A Mão que Move

Posted in Magic Story on 26 de Abril de 2017

By Ken Troop

Ken Troop is a designer and writer at Wizards of the Coast. He has written the short story "Five Brothers" for the Shadowmoor anthology and has written "Talrand, Sky Summoner" and "The Consequences of Attraction" for Uncharted Realms.

História anterior: Servos

Nissa descobriu pistas do passado de Amonkhet; uma história apagada por Nicol Bolas. Agora ela busca respostas do Deus do Conhecimento, esperando que Kefnet possa explicar a camada de verniz que parece obscurecer esse mundo.


Nissa vagou pelas ruas vazias, sentindo como se estivesse vagando pelo inferno.

Forest
Floresta | Arte de Titus Lunter

Quase todos os sentidos dela diziam que a cidade era linda. Folhas gigantes de palmeiras se moviam lentamente com a brisa suave, água fresca borbulhava em fontes e chafarizes, pássaros cantavam e chilreavam em harmonia. Cheiros irresistíveis iam e vinham pelo ar. Pão recém-saído do forno. Lírios e jasmins.

A paisagem e os sons eram dignos de um paraíso. Mas quando Nissa fechava os olhos e usava o sentido de mana, o paraíso se desmoronava.

As linhas de força de Amonkhet, o sangue e os ossos do plano, estavam atrofiadas. As linhas de mana pulsante, que normalmente são infinitas, estavam concentradas naquela cidade decadente. Ali, por trás da barreira, eram fortes e resistentes.

Mas essa resistência tinha um preço. Uma tensão sombria e perniciosa se contorcia pelas linhas de força. Não era como a contaminação definhante dos Eldrazi. A tensão tinha uma vitalidade que os Eldrazi não possuíam. A escuridão pulsante se entrelaçava com o mana, como uma cobra esmagando sua presa.

Nissa abriu os olhos, e o paraíso reapareceu. As folhas, a água, os pássaros. Ela fechou os olhos outra vez. A serpente rastejante esmagando suas vítimas. O contraste chocante entre a beleza e o horror quase a fez cair de joelhos. Ela abriu os olhos e voltou a fechá-los. As rápidas mudanças eram igualmente incríveis e nauseantes.

Ela continuou a vagar, parando ocasionalmente para fechar os olhos e contemplar o horror. O estômago e a cabeça de Nissa protestavam, mas ela continuou em frente. Ela precisava encontrar Kefnet. O Deus do Conhecimento. Ela precisava de respostas.

Quando a elfa abriu os olhos mais uma vez, o deus a encarava.

A grande cabeça de íbis a observava com firmeza, olhos vidrados e o longo bico apontado na direção dela, atravessando-a, como se a predestinasse a algum destino nefasto, não menos terrível por ser desconhecido. Ela caiu de joelhos, com a força de vontade minada na presença daquela divindade cruel.

Ela piscou uma, duas vezes. Era uma estátua. Apenas uma estátua. Kefnet, o Deus do Conhecimento. Para que serve o conhecimento em um mundo como esse? Há um câncer por trás de todos os véus. Somente um câncer. Ela se levantou devagar e desajeitada, com o estômago e a cabeça ainda dando voltas.

Por trás da grande cabeça de pedra e os olhos cruéis e fixos, duas grandes portas de pedra calcária se abriram. Um forte brilho azul emanava das sombras por trás das portas.

Uma saudação. Um convite. Ela seguiu em direção à luz azul.


Ela chegou a uma pequena antessala, e uma suave luz azul de um aposento maior, do outro lado, dava cor às paredes e ao piso de pedra lisa. As portas se fecharam em silêncio atrás dela, apagando a luz do exterior, e Nissa se sentiu aliviada por estar livre da aparência enganadora da cidade. Um jovem vestindo uma túnica clara estava em pé atrás de um púlpito de madeira, virando páginas de um livro. Ele virou mais algumas páginas enquanto Nissa se aproximava, com um sorriso sutil no rosto, mas sem dizer nada.

"Com licença . . .", a elfa começou, sem saber ao certo como se dirigir a ele. Ela nunca sabia ao certo como se dirigir às pessoas.

