A Ascensão de Reza

Posted in Magic Story on 27 de Fevereiro de 2019

By Nicky Drayden

Nicky Drayden is a systems analyst who dabbles in prose when she's not buried in code. She resides in Austin, Texas, where being weird is highly encouraged, if not required.

Conto anterior: O Livro-Razão das Fortunas Ocultas

Um aviso a pais e mães: observem que este conto trata de assuntos que possam ser considerados inadequados para leitores mais jovens.

Mente calma, passos silenciosos.

Eu subo a escadaria até a Biblioteca das Leis Antigas. Eu já decorei o caminho, praticamente — cento e doze passos pelo Paço da Veracidade, duzentos e doze passos até chegar no Pavilhão da Justiça, oitenta e sete passos pelos estoicos Salões da Racionalidade. E agora só faltam trinta e três degraus pelas brumas vindas das Cascatas da Justiça. Gotículas de água salpicam meus robes enquanto a cachoeira de quinze andares evapora logo antes de chegar no andar principal do complexo da Coluna de Jelenn. Se eu olhasse para baixo, eu veria centenas de burocratas Azorius e membros do legislativo caminhando pelo átrio em fileiras ordenadas, mas eu não ouso olhar. É o jeito mais certo de perder o equilíbrio, e sem corrimão para estabilizar, se eu cair . . .

Mente calma, passos silenciosos. Mente calma, passos silenciosos.

O arco expansivo da biblioteca finalmente me recebe, e eu solto um pequeno suspiro de alívio por estar no térreo. Sou imediatamente envolvido pelo aroma da poeira em livros de direito, tesouros encadernados em couro com ordem e retidão. A maior parte dos magos de lei do meu coorte fazem pesquisas na biblioteca de runas, mas com histórias tão antigas quanto as de Ravnica seria prudente estudar as origens da construção das nossas leis. Aqui, eu consigo ver o primeiro rascunho do Pacto das Guildas — sob a pressão de oito centímetros de vidro magicamente tratado, de autoria do próprio Azor. Se você olhar bem, vai até ver um pêlo azul da juba dele na página cinco. O rascunho original estava com lacunas grandes o suficiente para passar um vorme adulto, mas devagar e metodicamente Azor rasurou todas, com anotações vermelho-sangue pelas margens. Na minha própria busca pela perfeição por meio da lei, eu vim a apreciar esse processo de revirar as raízes do passado para encontrar pontos fracos, a fim de nos dar o luxo de ter o futuro mais ordenado.

“Pegue esses aqui para mim,” sussurro eu para o homúnculo que cuida da biblioteca. Eu entrego a ele uma lista dos textos que lerei a partir de hoje. Quando ele sai correndo, eu estico o pescoço, espiando pelas paredes dos cubículos de estudo para encontrar a Tagan. Ela não estava nos aposentos dela quando fui lá ver, e a minha impaciência era demais, não consegui esperar que ela voltasse. A inacessibilidade da Biblioteca das Leis Antigas faz dela um lugar favorito das esfinges, então há chances de encontrá-la por aqui. Por fim, eu encontro a pelagem azul e castanha da minha mentora, e sorrateiramente entro no cubículo adjacente.

O homúnculo pousa os livros sobre a minha mesa, com uma insígnia de tradução para que eu compreenda termos antiquados. Ele sinaliza para me perguntar se eu gostaria de serviços de viagem de páginas também, mas eu o dispenso com um aceno e me debruço sobre a seção onde eu tinha parado na minha última visita. É difícil se concentrar com a Tagan tão perto, sabendo que ela sabe como a minha última runa de lei foi recebida pelo Senado. A lacuna que eu fechara era enorme, e a nova lei que eu lavrara consistia em três páginas do legalês mais judicialmente labirintino, incluindo quinze negativos duplos, doze negativos triplos, sete notas de rodapé, e vinte e oito restrições - todas em uma única e perfeita frase.

Eu controlo os meus nervos e desejos de insistir que Tagan me responda, e então eu me perco em um mapa antigo do Décimo Distrito enquanto espero que minha mentora me note. Eu passo os dedos pelo Passeio Transguildas, notando a diferença que quinhentos anos fizeram. Muitos dos bairros no mapa caíram nas mãos dos Gruul. O Quarteirão Fantasma era três vezes maior do que é hoje. O Zonote Sete era apenas um lago despretensioso. E no rio acima ficava um enclave Azorius completo — uma comunidade que outrora vicejava e agora está em ruínas, graças a uma extensão de terra com trinta quadras controlada por quimiomantes rebeldes dos Izzet, chamado de Canto das Ideias.

