Retorno a Dominária: Episódio 3

Posted in Magic Story on 28 de Março de 2018

By Martha Wells

Martha Wells has written fantasy novels, short stories, media tie-ins, and non-fiction. Her most recent works are The Harbors of the Sun, part of her Books of the Raksura series, and a science fiction novella from Tor.com, The Murderbot Diaries: All Systems Red.

Levara o dia e a noite toda, mas por certo e como Ziva prometera, na manhã depois que a tritã começara seu trabalho, Jhoira estava de pé na praia olhando para o que restara do grande navio voador Bons Ventos.

Eles estavam na costa de Bogardan em uma enseada com ampla faixa de areia, protegidos por afloramentos rochosos em ambos os lados. Acima das dunas, havia uma seção de solo gramado e nivelado, onde agora o Bons Ventos estava. A alguma distância dali, para dentro do continente, picos vulcânicos escuros se erguiam acima de campos de lava ondulantes.

Tudo o que restara era a estrutura de metal Thran do navio voador, com quase sessenta metros de comprimento, e as pesadas bobinas de seus motores. O restante de seu casco e interior ou apodrecera ou fora destruído na batalha que a levou até o fundo do mar. A coruja mecânica de Jhoira o sobrevoava, dando a ela uma visão de cima dos destroços. Parece pior do que está, pensou Jhoira. Ela tocou o camafeu em seu pescoço, lembrando-se de que tinha opções caso o núcleo do navio estivesse mais danificado do que ela esperava.

Art by Kev Walker
Ilustração: Kev Walker

Tanto os tritões quanto os humanos da equipe de restauração puxaram com muito esforço os restos até a superfície. O navio tolariano de suprimentos, onde a nau submergível de Jhoira estava agora guardada, rebocara o Bons Ventos para esta enseada resguardada, e então eles o puxaram até o solo nivelado onde os trabalhos de restauração poderiam começar. O navio de suprimentos estava ancorado longe da praia agora, e a equipe de restauração estava montando um acampamento perto do Bons Ventos. Eles podiam começar o trabalho hoje mesmo, no começo da tarde. O outro navio ancorado na enseada era a barca privada de Jhoira, e apesar de ser bem menor e ter a mesma forma de qualquer outro veículo de navegação comum, era uma maravilha mecânica tão excepcional quanto sua nau submergível.

Agora, eu só preciso de uma tripulação, pensou Jhoira. Ela sentia falta de Karn, Venser, e de todos os outros. Ao menos ela sabia onde Teferi estava, apesar de não conseguir imaginar se ele poderia ser persuadido a ajudar, ou não. E tem o Jodah. Sua expressão facial ficou irritada. Ela também não sabia se poderia contar com ele. Fazia tanto tempo desde que o último feitiço poderoso de Urza quase acabara com a invasão phyrexiana, e Dominária se curara tanto desde então. Mas algumas coisas nunca curariam.

Não importava. Aconteça o que acontecer, Jhoira encontraria um caminho. Ela sempre encontrara, e ela não esperava que isso mudasse tão cedo. Isso é importante demais, pensou ela.

O vento bagunçava seus cabelos, e o anjo que a Ordem de Serra enviara para ela pousou na areia. O nome dela era Tiana, e apesar de parecer perfeitamente afável, Jhoira detectara um ar de tristeza nela. Mas ao vê-la agora, Tiana parecia mais animada. Na verdade, ela parecia radiante. Literalmente incandescente. Curiosa, Jhoira a perguntou: “Você brilha assim porque quer? Aconteceu alguma coisa?”

Com a expressão extasiada, Tiana não parecia ter ouvido a pergunta. “O formato.” Ela fez um gesto na direção da espinha desnuda do Bons Ventos. “É a espada de Gerrard, dos retratos.” Ela balançou a cabeça. “É claro! Não sei por que eu nunca tinha notado isso antes.”

Estudando-a, Jhoira notou: “Você não está apenas brilhando, você está sorrindo.”

Tiana baixou os olhos, repentinamente tímida. “Desculpe pelo brilho. E você já me viu sorrindo antes.”

“Não desse jeito.” Não como se alguém que vivera na escuridão estivesse vendo o sol pela primeira vez. Havia uma gravidade naquele sorriso, como se pudesse puxar a todos em torno dela, como uma anomalia temporal. Os olhos de Jhoira se apertaram, preocupados. “E agora você está chorando.”

