Crônicas de Nicol Bolas: Estranhos Conhecidos

Posted in Magic Story on 1 de Agosto de 2018

By Kate Elliott

Kate Elliott has been writing science fiction and fantasy for over 25 years, with 27 books in print. She's best known for her Crown of Stars epic fantasy series. Her next book, out in 2019, will be a gender-bent Alexander the Great as space opera.

Conto anterior: Sangue e Chamas


No ponto onde a tundra plana abria caminho para a serra oeste do Qal Sisma, colinas se erguiam como dentes serrilhados de um dragão monstruosamente grande, brotando do próprio chão. Em meio às colinas estava uma torre de pedra, torcida como uma mola gigantesca. Ao lado dela, uma luz misteriosa em verde azulado flutuava como bruma, saindo de uma fissura que partira a terra.

Aqui, no portão para o túmulo de Ugin, a Avó parou seu grupo apenas com um gesto, erguendo uma das mãos, ao invés de falar algo. A fissura era profunda, criando uma vasta ravina que cortava gelo e rocha. O que jazia na base da ravina estava coberto por um grande casulo de rochas pontiagudas salpicadas com neve, decoradas com linhas craqueladas de gelo que retraçavam runas inconcebíveis entalhadas em sua superfície.

De onde eles estavam, olhando de cima, não tinha como descer a ravina, apesar de uma trilha empoeirada sair de vista em torno do solo rochoso na beira do barranco. Naiva lembrou-se da jornada até o túmulo de Ugin há seis anos atrás fazendo armadilhas pela tundra para aves e caçando uma manada de saiga, e como chegaram até a fissura. Depois de ficar boquiaberta com a estranha formação, eles caminharam pela trilha estreita ao longo da beira da ravina, até uma caverna rasa. Lá, eles acamparam por dez noites.

A avó chamou com o crocitar de um lagópode, e depois parou para ouvir.

Enquanto esperavam uma resposta, Naiva trocava o peso do corpo nervosa. O brilho a perturbava tanto quanto a visão do casulo rochoso crescido ao longo das profundezas do barranco. Será que estavam maiores do que estavam há seis anos atrás? Será que havia mais daquelas misteriosas runas?

“O que são aquelas coisas?” Sussurrou Tae Jin.

“A Avó os chama de edros. Eles protegem os ossos do Dragão Espírito.”

"Ah... O que estamos esperando?”

“Tem uma caverna mais à frente. Um grupo de caçada costuma acampar lá.”

“Por quê?”

“A caça é especialmente boa aqui, porque dragões evitam esta região. E temos que ficar de guarda contra incursões das tribos Ojutai e Kolaghan. Eles também caçariam aqui se pudessem, roubando a caça do nosso território.”

“Eu quis dizer por que estamos esperando ao invés de continuar andando?”

“Estamos avisando da nossa chegada. Não queremos surpreender eles.”

Tae Jin olhou para dentro do barranco, e para a superfície cintilante dos edros. Eles eram opacos; era impossível ver se havia ossos embaixo deles, como a Avó dizia. Uma curva na ravina escondia o restante do casulo.

“Não fazia ideia que o Dragão Espírito fosse tão gigantesco,” sussurrou Tae Jin. “Pensei que tivesse o mesmo tamanho dos soberanos dragões.”

“Não, ele era o maior de todos os dragões - como deveria ser, já que ele é o progenitor de todos os dragões de Tarkir,” interrompeu Baishya. Ela estava do outro lado de Tae Jin, tapando o sol dos olhos com uma das mãos enquanto estudava os edros com um sorriso leve e misterioso.

Um pensamento estocou a cabeça de Naiva: como era irritante que Baishya precisasse exibir seus conhecimentos, quando era Naiva quem tinha demonstrado interesse no jovem guerreiro lumespectro primeiro. Sua irmã gêmea já exigia mais atenção da Avó. Ela não podia deixar Naiva ficar com alguma coisa?

Um som agudo interrompeu o caminho de seus pensamentos: era a Avó, assobiando um chamado mais alto.