A Falácia Jurisdicional do Canto das Ideias era um problema favorito para entregar aos magos de lei do primeiro ano. Ninguém no meu coorte o resolveu; ninguém resolveu há muitos anos. Quatro guildas reivindicaram a área do Canto das Ideias:

  • Primeiro, os Golgari, já que o “terreno” onde o Canto das Ideias está é na verdade um lixão que se estende para dentro do rio. Conforme o lixão se expande, o território do Canto das Ideias expande junto. O que era outrora um terreno estreito com algumas dúzias de residentes, agora tem mais de dois mil habitantes. Essa barragem de lixo já ramificou rio acima e rio abaixo, e os Golgari querem deliberar desesperadamente.
  • Em segundo, os Simic. O rio alimenta o Zonote Sete, e seria a via pública aquática perfeita se eles tivessem direito de passagem. E se tirassem todo o lixo.
  • Em terceiro, os Azorius, já que ele tecnicamente é um terreno adjacente ao nosso. Os bairros em torno do Canto das Ideias sofreram mais com sua presença, devido ao alto número de experimentos perigosos não-sancionados, cujos efeitos nefastos tendem a se estender além das fronteiras do Canto das Ideias.
  • E por fim, os Izzet afirmam que o próprio Canto das Ideias é construído com partes de fossos de caldeira roubados da Fundição de Mizzium. A Liga renunciou qualquer afiliação com os quimiomantes rebeldes, dizendo que a imprudência e engenhosidade caótica está fazendo mal para a reputação da guilda . . . o que é uma afirmação bem ousada.

É um exercício infrutífero. Nunca haverá um consenso sobre quem tem a jurisdição. Da última vez que alguém tentou fazer uma reivindicação legal sobre a área, uma guerra quase começou. Então agora ela está lá, sem governo, sem serviços e sem governabilidade, por uma série de lacunas impossíveis de emendar.

Eu viro a página, e como se fosse para me despeitar, a beirada do papel me corta a pele — um dos muitos perigos de ser mago de lei. “Pela juba imaculada de Azor!” Xingo eu, dois níveis acima de um sussurro. O que é praticamente um berro dentro de uma biblioteca.

“Reza?” Sai a voz de Tagan, vinda do cubículo ao lado. Ela ergue a cabeça, apoia as patas pela divisória e me vê. “Paz e ordem,” sussurra ela, me cumprimentando.

“Que você receba novidades tranquilas também,” digo eu, e deixamos por um momento que o silêncio se estabeleça e possamos organizar nossos pensamentos. As regras de etiqueta ditam que durante um encontro não-marcado entre magos de lei de categorias díspares, a pessoa de categoria inferior deve começar a conversa após os cumprimentos, mas pelo jeito que a cauda de Tagan está balançando, eu sei que ela está afoita para me agraciar com notícias, então eu faço uma deferência para ela com um aceno de cabeça.

“O Senado decidiu sobre sua runa de lei sobre o fechamento da lacuna de identidade,” diz ela.

“E então?” Pergunto eu, com o coração batendo tão forte que eu acho que o homúnculo vai me mandar fazer menos barulho.

“Eles adoraram. Tão detalhada. Tão completa. O Mestre Baan disse que é a lei mais brilhante que ele viu neste mês. Está sendo levada para os escribas celestes agora mesmo.”

“Ele disse isso? Nessas palavras?” Consigo me sentir enrubescer, e o azul da minha pele fica púrpura com essa honra humilde.

“Eu não ousaria parafrasear o Mestre Baan sem modificativos.”

Uma onda de náusea me toma. É minha primeira lei que chega nos céus de Nova Prahv. Foi meu achado mais complicado, e era o que me dava mais orgulho. Eu sabia que a lacuna chamaria atenção desde o momento que a encontrei, mas uma escrita celeste? Tão rápido assim? Adulações do meu coorte serão vindouras. Graças a todas as horas que eu me dediquei a escrever aquela lei, as ruas ficarão mais ordenadas. Cidadãos se sentiriam mais seguros caminhando pelas ruas de Ravnica, até mesmo à noite. Um passo mais perto da perfeição.

“Você chamou atenção do Baan.” Ela salta pela meia-parede e pousa em um silêncio perfeito. E então ela ergue uma mágica de privacidade ao nosso redor. Se eu não fosse mentorada por ela, eu não teria notado que ela conjurara algo — uma contração levíssima na sua pata dianteira. “Agora é a hora de prosseguir com algo igualmente impressionante. No que você está trabalhando agora?”

Eu dera tanto de mim para escrever a última lei que não tinha dado tempo de pensar no que viria a seguir. “Bom,” digo eu, correndo atrás de ideias. “Tem sempre a Falácia Jurisdicional do Canto das Ideias . . .

Ela arqueja as costas e se estica, parecendo entediada. “Charadas do primeiro ano não vão impressionar o Baan,” diz ela. “O que mais?”

Eu repasso algumas ideias com ela, mas já perdi sua atenção. Ela está mais concentrada na insígnia de tradução na beirada da minha mesa. Ela dá tapinhas suaves nela até que ela cai da mesa. Antes que ela atinja o chão, eu a pego. Mantenho a insígnia segura no meu punho fechado. Se eu colocar de volta, ela só vai bater e derrubar de novo, mas pensar nisso me dá uma ideia sobre infratores reincidentes.

“Eu notei uma possível lacuna durante minhas pesquisas da semana passada . . . uma cláusula que liga a média de sentenças de reclusão às taxas de reincidência. Em teoria, nós podemos acabar com sentenças negativas se a taxa cair o suficiente. Eu teria continuado antes, mas ela fazia referência a uma lei Azorius antiga, a 394-H, e eu teria que pedir a alguém que pegasse os pergaminhos correspondentes do Arquivo Histórico para confirmar.”

