A Talentosa Capitã Vraska

Posted in Magic Story on 20 de Setembro de 2017

By R&D Narrative Team

CASA DOS OCHRAN, RAVNICA

Vraska encontrou o convite do dragão pela primeira vez fechado dentro de uma cópia do livro que ela estava lendo na época.

Seu nome estava escrito na frente com tinta dourada, e o papel tinha um aroma distante de sândalo e cinzas e magia. Quem quer que tenha enviado isso magicamente tinha um toque delicado o suficiente para saber exatamente como alcançá-la.

A princípio, ela se irritou - os Ochran tinham recebido um cliente novo e ela tinha passado sua cota diária de sombras e segredos nos cantos escuros de Ravnica. Ela estava morta de vontade de se aninhar à frente da lareira em seu apartamento com a história que obtivera em suas últimas férias. Mas toda a irritação desapareceu quando ela leu o convite.

"PLANO DE MEDITAÇÃO"

Vraska cerrou os olhos. Ela segurou o papel na altura do rosto e o inclinou. A luz da lareira refletia uma névoa azul quase imperceptível sobre as palavras, e ela percebeu que a tinta fora encantada com algum tipo de informação.

Ela pousou a mão sobre as letras e sabia imediatamente onde ela deveria ir e o que deveria fazer quando chegasse.

Tudo veio em um lampejo — um plano longínquo com uma textura artificial, águas azuis e colinas que flutuavam longe de suas bases, e sua localização dentro do Multiverso fixada em sua mente de forma delicada. Depois que ela chegasse, uma mágica provaria que ela era quem dizia ser, e lhe garantiria entrada.

Vraska estava intrigada. A coisa toda parecia uma armadilha, então ela colocou seus sapatos sem salto caso ela precisasse escapar.

Ela se concentrou na localização em sua mente, seus aposentos obscureceram em sombras, e ela transplanou por um corte escuro em meio ao ar.

Pools of Becoming
Pools of Becoming (Planechase) | Ilustração: Jason Chan

Ela chegou em um pátio coberto por uma lâmina de água e cercado por todos os lados por arcos de relâmpago violeta, como se fosse uma gaiola.

Era algo alarmante, mas Vraska lembrou-se do que o restante do convite lhe informara. Ela fez o melhor que pôde para se lembrar da mágica que lhe garantiria entrada.

Ela estendeu uma das mãos e fez um círculo amplo no ar à sua frente. Com a outra mão ela fez uma série de gestos precisos. Vraska canalizou mana suficiente na mágica para que ela manifestasse um leve brilho de energia sombria no momento em que os dedos de sua mão esticada completavam o círculo.

O brilho desapareceu e a gaiola de magia sumiu. A senha funcionou.

E um dragão tremeluziu à sua frente.

Ele era dourado, vasto e sinuoso, com uma expressão impossível de ler e uma calma estranha em sua presença. Vraska deu passos largos (mas confiantes) na água à altura de seus tornozelos.

Ela nunca vira um dragão tão imenso e ao mesmo tempo tão humano. Isso a deixava nervosa, mas ela se recusava a demonstrar qualquer intimidação.

"Vraska, assassina Ochran," disse ele com voz trovejante, "fico feliz que tenha aceito meu convite. Eu sou Nicol Bolas, e gostaria de contratar seus talentos."

Vraska cruzou os braços, desinteressada. "Não estou procurando por clientes novos," respondeu ela, entendiada.

"Não estou interessado em suas habilidades como assassina."

Ela parou de se mover.

Vraska nunca tinha sido contratada para fazer qualquer outra coisa além de matar.

Havia um tinido em seus ouvidos, e ela tinha a estranha sensação de que o dragão ouvira o que ela acabou de pensar.

Ele ergueu sua massa à sua altura total. Nicol Bolas era uma torre à sua frente, um fio dourado contra o céu, com a postura menos reptiliana que sua anatomia lhe permite.

"Você deseja liderar..." devaneou ele, para o horror de Vraska. "...Você quer um mundo melhor para os seus. Pelo respeito que merecem, você daria tudo."

Você leu minha mente?

Eu estou lendo sua mente neste momento.

Os braços de Vraska descruzaram, largados. Aterrorizada, seu queixo estava caído e seus ouvidos ainda tiniam com a intrusão do dragão, e ela começou a carregar a magia necessária para petrificar um inimigo deste tamanho.

O dragão abaixou sua cabeça. Seus olhos eram grandes como pratos de jantar, e seus dentes eram longos como adagas. Nicol Bolas sorriu.

"Eu posso transformar você em Mestre de Guilda dos Golgari, Vraska."

Sua respiração travou em seu peito.

Ela pensou em Mazirek, nos kraul, no restante dos assassinos Ochran e no malígno Jarad, que reinava levianamente arruinando os mais oprimidos dentre os oprimidos. Ela se lembrou dos seus anos em isolamento, da crueldade hedionda dos Azorius, e de como nenhum grupo merecia sofrer tanto quanto os que subjugaram os seus.

Tudo o que ela mais queria era eliminar aquele inferno.

Ela respondeu com a voz trêmula. "O que você quer em troca?"

"Existe um lugar no continente de Ixalan, em um plano longe daqui. Este lugar é conhecido como a Cidade Dourada de Orazca. Colete o item que se encontra neste lugar, invoque meu colaborador para transportá-lo, e eu te darei os meios para elevar sua guilda à glória que ela merece. Você terá um império, Vraska, caso seja bem-sucedida em sua missão."

Ela se sentia empolgada, em alerta, e vexada ao mesmo tempo. Ninguém nunca a contratou para fazer qualquer outra coisa além de matar.

Tudo nesta missão lhe parecia perigoso. Nada nesta fera lhe parecia confiável. Mas Vraska lembrou-se de sua vida de contrato a contrato, morte a morte, realizando um papel que lhe fora conferido, sem oportunidades de escapatória.