Apenas o vento respondeu.

“Mevra é a líder do grupo que veio para cá na última temporada de caça. Mesmo que estejam caçando, eles costumam deixar algumas pessoas no acampamento, curando peles e fazendo outras coisas.” A Avó fez um gesto para Fec. “Siga o caminho até a caverna. Mattak, você, Oiyan, Rakhan e Sorya ficam aqui de guarda, protegendo Tae Jin.”

“Acha que era uma armadilha de Ojutai esse tempo todo?” Perguntou Mattak, com um olhar ameaçador para Tae Jin.

O olhar severo da Avó parou sobre o jovem. “Pode ser. Quero que proteja Tae Jin do ataque de qualquer Ojutai que tenha recebido a tarefa de segui-lo e matá-lo. Protejam-se nas rochas. Meninas, venham comigo.”

Fec rapidamente desapareceu de vista pela curva da trilha, enquanto os demais se escondiam entre um amontoado de rochas, escombros que se ergueram da ravina quando o Dragão Espírito se chocara contra o solo.

“O que houve?”

Indagou Naiva. “Aonde você acha que eles foram?”

A Avó fez um gesto, tocando os lábios, exigindo silêncio. Ela levou as meninas de volta pelo caminho que fizeram pelo campo de escombros, cortado aqui e ali com algumas árvores sobreviventes. Depois de cerca de duzentos passos, ela mostrou um encaixe de flecha cortado no tronco de um velho zimbro. Deslizando de lado entre as árvores, elas passaram pela folhagem e apareceram no leito seco de um riacho. Elas seguiram seu caminho aos poucos, deslizando por pedras lisas. A Avó parou ao lado de uma grande rocha, parcialmente oculta pelos grossos galhos de uma planta medicinal chamada mato-de-gado. Uma marca havia sido entalhada na rocha: a “garra Temur”, agora proibida por Atarka. Ela afastou os galhos dependurados e revelou a entrada estreita de um túnel.

Ela tocou o nariz de Naiva e depois o de Baishya - o velho gesto que ela costumava fazer quando queria atenção delas desde que eram bebês. “Este conhecimento pertence a sussurrantes e anciões. Nunca contem para ninguém. Entenderam?”

“Sim,” disse Baishya.

Naiva franziu o cenho, incomodada e empolgada pela solenidade daquelas palavras. “Eu compreendo.”

Elas caminhavam uma atrás da outra - a Avó na frente e Naiva na retaguarda. Depois de algum tempo, a passagem fez uma curva aguda e elas adentraram um pequeno vale circular, com cerca de cem passos de largura. O ar dentro daquele vale era cálido, quase como um bálsamo. Plantas comestíveis cresciam em torno de uma fonte. O céu acima delas parecia menor sob as rochas que as envolviam, mas o aroma intenso de coisas crescendo dava riqueza ao pequenino santuário.

Baishya se ajoelhou ao lado da fonte. “Que lindo. Veja, tem arônia e quebra-pedra, e musgo-da-noite. Por que parece verão aqui dentro?”

“Este é um lugar sagrado onde xamãs vêm meditar. Agora é mais do que isso - é um santuário escondido dos dragões.”

“Como pode ser escondido dos dragões?” Indagou Naiva, apontando para o céu.

“Uma magia entrelaçada na rocha a oculta de cima. Mas a magia só dura por uma distância pequena, e deve ser renovada a cada ano.”

“Por que você nos trouxe aqui, Avó?” Indagou Baishya. “Podíamos ter ficado com os outros enquanto Fec servia de batedor.”

A Avó girou um círculo lento, estudando o pequeno vale como se conferisse que tudo estava como ela havia deixado em sua última visita. “Se as coisas derem errado, se meus piores medos se tornarem realidade, vocês podem precisar deste lugar como abrigo.”

“Que medos?” Indagou Naiva.

“Peguem uma pedra.”