Tagan se endireita com isso. “Lacunas teóricas são sensacionalizáveis facilmente. Conseguiremos que a população se empolgue sobre como evitamos um desastre dentro do sistema prisional, e será mais fácil justificar nossos salários. Vai levar dias para que os bibliotecários aprovem a transferência entre bibliotecas. Você mesma devia visitar o Arquivo Histórico enquanto sua runa ainda é nova nos céus.”

Ela notou minha hesitação. Não era a reação que ela esperava.

“Não me diga que você nunca esteve fora de Nova Prahv,” diz Tagan.

“É claro que já!” Digo eu. Faz muitos anos. Oito, para ser exato, mas às vezes eu fico tão embrenhado nas urgências da ordem, que me esqueço de Ravnica como mais do que um mundo teórico sobre o qual eu aplico leis.

O Arquivo Histórico não fica longe. E seria espetacular ver os golens de arquivo ambulante, que assombram aquelas pilhas abandonadas há tanto tempo. Literalmente história legislativa que está viva e andando. Mas então os números começam a girar na minha cabeça: duas leis minhas nos céus, na mesma semana... É um passeio de grifo que leva vinte minutos. A sessenta metros do chão. Voando sobre as cabeças de milhares e mais milhares de Ravnicanos.

Mente calma. Mente calma.

Não há necessidade de entrar em pânico. Ficará tudo bem.”


A oficial das requisições de voo pega minha papelada, verifica minha runa de identidade e depois me leva até o estábulo de grifos em um dos domos mais altos de Nova Prahv. Sete baias levam até a cidade, servindo como plataforma de pouso para arcontes, esfinges e para os tópteros de segurança azul e prata que passam em zumbidos, batendo asas feitas de runas iluminadas.

“Está um caos lá fora,” diz a oficial de requisições ao notar que eu parei de andar, atordoada pela vastidão da cidade logo abaixo. “É seu primeiro voo?”

Eu assinto com a cabeça.

“Vai ficar tudo bem. É um dever solene que devemos cumprir, mas é um desafio digno do nosso tempo, e dos nossos esforços.”

Ao mencionar o dever, minhas pernas começam a tremer e eu consigo subir no grifo com algum esforço. Eu não estou com a mão firme no começo, mas a oficial me garante que essa fera vai bem com voadores sem experiência. Encontro minha confiança e meu equilíbrio enquanto confiro se minhas duas bolsas de couro estão perfeitamente alinhadas, carregando os textos de referência necessários que Tagan me deixou pegar emprestado em sua biblioteca pessoal. Agora estou pronto para seguir na direção do Arquivo, e fazer meu nome dentro da guilda. Segundos depois, eu sou varrido para fora da baia e ganho os céus. O grifo desce bruscamente, depois vira para a esquerda e se ergue. Ele corta para a direita, passando por uma das novas runas de lei acima do Salão da Guilda. Tem tantas que é impossível evitar passar por todas. Eu procuro pela minha, e sinto um arrepio quando a vejo.

 

Lei Azorius 3455-J

Da falta de identificação apropriada . . .

 

E então as runas ficam esparsas, e Ravnica fica no meu campo de visão, me tirando o fôlego. A cidade vai até onde os olhos alcançam - uma colcha de retalhos de cores e estilos, com edifícios que vão desde os enormes e volumosos até os esbeltos e pomposos, e tudo o mais. Mas, por mais diversos que seus povos sejam, estão todos sob as mesmas leis que estão sob o mesmo céu. É verdade que o Senado Azorius não tem muitos amigos dentre as outras guildas, mas nutrir amizades não é o nosso dever. Ao invés disso, devemos nos concentrar em preservar a ordem, senão a cidade inteira cairá em desalinho.

Montanha | Ilustração: Jonas De Ro

Dez minutos voando e meu caminho é bloqueado por um enxame curioso de tópteros que está pairando no ar, como uma nuvem. O grifo faz uma manobra para passar por eles, mas então um raio de eletricidade lilás irrompe do chão e corta o céu, atingindo o tóptero mais próximo de nós. Outro tóptero cai, e agora meu grifo está assustado. Ele plana para a esquerda, para a direita, empina em pleno ar. Eu tento compensar para acalmá-lo, mas meus esforços pioram as coisas e eu acabo me soltando.

E então, estou caindo.

Por puro instinto e frenesi, eu estico a mão para os tópteros enquanto caio, agarrando um deles. Ele corta minha queda um pouco, mas não o suficiente. Ele não aguenta o meu peso, e uma asa mágica arrebenta após a outra, e então nós dois estamos em queda livre.

Mas ao invés dos ladrilhos pararem a minha queda, eu caio em algo macio — ainda estou todo dolorido, com a cabeça latejando, mas estou vivo. O primeiro pensamento coerente que eu tenho é que eu manchei os meus robes. O segundo pensamento é que estão manchados com o meu sangue. Essas duas notícias horríveis eram pequeninas perto de notar sobre o que exatamente eu caí. Uma pilha de lixo. Uma pilha gigantesca de lixo.

Eu sinto o horror coletivo de todos meus ancestrais vedalkeanos gritando em uníssono. Eu vou ter que pedir aos serviçais por um banho de escova forte hoje. Vou incinerar essas roupas, mandar enrolar as cinzas, e jogá-las dentro do zonote mais profundo. Mas eu tenho certeza de que nunca conseguirei limpar essa memória da minha cabeça.