O dragão a encarava.

Ele queria uma resposta.

E ela queria liderar.

Contra todo seu julgamento, ela se curvou.

"Eu aceito seus termos," disse Vraska.

Eu posso traí-lo se tudo o mais der errado.

"Não," disse Nicol Bolas. "Não pode."

Ele acenou com uma de suas garras e Vraska sentiu o tinido em seus ouvidos desaparecer. O dragão abandonara sua mente.

"Você vai precisar disso," disse ele, erguendo a garra mais uma vez. Algo pesou no bolso de seu vestido.

"Esta é a bússola taumática," disse o dragão. "Ela apontará o caminho para a Cidade Dourada. Eu também lhe darei um presente: conhecimento sobre dois conceitos."

O dragão estendeu a garra elevada.

"Você vai usar esta mágica para chamar meu colaborador quando você tiver chegado ao centro da Cidade Dourada..."

Uma pontada de enxaqueca espetou as têmporas de Vraska. Seus joelhos tremeram com o massacre repentino de informação. A mágica era complicada, e tinha a intenção de passar por entre mundos - mas até chegar a quem? Não importava; a mágica fora projetada para ter apenas um destinatário, em apenas um local. Ela não tinha privilégios da informação sobre quem esta pessoa era.

Ela se sentia tonta, mas completamente maravilhada. Vraska nem sabia que aquele tipo de mágica era possível, mas ainda assim ela já a sabia de cor. Uma linha única que alcançaria um único indivíduo por entre os mundos. Ela não conseguiria enviar uma mensagem, mas ao puxar esta linha metafísica o destinatário saberia o que fazer. Era incrível, e bastante assustador.

Mas o dragão não tinha terminado.

". . . Você também vai precisar saber navegar."

Dessa vez, o impacto do peso psíquico derrubou Vraska.

Ela caiu de joelhos e com as mãos no chão abaixo da camada de água que cobria este plano. Ela perdeu o fôlego com o fluxo de conhecimento. Bujarrona chicote sotavento guarda-vento castelo-de-proa empalme sobre-joanete andamento bombordo estibordo— a mente de Vraska foi subjugada por um oceano de conhecimentos. Ela cerrou os dentes e baixou sua cabeça dolorida até que a testa encostasse na água.

Inspirou. Expirou.

Ficou ali, parada, sem forças. O vasto catálogo de conhecimentos náuticos em sua cabeça parecia uma mistura atroz de ressaca e sessão de estudo. Ela conseguiu não vomitar.

"Você ficaria surpresa com o que alguém aprende em milênios de tédio," devaneou o dragão. "Eu nunca vi utilidade nisso, mas você e sua falta de asas vão precisar disso para cruzar os mares."

Vraska tremia e sua cabeça doía. Nó de estiva escota direito fiador — os termos e técnicas de conhecimentos enciclopédicos se chocavam contra os cantos de sua mente, tombando uns sobre os outros enquanto ela tentava catalogar tudo mentalmente.

O dragão não se importou.

"Parta para sua jornada. Você não poderá voltar até completar sua tarefa."

Os fins justificam os meios, Vraska disse a si mesma, enquanto sua mente ainda categorizava o montante de técnicas e termos que o dragão carimbou em seu cérebro. E se eu fizer isso, consigo tudo o que sempre quis para mim e para os meus.

A área em torno dela obscureceu em sombras. Vraska passou por um rasgo de noite dentro do ar diurno e transplanou para casa.

Ela tinha que se preparar.


MAR DOS DESTROÇOS, IXALAN

O brilho do sol de meio-dia transformou o mar cinzento em um ciano cintilante. Uma brisa morna como um banho de banheira deslizava sobre as ondas gentis, e uma grande escuna deslizava sobre a superfície turquesa das águas. Vozes gritavam mais alto que o farfalhar das velas, e a luzinha maior da agulha na bússola encantada na mão da Capitã Vraska pulou violentamente para o sul.

Ela ergueu a outra mão esmeraldina. "Navegador!"

Malcolm, o navegador, voou até o tombadilho superior e se aproximou da Capitã Vraska. Ele era um sireno com dons natos na arte da navegação, e membro da Coalizão Brônzea há muito tempo. Um celestialista especializado no uso de mapas, bússolas e astrolábios (combinados com mágicas) para adivinhar mais informações a partir das estrelas.

Siren Lookout
Vigia Sireno | Ilustração: Chris Rallis

"O que houve, Capitã?"

Vraska mostrou a bússola taumática. "Precisamos ir para o sul."

Malcolm, navegador cuidadoso que era, fez um muxoxo de preocupação. "Tem certeza?"

Vraska assentiu. "Nós vamos para onde ela apontar, e agora precisamos ir pr'aquele lado."

Ela entregou a bússola a Malcolm. Ele a segurou perto dos olhos, como se a proximidade lançasse alguma luz quanto ao propósito do artefato. Ele suspirou e olhou para sua capitã. "Teu financiador nunca disse pra onde essa coisa aponta, exatamente?"

Vraska suspirou. "O Lorde Nicolau não quis me dar essa informação. Suas instruções eram somente encontrar o objeto para onde ela leva, e recuperá-lo."

A contramestre subiu os degraus e olhou para Vraska. "Capitã, a tripulação aguarda suas ordens."

Amélia, contramestre d’A Truculenta era tão alta e tão robusta quanto o mastro do traquete. Ela era encarregada dos cuidados diários com o navio, e também supervisionar a distribuição de pagamentos - incluindo a pilhagem. Além disso, ela era uma maga-de-leme talentosa e tinha um dom sobre a magia dos navios. Suas mágicas levantavam as brisas e também as velas, além de amarrar nós apertados com um só toque. Ela ganhou a eleição de contramestre com grande vantagem, e sua tripulação sabia que era melhor não irritá-la. Amélia tinha uma inclinação especial para usar suas habilidades com as velas para punições - afinal, fazer qualquer atividade enrolado em uma vela de lona não era nem um pouco agradável.