Tiana esfregou o rosto com sua manga branca. “Não, não é, não estou . . . Tem tanta areia no ar hoje, estou até surpresa que todos não estão chorando.”

Chovera mais cedo e a areia ainda estava úmida, e a brisa não carregava nada além do aroma salgado do oceano. Jhoira estendeu a mão e gentilmente ergueu o queixo de Tiana. Ela perguntou suavemente: “Por que você está chorando?”

“Eu não sei, mesmo.” Tiana respirou fundo, e deu um passo para trás, limpando o rosto novamente. “Parece que está passando, o que quer que seja.”

Jhoira não estava tão certa disso. Seu olhar passou de Tiana para a carcaça enorme de metal que era erguida acima delas. Isso não pode ser apenas uma coincidência.

Quando Tiana chegara, antes da recuperação começar, ela explicara que era um anjo da guarda sem nada em particular para proteger, e por isso estava disponível para missões da ordem que exigiam longas distâncias. Agora, Tiana parecia estar tentando evitar olhar para o navio voador, como uma amante tímida que tentava não revelar o objeto de sua devoção. Tiana tinha de estar reagindo emocionalmente ao Bons Ventos. Jhoira pensou: Com quase nada além dos ossos, ainda tem seu charme. “Venha,” disse ela. “Vamos dar uma olhada na pedra de energia.”


Hadi e os outros restauradores se uniram a Jhoira e Tiana perto da carcaça Thran que era tudo o que restava do casco do Bons Ventos. Hadi era o único artífice tolariano, mas os demais eram artesãos e acadêmicos habilidosos, vindos na maioria de Benália e de Jamuraa. Tien, o metalúrgico-chefe, estava ao lado de Hadi, e segurava o segundo componente mais importante desta empreitada: a nova semente de casco que Jhoira obtivera de Molimo, a árvore elemental. Ela cresceria novamente e formaria o novo casco do Bons Ventos depois que os artesãos terminassem de limpar os suportes de metal Thran, mas eles ainda tinham que fazer os motores e outros sistemas mecânicos funcionarem. Alguns eram mágicos, e outros não, e pela aparência deles precisariam de muito trabalho.

Mas o primeiro e mais importante dos componentes estava aninhado em um berço de metal, nas profundezas do motor. Era a pedra de energia.

“Bom, ela ainda está aqui,” disse Hadi, em tom dúbio.

“Isso é um bom sinal,” adicionou Tien, na ponta dos pés para ver o cristal em forma de gota. “Não é?”

Jhoira não estava tão certa disso. A pedra de energia parecia inerte. Ela fora criada por Urza, que colapsara o Reino de Serra para formar a pedra. Foi por esta razão que Tiana fora enviada para cá; a pedra era um objeto sagrado para a Ordem, então eles queriam que um anjo estivesse presente para supervisionar seu resgate, e para devolvê-la se não mais funcionasse. Jhoira tinha um plano-reserva caso a pedra tivesse sido destruída ou drenada, mas era algo que ela preferia deixar como reserva.

Jhoira tinha fé na velha pedra. Talvez ela só precisasse de um empurrãozinho. “O que você acha?” Perguntou ela a Tiana.

Tiana se inclinou para a frente, para estudá-la, franzindo o cenho pensativa. “Está intacta; suas conexões no berço parecem boas. O motivador ainda está ligado. É surpreendente, considerando o que ela passou.”

Hadi e Tien olharam para ela, surpresos. Tien disse, “Não sabia que anjos estudavam mecânica.”

“Não estudamos,” disse Tiana apressada, se afastando do berço como se ele tivesse irrompido em chamas de repente. “Eu não sei nada disso, mesmo.”

“Não sabe, é?” Jhoira ergueu suas sobrancelhas. Esta era a segunda vez que Tiana reagia ao Bons Ventos como se reencontrasse um velho amigo.

Tiana parecia incerta. “Eu acho que não. Eu nunca soube nada de mecânica. Mas . . . Agora me parece algo óbvio.”

Hadi e Tien a observavam com interesse. Jhoira disse: “Esta é a pedra de Serra. Talvez ela responda a você.”