“Socorro!” Grito eu, mas é um sussurro de biblioteca. “Socorro!” Eu tento novamente, e a palavra irrompe da minha garganta enquanto eu me debato.

“Você está bem,” diz uma voz grave e reconfortante. Eu olho para cima e vejo um rosto largo — uma barba ruiva e rala, óculos de bronze enormes — humano, mas se ele me disser que tem algum gigante em sua árvore genealógica, eu acreditaria. “Você teve uma queda muito grande, moço. Tem sorte de estar vivo.” Ele me estende uma das mãos, cobertas de graxa. Ao menos eu espero que seja graxa. Eu pego a mão dele com relutância.

“Não parece ser muita sorte,” digo eu, puxando uma tira de lodo gelatinoso da minha bochecha.

“Ah, tem razão. Parece que tem algum gênio maluco por aí derrubando os tópteros do céu. Não se machucou, né?”

“Só meu orgulho, suponho. Onde estou?” Pergunto eu.

“Canto das Ideias,” diz o cara. "Meu nome é Hendrik. Meus amigos me chamam de Heni. Ou Hendrão. Ou H.D. Ou Benny Dois-Relógios por causa de um incidente com um busca-explosão cabeludo que não sabe ler ponteiros direito. Parou meu coração.” Ele bate no peito. “Mas o médico me arranjou um novo. Faz tique-taque melhor do que um relógio no laboratório de Continuismo!”

“Meu nome é Reza,” digo eu, lentamente, incerto se esse cara está fazendo minha mente girar falando rápido assim, ou se eu tive uma concussão. “Meus colegas me chamam de Reza.” Eu olho em volta, além da pilha de lixo. Aqui é o Canto das Ideias? Caldeiras folheadas a mizzium se enroscam pelas ruas, como se fossem um labirinto interminável de intestinos. Eles passaram por muitas intempéries, e tem camadas e mais camadas de metal soldadas em cada edifício. Dúzias de válvulas de pressão soltam vapor e outros gases mais nefastos pelas ruas, cobrindo o bairro com uma névoa amarelada horrorosa. Não entendo por que guilda alguma brigaria por este lugar.

“Beleza, Reeze. Por que você não vem pra minha casa? Você se limpa e volta pro céu rapidinho.”

“É Reza. Sem ofensa, acho que seria mais prudente voltar para Nova Prahv imediatamente, já que não sei das suas intenções comigo.”

“Você que sabe,” diz Hendrik, descendo aos vacilos da pilha de lixo. “Você só devia cuidar pra não pisar na compostagem de vorme.”

Eu fico de pé em um pulo. “Compostagem de vorme?”

“Não tem coleta de lixo aqui, então a gente dá um jeito.”

Eu desço devagar a colina de lixo, e depois examino minuciosamente meus robes completamente manchados. Não posso exatamente voltar para Nova Prahv assim. Se meus colegas souberem que eu me sujei desta maneira, nunca recuperaria o respeito deles. “Pode me garantir que suas intenções são virtuosas?” Pergunto para Hendrik, mascarando o desespero da minha voz com um ar formal. “Não consentirei em ser cobaia em algum experimento insano.”

“Prometo que nenhum outro infortúnio recairá sobre você.”

Ele parece um homem honrado, e eu tenho poucas opções, então eu o sigo para sua casa.


Por algum motivo, pensei que o projeto industrial das caldeiras do Canto das Ideias eram apenas uma fachada mal concebida, e que o apartamento de Hendrik teria mobílias confortáveis, com área de estar e jantar e todos os confortos de um lar. Mas é pior ainda do lado de dentro. Canos de bronze e válvulas circulares saem de todo espaço concebível, criando risco de tropeços e queimaduras por todos os lugares. O lar inteiro está tão tomado por vapor que alisou meus robes. Eu começo a suar em profusão, e o Hendrik me direciona para um canto um pouco menos abafado.

“H.D.? É você?” Diz uma voz mais além dos barulhos de metal batendo e engrenagens rangendo.

“Eu, e uma visita!” Clama Hendrik. “Pelo jeito, tá chovendo gente. Aquele maluco com o gerador de raios está atirando nos tópteros de novo.” Ele me dá uma cotovelada amigável nas costelas. “O Reezey aqui foi a última vítima.”

Ilustração: Wesley Burt

“Reza,” corrijo novamente enquanto um humano esbelto aparece, tão magro e gracioso que poderia ser vedalkeano, exceto pelo tom de pele e pelo monte espesso de cachos sobre a cabeça.

“O H.D. já te deu um apelido. Isso é encrenca. Quer dizer que ele gostou de você.” Ele sorri. “Meu nome é Janin. Eu mantenho as engrenagens no lugar nesse casebre. Quimiomante Mestre, se você é do tipo que gosta de títulos respeitáveis.”

“Deixa ele se lavar e comer, tá, De Lua?” Hendrik pede ao Janin enquanto pendura uma bolsa de ferramentas sobre um dos ombros. “Vou dar um jeito dele voltar pra casa.”

“De Lua?” Pergunto ao Janin depois que o Hendrik vai embora.

