Hekara.” Mas eu não consegui segurar o sorriso. Meus ombros caíram. Minha cabeça abaixou. “Eu nunca perdi ninguém antes. Tem um monte de gente que eu nunca tive. Mas ela é a primeira pessoa que me via, que eu perdi.”

Para piorar as coisas, a Dona Saheeli escolheu esse momento para quase esbarrar em mim; eu tive que dar um passo para o lado e sair do caminho quando ela passou.

O Teyo parecia mais impactado ainda, se era possível. Ele viu a Mestra Kaya chegando e disse: “Não se esqueça que você tem a gente.”

Eu assenti com a cabeça. Eu queria fazer ele se sentir melhor, mas não conseguia. Eu disse: “Só que vocês dois são planinautas. Eventualmente, vão sair de Ravnica.”

Eu me arrependi imediatamente de dizer.

Ajuda o quê, fazer os dois se sentirem mal? Ajuda a quem? Não me ajuda, com certeza. Prefiro que os meus amigos fiquem felizes, sabe?

Nós começamos a caminhar, passando pelos celebrantes e pelos desolados. A Guerra da Centelha tinha acabado. Tudo o que restava era pegar as pecinhas e dar um jeito de começar de novo.

Eventualmente paramos com um grupo de planinautas e ravnicanos que estavam debatendo sobre o que fazer com o Sol Imortal.

“Destrói essa droga,” disse o Senhor Minotauro-Rabugento.

A Dona Saheeli protestou: “Mas é uma peça incrível de—”

“É uma ratoeira incrível para planinautas. Na qual eu fiquei preso duas vezes. E deixe-me ser claro, não tenho intenção alguma de ser aprisionado mais uma vez.”

A Rainha Vraska, com a mão direita entrelaçada na mão esquerda do Senhor Beleren, disse “Destruir deve ser difícil. Foi feito com magias extremamente poderosas, reforçadas pela própria centelha de Azor.”

O Senhor Beleren esfregou o queixo com um pouco de barba. “Além disso, pode ser útil um dia para caçar e aprisionar Tezzeret.”

“Ou Dovin Baan,” adicionou a Dona Chandra.

“Ou Ob Nixilis,” sugeriu o Senhor Karn.

“Ou,” Disse a Dona Arco Longo, “Liliana Vess.”

Tanto o Senhor Beleren quanto a Dona Chandra deram uma contraída no rosto quando o nome da Dona Cabelo-de-Corvo foi mencionado. A Rainha Vraska olhou para o Senhor Beleren com certa preocupação. A Dona Jaya e o Senhor Teferi trocaram um olhar. Todos eles claramente tinham um histórico complicado com a necromante. Não pensei nos meus problemas enquanto imaginava que histórico seria esse . . . ou como acabaria no final.

Nada tinha sido decidido direito quando o restante das Sentinelas — a Dona Revane e o Senhor Juba D’Ouro — chegou logo atrás da Mestra Aurélia, que carregava a armadura peitoral do Senhor Jura como se fosse uma relíquia sagrada.

A Dona Chandra disse: “A gente devia enterrar ela em Theros. Acho que o Gids gostaria disso.”

“O que ele gostaria,” disse o Senhor Juba D’Ouro, “é saber que não acabou.”

“Não acabou?” Perguntou Teyo, aterrorizado.

O Senhor Juba D’Ouro deu uma risadinha e pousou uma pata no ombro do Teyo, para tranquilizar. “Acredito, sim, que a ameaça de Nicol Bolas tenha passado. Mas não podemos fingir que ele será a última ameaça do Multiverso. Se nós realmente quisermos honrar nosso amigo Gideon, precisamos confirmar que quando uma nova ameaça aparecer, as Sentinelas estarão lá.”

A Dona Chandra olhou para a Embaixada do Pacto das Guildas demolida e disse: “Nós perdemos o clubinho.”

“Não precisamos de um clubinho. Só precisamos renovar nossos Juramentos.”