Quatro montes organizados de ágata polida marcavam os quatro pontos cardeais. As rochas irradiavam um calor que aquecia o ar. Quando Naiva pegou uma, ela descobriu que o brilho que ela julgava ser polimento era um brilho de calor. Baishya perdeu um fôlego, com olhos arregalados em encanto e incredulidade, e pegou uma das pedras, a pressionou afetuosamente contra uma das bochechas, e sorriu enquanto a aninhava entre as mãos.

A Avó fez outro gesto, tocando com dois dedos sobre os lábios para pedir silêncio antes de gesticular na direção de um túnel que se abria do outro lado do vale. Elas a seguiram silenciosamente, e seus passos caíam com maciez sobre o solo rochoso enquanto se moviam, como se adentrassem nos ossos da terra. A rocha se fechava em torno delas, protegendo-as; o brilho das rochas iluminava seu caminho. Nas paredes do túnel havia contornos pintados de bisões e de saiga, de ursos e lobos, de cervos e antílopes com galhadas. Grupos de caçada cercavam dragões jovens, prendendo-os com redes enquanto viravam suas lanças na direção de olhos e barrigas vulneráveis. Em meio às pinturas graciosas havia entalhes da garra Temur, além de outros símbolos — espirais e chamas, teias de aranha e picos de montanhas geladas dilaceradas por fendas — que Naiva nunca vira antes. Sob outras circunstâncias, alguém como ela nunca poderia ter visto este local sagrado. Mas ela era irmã gêmea de uma xamã, e a Avó nunca fazia nada sem motivo.

Ao longo, o túnel se expandia até uma longa caverna, e suas paredes eram tão altas que a luz das pequeninas pedras em suas mãos não furava a escuridão do alto. Formas as recebiam como parentes que esperavam silenciosos pelo retorno delas. Ao se aproximarem, as sombras arredondadas ganhavam forma em enfeites largos de cabeça, apoiados sobre pilares de pedra. Os grandes capuzes de couro tinham amarrados neles ossos entalhados, galhadas, presas e amuletos de bronze.

Baishya parou tão abruptamente que Naiva esbarrou nela. “O que são essas vestes, Avó?”

“São as vestes de uma sussurrante, como você deve ser. Escondemos tudo aqui para salvá-las de Atarka. O dia em que você não puder mais se esconder de Atarka será o dia em que você se unirá aos escondidos, criança. Vamos ter que esconder você dela.”

“Em uma tumba de pedra, como a nossa mãe?” Exigiu Naiva.

“Shh, não tão alto, minha caçadora corajosa. Você aprenderia sobre isso no tempo certo, mas não há mais tempo agora. Escute com atenção, Naiva, pois você também tem um papel nisso. Você tem a habilidade de ser uma excelente caçadora, de prover para o nosso povo. Mas você tem em si a chance de fazer algo ainda mais importante.”

“O que pode ser mais importante do que alimentar o clã e manter Atarka alimentada, para que ela não nos mate?” Indagou Naiva.

“O que é mais importante? Manter vivo o conhecimento sobre quem realmente somos.” A Avó andou mais além. Havia prateleiras entalhadas dentro da pedra. Aqui, em linhas organizadas, estava uma coleção de chifres, presas e galhadas. A luz das pedras revelava entalhes em sua superfície, e suas linhas finas e detalhadas denunciavam claramente o trabalho de mestres. A luz também revelou como a face da Avó suavizou, em uma demonstração rara de satisfação. Poucas coisas na dura vida que elas viviam amainava seu resguardo, mas quando ela pegou uma das galhadas nas mãos e a inclinou contra a luz para considerar os entalhes, ela chegou a sorrir.

“Estes entalhes contam a história do nosso passado. Enquanto nossos ancestrais viverem por meio das nossas memórias, então há esperança de que um dia possamos retomar quem somos, ao invés de apenas servir a fome de Atarka e de seus filhos.”

“Tem histórias de batalhas e de matança de dragões?”

“Sim, e muito mais do que isso. É chegada a hora de vocês se tornarem guardiãs deste conhecimento, para que possam passá-lo adiante quando eu me for.”