Malcolm encarava a estranha bússola. "Mas esta direção aponta pra longe do continente de Ixalan. A Cidade Dourada não é uma ilha nesta costa. . ."

Vraska o incentivou. "Com todo o respeito, Malcolm, você é o navegador aqui. Se você acha que não devemos cumprir nossa missão, que é seguir essa bússola, é decisão sua. Eu imploro: confie em mim como eu confio em você."

O navegador apertou os lábios. Ele olhou para o cata-vento e assentiu para si mesmo com a cabeça.

"Traçar rota para o sul," disse ele, firmemente, para Vraska. Vraska olhou para a contramestre e confirmou, "Traçar rota para o sul." Amélia assentiu com a cabeça e virou-se para o restante da tripulação logo abaixo deles. "Traçar rota para o sul!" transmitiu ela.

A tripulação foi repetindo a ordem da contramestre ao longo do navio, para que cada um deles soubesse. Parecia uma canção folclórica de roda, cantada sobrepondo refrão após refrão em sua viagem ao longo d’A Truculenta. Vraska não conseguia se segurar e sorria com esse efeito.

Imediatamente, a tripulação passou a erguer as velas, ajustar o cordame e preparar tudo para a mudança de curso. O navegador se moveu para perto do leme, sentou-se e girou o timão para um lado. A Truculenta começou uma curva. A mistura de humanos, ogros e goblins que compunha a tripulação trabalhava diligentemente. Todos eram habilidosos e capazes, e só nutriam lealdade uns para com os outros.

Talvez nosso prêmio esteja mais perto do que pensamos, Vraska devaneou consigo mesma.

"Onde será que o Lorde Nicolau conseguiu esta bússola, hein?" perguntou Malcolm. Ele girava o timão de volta para a posição neutra, agora que o navio completara sua curva.

"Nosso cliente é um colecionador de coisas raras e curiosíssimas. Ela foi um empréstimo de sua coleção privada de itens mágicos para navegação."

Amélia assentiu, acendendo um cachimbo que tirou de um bolso em sua casaca. "Você já trabalhou pra ele antes?"

"Não. Ele entrou em contato comigo somente antes desta missão. No começo, eu não tinha certeza se deveria aceitar, mas ele estava confiante que eu seria a pessoa certa para o serviço."

"Ele sabe julgar bem teu caráter," disse Malcolm com um sorriso reconfortante.

Vraska enrugou o nariz. ’Bem’ é dizer demais.

"Ele tem expectativas elevadas." respondeu ela. "Grande risco, grande recompensa."

Malcolm deu um sorriso largo. "Eu vivo bem com essas chances. Tenho que avisar meu amor para esperar um navio cheio de ouro quando voltarmos."

"E será um navio cheio mesmo, meu amigo," disse Vraska com um aceno de cabeça.

E ela falava a verdade.

A confiança implícita entre Vraska e sua tripulação transformou o que deveria ser um teste desafiador e assustador de suas habilidades no período mais satisfatório da sua vida. Ela passara os meses anteriores reunindo sua tripulação. Apesar de inicialmente ser difícil convencer estranhos a tripular para uma capitã desconhecida, Vraska provou seu valor com pagamentos justos, um conhecimento realmente fenomenal sobre técnicas de navegação, e um senso de proteção sobre todos que ela via como ‘dos seus’. As pessoas deste plano eram teimosas, boca-suja, e moralmente fluidas - e Vraska adorava isso. Ela garantiu seu próprio navio com pagamentos robustos e bastante negociação, e logo navegou para começar sua jornada.

Em Ravnica, górgonas só podiam ser uma coisa. Mas aqui? Uma górgona podia ser o que diabos ela quisesse. Vraska se deleitava com essa liberdade e ficava radiante de orgulho ao pensar sobre como ela lideraria o Enxame Golgari quando voltasse para casa.

Vraska, Malcolm, e Amélia — capitã, navegador e contramestre — começaram a conversar sobre a logística de sua expedição, inspecionando seus mapas e trajetos para planejarem a melhor rota após chegarem ao continente de Ixalan.

A bússola acabou sendo difícil de interpretar. Ela mudava de direção ocasionalmente e horas depois voltava ao ponto anterior, e suas várias agulhas apontavam em várias direções diferentes. Vraska seguiu o raciocínio que a maior das agulhas apontaria para onde ela precisava ir, mas a confiabilidade deste raciocínio começou a ficar questionável.

Ela se perguntou o que o dragão faria caso ela falhasse.

Naquele mesmo dia, um membro da tripulação avisou de cima do ninho-de-corvo.

"Alto lá! Homem na areia!"

Edgar, o outro mago-de-leme do navio, cerrou os punhos e com sua vontade fez com que as velas do navio descessem sob uma luz azul e cintilante. Pela segunda vez naquele dia, A Truculenta desceu as velas e parou.

Algumas rochas estavam amontoadas nas águas próximas, e o topo delas estava coberto com uma grossa camada branca. Havia centenas de pontinhos - pássaros costeiros e seus ninhos. Em uma dessas rochas havia outro amontoado de roupas azuis e pele rosa com queimaduras solares.

Amélia olhou pelo lado da embarcação e virou sua face redonda para Vraska. "A gente manda o Malcolm?"

"Não." disse Vraska, irritada com a ideia de ter mais uma boca para alimentar na viagem, "Prepare o bote. Quero olhar bem para ele primeiro." O timoneiro (um homem de cara azeda chamado Gavven) preparou um barco pequeno para trazer o náufrago à bordo, e Vraska se inclinou na beira do navio para ver que tipo de criatura havia sido encontrada.