Tiana se aproximou com cautela, mais tímida do que relutante. “Eu vou tentar.” Ela examinou a pedra por mais um momento, e depois uniu as mãos em prece e abaixou sua cabeça.

Jhoira a observava, percebendo que todos ali se aproximaram e prenderam a respiração. Por um longo momento nada pareceu acontecer, e então uma luz interna impregnou as feições de Tiana. Jhoira sentiu a mudança na pedra de energia, o momento em que ela voltou à vida. Como se alguma entidade poderosa tivesse aparecido entre eles.

Quando a pedra começou a brilhar, os outros comemoraram. Tiana deu um passo para trás, com olhos arregalados. Ela claramente não esperava obter um sucesso.

Enquanto os outros celebravam, Jhoira puxou Tiana para o lado, sob a sombra das vigas arquejantes do navio voador. “Me perdoe, não acho que tenha conhecido um anjo como você antes.”

“Você diz um anjo que não tem confiança na sua angelicidade?” As feições de Tiana se torceram. “É uma longa história.”

Jhoira tomou sua decisão, parte por instinto e parte por cálculos baseados em observações cuidadosas. “Você quer me ajudar ainda mais do que você já ajudou?”

Tiana encolheu os ombros levemente, dando um chute tímido em um tufo de poeira. “Claro, não tenho nada melhor pra fazer. Quer dizer, eu posso ajudar você. Você precisa que eu voe até algum lugar pra você?”

“Não, eu preciso que alguém supervisione a reconstrução e proteja os trabalhadores enquanto eu vou atrás de uma tripulação.” Jhoira sorriu e Tiana ficou imóvel. “Você acha que gostaria de fazer isso?”

Tiana virou-se para olhar para os motores, para os artesãos que já planejavam a restauração. Não, Jhoira não havia imaginado coisas; Tiana tinha mesmo uma afinidade com o Bons Ventos. Tiana indagou, como se sua garganta tivesse secado: “Por que eu?”

“Você tem uma aptidão, eu vi. E você é um anjo, então sei que posso confiar em você.” Jhoira a observava. “O que você diz?”

Tiana respirou fundo e lentamente. "Sim. Acho que posso.”


Juntar sua tripulação seria uma longa jornada, mas Jhoira tinha se preparado e planejado assim como fez para a recuperação do Bons Ventos.

Deixando o navio de suprimentos com eles, ela levou sua barca primeiro para a costa de Jamuraa, até a cidade de Suq’Ata, onde informações sugeriam que ela possa encontrar a pessoa que está procurando. Depois de algum tempo de procura, ela chegou no enorme mercado da cidade, onde edifícios feitos de rocha branca com vários andares e terraços amplos formavam uma ravina de formação humana, com depósitos, lojas, escritórios de carga, e as pousadas e hospedarias necessárias para receber, alimentar e entreter as multidões que vinham fazer negócios ali.

Palmeiras altas e arbustos floridos cresciam em grandes vasos, e havia fontes decorando cada pátio. Papagaios e macaquinhos mecânicos similares à coruja de Jhoira cuidavam dos bens nas lojas a céu aberto. Havia gente de toda Dominária aqui, mas a maioria dos locais tinha a pele e cabelos negros do Nordeste de Jamuraa, e o tom muito mais escuro que marcava a região de Femeref e descendentes da região perdida, Zhalfir. Era uma tarde quente, e a maioria dos mercadores, sua clientela, e os demais que trabalhavam no mercado tinham parado para tomar chá, figos preservados no mel, e tâmaras sob os toldos fora das várias casas de chá e cantinas de vinhos. Jhoira considerava fazer o mesmo, se ela não conseguisse encontrar o que procurava dentro da próxima hora.

Ela subiu a escadaria até uma praça. A água corria por uma série de fontes e cascatas embutidas nas paredes de um grande complexo de depósitos e escritórios de carga. Havia gente sentada sob o toldo de uma loja, e também gente entrando e saindo da grande soleira arqueada nos dois terraços acima dela. Jhoira pausou, tentando decidir em qual andar procurar primeiro, quando gritos ressoaram de repente no andar de cima.

Todo mundo na praça e nas lojas ali perto se viraram para olhar, ou congelaram no lugar, chocados. Jhoira viu que havia gente fugindo de um grande arco dois andares acima, e correu na direção das escadas.