“Ele diz que os meus olhos brilham como as luas,” diz Janin, dando de ombros. “Ninguém mais me chama assim. O H.D. é meio . . . excêntrico. Até pros padrões de um quimiomante desmiolado com um leve desejo de morrer. Então, Reza . . . é um apelido pra Rezajaelis?”

Eu o encaro, maravilhado que ele sabia disso, e pronunciou com tão pouco esforço. “Sim . . . como—.”

“Fui criado por vedalkeanos. Meus pais biológicos morreram na explosão de um laboratório a algumas quadras daqui. A mãe e o pai se sentiram responsáveis pelas bobinas com defeito.”

“Sinto muito,” digo eu, mas no fundo eu não consigo não pensar que se tivessem supervisão talvez o acidente não teria nem ocorrido.

“É como as coisas funcionam aqui no Canto das Ideias. Se a sua invenção machucar alguém, você faz o que pode pra consertar as coisas. Eles me acolheram sem pensar duas vezes. Não podemos contar com mais ninguém, então temos que contar uns com os outros.” Ele faz um gesto, indicando uma abertura entre canos de cobre. “O banheiro é pra cá.”

Eu cerro os dentes e o sigo, esperando que a banheira não me deixe ainda mais sujo do que eu já estou. Mas quando o Janin abre a porta, é um pequeno oásis. A louça está brilhando. Ele me entrega uma toalha, uma esponja, e um frasco de óleos de limpeza vedalkeanos. “Eu ia dar esse pra mãe, pra comemorar os ritos de purificação dela, mas parece que você precisa mais.”

Eu devo estar com uma expressão confusa, porque ele sorri daquele jeito desconcertante mais uma vez. “Esqueci, você é de Nova Prahv. Provavelmente está acostumado a ter gente pra preparar o banho e tudo? Tá, eu te ajudo.” Ele puxa uma maçaneta de bronze e a água começa a fluir. Então, ele abre o frasco e deixa algumas gotas do óleo caírem na banheira. Uma bruma azul-clara sobe da superfície da água. “Você pode deixar seus robes do lado de fora. Vou fazer as manchas sumirem.”

Ele praticamente desaparece, fechando a porta rapidamente atrás dele. Os óleos de limpeza são potentes, quase tóxicos, especialmente para humanos e outros com sentidos menos refinados. Mas para os vedalkeanos, o aroma adstringente é quase divino.

Eu guardo o frasco na minha bolsa, e coloco meus robes do lado de fora. O Janin não estava errado sobre ter serventes no banho. Ainda assim, eu não pretendo que essa excursão acabe comigo completamente, então eu me escovo o melhor possível e me enfio dentro d’água, passando vários minutos perdido em pensamentos.

Quando eu volto à superfície, o ar atinge meu rosto e eu descanso por um momento, deixando meu corpo se aclimatar novamente a respirar pelos pulmões.

Janin ainda está tirando manchas quando eu o encontro no que se passa por uma sala. Ele me mostra os robes, e o tecido está quase perfeito. A maioria dos humanos pararia nesse ponto, mas o Janin volta ao trabalho até que não tenha quase sinal algum de imperfeição.

“Seus pais criaram você bem,” digo eu. Ele ri, e nós conversamos sobre nossos costumes favoritos dos vedalkeanos, e o tempo voa. Quando a luz lá de fora começa a mudar, a postura o Janin muda também.

“O H.D. deve voltar logo,” diz ele. “Está escurecendo.” Ele falou “escurecendo” como se fosse algo indesejável. “Devíamos dar uma olhada na oficina. Ele tem uma obsessão com aquele lugar.”

Então, nos aventuramos a algumas ruas dali, onde o maquinário do Canto das Ideias dobra em tamanho e complexidade. O mizzium é tão denso aqui, que eu consigo sentir nos meus dentes. Nós entramos por um alçapão enorme de bronze, e lá dentro há centenas de reparadores mostrando suas invenções. Um enxame de fadas-catraca corta nossa frente, cada uma carregando um raio brilhante. Fagulhas voavam por todos os lugares. Elementais capturados espiam por uma coleção de globos de vidro. Uma multidão se forma em volta de uma mulher que diz conseguir conjurar fendas a partir de magia elétrica estragada. Eu paro para ver, e há violações de segurança revoando na minha cabeça. Ela descumpriu vinte e oito leis nos três minutos que fiquei assistindo. Eletricidade lilás se junta na campânula de vidro de sua invenção, acendendo um cabo. Um zumbido que mais parece um assobio enche meus ouvidos, e uma pequena fenda se abre na frente dela - tão escura que meus olhos doem.

“Ela vai machucar alguém com aquilo ali,” digo ao Janin.

Ele apenas dá de ombros e diz: “Provável.”

“Não devíamos—”

“Nós não devíamos. Vamos. Fique por perto.” Mas a multidão é grande. Todo mundo apertado. Começo a me sentir nauseado, e preciso me acalmar. Eu tento correr para a saída, e o Janin me chama, mas eu preciso de silêncio como se precisasse de ar.

Mente calma, passos silenciosos.