Ele estava deitado de barriga para cima em um pedaço da formação rochosa que não estava coberta de excremento de passarinho. Ele tinha cabelos escuros e abanava moscas com o que lhe sobrara de energia. Havia uma pilha de roupas azuis sob sua cabeça, mas encostando na água ela viu um pedaço de tecido azul com símbolos brancos bordados na frente, que ela conhecia bem.

O coração de Vraska parou por um segundo.

Não.

Era o Jace Beleren.

Como diabos ele me encontrou?!

Vraska nem se preocupou em responder. O pânico e a fúria incendiaram sua mente e ela se preparou mentalmente para matar aquele homem assim que pudesse olhá-lo nos olhos. Ela tomou toda precaução e toda medida, usou cada grama de seu talento como assassina para evitar ser vista. Ninguém de Ravnica sabia onde ela estava, e nenhum planeswalker deveria conseguir encontrá-la. O que diabo Jace estava fazendo aqui?

Vraska largou sua luneta nas mãos emplumadas de Malcolm. "Deixa que eu lido com ele."

Ela subiu no bote e gritou para que Gavven entrasse e baixasse o bote. Edgar, o mago-de-leme, os seguiu e tomou os remos.

Edgar anunciou, "Descendo com a embarcação de fora!" Os três se sentaram e Edgar fez um gesto preciso para descer o bote. O bote bateu na superfície da água e Vraska rapidamente desprendeu os ganchos que desceram sua embarcação.

Ela se sentou novamente enquanto Edgar remava e Gavven controlava o leme do bote para chegar até Jace. Com cada remada ela se sentia mais resoluta sobre o que precisava ser feito.

Ele deve estar me seguindo desde o começo. Assim que eu me aproximar, preciso petrificá-lo antes que ele consiga desmontar essa fachada de náufrago e apagar minha mente. É claro, que de todos os gaiatos irritantes do Multiverso, tinha que ser ele.

"Eu te diria pra não ir embora, mas seria um pouco discutível. Parece que você transplana e dá de cara em uma janela, não é?" gritou Vraska.

Edgar e Gavven olharam para ela confusos, mas Vraska não se preocupou em explicar o que seria "transplanar". Ela estava com raiva demais.

"Meu navio precisa de uma carranca nova, Beleren! Me diga para quem está trabalhando e sua morte será indolor!"

Vraska invocou aquele pequeno lampejo no fundo de sua mente e sentiu seu olhar carregar com a magia de petrificação que só as górgonas têm. Ela ficou de pé, sentindo sua própria magia como um leve calor atrás de sua face, e virou-se em um movimento rápido para olhar nos olhos de seu inimigo.

Mas ele tinha os olhos fechados, grudados pelo sal e pelo sono, e suas bochechas emagrecidas estavam cobertas com uma grossa barba que escondia as tatuagens do seu rosto. Seus braços estavam magros, mas fortes; ainda assim, Vraska conseguia contar as costelas sob seu torso queimado pelo sol.

Pelos deuses, o que aconteceu com ele?

Ele parecia ter alguma doença devastadora. Não havia nenhum sinal de água doce na ilha, ou evidências de algum modo para sobreviver. A aparência dele a desconcentrou em suas ações.

Ele podia inclusive já estar morto.

Jace tossiu e abriu os olhos. Vraska apagou a chama em sua mente e olhou para ele sem magia em seus olhos.

Eu posso matá-lo depois que ele me der algumas respostas, droga.

"Jace, o que diabos aconteceu com você?"

As palavras saíram dela mais como fato do que como pergunta. Ela devia tê-lo matado ali mesmo, mas a lógica que lhe dizia que isso devia ser feito rapidamente foi desfocada porque. . . era ele.

Por que era sempre ele?


Jace terminou sua primeira tigela de mingau em dois minutos, e tomou sua jarra de água doce em menos tempo ainda. Ele não disse uma palavra desde que chegara. Ele olhava para as galés d’A Truculenta com interesse curioso, mas ao mesmo tempo sobrecarregado de informação. Vendo mais de perto, Vraska estava impressionada com o quanto ele mudara desde que ela o viu pela última vez. Não é possível que ele escondia músculos sob aquela capa por esses anos todos.

Eles estavam sentados nas galés e a tigela aos pés de Jace estava agora vazia. Vraska fez um aceno de cabeça para sua tripulação deixá-la sozinha, puxou um banco e sentou-se diretamente à frente do mago mental.

Os cabelos serpentinos de Vraska crispavam-se perto de seu rosto. "Você tem dois minutos para explicar como me encontrou antes de eu fazer você virar pedra e fazer de você um peso de papel, Jace."

Ele piscou uma vez com os dois olhos.

Ela ergueu uma sobrancelha.

Jace sacudiu a cabeça. "Eu não estava procurando por você, porque eu não sei quem você é."

As duas sobrancelhas de Vraska levantaram o mais alto que podiam.

"Você está tentando fazer uma piadinha, Beleren?"

Ele fechou a boca e sacudiu a cabeça mais uma vez. "Eu não lembro de nada que aconteceu antes de ter acordado na primeira ilha."

Na primeira ilha?

Vraska pegou a colher que ele usara e jogou no centro do peito dele. Ele tentou bater no projétil, e errou.

"Ei!"

Não dá para fingir ser desajeitado assim. "Não é uma ilusão," concluiu ela.

A irritação de Jace evaporou e ele ficou felizmente surpreso. "Você sabe que eu sei fazer isso?" Ele deu um meio-sorriso pequeno.

Vraska nem conseguia acreditar. Por que ele estava tão contente? Onde estava o Pacto das Guildas sorumbático e pálido que ela conhecia e desprezava?

Ela apertou os lábios. "Você é um ilusionista. Não é ator. Por que ainda está mentindo?"

"Você sabe mais sobre mim do que eu. O que eu ganho mentindo?"

"Bastante," respondeu Vraska, inexpressiva. "Eu acho que você está fingindo."

"Qual é o seu nome?"