O jovem ergueu a cabeça, e o sorriso se fechou. "Não fale, iniciada! Você sabe . . ." A voz do jovem sumiu quando ele olhou para Nissa. Nissa sentiu um desajeitado toque em seus pensamentos periféricos. Sua associação com Jace e a telepatia dele permitiu que ela reconhecesse as tentativas de um novato. Os esforços de sondagem cessaram, fracassando em qualquer que fosse o objetivo.

"Você . . . você  . . . não é daqui," ele terminou, com a voz fraquejando.

"Vim aqui para falar com Kefnet", ela disse, com mais confiança do que talvez fosse prudente. Mas os deuses pareciam andar livremente pela cidade, fazendo com que a presença deles fosse notada por todos os habitantes. Por que não Kefnet?

Os olhos do jovem se fecharam e permaneceram fechados. O foco dele parecia ter se perdido. Nissa havia pensado que aquela câmera era um refúgio do grande engodo que era aquela cidade, mas agora estava certa de que não existia refúgio algum. Nada fazia sentido naquele mundo; nada era como deveria ser.

Talvez eu esteja trazendo o câncer comigo.

A ideia a deixou alarmada. Ela sempre julgou o mal que enfrentou em Zendikar, em Innistrad e aqui como inimigos de fora. A escuridão que vinha de fora deveria ser eliminada. Mas e se a escuridão estivesse do lado de dentro?

Talvez por isso ela sempre havia fracassado em todos os planos que visitou. Ela fracassou em proteger Zendikar. Fracassou em derrotar Emrakul. Até mesmo seus êxitos pareceram insignificantes. Talvez ela merecesse esse destino.

Ela trazia o vazio consigo, para corromper o que quer que ela tocasse.

O aposento azul agora parecia pequeno e sufocante. Um pânico emergiu em seu peito, batendo e arranhando para sair. O jovem em frente a ela continuava seu ritual inconsciente, de cabeça abaixada. Ela deu um passo incerto em direção ao aposento maior, no outro lado da sala, de onde vinha o chamado da luz azul.

O jovem abriu os olhos. "Você recebeu permissão para realizar a Prova do Conhecimento. Há três . . ." A voz dele parecia estranha, forçada. Um bando de cães selvagens perseguindo a presa. O pânico no peito de Nissa explodiu, sobrepujando a razão e o bom senso. A elfa correu para o outro aposento e, quando o homem tentou interceptá-la, ela o arremessou no chão de pedra.

Ela ainda pôde ouvir um murmúrio enfraquecido e desarticulado enquanto corria, "Não . . . você não . . ."

Ela não ouviu mais nada ao mergulhar na luz azul.


O anjo desceu do céu. Ela voava com as asas abertas entre os dois sóis, e sua forma perfeita contornada pelo esplendor solar. Os olhos dela se abriram de repente, e cobras saltaram de dentro deles. Corpos marrons e escorregadios serpenteando para fora das órbitas vazias. O anjo batia as asas, chegando cada vez mais perto, enquanto as cobras caíam no solo árido, sibilando e rastejando pela terra seca

.

O anjo abriu a boca, e o céu escureceu. Nuvens carregadas se juntavam atrás dela.

"Eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser. Qualquer coisa. Lembre-se disso."

O anjo se aproximou . . .

Nissa despertou com um grito. Suor frio escorria pela testa dela. Emrakul.

O monstro havia tomado o corpo dela em Innistrad. Mas aquelas palavras não eram apenas de Emrakul. Eram de Nissa também.

Onde estou? Ela estava buscando . . . algo. Alguém. Havia um aposento. Ela olhou para o lugar em que estava agora, diferente do aposento de antes. Uma cama portátil e um cobertor surrado. Nissa deslizou os dedos pelo cobertor puído. Seus fios grosseiros eram surpreendentemente afiados. Ela tirou a mão, ao sentir um corte. No meio da palma de sua mão havia uma linha fina, vermelha e comprida. Sangue começou a pingar do corte. O cobertor era tão afiado que chegou a cortá-la. Mais linhas apareceram pelo corpo de Nissa. Fendas vermelhas minúsculas se abriam. A dor era imensa. O cobertor a envolveu, cortando-a repetidas vezes . . .