As ruas são melhores, amplas e abertas, e consigo respirar novamente. Uma sombra longa e magra aparece no chão, ao meu lado. Eu acho que o Janin me encontrou, mas quando olho é um vedalkeano. Ele se aproxima e eu tento sorrir apesar do nervoso, mas ele se lança contra mim. Ele ataca a fivela de uma das minhas bolsas de couro. Ela se solta e ele sai correndo com meus textos de referência tão preciosos. Não consigo imaginar como Tagan ficará desapontada se eu voltar a Nova Prahv sem eles, então eu o persigo, correndo por quase toda a extensão do Canto das Ideias antes de perdê-lo de vista em um emaranhado de canos de cobre. Exausto, eu levo um minuto para recuperar o fôlego e percebo que vou precisar de ajuda para recuperar aqueles livros. Lentamente eu passo por cima dos canos, me aventurando por território que não é disputado, onde a lei Azorius é inegável.

Três encarceradores se aproximam de mim, e eu suspiro aliviado quando os vejo. Pelos cenhos enrugados, suspeito que não estejam tão felizes em me ver.

“Você aí,” diz um dos encarceradores. “Qual é o seu propósito aqui?”

Meu propósito? “Desculpe . . . Estava procurando vocês para—”

“Qual é o seu nome? Você mora por aqui?” As perguntas continuam e eu fico atordoado com a atitude brusca. Os encarceradores que encontrara em Nova Prahv eram agradabilíssimos.

“Tivemos relatórios de um ladrão que anda causando confusão por aqui,” diz ele, e quando finalmente acho que estamos chegando em algum lugar, ele diz: “Você se encaixa na descrição. Alto. Azul. Careca.”

Alerta Máximo | Ilustração: Daarken

“Basicamente um vedalkeano?” Digo eu. “Pode ser qualquer um!”

“A última vez que o viram, ele carregava uma bolsa de couro . . . igual a esta. Vamos dar uma olhada? O que tem aí dentro?”

“Minha propriedade pessoal!” Eu sei que há leis para me proteger, mas todo o conhecimento me escapa quando tenho a sensação de estar vulnerável. Eu luto contra esses sentimentos, tentando manter minha lógica e nervos no lugar. “Meu nome é Rezajaelis Agnaus, sou mago de lei em Nova Prahv. Tive um acidente de grifo e por azar caí no Canto das Ideias, onde fui furtado por um rufião, e agora estou tentando recuperar a propriedade que é minha, para poder voltar para casa. Esperava que me dessem assistência, mas só me trataram mal desde que me viram. Agora, me dêem os seus nomes para que eu possa informar meus superiores quando voltar ao complexo da Coluna de Jelenn.”

A linguagem corporal dos encarceradores mudou imediatamente. Eles me olharam de cima a baixo, e um deles ia começar a falar quando um grito de congelar o sangue irrompe do fim da rua. Dois dos encarceradores saem em resposta, e uma fica comigo. “Peço desculpas pelo incômodo,” diz ela. “Se você nos mostrar sua runa de identidade, acabamos com isso aqui e você poderá ir embora.”

“Como assim, ir embora!” Digo eu, buscando minha identidade dentro da bolsa. “Você não vai me ajudar a encontrar quem fez isso?”

“Se aconteceu no Canto das Ideias, infelizmente não temos jurisdição.”

Eu resmungo enquanto continuo a procurar a identidade dentro da bolsa, e lentamente percebo que ela estava na bolsa que foi roubada. Eu fixo os olhos na encarceradora.

“Algum problema aí?” Pergunta ela, e sua postura volta a parecer ofensiva.

“Não. Problema algum,” murmuro. A nova lei que coloquei no céu entra na minha mente. A falha em fornecer identificação adequada resultará em detenção por tempo indeterminado — até que algum servidor público cansado consiga determinar se sou quem estou dizendo . . . Em outras palavras, eu ficaria em uma cadeia Azorius por muito, mas muito tempo. Eu não poderia deixar que uma prisão manchasse minha reputação em Nova Prahv. Seria deixar tudo o que eu fiz até agora cair pelo ralo.

Minha mão encosta no frasco de óleos limpantes que Jamin tinha me dado. Eu o puxo da bolsa e o atiro aos pés da encarceradora. O vidro quebra, e um odor cáustico preenche o ar. A encarceradora está tossindo e respirando com dificuldade, e eu estou correndo. A encarceradora chama seus parceiros, e então os três estão atrás de mim com olhos vermelhos por causa do óleo, e narizes pingando como torneiras quebradas. Isso os deixa mais lentos, mas não muito. Em cada rua eu procuro por cantos que me colocassem de volta na segurança relativa do Canto das Ideias, tentando ignorar o fato de que eu piorei as coisas mais ou menos em um milhão. Não há escapatória. Eu teria que subir de volta, e eu não subo rápido o suficiente.

Estou cercado, no final de um beco. Eu me viro, vendo que meus perseguidores estão se aproximando. Eles param quando uma luz azul agourenta corta o vapor. Seus queixos caem.

Eu me viro e olho também, para um aparelho voador de manejo difícil que parece estar sendo mantido no lugar com um pouco de fita veda-rosca e muita força de vontade. Hendrik põe a cabeça para fora. “Vem, Reezemestre,” diz ele, fazendo um sinal para a traseira do veículo com o polegar. Janin se inclina para fora, me entregando a mão. E então noto algo familiar — o veículo consiste de metal branco e liso, com domos de vidro azul. Eu aperto os olhos para ver que dúzias de emblemas do Senado Azorius foram lixados. A magia de runas foi adulterada e agora tem um brilho lilás, mas a verdade é inegável. Meu salvador honrado não é tão honrado assim.