Que inferno. Eu tô no inferno, sério.

"...Meu nome é Vraska."

"Vraska." Jace sorriu um pouco. "Seu nome parece ter uma raiz linguística diferente da minha. De onde você é? "

"Você sabe muito bem de onde eu sou, seu merdinha."

Jace pareceu visivelmente magoado.

Eita.

Vraska se sentiu. . . mal?

Ele está igual a um cachorro perdido, pensou Vraska. Ele é um labrador humano. O que aconteceu com ele?

Seria melhor se Jace estivesse morto, mas ele era praticamente inofensivo neste estado. Ela tinha uma regra pessoal de não matar que não merecesse de algum modo, e aqui estava um homem sem passado em sua mente, sem pecado no coração, e com um pé na cova.

Desconfortável, ela se levantou e foi até o fogão. Tudo isso era estranho, inesperado e bem longe do que esta demanda devia ser.

Vraska não tinha certeza alguma do que fazer, então ela fez a única coisa que ela sabia que diminuiria sua sensação de desamparo.

"Você quer açúcar no chá, Jace?"

"Vamos descobrir," disse ele, com um olhar brincalhão.

Vraska suspirou. Isso vai cansar rápido.

Jace se ocupava sozinho, e ela ficou de olho nele enquanto preparava o chá.

Não existia mistério algum em seus movimentos; ele estava inteiramente no presente. Não havia mais aquele Pacto das Guildas que Vraska conhecera, que escondia suas incertezas com impaciência e se envolvia em melancolia. Aqui estava uma versão esbelta, sincera e estranhamente amigável do segundo telepata mais perigoso do Multiverso.

"Como a gente se conheceu?" perguntou Jace, mal se aguentando de curiosidade.

Vraska lembrou-se vagamente de matar pessoas horríveis com nomes convenientes para chamar a atenção do Pacto das Guildas há tantos anos atrás.

Era de se confessar que foi uma abordagem desajeitada.

"Eu pedi que você trabalhasse comigo e você recusou."

"O que você estava pedindo que eu fizesse?"

Vraska escolheu suas palavras cuidadosamente. "Eu queria ver se trabalhávamos juntos para tirar algumas pessoas muito más de posições muito importantes." Depois, ela colocou o chá em uma caneca e a entregou para Jace.

Jace tomava golinhos cuidadosos do chá. "O que essas pessoas más fizeram?"

Vraska apertou os lábios e virou de costas para ele. Me prenderam. Me espancaram. Me trancafiaram quando eu não tinha feito nada de errado.

Jace perdeu um fôlego. "É sério?"

Alarmada, Vraska virou a cabeça para ele.

Ele lera sua mente... mas não tinha percebido isso. Jace deve ter pensado que ela falara em voz alta.

Ele a encarava com choque e empatia genuínos nos olhos.

"Isso nunca devia ter acontecido com você, Vraska."

Ele tinha uma expressão facial transparente, e sua voz tinha uma emoção gentil e honesta.

Vraska cantarolou uma canção em sua mente para ensurdecer outros pensamentos que ela possa vir a projetar, e eventualmente encontrou palavras. "Meu passado é parte de mim, mas não é quem eu sou."

Jace sorriu.

"Eu conheço bem esse estado de espírito," ele disse com humor seco.

Vraska ficou surpresa. E não é que o homem tem senso de humor?

Ela serviu mais chá para os dois em canecas bem usadas. "Qual é a primeira coisa que você se lembra, Jace?"

Sua boca se abriu como se ele fosse dizer alguma coisa, mas fechou o queixo rapidamente. Ele olhou para ela com timidez.

"Posso te mostrar?"

Vraska se mexeu desconfortável. "Como assim, me mostrar?"

"Eu quero praticar, se você não se importa."

Vraska teve a sensação de que sabia o que estava por vir. "Sim. Tudo bem."

As galés em torno deles dissolveram. Vraska ainda estava sentada em seu banquinho, mas em um bambuzal mais alto do que os mastros de seu navio. Jace, sentado em sua cadeira e com os olhos iluminados, começou um resumo ilusório de seus últimos quarenta dias. Vraska assistiu o bambu se transformar em areia fininha. Chuva sobre um fogo imaginário e um peixe muito morto. Ela o viu aprender a coletar e caçar, construir, sobreviver. A górgona tomava goles de seu chá, maravilhada com a beleza da ilha e com a abundância de coisas que Jace aprendeu enquanto estava lá. Ele sorria enquanto mostrava a ela o que ele construíra e aprendera. Claramente, ele se deliciava em preencher as lacunas de seus conhecimentos, e seu entusiasmo era contagioso. Era realmente incrível que ele tenha construído anzóis, uma plataforma e uma jangada. Vraska terminou seu chá ao mesmo tempo que a exibição de Jace, e a ilha desvaneceu e voltaram à madeira das galés.

O feitiço de Jace terminou. Vraska se viu balançando a cabeça. É claro que ele, de todas as pessoas, se divertiria naufragado e desmemoriado em uma ilha deserta. Mas essa série de ilusões não respondera como ele tinha vindo parar aqui.

"Você não lembra de nada mesmo, né?" perguntou ela.

Ele lançou um olhar agridoce a Vraska e ecoou as palavras dela: "Meu passado é parte de mim, mas não é quem eu sou hoje."

Jace redescobriu seus talentos de conjuração de ilusões, mas nenhum dos talentos realmente assustadores. Era inquietante. Só ela neste plano sabia do que ele era capaz.

Ela olhou para a borra do chá em suas mãos, e suspirou. Ela iria mantê-lo vivo. Seus talentos seriam úteis para ela, por agora. Ingenuidade não era mandado para morte, especialmente sob o código de assassinos. Mas este caso era diferente...

O homem na sua frente não era Jace. Não de verdade. O Pacto das Guildas que ela conhecia se foi.