Ela chegou no terraço superior bem a tempo de pegar um senhor que quase caiu pela beirada, em sua pressa de fugir. “O que houve?” Perguntou ela, enquanto o apoiava.

“A Cabala!” Disse ele, sem fôlego. “Um espião da Cabala na tesouraria da Sarin Mercantil!”

Ela o colocou de lado e correu na direção do arco de entrada. Logo na entrada, no grande espaço aberto do depósito de carga, dois Jamuraanos estavam caídos, estatelados no piso. A julgar pelos gritos alarmantes e a direção de onde os outros corriam, a luta estava acontecendo no telhado do depósito. Jhoira tocou a coruja mecânica em seu ombro e sussurrou: “Seja meus olhos.”

Ela chilreou e voou diretamente para cima, a fim de circular acima do depósito.

Jhoira dividia sua atenção entre o depósito e a visão de seu familiar. Havia um terraço acima do depósito, e acima dele havia um edifício mais alto, com sacadas. Na altura do terraço de pedra, uma mulher empunhava uma espada contra meia dúzia de homens que usavam os robes camuflados de nômades do deserto. Em torno deles, magia sombria com uma mancha demoníaca pairava no ar, como uma névoa. A espadachim tinha pele e cabelos negros trançados como uma coroa, e vestia armadura de couro e de metal. A espada da mulher parou um golpe de lança, e ela usou seu impulso para girar e tirar um pedaço do pescoço de seu oponente. Enquanto ele caía, ela gritou para os demais, “Já acabaram?”

Um homem uivou furioso e seu capuz deslizou para trás, revelando uma pele empalidecida e uma cabeça raspada marcada com cicatrizes lívidas. Um clérigo da Cabala, pensou Jhoira. Ele usava invocações de demência, criando fantasmas que faziam com que todos em uma área corressem para salvar suas vidas - mas não estava afetando a mulher, claramente.

Ela despachou outro cultista com uma estocada no tórax, e o clérigo lançou um feitiço de morte nela, manifesto como um orbe negro. Ele a atingiu no tórax, mas a mulher o ignorou.

O olhar da coruja deu foco, e quando o clérigo conjurou outro golpe de morte Jhoira viu a luz levemente dourada que brilhava em torno da mulher quando o feitiço a atingia. Não é um escudo, pensou ela, começando a sorrir. Era imunidade a magia, e ela já tinha visto isso antes.

Art by Magali Villeneuve
Ilustração: Magali Villeneuve

Jhoira encontrara o que estava procurando. Ela chamou sua coruja de volta e começou a subir as escadas.

Ela chegou no terraço bem a tempo de ver a mulher afundar sua lâmina no tórax do último cultista. Enquanto ela limpava sua espada nas vestes dele, vários guardas da cidade chegavam pelo arco mais próximo. “Shanna Sisay!” Um deles a chamou. “O que aconteceu aqui?”

“O que parece que aconteceu?” A mulher, Shanna, o respondeu. “Agentes da Cabala, tentando pegar os mapas das rotas dos mercadores, para que a Cabala possa atacar seus navios e caravanas. As pessoas se esquecem que eles começaram como simples ladrões em Otária,” adicionou ela enquanto Jhoira se aproximava.

“Eles se esquecem, mesmo,” concordou Jhoira. “O demônio Belzenlok quer reescrever a história do mundo com ele sendo a força por trás de cada ato das sombras, desde a queda dos Dragões Primordiais de vinte mil anos atrás.”

Shanna embainhou sua espada. “Você entende de história.”

Jhoira realmente entendia de história, considerando que muito fora causado pessoalmente por ela... “E você é imune a magia. A invocação de demência do clérigo não teve efeito algum em você.”

Shanna deu de ombros, observando-a pensativa. “É de família.”

“Eu sei. Conheci sua ancestral, a Capitã Sisay. Vejo que carrega a espada dela.”

Shanna ficou imóvel, encarando-a. Todo o som e movimento dos guardas e da multidão crescente de curiosos de arcos e sacadas de repente parecia estar longe. Era somente ela e Jhoira naquele momento, um encontro que estaria nas crônicas da história verdadeira desta era. Shanna perguntou suavemente: “Quem é você?”