Dispor | Ilustração: Sara Winters

“É você!” Digo ao Hendrik. “Você é o ‘gênio maluco’ que anda atirando nos tópteros! Eu quase morri por sua culpa!”

“É, desculpa aí. Não pelo tóptero, mas porque você caiu pelo céu. Agora entra logo, antes dos farejadores de regra tacarem umas mágicas na gente.”

“Isso aí é propriedade roubada!” Grito eu. Não posso. Não posso. Eu olho para os encarceradores, se aproximando lentamente. Delitos vão se empilhando mentalmente:

 

Lei Azorius 2795-V, desobediência para com encarceradores . . .

Lei Azorius 3343-J, uso de veículo roubado . . .

Lei Azorius—

 

“Você tem três segundos até que os farejadores de regra alcancem a gente,” avisa o Hendrik.

Enfim meus instintos de sobrevivência me tomam. Eu agarro a mão do Janin e me lanço para salvar a vida. Hendrik sobrevoa os encarceradores, e logo eles não passam de pontinhos no chão. “Aonde vamos?” Pergunta Hendrik. “De volta a Nova Prahv? Não posso te levar até a porta da frente, né, mas consigo te deixar perto o suficiente pra chegar a pé.”

Eu ignoro a pergunta, ansioso demais para lidar com a situação agora. “Por quê?” Pergunto eu. “Por que alguém gostaria de viver assim? Quebrando leis. Derrubando tóperos?”

“Leis de quem? Tópteros de quem?” Indaga Hendrik.

“Entendo sua relutância em confiar nos Azorius,” digo eu, lembrando do olhar predatório naqueles encarceradores. “Mas será que o Canto das Ideias estaria melhor se concedesse a supervisão? Poderíamos deixar as ruas mais seguras, estabelecer serviços utilitários para que não tenham que precisar de vormes para se livrar do lixo. E conseguiriam pedir para a Liga Izzet que financiassem suas oficinas.”

Hendrik meneia a cabeça. “Vamos dar um jeito sozinhos. Sempre foi assim. Pode não ser perfeito, mas é o nosso lar.”

“Ao menos prometa parar de atirar nos tópteros,” peço eu.

“Claro, se você conseguir que os Azorius parem de mandar eles espionarem a gente,” replica Hendrik.

O interior do veículo feito de tópteros fica em silêncio com uma tensão desconfortável, mas logo ela é quebrada com um assobio grave que sacode os parafusos dessa bagunça voadora. O som fica mais agudo até que um relâmpago ilumina o céu inteiro em lilás. Eu olho para baixo e vejo uma fenda gigante, mais preta do que tudo. Ela chia com luz azul-clara pelas bordas, bem onde a oficina do Canto das Ideias estava. “Hendrik!” Grito eu. “O Canto das Ideias está sendo atacado por . . . algum tipo de elemental elétrico.” Mais relâmpagos irrompem da fenda enquanto o elemental começa a tomar forma, parecendo menos eletricidade indistinta e mais uma fera monstruosa — braços, garras, presas. Ele bate em um prédio e seu toque é tão quente que tudo no caminho da sua mão derrete. A estática satura o ar. Se eu tivesse pêlos, estariam todos arrepiados agora.

Arcontes Azorius estão em alerta, voando na direção do Canto das Ideias, e parando logo antes de atacar. Eles terão de esperar até que o elemental cruze a fronteira para subjugá-lo, mas o Canto das Ideias inteiro pode ser destruído antes disso.

“Por favor, diga que vocês têm alguma invenção forte o suficiente para lutar contra aquela coisa,” imploro a Hendrik.

“Tem sim,” diz Hendrik. “É um conversor de matrizes de manifestação, com um elo de cascata otimizado duplamente.”

“Ai, graças a previsibilidade infinita de Azor!” Exclamo.

“Mas . . .” continua o Hendrik. Nunca é bom ouvir um mas nesse tipo de situação. “. . . está lá embaixo sob três metros de mizzium derretido.”

Os cidadãos do Canto das Ideias estão fazendo o que podem para se defender, mas é uma batalha perdida. Tem ajuda bem ali . . . se não fosse pela Falácia Jurisdicional do Canto das Ideias, centenas de vidas seriam salvas. Mas se o problema era impossível de solucionar dentro do santuário silencioso do complexo da Coluna de Jelenn, com todos os recursos ao alcance das mãos; como eu poderia tentar solucioná-lo agora — acompanhado de foras-da-lei em condições emergenciais com cerca de quarenta e cinco segundos até que o elemental nos note e nos tire dos ares com uma batida?

Eu me sento com postura perfeita e começo a conjurar. Eu percebo que tenho uma coisa que todos os magos de lei não têm. Eu vi o Canto das Ideias. Eu falei com moradores. E agora, com esse elemental quebrando tudo, eu invoco leis emergenciais para lavrar uma declaração. Eu posso não ter autoridade para resolver a disputa de jurisdição — essa parte da falácia não pode ser resolvida — mas se eu der soberania ao Canto das Ideias, transformando-o em um distrito próprio dentro da cidade, eles terão autoridade de contratar outras entidades, no caso o exército Azorius que está se enfileirando nas fronteiras jurisdicionais.