Nissa acordou gritando. Onde estou? O sonho havia sido horrível. Algum tipo de monstro, com pequeninos dentes e garras, atacando-a . . . ela sacudiu a cabeça. Havia algo de errado. Ela olhou ao redor da cama, mas era como se estivesse embaixo d'água. Ela não conseguia focar em nada. Nissa sacudiu a cabeça, tentando clarear a visão, mas nada aconteceu.

Uma lenta paralisia começou a subir pela espinha da elfa. Seus braços e pernas pareciam estar grudados à cama, presos por alguma força implacável. Havia algo de errado. Ela fechou os olhos e sentia a irrealidade ao seu redor. Ela precisava se libertar.

Eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser. Qualquer coisa. Lembre-se disso. Palavras dela. Minhas palavras. Um clarão explosivo de luz verde dentro dela quebrou o efeito da paralisia. Ela flutuava no ar, graças ao seu poder que emergia. O que eu posso fazer? Não, essa era a pergunta errada. O que eu não posso fazer? O poder aumentava, e seu mero receptáculo de carne e osso não era capaz de contê-lo. Sua pele começou a rachar e abrir, mas ela não se importava. Seu poder a sustentava.

Este é o meu destino. Se perder no poder, no irresistível impulso de energia e linha de força. O poder crescia e queimava . . .

Nissa acordou gritando. Ela lembrou da luz, uma luz verde. Algo horrível havia acontecido, mas por mais que Nissa tentasse se lembrar, o sonho escapulia, fugindo do alcance da memória. Ela só se lembrava que havia sido horrível.

Está tudo errado aqui.

Nissa estava alarmada. Ela se lembrava de uma voz. Uma voz na mente dela. Parecia a voz dela mesma, mas era diferente de alguma forma. Ela olhou ao redor, nervosa, e sombras começaram a escorrer pelas paredes. As sombras rastejavam pelo chão, se aproximando suavemente. Nissa sabia que morreria ou algo pior, se fosse tocada por elas. Ela gritou pelos outros, mas não saiu nenhum som.

Está tudo errado.

Era a voz dela de novo. Nissa fechou os olhos com força. Ela sentia a irrealidade ao seu redor. Ela invocou o poder . . .

Pare. Preciso parar. Não reaja. Pense.

Nissa não sabia por que deveria confiar na voz, mas confiou mesmo assim. Ela respirou fundo, se concentrando na sensação do peito se enchendo de ar, enquanto inalava. Ela exalou, deixando que a respiração nutrisse seu corpo, sentindo os músculos relaxando, se expandindo.

Estou presa.

Assim que ela disse isso, parte da névoa em sua mente se dissipou. Ela havia corrido para o aposento azul, a Prova do Conhecimento, como o acólito havia dito. Nissa ainda sentia as ilusões e fantasmas à espreita, acariciando a mente dela com um chamado mórbido. Foi um pesadelo atrás do outro, em uma em sequência implacável.

Ela respirou fundo outra vez. Isso é magia. Uma magia poderosa. A elfa estremeceu ao se dar conta do eterno pesadelo que um iniciado despreparado teria que enfrentar caso fracassasse naquela prova. Mas por mais poderosa que fosse, a magia era feita de linhas de força. E disso Nissa entendia bem.

Durante quase toda sua vida, a compreensão e a manipulação das linhas de força sempre foram instintivas. Mas cada vez que ela usava seus instintos aqui, acabava presa em outro pesadelo. Ela precisava de mais do que instintos. Ela precisava entender.

Nissa observava e sentia atentamente a estrutura mágica ao redor, a forma como as linhas de força se entrelaçavam para produzir um efeito tão horrível e real. Ela estava admirada com a força e a habilidade necessárias para criar uma armadilha assim. Estava além de qualquer coisa que ela já havia feito. Até o momento.

Ali. Nas tramas mágicas em volta dela havia uma minúscula lacuna. Pequenina, porém perceptível. Nissa puxou o mana, mantendo os olhos fechados e apenas sentindo a magia. Ela cutucava e empurrava a abertura, aumentando-a a cada toque.