Se eu não estou sendo paga para fazer, eu não mato estranhos.

Ela tinha decidido.

"Vamos colocar uma rede pra você no castelo de proa," disse Vraska. "Quando chegarmos no próximo porto, você decide o que vai fazer."

Jace assentiu e mexeu na tigela vazia à seus pés.

Olha o estado dele, pensou Vraska. Ele está desamparado. Será que estou cometendo um erro deixando ele viver?

"Você disse alguma coisa?" perguntou Jace.

O coração de Vraska foi parar na garganta; ela meneou a cabeça e Jace franziu o cenho.

"Estranho," murmurou ele, "deve ter sido no navio."


Jace já passara oito dias à bordo d’A Truculenta e tinha dificuldade em agir como convidado no navio.

Apesar do médico do navio ter lhe instruído a descansar sob o convés, Jace ganhou a reputação de não conseguir ficar muito tempo em um lugar só.

Em um dia de calmaria, Vraska assistiu ele desmontar e remontar um telescópio.

O processo levou uns quinze minutos.

Ele começou a estudar o exterior do item, encontrando seus encaixes, e depois usando uma ferramenta emprestada para desmontá-lo gentilmente. Ele organizava as peças semelhantes enquanto desmontava, criando uma grade meticulosa no convés do navio. Depois de desmontado, ele trabalhou de trás para frente, remontando cada peça uma após a outra na ordem inversa que tinha desmontado.

Juntou gente fascinada para assistir. Vraska ficou mais atrás, tão impressionada quanto perturbada. Ela sussurrou algo no ouvido da contramestre, que rapidamente pediu desculpas e ralhou com a tripulação para voltarem ao trabalho.

Envergonhado, Jace ficou de pé e entregou o telescópio remontado para Vraska.

"Eu vou para as galés. Senhora." Ele tinha os olhos baixos, como quem pedisse desculpas.

Vraska virou o telescópio em suas mãos. Ela olhou de volta para Jace e deu um grito para chamar sua atenção.

"Ei!"

Ele olhou para ela. Vraska lhe jogou um segundo telescópio. Confuso, Jace o pegou no ar e olhou do artefato para ela. Ele caminhou até a capitã. "O que você quer que eu faça com isso?"

"Pode consertar o meu também?" pediu Vraska.

Jace abriu um sorriso largo e deu um tapinha nas costas de Vraska.

"NÃO!" gritou ela, depois de dar um pulo.

Jace congelou. Amélia veio em passos largos com pernas grossas e olhou de cima para o mago mental com seu olhar mais ameaçador de contramestre. "Ninguém encosta na capitã!" rosnou ela.

"Eu tô bem," disse Vraska, tentando acalmar seus próprios nervos. "Ele não sabia, Amélia."

O coração de Vraska estava a mil e ela respirou fundo para acalmar seu alerta e seu pânico. Ela não tocara ninguém fisicamente há anos. A tripulação não precisava saber por quê. Ela escondia as cicatrizes da prisão por um motivo importante.

"Desculpa, Capitã," disse Jace, olhando para os próprios calçados.

"Não peça desculpas," disse Vraska, ainda com a voz alarmada. "Só não faça de novo."


O céu lá fora estava carregado e o ar parecia pesado, com ameaça de chuva. O vento era estável e vigoroso; Malcolm estimara atracar em Banco de Areia dentro de um dia. A maior parte da tripulação estava sob o convés, comendo e passando o tempo.

O tripulante no ninho-do-corvo chamou e Malcolm voou até ele. Ele parou por um segundo no topo do mastro e voou bem alto acima deles. Retornando em um mergulho profundo, ele pousou imediatamente ao lado de Vraska.

Ele tomou muito fôlego. "Navio à vista, logo além do horizonte. Ela carrega velas negras."

Vraska apertou os lábios. A Legião do Crepúsculo.

A nau inimiga começou a despontar no horizonte, aparecendo devagar por entre uma névoa escura de magia. Seus lados eram feitos de madeira escura e densa, manchados pelo tempo e pelas viagens. As velas da nau eram tão escuras quanto a fumaça que a seguia, e sua cabine era grande e imponente, como uma catedral.

Vraska já sobrevivera a coisa pior.

Ela se lembrou da primeira altercação que teve com os vampiros da Legião do Crepúsculo. Foi logo nas primeiras semanas como proprietária d’A Truculenta, e ela mal conhecia o inimigo, assim como sua tripulação mal se conhecia também. A aproximação dos vampiros transformou o meio-dia em noite, e a nau estava envolta por uma nuvem escura. De início, Vraska ficou confusa sobre por que uma nau maior assaltaria o navio deles, mas ficou claro que o objetivo era sua tripulação, e não suas pilhagens. Os conquistadores não precisaram usar suas armas. Eles gritavam os nomes de seus santos, e banqueteavam-se com uma ferocidade que Vraska nunca testemunhara na vida. Naquele dia, ela perdeu quatro tripulantes drenados em sanguinolência fervorosa antes de conseguir petrificar seus assassinos.

Malcolm estava lá naquele dia. "Eles estavam encerrando seu Jejum de Sangue," disse ele. A Legião do Crepúsculo justificava sua sede de sangue matando apenas criminosos pecadores. Não era coincidência que eles viam a Coalizão Brônzea como uma aliança de pecadores.

Ela também se lembrou de quando Amélia lhe contou o que os vampiros estão procurando. "Eles buscam um fim ao vampirismo," disse ela. "Eles desejam a vida eterna sem precisar de sangue. O Sol Imortal foi roubado de seus mosteiros e eles se aventuram pelos mares para recuperá-lo. Eles tomaram nossas terras ancestrais em Torrezon, e no final das contas, eles sempre tomam tudo."

Vraska forçou-se a voltar para o momento presente.

Ela apertou seus olhos e avaliou suas opções.