“Você gostaria de ser o Grande Árbitro do Canto das Ideias?” Digo eu, para Hendrik.

Ele abre a boca mas não há tempo de responder, então eu continuo. “Todos cidadãos do Canto das Ideias a favor de declarar Hendrik . . . Qual é o seu sobrenome?”

“Azmerak,” diz Hendrik.

. . . de declarar Hendrik Azmerak como Grande Árbitro pro tem, ergam as mãos.” Eu cutuco o Jamin, e sua mão se ergue imediatamente. “Alguém é contra?”

Eu continuo a conjurar enquanto falo, formando a runa de lei que talvez salve o dia. Eu explico minha lei para Hendrik e Janin. Não é algo eficiente com apenas sete frases. Não é labitintina. Não tem negativos duplos, notas de rodapé, ou restrições extensas. Não é nem um pouco perfeita, mas é perfeitamente clara. Ao invés de tentar resolver o problema de cinco adversários brigando por um pouco de terra, teremos cinco vizinhos ajudando a proteger os interesses uns dos outros.

“Pela escritura prerrogativa de emergência, e por voto unânime, declaro que Hendrik Azmerak é doravante o Grande Árbitro pro tem do Enclave Canto das Ideias. Como líder do seu povo, eu teria sua permissão para colocar esta lei em efeito?”

Ele olha a runa de lei com detalhe e atenção. É maravilhoso que ele esteja sendo tão detalhado, é o sinal de uma liderança competente, mas só temos alguns segundos para agir.

“Sim!” Hendrik diz por fim, e quando eu solto a runa para o céu, ela brilha mais do que qualquer runa de lei deveria. Talvez eu tenha me esforçado demais na magia, mas não podia me arriscar que ela não fosse notada, ou não fosse lida. O pedido de socorro é atendido imediatamente, e cavaleiros e arcontes se enfileiram fronteiras adentro, com espadas e cajados em riste contra o elemental. Raios de eletricidade se partem com os ataques, mas se regeneram segundos depois, mais brilhantes e mais espessos. O elemental guincha, e derruba três arcontes. Mas os reforços já chegaram, com duas dúzias de magi-anuladores montados em grifos. Eles trabalham em conjunto para conjurar um campo azul de magia sobre o elemental, e com um esforço coordenado eles o apertam mais e mais até que ele é subjugado.

A estática no ar vai se dissipando, assim como qualquer tensão entre Hendrik, Janin e eu. Não há escritura formal que nos liga, mas há um laço que vai além de meros conhecidos.

“Você foi ótimo, Reza,” diz o Hendrik, com um tapinha amigável nas minhas costas.

“Obrigado, H.D.,” digo eu, tentando usar o apelido. Não, não, não. Não sai direito da minha boca — parece areia, mas não quer dizer que eu não considere Hendrik um amigo.


“Tem certeza que quer continuar com isto?” Pergunta minha mentora, olhando para o rascunho do meu projeto de lei: cinquenta e sete páginas de concessões e sanções e alívios. Eu resolvera a Falácia. Desta vez, de verdade. Levou oito meses de negociações entre o Enclave Canto das Ideias e as guildas, mas está pronto. “Não tem precedentes. É imprudente. E estou certa de que o Mestre Baan não ficará contente.”

“É o que é certo, e justo. O Canto das Ideias merece mais do que uma escritura temporária. Não seria justo tirar a liberdade que acabaram de provar, e sentiram o gosto.”

Talvez o Canto das Ideias tenha sido apenas um estorvo para os Azorius antes, mas acontece que as pessoas começam a prestar atenção quando um elemental elétrico com vinte e quatro metros de altura ameaça consumir várias quadras da cidade. Espero que Tagan me repreenda ou me dê um sermão sobre como colocar esta lei para consideração do Senado arruinará minha carreira, mas sua cauda apenas balança de um lado para o outro. De um lado para o outro.

“Creio que não possa mais ser sua mentora,” Tagan diz, por fim.

“O quê? Por quê?” Pergunto eu, ansioso para fazer o possível para me manter sob a supervisão dela. Eu pleiteio meu caso. “Você tem que acreditar em mim. Eu sei que posso fazer a diferença. Estive tão concentrado em me afogar em leis no passado, mas estou aprendendo a conversar com cidadãos para criar novas leis relevantes às necessidades atuais de Ravnica. Não pode desistir de mim agora!”

Ela sorri. “Não estou desistindo de você. Não posso mais ser sua mentora, pois creio que seja hora de você se tornar mentor. Acredito em você, mas o que você quer será difícil de convencer pessoas como Baan. Mas se você começar a mudar a mentalidade dos nossos sucessores, talvez consigamos colocar mais pessoas do nosso lado. E quem sabe?”

Ela deixa o pensamento em aberto, deixando o silêncio pairar. Convencer quatro guildas e um enclave a concordar sobre um terreno pequeno era um trabalho enorme, mas ele não tem comparação com os problemas maiores que assolam Ravnica. Mas, com a justiça do nosso lado, a justiça verdadeira . . . quem sabe? Talvez um dos magos de lei que eu mentorar venha a escrever o próximo Pacto das Guildas.


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