Naiva pegou a galhada das mãos da Avó e examinou o entalhe no osso. Não era uma história sobre a morte de dragões, mas sim de dragões matando humanos. Ela percebeu imediatamente que era a história da queda dos khans, conto que a Avó costumava contar à beira da fogueira à noite, como aviso e como lembrete.

Baishya nem tinha vindo olhar os entalhes. Ela voltara aos enfeites de cabeça, estendendo a mão para um deles antes de retrair-se, trêmula. Depois de dar um suspiro trepidante para se manter resoluta, ela estendeu novamente a mão e cuidadosamente acariciou os símbolos de poder. Sua face parou em um olhar de reverência.

“Eu ouço vocês,” sussurrou ela.

É claro que os objetos estavam sussurrando segredos para ela. Esta tradição pertencia àqueles com dons de xamã; não pertencia a uma caçadora como Naiva. Ela só estava aqui por causa de Baishya.

Era tão injusto.

A Avó pegou a galhada e a colocou no lugar, junto com os outros. “Fec deve ter chegado no acampamento agora. Venham comigo. Não façam barulho. Não tragam luz.”

Elas colocaram as rochas no chão e a seguiram para dentro de um túnel largo, a única outra saída que havia. O teto foi descendo até que elas tiveram de engatinhar. A voz ribombante de Fec sussurrava em torno delas, mas as palavras eram inaudíveis. Depois de uma pausa, como se estivesse ouvindo, ele falou novamente, como se respondesse. Por que a Avó estava espiando ao invés de cumprimentar seu caçador normalmente?

A passagem acabava em uma longa fissura horizontal, estreita demais para passar, mas que dava para ver a caverna grande e rasa. A lareira de pedra estava coberta com uma cinza fina e branca. As bolsas e as armas de caçadores do clã estavam espalhadas pelo chão, atrás de uma parede de pedra alta o suficiente para manter feras perdidas longe, mas os caçadores não estavam lá. Fec estava na entrada, com a luz atrás dele. Ele olhava para alguém nos fundos da caverna, cuja face e forma estavam ocultas nas sombras.

A Avó sibilou suavemente entre dentes.

Uma voz grave falou saída das sombras, em um tom doce e melancólico ao mesmo tempo. “Uma doença comeu suas vidas e lhes trouxe a morte. Só eu sobrevivi.”

“Quem é você, parente? Saia, para que eu veja o seu rosto.”

“Não ouso cumprimentá-lo, Irmão, pois temo espalhar a doença que levou os outros.”

“Você está doente?”

“Não estou. Mas talvez a doença se esconda em mim. A morte pode se disfarçar de vários jeitos e atacar quando menos esperamos, não é?”

Fec escondeu a mão atrás das costas, fazendo o sinal de “cuidado” — o que significava que ele sabia da fissura escondida e já presumia que a Avó estivesse observando. “Há quanto tempo eles morreram?”

“Perdi a conta dos dias. Sonhos atrapalham minhas noites. Você conhece algum sonho?”

“Eu não sonho.” Ele ergueu as mãos para mostrar que estava desarmado. “Como disse antes, me chamam Fec, da linhagem de Abek, agora filho adotivo da Primeira Mãe Yasova. Mais uma vez lhe pergunto, posso saber quem é você e sua família, Irmãzinha?”

O silêncio preenchia o ar como calor que irradia de uma fogueira. A forma deu um passo para fora dos fundos da caverna, resolvendo-se em uma mulher bastante grávida segurando um machado. Um chapéu de pele estava puxado sobre seus cabelos. Era difícil distinguir suas feições pelo modo com que as sombras pontilhavam sua face.

“Primeira Mãe Yasova,” disse ela naquele tom doce feito mel. “Este nome eu conheço, mas não conheço você, Fec da linhagem de Abek. Me traga Yasova e eu falarei com ela, e contarei sobre o que se sucedeu aqui. Ela vai saber dizer sobre os sonhos.”

“Tem algo que você precisa, Irmãzinha? Algo que você precise até que eu volte?”

“Eu tenho o que preciso.” Ela pousou a mão na barriga, como um lembrete de que cada criança nascida era uma criança colocada no caminho do clã, uma ligação entre o passado e o não-escrito que ainda não veio a acontecer.