Ela podia tentar escapar da nau e estocar suprimentos em Banco de Areia... ou ela podia evitar limpar os cofres de seu navio e roubar os conquistadores.

Vraska decidiu pela opção mais divertida.

"Todos no convés!" gritou ela para sua tripulação.

Imediatamente respondendo seu chamado, todos subiram a escada rapidamente vindos do barracão da tripulação e correndo para suas tarefas.

Seu coração pulava com a empolgação de comandar.

Ela avaliou os céus sobre sua cabeça. As nuvens estavam pesadas com chuva, e A Truculenta estava firme. As velas da outra nau estavam abaixadas, e se Vraska atacasse rapidamente eles tirariam vantagem de estarem contra o vento.

"Posições de batalha! Mostrem suas cores e suas armas!"

Enquanto Vraska gritava suas ordens, ela ouvia sua tripulação ecoando seus comandos por todo o navio. Malcolm voou para o timão e o girou todo para um lado enquanto a tripulação reposicionava os esteios. Amélia e Edgar estavam em formação, um de costas um para o outro, erguendo o mastro principal e o de popa com sua magia. O navio começou a fazer uma curva aguda para estibordo, e suas velas se encheram com uma brisa invocada por eles.

Jace subiu até o convés, impressionado com toda a comoção e visivelmente incerto sobre onde ele deveria ficar.

Vraska teve um momento de inspiração.

"Jace! Sobe aqui!" Ela o chamou do tombadilho superior e o instruiu a subir pela pequena escada até onde ela e a contramestre estavam. Os olhos dele estavam arregalados de empolgação e estranhamento.

Vraska olhou para ele. "Jace, nós queremos abordar aquela nau e capturar suprimentos. Você consegue camuflar a abordagem d’A Truculenta?"

Um sorriso apareceu no canto da boca de Jace, mas o sorriso foi rapidamente passado para um olhar determinado. "Sim, Capitã."

Vraska assentiu. "Então, vá em frente."

Jace olhou para cima com os olhos acesos, e, como água que desliza por uma superfície curva, a magia dele fluiu até cobrir A Truculenta, e a escondeu da existência enquanto a magia deslizava.

A tripulação conseguia ver a todos e o navio abaixo deles. Jace segurou sua concentração e fez um aceno breve de cabeça para a capitã. Vraska abriu um sorriso largo e virou-se para seus companheiros de bordo.

"Tripulação! Vamos prosseguir em silêncio até que o navio esteja em posição para abordagem imediata! Quando estivermos perto o suficiente, o Jace vai tirar a camuflagem, e nós os abordamos. Retirem comida e suprimentos e só isso."

Vários membros da tripulação resmungaram em voz alta.

"Tô brincando, meus amigos," sorriu Vraska, "tirem tudo o que quiserem desses urubus-sanguessugas."

A tripulação comemorou e começou a ajustar o equipamento para que abordassem mais rápido.

Jace olhou para Vraska. "Como assim, 'em silêncio'?"

"É uma especialidade do nosso navio." Vraska aproximou-se da sineta do navio e puxou bandeirolas de uma caixa ali perto. "Eu ainda não encontrei um bom nome para a tática."

Ela ergueu uma das bandeirolas para avisar sua tripulação, já treinada, sobre o que viria a seguir, e ergueu sua outra mão para começar seu feitiço.

Ela fez uma série de gestos sutis, e o volume do ruído costumeiro do navio começou a diminuir. Era um antigo encantamento de assassinos que ela aprendera quando trabalhava para os Golgari, e que ela reutilizara em várias missões desde então. A própria mágica era invisível e sem som algum, com efeito imediato. O encantamento abafaria o som mesmo que ela gritasse a plenos pulmões.

A Truculenta agora estava imperceptível para qualquer criatura que estivesse fora de seu convés.

Vraska usava suas bandeirolas para comunicar ordens para a tripulação quando não havia som. Sob seu comando, o navio fez uma curva aberta para interceptar a trajetória da nau inimiga. Com certeza a Legião do Crepúsculo tinha visto A Truculenta no horizonte antes, mas ela desaparecera e eles agora navegavam sem direção, pois perderam seu alvo de vista.

Vraska deu um sorriso largo para Jace e se virou de volta para o navio. Um trabalho excelente, pensou ela.

Jace sorriu e respondeu por reflexo "Obrigado, Capitã," e o volume de sua voz foi cancelado pelo feitiço de silêncio.

Vraska fez um lembrete mental mudo de tomar mais cuidado. Ela ainda não queria que ele tivesse consciência de suas habilidades mais assustadoras.

A Legião do Crepúsculo abaixou suas velas. Vraska ergueu duas bandeirolas juntas e A Truculenta virou uma curva aguda para abordar a embarcação parada.

A Truculenta estava a um navio de distância da Legião do Crepúsculo. Vraska deu um leve toque no ombro de Jace e ergueu a outra mão como um maestro que conduzia uma orquestra. Ele entendeu o que ela quis dizer e assentiu com a cabeça, ainda mantendo a ilusão que escondia o navio.

Ao mesmo tempo, Vraska fechou a mão que conduzia Jace e levantou uma bandeirola negra com a outra mão.

E ao mesmo tempo, o encantamento de silêncio acabou, o navio ficou visível, e um terço da tripulação deu um grito de guerra enquanto balançava em cordas até o convés da nau dos conquistadores.

Os vampiros foram pegos completamente de surpresa.

Swashbuckling
Ousadia | Ilustração: Josu Hernaiz

O silêncio deu lugar a uma erupção de caos barulhento quando a tripulação d’A Truculenta que estava pendurada em cordas passou para o convés da Legião do Crepúsculo. A tripulação do navio dos vampiros pulou de susto com a surpresa do massacre. A maior parte deles foi subjugada facilmente, já que estavam de guarda baixa e olhos arregalados quando os piratas desceram sobre sua nau. Alguns foram espertos o suficiente para desembainhar suas armas, e tentaram manter sua compostura quando a tripulação de Vraska atacou. O som de aço contra aço cantava pelo ar e o convés ficou banhado de pânico e de piratas.