As ilusões se intensificaram ao redor dela, chamando seu nome, implorando para que abrisse os olhos, para ver o deleite e o horror, a verdade e a fantasia, qualquer coisa que ela quisesse, bastava levantar uma pálpebra. A elfa continuou de olhos bem fechados e, assim que a abertura na prisão ficou grande o bastante, Nissa a atravessou.


Ela flutuava em um céu azul e aberto. Não, não era bem um céu. Uma tela azul, vazia, esperando um significado. Mais ilusão, mas Nissa sentiu um certo controle, uma consciência, que a havia eludido durante os pesadelos. Lá embaixo, Nissa viu o que restava da armadilha de pesadelo, redemoinhos cor de violeta que haviam produzido aquele terror.

E agora ela podia enxergar através das ilusões, a arquitetura da magia por trás delas. Até as fundações desta Prova do Conhecimento, projetada de forma tão cruel.

Eu quero ver. Quero ver mais.

Nissa deixou as ilusões rodopiarem ao redor dela, cada vez mais fortes e velozes. Uma batida rítmica ecoava no aposento, uma pulsação que ressoava o próprio coração dela. Ela fechou os olhos. E testemunhou.


Uma serpente escura, alada e venenosa, projetava sua sombra sobre o deserto. A serpente era imensa, maior que um carvalho, maior até que uma floresta de carvalhos. A sombra dela cobria o mundo todo.

A sombra falou, e sua voz ecoou por todo deserto vazio. "Querer tomar meu poder. Querer tomar minha essência. Isso eu não irei permitir."

A sombra da serpente se enrolava ao redor do mundo.

"Para o que necessito, preciso sugar o mundo todo. Devorarei a todos. Mas começarei aqui."

A sombra começou a apertar. O mundo gritou. Nissa gritou.

O cenário desmoronou, fugindo da dor.

Nissa olhava para o espaço, para as estrelas. Oito estrelas. Oito estrelas em um círculo, com espaços simétricos entre elas, iluminando todo o céu noturno.

Uma linha de escuridão, de alguma forma visível mesmo à noite, uma linha que cintilava escuridão se aproximava das oito estrelas. A linha se contorcia, girava e vibrava, pulsando com um ruído violento. Quando a linha parou de se mover, formava o número oito na horizontal, uma cobra comendo a própria cauda. A cobra circundou todas as oito estrelas, cada uma brilhando desesperadamente contra a cortina de escuridão posicionada sobre elas.

Três das estrelas se apagaram. Não havia mais luz e calor emanando delas. Suas vidas chegaram ao fim.

Mas Nissa ainda via uma movimentação onde as três estrelas haviam estado. Ficaram apenas três rasgos no tecido do céu, sem estrelas. Três buracos negros, com energia e fúria próprias, pulsando em um ritmo malévolo.

As cinco estrelas restantes se moveram, com um novo alinhamento definido, todas rendidas à linha sombria costurada sobre a constelação delas. O novo contorno das estrelas sugeria um par de chifres.

O cenário mudou, e os redemoinhos de ilusão se moveram para pintar outra tela.

Figuras estranhas cobertas de branco cavavam curvadas a areia dura. Múmias, eram chamadas. Os ungidos. Centenas, milhares de múmias cavavam em um buraco profundo e extraíam um minério azul. Carroças carregadas de minério eram arrastadas em uma grande processão até a cidade.

Longe dali, três crianças pequenas pararam diante de uma barreira. A linda cidade de um lado, e do outro, o desolador vazio do deserto. Eles sussurravam entre si. Olhavam ao redor e se entreolhavam. Inseguras. Uma das crianças segue adiante. As outras duas vão atrás. Todas as três são engolidas pelas areias famintas.

Um novo cenário.

Nissa viu um jovem, com o rosto apagado, tropeçando por um jardim de estátuas. No céu acima do homem, uma nuvem escura cada vez maior avançava contra o sol. Um estrondoso rugido se ouviu de algum lugar de fora do jardim.

Outra mudança.