“É seu primeiro?”

“Primeiro?”

“Seu primeiro filho. Parece perto da hora e não há curandeira ou parteira aqui.”

“Sim, sim, está tudo bem. Está perto da hora. Onde está Yasova?”

Ele tocou seu peito com a mão aberta, recebendo as palavras da mulher, mas na verdade era um sinal para a Avó de que ele voltaria até os outros. “Vou ver o que posso fazer, Irmãzinha. Mas pode levar algum tempo. Espere aqui, em paz, até que eu volte.”

Ela não disse nada, apenas esperou. Ele se retirou sem dar as costas para ela, e enfim desapareceu em meio à luz do dia. Só então ela voltou para as sombras. Uma escuridão se enroscou nela, escondendo tudo menos olhos brilhantes.

Sem falar uma palavra, Naiva engatinhou de costas com a Avó e Baishya até chegarem na caverna onde os enfeites de cabeça esperavam como presenças, esperando serem libertas do confinamento.

A Avó entregou uma pedra a cada menina. Sua face era grave.

“Minhas meninas, vocês são o que há de mais precioso para mim.”

O choque de ouvi-la dizer algo assim em voz alta roubou o fôlego de Naiva. Por um instante, ela pensou que todo o ar da câmara havia sido sugado, e que ela sufocaria. Sempre em sintonia com as emoções de sua irmã gêmea, Baishya agarrou a mão dela, e apertou.

“Nós chegamos a uma época de grande perigo. Quem se lembra do que foi outrora está passando para o gelo dos ancestrais, enquanto quem nasce nunca saberá quem fomos, a não ser por histórias contadas por pessoas que nunca testemunharam as coisas que contam. Vocês são tudo o que resta da minha filha, que eu tanto amava. Mas vocês também são minha oferenda ao agora não-escrito, vocês e os entalhes que fazemos para contar nossa história, para que outros saibam de nós nos dias por vir ao longe.”

“O que houve?” Naiva exigiu saber. “Você acha que a doença da mulher vai nos infectar?”

“Você não a reconheceu?”

“Não.”

Baishya disse: “Era difícil ver o rosto, mas achei que parecia Mevra.”

“Sim, o corpo parece de Mevra, mas creio que quem está falando não é o que parece ser.”

“Está dizendo que alguém roubou a forma da Mevra? Como alguém pode fazer isso?” Indagou Naiva.

“Minha magia curativa é poderosa. Há outras formas de magia poderosa no mundo.”

“Como Baishya movendo rocha e gelo.”

“Verdade. Talvez exista magia que molde uma pessoa em uma forma diferente. Talvez ela apenas nos faça acreditar em uma ilusão, de que estamos vendo algo que não está lá. Eu não sei. Mas o olfato de Fec é excelente, e pelos sinais que ele fez ele também suspeita que não seja ela. Não posso ter certeza até ver de perto, e interrogar a pessoa. Deixo vocês duas aqui enquanto faço isso.”

“Eu não estou com medo," disse Naiva, com firmeza.

“É claro que não está.” A Avó agarrou a mão de cada uma das meninas, com firmeza. “Mas até que eu descubra por que Ugin mandou visões até nós agora, ou se são mesmo visões vindas de Ugin, vocês duas devem ficar aqui.”

Nexus de Ugin | Ilustração: Sam Burley

“De quem mais podem ser essas visões?”

“De um intruso que já nos infectou, trazendo o reino dos soberanos dragões à tona. Se algo acontecer comigo e com os outros, esperem um mês.”

“Um mês?!”

“Façam o que estou mandando. Depois de um mês, voltem a Ayagor e digam que Gerrak agora é o Primeiro Pai da tribo.”

Sem mais explicações, ela as deixou.

“Que intruso?” Naiva olhou para a escuridão deixada pela partida da Avó. “Como um intruso trouxera o reino dos soberanos dragões? Não era o destino dos dragões desde sempre, de serem nossos soberanos?”