“Ajani, já fizemos isso mais cedo.” Suspirou o Senhor Beleren, parecendo exausto — ou talvez exasperado. “Não é suficiente uma vez por dia?”

O Senhor Juba D’Ouro fechou a cara. A pata no ombro do Teyo apertou involuntariamente. O leonino não o fez sangrar, mas o Teyo se retraiu.

A Mestra Kaya notou e tirou a pata dele delicadamente, deixando o Teyo com um pequeno suspiro de alívio.

Eu tive que abrir um sorriso largo. Eu e o Teyo compartilhamos sorrisos.

Ele tem um sorriso lindo . . .

A Mestra Kaya falou: “Talvez . . . talvez eu possa fazer o Juramento.”

A Dona Chandra olhou para ela com esperança e disse: “Sério?”

O Mestre Zarek olhou para ela com dúvida e disse: “Sério?”

“Eu não sou perfeita . . .” começou Kaya.

“Pode acreditar, nenhum de nós é,” disse o Senhor Beleren abruptamente.

A Rainha Vraska riu pelo nariz.

Mas a Mestra Kaya basicamente ignorou os dois. “Eu já fui assassina e ladra por encomenda. Eu tinha meu próprio código moral, mas o primeiro princípio era ‘Cuide de você.’ Eu tenho a habilidade de passar pela vida como um fantasma, sem deixar que nada me toque. É a verdade literal dos meus poderes, mas de certo modo também é a minha verdade emocional. Mas esse período aqui em Ravnica como assassina, ladra, líder de guilda relutante e talvez guerreira ainda mais relutante não me deixou inabalada. Lutar ao lado de vocês foi uma honra. Foi a coisa mais assustadora, e a melhor coisa que eu fiz nessa vida bizarra que eu tenho. O que as Sentinelas fizeram aqui hoje—” ela olhou para a armadura chamuscada nas mãos da Mestra Aurélia. “—O que vocês sacrificaram aqui hoje . . . bem . . . vai parecer brega, mas me inspirou de verdade. Se me aceitarem, gostaria de fazer parte. Quero que vocês todos saibam que, se aparecer um problema, vocês podem me chamar e eu estarei ao lado de vocês.”

“A gente ia gostar,” disse a Dona Chandra.

“Isso, garota,” disse o Senhor Juba D’Ouro, com seu sorriso largo leonino.

A Dona Revane, o Senhor Teferi e o Senhor Beleren sorriram e assentiram com a cabeça.

A Mestra Kaya respirou fundo e ergueu sua mão direita. Talvez para mostrar o que ela tinha a oferecer, ela deixou a mão espectral e ela ficou transparente com uma luz lilás. Ela disse: “Eu cruzei o Multiverso ajudando os mortos, a . . . seguir a luz, a serviço dos vivos. Mas o que eu vi em Ravnica nesses últimos meses — e nas últimas horas — mudou tudo o que eu achava que sabia. Nunca mais. Pelos vivos e pelos mortos, eu serei uma sentinela.” Ela se virou e sorriu para mim e para o Teyo.

Eu senti que o Teyo se perguntava se devia fazer o Juramento, se alguns dos outros o considerariam digno. Eu ia dizer para ele que todos ficariam honrados em acolhê-lo.

Mas fomos distraídos pela chegada do Mestre Niv-Mizzet, que pousou meio exibido e sorriu largamente. “Você está desempregado, Beleren. O Mente de Fogo é o novo Pacto das Guildas Vivo. Como sempre foi predestinado.”

O Mestre Beleren riu, “E ainda assim, eu não me sinto mal por ceder essa responsabilidade em particular.”

Ignorando o dragão completamente, a Dona Revane olhou para dentro de uma das muitas fendas nos ladrilhos da praça. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Dentre os ladrilhos rompidos pela batalha, uma semente brotou e cresceu rapidamente, formando uma planta com folhas largas.