Skulduggery
Logro | Ilustração: Deruchenko Alexander

Vampiros subiram até o convés. Suas armaduras brilhavam, meticulosamente limpas, e eram de melhor qualidade do que toda a armadura do restante da tripulação. Estes conquistadores eram assunto de mitos e lendas: sofisticados e selvagens em sua maldição eterna. Seus olhos claros espiavam sob elmos dourados, e seus dentes brilhavam contra a luz fraca do sol.

"Que tipo de vampiros são esses?" perguntou Jace, gritando acima do barulho da multidão.

Vraska olhou para ele como quem diz você-tá-brincando-né. "Você lembra de vampiros mas não lembra do próprio nome?!"

"Eu lembro de coisas que importam," respondeu ele com um pequeníssimo sorriso.

De seu ponto alto no navio, Vraska podia ver que um deles gritava mais que os outros.

"Sant’Elenda! Dai-me o vigor de purgar este mar d’pecadores!"

Ela não vai ouvir você, devaneou Vraska consigo mesma. Mas eu ouvi.

Ela correu pela lateral do tombadilho superior e deslizou pela prancha de abordagem, cortando vampiros e humanos com seu cutelo, e os tentáculos de seu cabelo se encaracolavam de empolgação. Jace pulou batalha adentro junto com ela, invocando várias cópias dele mesmo para correr pela multidão de confusos conquistadores da Legião do Crepúsculo.

As ilusões desviavam e distraíam, e com esses segundos de confusão os vampiros eram facilmente subjugados pelos piratas.

Após cortar caminho por vários vampiros que contra-atacavam, ela gritou mais alto que o ruído da batalha, "Me tragam seu capitão!"

Seu chamado foi respondido pelo aparecimento de um vampiro de armadura tão dourada que cintilava. Sua armadura volumosa e elaborada era uma afronta ao clima tropical em torno dele. Ele olhou nos olhos de Vraska e avançou com espada em riste e dentes à mostra. A górgona sorriu.

Vraska desviou da espada do vampiro e começou a coletar a energia mágica necessária para petrificar. Ela ganhava tempo tentando golpear o capitão com seu cutelo.

O homem cuspia e chiava, encontrando cada golpe da espada de Vraska com a sua.

Vraska pulou de susto quando Jace apareceu à sua esquerda, e também à sua direita, e as ilusões gêmeas confundiram o capitão vampiro por tempo suficiente para que Vraska conseguisse acertar um golpe. Um dos Jaces conseguiu acertar um soco, e Vraska notou que ele estava fisicamente ao seu lado.

O vampiro desviava, parava golpes, e golpeava com uma oração zelosa em seus lábios enquanto observava cada um dos clones de Jace com atenção, visivelmente tentando discernir qual era a versão física.

A voz de Jace irrompeu pelo ar com um grito quando o vampiro agarrou seu pescoço de verdade. O outro desapareceu em um lampejo enquanto o Jace real apertava suas pálpebras e tentava futilmente se libertar. O vampiro abriu sua boca no momento em que Vraska conseguiu agarrá-lo. Com um empurrão, ela se interpôs entre ele e Jace, olhando o capitão nos olhos quando ela liberou a magia que estava acumulando.

Em suas mãos, a pele e as roupas do vampiro se transformaram em pedra.

Ela abaixou seus olhos por um momento, evitando olhar para sua tripulação enquanto seu feitiço acabava, e depois olhou na direção de Jace.

Atrapalhado, ele tinha se soltado do vampiro petrificado e agora olhava para ela com um olhar surpreso. Vraska perdeu o equilíbrio - não porque ela deixara que vissem o que ela realmente era, mas porque a face que a olhava de volta não estava contorcida e horrorizada, mas radiante e admirada.

Jace não estava com medo. Ele estava maravilhado.

Os vampiros sobreviventes ajoelhavam-se em submissão sob os olhos cuidadosos de Malcolm e Amélia, que trabalhavam rapidamente em amarras mágicas de corda e velas rasgadas.

"Limpem os depósitos, afundem todas as armas, e carreguem esse aqui pr’A Truculenta," disse ela, chutando o capitão petrificado de leve. "Acho que precisamos de uma carranca nova."

A tripulação deu gargalhadas e Vraska deu um breve sorriso. Ela se virou e começou a voltar ao convés de seu próprio navio enquanto sua tripulação começava a trazer sua pilhagem.

O mago mental provou ser absurdamente útil.

Ela caminhou pela prancha de abordagem estendida entre os dois navios, e Jace a seguiu. Na privacidade de seu próprio navio, ele se aproximou.

"Eu não sabia que você podia fazer aquilo!" comentou ele.

Ӄ... surpresa," disse Vraska, dando de ombros.

"Vraska," disse Jace, bem sério. "Eu estava em apuros, e você me salvou. Obrigado."

Confusa, a górgona olhou para ele. "Você não ficou com medo?"

Jace fez que não com a cabeça.

"Eu acho você muito talentosa."

Vraska nem sabia o que responder.

Elogios eram tão estranhos a ela quanto sair voando.

Jace fora absurdamente útil, mesmo. Talvez seria melhor se ela o mantivesse por perto, para ter acesso a suas habilidades.

Então, Vraska falou com muita certeza. "Um dia eu achei que faríamos uma boa equipe, Beleren, e pelo jeito eu estava certa. Você quer ficar na minha tripulação e me ajudar com a minha missão?"

O sorriso largo de Jace alcançou seus olhos, com a ousadia e a curiosidade de um viajante. "Eu adoraria."


Ixalan Índice das Histórias
Perfil da Planeswalker: Vraska
Perfil do Planeswalker: Jace Beleren

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