“Uma corda não é apenas um fio, mas muitos fios trançados juntos,” disse Baishya em voz miúda. “O futuro é como uma corda. O fio onde estamos agora não é o único fio que pode ter ocorrido. Havia um caminho diferente, um que não foi tomado.”

“Você agora está falando como sussurrante!”

“Eu sou uma sussurrante. Não se lembra da história, Nai? Havia outro grande dragão na tempestade daquele dia, o dragão que matou Ugin. Ele veio de lugar nenhum e desapareceu para lugar nenhum.”

“A Avó acha que ele voltou?” Naiva abraçou as próprias pernas. Ficou tão frio de repente. “Ela não pode enfrentar um dragão sozinha. Devíamos voltar para a fenda e ver—”

“Não!” O tom de Baishya, que costumava ser leve e hesitante, endureceu de repente - fazendo-a soar como se fosse outra pessoa e não a irmã gêmea tímida e sonhadora que Naiva conhecia tão bem de algumas maneiras, cuja mente era tão diferente da sua que costumava desconcertá-la. “Nós não podemos voltar lá, Nai. Eu sei aonde devemos ir.”

Ela puxou Naiva até o canto mais escuro da caverna. A luz das pedras revelou uma fissura tão estreita que Baishya já tinha tirado sua bolsa e a colocado no chão, para se espremer.

“O que você está fazendo, Bai? A Avó disse para ficarmos aqui.”

“Ugin está me chamando. Eu não ouvia antes. Talvez estivéssemos muito longe, e ele só podia me chamar pela magia nos enfeites de cabeça.”

“Ugin está morto. Coisas mortas estão mortas.”

“Não. A morte é mais complicada do que isso. Se não vier, eu vou sozinha.”

Ela dissera as mesmas palavras quando decidiu subir o Gelo Eterno. Parte de Naiva queria empacar, virar-se. Mas assim como no dia em que Baishya decidiu subir a montanha sagrada, Naiva sabia que sua irmã gêmea estava com a mente fixa em um caminho e não voltaria atrás. Já que era seu dever proteger Baishya, ela largou sua bolsa, mas não a pedra, virou-se de lado e a seguiu fissura adentro. Ela arranhava seu nariz na rocha enquanto caminhava de lado. Sua nuca batia levemente contra a outra parede. Depois de cento e onze passos de lado, a fissura se ampliou o suficiente para andar apertada, mas ao lado de sua irmã gêmea. Bai respirava com esforço, e tossia um pouco.

Naiva a apoiou com um dos braços. “Olhe, tem um brilho de luz lá na frente. Vamos deixar as pedras aqui para pegar quando voltarmos.”

A fissura se abria para uma caverna rasa, onde um círculo de pedras formava um fogo de chão. Ele não era usado há muito tempo, e toda a cinza fora soprada pelo vento; Naiva não via sinal de lenha empilhada. Elas encontraram uma trilha que serpenteava pela face íngreme da ravina. O sol ainda não estava em seu zênite, e as sombras preenchiam a ravina, então elas caminhavam com cuidado, pensando bem onde pisavam. A trilha não tinha mais do que um palmo de largura. Seria fácil cair sobre os picos congelados dos edros. O ruído do vento diminuía enquanto elas desciam, afogando-as em um silêncio denso, como se suas orelhas estivessem tapadas com pano. Uma vibração profunda e sem som tremulava pelas solas de suas botas em um ritmo lento que lembrava a Naiva de respiração, não que houvesse algo respirando ali além das duas meninas. Nem mesmo pássaros voavam. Quando ela umedeceu os lábios, o ar quase pareceu criar uma faísca em sua língua, como se estivessem adentrando um lençol invisível de relâmpago congelado.

Por fim a trilha chegou no fundo, e elas estavam em um ponto sem saída. Paredes de edros angulosos as confinavam. Não havia mais nada a fazer, além de voltar trilha acima.

Sua irmã gêmea as levara até um canto sem saída, como sempre. A ideia se esgueirava furtivamente na mente de Naiva. Ela sempre tinha de seguir o caminho que a Avó mandou Baishya seguir, ao invés de comandar com a glória que suas proezas como caçadora inspiravam. Ela merecia mais do que isso.