Ela fez um sinal de cabeça para a Dona Chandra, que instintivamente sabia o que a elfa queria. Cuidadosamente, a piromante puxou três das maiores folhas dessa planta.

Então nós assistimos as duas mulheres e a Mestra Aurélia embrulharem a armadura do Senhor Jura com amor, com ternura, usando as folhas.

Aurélia entregou a armadura para a Dona Chandra, que — ao lado do Senhor Beleren e da Dona Revane — fizeram uma procissão solene na direção da multidão em celebração (e luto). Uma Mestra Aurélia desamparada ficou olhando mas não seguiu — enquanto a maioria dos outros planinautas seguiu.

O Mestre Zarek deu um toque no ombro da Mestra Kaya e fez um gesto para que ela esperasse. O Senhor Vrona fez o mesmo com a Rainha Vraska, que assentiu e avisou ao Senhor Beleren que o alcançaria depois.

O Teyo ficou ali confuso e eu estava curiosa o suficiente para esperar com ele. As Mestras Lavínia e Aurélia, a Dona Saheeli e o dragão também esperaram. Logo chegaram o Senhor Vorel, a Dama Exava, Gan Shokta e Boruvo. (O último dessa lista sorriu para mim, apesar do meu pai não perceber a minha presença, como de costume.) Assim que a procissão das Sentinelas tinha ficado longe o suficiente para não ouvir, a Dona Saheeli virou o Mestre Lazav, e eu fiquei me perguntando onde a Dona Saheeli de verdade estava.

O Mente de Fogo falou primeiro: “Como novo Pacto das Guildas Vivo, consultei a opinião de representantes de cada guilda.”

A Mestra Kaya ergueu uma sobrancelha para o Senhor Vrona, que assentiu.

O dragão continuou: “Nós concordamos que certos indivíduos que colaboraram com Nicol Bolas devem ser punidos.”

A Rainha Vraska se eriçou, e seus olhos brilhavam com magia: “Não serei julgada por pessoas como vocês.”

“Vocês já foram julgados,” disse a Mestra Lavínia com severidade mas sem ameaça. “E as suas ações no dia de hoje atenuaram esse julgamento.”

O Mestre Zarek disse: “Você não foi a única que Nicol Bolas corrompeu e usou. Kaya e eu também compartilhamos dessa culpa. Talvez tenhamos notado nosso erro antes de você, mas não temos desejo algum de entrar em sofismas com uma aliada. Não com uma aliada que quer provar sua lealdade com Ravnica e com sua própria guilda.”

A Rainha Vraska não parecia menos suspeita — com a guarda ainda alta — mas os olhos pararam de brilhar. “Estou ouvindo.”

A Mestra Aurélia disse: “Centenas, talvez milhares de seres sencientes morreram em Ravnica hoje.”

“E o dano à propriedade é incontável,” adicionou o Senhor Vrona.

Ignorando-a, a Mestra Aurélia continuou: “Tais atos de terror não podem ficar sem punição. Três deles fizeram tudo o que podiam para auxiliar ao dragão: Tezzeret, Dovin Baan e Liliana Vess.”

O Teyo disse: “Mas a Liliana não—”

O Senhor Vorel o interrompeu: “Vess mudou de lado muito tarde. Só depois de ter sido a causa direta da maior parte desta carnificina.”

“O que exatamente vocês estão pedindo?” Perguntou a Mestra Kaya, infeliz.

“Os três são planinautas,” afirmou o Mestre Lazav. “Não estão ao nosso alcance. Mas não estão fora do alcance de vocês.”

O Mente de Fogo chegou ao assunto: “Ral Zarek já concordou em caçar Tezzeret. Vraska, como penitência pelos seus crimes pregressos, ficará encarregada de Dovin Baan. E Kaya, as dez guildas desejam contratá-la para assassinar Liliana Vess.”

Acho que talvez a Guerra da Centelha não tenha acabado tanto quanto eu imaginava, sabe?


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