Nissa viu um mundo, depois dezenas, centenas de mundos. Milhares. Ela viu o mundo de Amonkhet, e enrolada ao redor dele havia uma linha escura e sinuosa. Aquela linha se prolongava por todos os mundos, todos os milhares de mundos, e ela viu uma linha contínua de escuridão saindo de Amonkhet e indo até o início dela.

Outra mudança.

Um grande disco dourado estilizado em forma de sol descia do céu. O disco solar se aproximou de um grande bloco de pedra circular com símbolos estranhos, e os dois discos se fundiram, tornando-se um único disco dourado. Começaram a aparecer rachaduras no disco dourado, pequenas no início, e logo crescendo cada vez mais. O disco acabou se esfarelando, desintegrando-se.

Os cenários mudavam mais rápido agora, mal dando tempo de formar imagens antes de serem substituídos. Uma tocha apagada. Um relógio quebrado sem números. Uma cabeça mumificada virada para trás sobre um corpo mumificado. Uma árvore partida ao meio, com sua seiva escorrendo pelo solo. Um escudo estilhaçado, com seus pedaços metálicos e brilhantes espalhados.

Nissa fechou os olhos, mas as imagens chegaram rodopiando na mente dela, e ela se contorceu em pleno ar. Um dragão caía. Gigantes, cobertos de azul metálico, passavam pisoteando pelas ruas. Um imenso clarão de luz consumindo um mundo.

Um anjo descendo do céu.

Nissa abriu os olhos, e o anjo continuava descendo. Era o anjo do pesadelo dela. O anjo que a fez lembrar de Emrakul.

Os olhos do anjo estavam abertos, mas ao contrário do sonho, não havia serpentes, somente órbitas brancas, vazias. Ela pousou em frente à Nissa.

"O que está esperando? Eu mostrei como usar os poderes. Use-os." A voz do anjo era uma brisa fresca e melodiosa. Belíssima. Feita da mesma beleza de Amonkhet; puro horror por trás.

Nissa tentou invocar o poder dela, mas nada aconteceu.

Eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser. Qualquer coisa.

Só que ela não conseguia. Ela permaneceu lá, presa no chão, e o anjo continuava falando com sua linda voz.

"Você é um peão? Ou uma rainha?"

"Quem é você?" Nissa gritou. Ela sabia que não podia ser Emrakul, em sua prisão de prata a mundos de distância. Era apena outra ilusão, outra criação nascida de magia e dos seus próprios pensamentos. "Me deixe em paz!" Vá embora!" Nissa abaixou a cabeça, angustiada, com uma dor intensa florescendo em sua cabeça. A elfa fechou os olhos, mas o anjo continuou lá na frente dela, claramente visível, mesmo que ela não estivesse olhando.

"Nissa Revane. Você é um peão ou uma rainha?"

"Eu . . . eu não sei. Eu só queria . . ."

"Não!" A voz do anjo se tornou fria e dura. "Esta é a pergunta errada! Peões, rainhas, são todos peças! São todos peças que querem se mover."

O anjo segurou o queixo de Nissa. Ela levantou a cabeça de Nissa gentilmente, encarando-a. Não havia amor naquele olhar, mas ele a confortou mesmo assim. Sua cabeça parou de doer.

"Pare de ser apenas uma peça, Nissa. Seja a mão que move." Um grande estrondo veio de trás das duas. O anjo olhou para trás de Nissa, e algo mudou na expressão dela. Sem dizer mais nada ou sequer se despedir, o anjo abriu as asas novamente e partiu, tornando-se apenas um ponto no céu.

Uma nova voz ecoou. "Quem ousa zombar da minha prova?"

Nissa olhou para cima. Uma íbis gigante estava em pé em frente a ela, coberta com uma túnica azul e adornos dourados, segurando um longo cajado laminado em uma mão. Ele tinha o mesmo olhar penetrante e quase cruel da estátua em frente ao templo. Mas ele não era uma estátua. Era o próprio deus, Kefnet.

E ele não parecia contente.


Nissa já havia enfrentado titãs de Eldrazi e demônios magos, mas nunca havia se sentido tão sobrepujada pela simples presença poderosa de alguém.

Seus pensamentos e sua própria consciência se esforçavam para manter a coerência em frente a Kefnet; um esforço semelhante a um monte de folhas resistindo a uma ventania.