Ela sorriu. “Meu nome é Jhoira. Vim aqui encontrar você.”


Elas se retiraram para uma cantina de vinhos em um dos andares de baixo, sentando-se nos tapetes sob um dos toldos. A atividade nas ruas e pátios lentamente voltava ao normal em torno delas.

Shanna perguntou: “Como você me encontrou?”

“Eu acompanhei a linhagem de sua família, e um dos seus primos me disse que você estaria aqui nesta cidade, seguindo rumores de espiões da Cabala.” Jhoira bebeu um golinho de sua taça. “Eles disseram que estão com saudades.”

Shanna pousou sua taça na mesa. “E eu tenho saudade deles. Mas a minha vida toda eu ouvi histórias sobre meus ancestrais, e contos sobre a Zhalfir perdida... Eu cansei de viver sob as sombras do passado. Decidi usar minha herança.” Ela sorriu. “Eu tenho tantas perguntas...”

Se Shanna concordasse, elas teriam bastante tempo para conversar sobre o passado. Jhoira disse: “E eu tenho respostas, mas tenho uma pergunta primeiro: Você consideraria servir no Bons Ventos?"

Shanna riu. “Se ele ainda existisse, eu consideraria.” E então, ao entender a expressão de Jhoira, sua face ficou séria. “Eu consideraria uma honra, seguir os passos de minha ancestral. Servir como ela serviu. Se o Bons Ventos existisse.”

Jhoira ergueu sua taça. “Então, seria uma honra ter você na minha tripulação.”


Pela época em que elas navegaram a barca até Aerona e chegaram até a cidade de Benália , Jhoira tinha ainda mais certeza de que fizera a escolha certa. Shanna não era Sisay renascida, mas era parecida com ela o suficiente para chegar a ser doloroso para Jhoira, às vezes. Elas passaram longas noites conversando no convés, sob as estrelas, e desencavando memórias antigas. Jhoira estava contente em ter Shanna junto com ela, mas com isso ela tinha ainda mais saudades de Sisay.

Ela esperava obter o mesmo tipo de sucesso com Danitha Capashena, parente distante do Capitão Gerrard, mas a resposta de Danitha foi curta e definitiva.

“Não,” disse ela.

Elas estavam sentadas no jardim da casa da família Capashen, e era o final da manhã em um dia cálido. Pássaros cantavam nas árvores e os muros de pedra cinzenta separavam o jardim da agitação da cidade. “Não?” Repetiu Jhoira. Ela deu uma olhadela para Shanna, que ergueu as sobrancelhas em desalento e sobressalto. Ela se virou para Danitha, cuja expressão estava tão calma e inexpressiva quanto se estivesse escolhendo o que preferiam comer no almoço. “Você acha que estou mentindo sobre quem eu sou?”

“Não, eu sei que você é a Jhoira,” disse Danitha, ainda calma. Ela cumprimentou Shanna com a cabeça. “E você é tão parecida com os retratos que já vi da Capitã Sisay, que seria impossível negar quem você é.”

Danitha não lembrava Gerrard em nada, exceto por sua indumentária de guerreira. Seu cabelo estava amarrado para trás, e os lados da cabeça foram raspados para caberem sob um elmo com mais facilidade; seu rosto era bronzeado e surrado pelo clima. Jhoira sabia que ela era cavaleira de Benália, mas ela imaginara que Danitha gostaria de seguir os passos de seu predecessor famoso.

Art by Chris Rallis
Ilustração: Chris Rallis

“Por quê, então?” Indagou Shanna. Ela gesticulou na direção da grande casa de pedra. Danitha chegara para encontrá-las vinda dos estábulos, e sua espada e escudo estavam recostadas logo na entrada das portas duplas que estavam abertas para o saguão principal. “É óbvio que você não foge de uma luta.”

“Sou cavaleira de Benália,” explicou Danitha. “Fiz um juramento para defender esta terra.”

Jhoira dependera em ter parentes dos dois capitães mais famosos da Bons Ventos a bordo. Parecia ser o melhor jeito de começar novas viagens, e depois de conhecer Shanna, ela tinha certeza de que estava certa. Ela precisava de um Capashen. “O Bons Ventos sempre esteve no coração da batalha, e é hora de utilizá-lo para lutar contra a Cabala, e partir seu controle sobre Dominária. Servir conosco só irá ajudar Benália.”