"Quem é você, mortal?" Ideias e memórias eram arrancadas da cabeça de Nissa contra a vontade dela, deixando a mente da elfa dispersa como sementes em um campo. Era inútil contestar. Ela tentou manter o controle em meio à ventania para sobreviver a ela.

"Entendo. E por que veio aqui? Em busca de respostas?" Nissa não conseguia interpretar o tom de voz dele ou sua expressão facial e não entendia nada ao redor dela. Todo seu foco estava voltado para manter a coerência. E ela estava perdendo a batalha.

"Eu tenho uma resposta para você, mortal, uma das mais antigas respostas. O conhecimento não é um dom. Ele deve ser adquirido. Somente os dignos merecem o conhecimento." Kefnet continuava tocando nos pensamentos dela. "Os indignos nada merecem. Eu lhe ofereço a gentileza da dissolução. Antes nada do que a ignorância."

Nissa estava sendo destruída. "Não . . ." foi a única palavra que ela conseguiu articular. Ela pensou no maligno Nicol Bolas e como ele corrompeu Kefnet e os outros deuses, mas assim como seus outros pensamentos, esse também foi capturado pelo toque de Kefnet. Ele não parecia saber ou se importar com o toque cancerígeno de Nicol Bolas em sua essência.

Mesmo com dificuldade, ela conseguiu enxergar a essência do deus, feita do próprio mundo. As linhas de forças corrompidas de Amonkhet eram os mesmos filamentos de corrupção em Kefnet, uma estranha mescla de potência e virulência, oposta à atração de Nissa pela beleza natural de um mundo. As linhas de força dentro de Kefnet eram minúsculas fibras, tão juntas que seria fácil não percebê-las.

O Deus do Conhecimento era feito de linhas de força. Linhas de força que ela podia manipular.

Nissa lançou desesperadamente um feitiço nos segundos que lhe restavam. Uma infusão mágica irrompeu das mãos dela, cobrindo as linhas de força de Kefnet, penetrando pelos poros de sua superfície. A elfa conduziu a magia através da essência de Kefnet.

Ela lembrou de ter testemunhado Nicol Bolas corrompendo os deuses, um espiral escuro no céu noturno. Nissa não podia desfazer o que ele havia feito, mas usou parte desse conhecimento para criar uma pequena trama improvisada.

Ela viu a trama que queria. Ela trouxe a trama para si e adicionou uma nova fibra de mana à mistura.

A ventania cessou. Kefnet estava lá, imobilizado, enquanto os pensamentos de Nissa voltavam a pertencer somente à ela. Ela respirou fundo, tremendo, ciente do quão perto ela havia chegado do fim.

"Pode ir agora, iniciada. Você passou na sua prova." O deus íbis mal parecia perceber a presença dela ao abrir as asas e decolar para outro destino.

O feitiço dela foi desajeitado, lançado às pressas. Nissa era apenas uma amadora para manipular um deus. Não, manipular era um termo muito forte. Ela apenas o alterou o bastante para que ele não quisesse mais destruí-la. E funcionou. Ela ainda podia respirar, viver e pensar. Pensar. Isso sim é um dom. Um que eu preciso usar mais vezes.

A, apesar de ser obra de uma amadora, a trama criada por ela permaneceu em Kefnet. Ainda havia um fio que Nissa poderia puxar . . . para algum efeito que ela ainda não sabia. Mas ela suspeitava que haveria um momento certo para descobrir. A elfa estava cansada de ser um peão, tendo que reagir constantemente a pesadelos e fracassos, sem nunca avançar.

E talvez até o destino de rainha seria pequeno demais.

Ela ouviu uma voz, sua própria voz, clara como um sino de cristal.

"Seja a mão que move."

Nissa dissipou as ilusões ao seu redor. Ela ainda estava na mesma antessala em que havia entrado, mas dessa vez não havia ninguém além dela. Ela empurrou a porta de volta para a cidade, e ela se abriu, expondo o vibrante e perigoso mundo no lado de fora. Ela saiu.


Amonkhet - História do Arquivo
Perfil de Planeswalker: Nissa Revane

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