“Em longo prazo,” concordou Danitha, ainda sem afeto. Ela falava como alguém com certeza absoluta de sua própria decisão, o que dava mais vontade ainda em Jhoira de adicioná-la à tripulação. “A Cabala está atacando aldeias e vilarejos em todos os lugares. Se eu partisse com vocês, poderemos lutar contra a Cabala do outro lado do mundo. Quero lutar contra eles aqui, em meu território.”

“Eu compreendo.” Jhoira se recostou na cadeira e suspirou, resignada. Não posso argumentar contra isso, pensou ela. Ela olhou para Shanna, que fez um pequeno gesto de derrota.

Danitha assentiu com a cabeça, e ficou de pé. “Preciso voltar para o meu comando. Fiquem o quanto quiserem; as duas sempre serão bem-vindas aqui.”

Quando Danitha entrou na casa, Shanna perguntou: “Bom... E agora? Tem mais alguém em quem você tinha pensado?”

“Não.” Jhoira queria dar um tapa frustrado na mesa, mas não o fez. Danitha tinha todo o direito de recusar. “Ela era a única outra que eu esperava-”

Um jovem com olhos arregalados pulou para fora da casa, e apressou-se para perto da mesa. Resfolegante, ele perguntou: “E eu?”

Jhoira já estava de pé, e Shanna ao lado dela - mas ela notou como era improvável que estariam sob ataque. Ele era um jovem com cabelos castanhos e bagunçados, com feições bem parecidas com as de Danitha. “E você o quê?” Exigiu Shanna.

Ele explicou: “Sou Capasheno. Meu nome é Raff. Eu ouvi tudo. Quero ir no lugar da minha irmã.”

Jhoira cruzou os braços. Por isso ela não esperava. “É mesmo?”

Shanna o estudou, franzindo o cenho. “Quantos anos você tem?”

Ele melhorou sua postura. “Tenho idade para ser um mago treinado. Passei todos meus exames mais cedo, e impressionei meus mestres com as minhas habilidades.”

“Então eles têm magos formados aos doze anos, agora?” Indagou Shanna, cética. “Ou treze?”

Raff ergueu o queixo. “O próprio Jodah de Tolária disse que eu fui um dos estudantes mais bem-sucedidos que ele já vira.”

Até ali Jhoira estava se divertindo, mas neste momento ela impôs um limite. “O Jodah não disse isso.”

Raff tentou ser ousado, mas uma ruga de preocupação apareceu entre suas sobrancelhas. “Ah, você conhece o Jodah?”

“Sim.” Ela mantinha os braços cruzados. “De antes da invasão phyrexiana.”

“Ah. A minha irmã disse que você era aquela Jhoira, mas-” Raff desinflou visivelmente. “Tudo bem, o Jodah não disse isso, mas eu ainda sou um mago incrivelmente bem-sucedido.”

Jhoira meneou a cabeça e se virou. Mas enquanto ela e Shanna caminhavam para dentro da casa, Jhoira sentiu magia.

Raff teve sorte que ela sabia ser uma ilusão e não um ataque. O jardim desaparecera, e de repente ela e Shanna estavam de pé bem no alto, entre as nuvens. Ao longe, a versão original do Bons Ventos fazia uma curva ampla pelo céu. As linhas do seu mastro e casco não estavam perfeitas, mas era um esforço crível. Lembrando-se da habilidade de Shanna, ela perguntou: “Você consegue ver?”

“Eu vejo, mas consigo ver a casa e o jardim através dela.” Shanna olhou para Raff, pensativa. “Então, ele é bom?”

Art by John Stanko
Ilustração: John Stanko

Jhoira suspirou e se fez avaliar as habilidades de Raff com mais objetividade. “Nada mal.” Ela se virou para Raff. “Você foi muito irritante hoje.”

A ilusão desapareceu com um gesto. Raff disse de todo coração: “Eu não vou mais irritar, eu sou prestativo. E desculpa eu ter mentido, só quero muito, mesmo, ir com vocês.”

Franzindo o cenho, Jhoira considerou a possibilidade. O problema era que Danitha obviamente não tinha intenção alguma de mudar de ideia, e isso lhes dava Raff como a única opção. “Nos dê um minuto,” disse ela, e foi para outro lado, junto com Shanna. Elas se afastaram até o salgueiro próximo ao terraço. “O que você acha?” Perguntou ela, mantendo a voz baixa.

Shanna disse honestamente: “Eu acho que tenho cicatrizes mais velhas do que aquele menino.”

“É verdade,” admitiu Jhoira. “Mas você teria alguma objeção em servir com ele?”

Shanna considerou a ideia seriamente, com o cenho franzido. “Não. Ele tem vontade suficiente, e o coração está com certeza dentro da empreitada, e ele parece ter as habilidades. Eu só . . . É que vai ser perigoso, e eu não tenho certeza se ele compreende isso.”

Jhoira não tinha certeza que algum deles compreendesse o que estariam enfrentando. Ela vivera tanto, e visto tanta coisa, que era difícil para ela imaginar que alguém jovem como Raff tivesse alguma noção de sua própria mortalidade. Mas ter um Capashen na tripulação parecia ser a coisa certa. Parecia necessário. “Não existe segurança enquanto a Cabala existir. Ele pode morrer aqui lutando contra eles, do mesmo jeito.”

“Verdade.”

Shanna deu de ombros, um pouco. “Fico feliz em servir com ele se você acredita que ele será útil.”

 

Jhoira assentiu, virando-se para Raff. Ela disse: “Se quiser vir, faça as malas rápido. Temos muito caminho pela frente.”


Já era manhã quando a barca velejou para dentro da enseada em Bogardan. Jhoira estava de pé no convés com Shanna e Raff, usando um telescópio para ver a praia, impaciente. Agora ela abaixava a lente, já podendo ver a olho nu a forma tão familiar se erguendo acima das dunas.

O casco tinha uma curva graciosa, o mastro de popa inclinado para trás. Os guarda-mancebos e vidros das portas brilhavam. A julgar pela maneira que o navio estava reto na areia, já deve estar parcialmente desperta e se apoiando. O Bons Ventos estava inteiro, e pronto para o lançamento.

Jhoira sorria largamente, em deleite. Tudo se encaixara como ela planejara, e bem na hora.

O acampamento fora desmontado, e os trabalhadores usavam os pequenos barcos a remo para carregar suas últimas ferramentas e equipamentos para dentro do navio de suprimentos. Eles acenaram e comemoraram quando a barca se aproximou da praia.

Shanna se aproximou e abraçou Jhoira com um só braço. “Eu não acredito!”

Raff tentava não pular de tanta empolgação. “Tem um anjo ali! Aquela é a Tiana? Por que tem um vampiro com ela?”

Jhoira e Shanna se viraram para encarar as figuras que esperavam na areia. “Um o quê?!” Perguntou Jhoira, desconcertada. O planejamento dela não incluía aquilo.


Enquanto eles vinham caminhando pelas ondas baixas até a areia dura, Tiana e o vampiro vieram encontrá-los.

Jhoira disse: “Olá, Tiana. Vejo que tudo correu bem.” Ela cumprimentou o vampiro com a cabeça; ele era claramente um vampiro, exceto pelo fato de estar vestido como um cavaleiro de Benália e ninguém parecer preocupado com ele ali. “Tem alguma coisa que você gostaria de me contar?”

Tiana juntou suas asas perto do corpo e coçou a cabeça. “Bom... sim. Este é o Arvad.”

Arvad caiu de joelhos e ofereceu a Jhoira a empunhadura de sua espada. “Eu juro servir ao seu lado, Capitã Jhoira.” Ele parecia perfeitamente sincero.

As sobrancelhas de Jhoira se aproximaram uma da outra. “Entendo.” Ela olhou para Tiana.

Tiana disse: “É uma longa história.”

“Não tenho certeza se temos tempo para ela agora.” Jhoira puxou seu relógio de bolso do colete. “Estou esperando-”

Com uma lufada de vento e uma luz dourada, Ajani Juba D’ouro apareceu na praia. Ele olhou para o Bons Ventos com satisfação.

“-um amigo chegar.” Jhoira sorriu. "Agora nós estamos prontos."


Perfil do Plano: Dominária

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