“Nai?”

“O quê?” Sobressaltada, Naiva virou-se para ver como Baishya a observava, com olhos semicerrados.

“Tinha uma coisa esquisita nos seus olhos agora mesmo, mas já foi. Olha o que eu encontrei.” Ela prendeu uma das mãos no canto de um dos edros. Como se fosse a escama de um dragão se soltando, ela puxou uma placa de rocha parecida com ardósia, revelando uma abertura grande o suficiente para engatinhar.

“Não entre aí!”

Baishya caiu de joelhos e entrou engatinhando. Seus pés sumiram. O chão vibrou, e aquietou-se.

Naiva se orgulhava da coragem que tinha. Ver aquela fenda se abrir para uma escuridão turva que nenhuma luz conseguia penetrar enfiava uma adaga de terror em seu coração. Covarde! Toda sua vida ela fora lembrada mais e mais vezes que tinha de proteger sua irmã. Por tanto tempo ela pensara que era porque Baishya era mais frágil, mais fraca, menos competente, e talvez uma pessoa que a tribo decidiria que não valeria a pena alimentar. Mas não era nem um pouco isso.

A Avó a ama mais do que ama você. Você pode deixá-la. Ninguém sentirá falta dela, e então a Avó amará você mais.

O pensamento a incomodava. Ela deu um passo para trás, na direção da trilha. Mais um passo.

Você tem um destino maior. Você vai se tornar a caçadora mais magnífica que seu povo conhece. Será fácil, depois que ela não for mais um fardo para você.

Mas o dever e o amor firmaram seus pés. Era impossível sair e deixar sua irmã gêmea para trás. Elas nasceram juntas, puxadas do ventre ensanguentado de sua mãe morta, de mãos dadas. Trair aquele laço era trair a si mesma.

E então ela se ajoelhou e engatinhou edro adentro.

Uma bruma brilhante flutuava na frente de seus olhos, obscurecendo sua vista. Cores se retorciam como fios, cintilando e estonteando. O espaço era vasto, incomensurável, e o hálito inebriante da eternidade era doce. O espaço era pequeno igual a uma barraca de peles erguida contra a neve no meio do inverno, amontoada e úmida. Baishya estava estatelada no chão como se estivesse dormindo, com uma mão flácida ao seu lado e a outra estendida acima da cabeça, para tentar agarrar algum objeto que Naiva não conseguia enxergar.

O ar coagulava nos pulmões de Naiva. Ela caiu para a frente e sua vista nublou. Com seu último suspiro consciente, ela agarrou a mão de sua irmã gêmea, pele com pele. A magia dos edros abriu um portão mente a mente. A essência do Dragão Espírito se ergueu como uma colina de gelo em torno dela, cintilando intransponível. Ela caiu na visão onde Baishya já havia mergulhado.


A paisagem é um lençol prateado de água, tão imóvel e reflexiva quanto um espelho que se estendia até o horizonte por todos os lados. Aqui e ali ilhas rochosas se erguem como torres em um mar infindável, cada um criando um local perfeito para meditação.

Nenhum vento agita o ar, e ainda assim, globos bruxuleantes e translúcidos flutuam como bolhas presas em uma brisa que não toca mais nada.

Um destes globos desliza mais e mais para perto, até a sombra da menina que dormia acima das águas. Quando sua frágil superfície toca a beira de sua forma enevoada, ela estoura. A fina esfera de líquido derrama memórias sobre a sombra da mente dela.


Um dragão flutua sobre as águas imóveis, observando o próprio reflexo, um espelho que olha de volta para si. O reflexo é tão completo em todos os detalhes que podia ser o dragão original olhando para dentro de um mar refletivo, e o dragão flutuando acima seria seu reflexo completo em cada detalhe.

“Que lugar é este?” Diz o dragão, e ao ouvir a própria voz, bate sua cauda, surpreso. Mas a cauda não agita vento algum. As águas não tremulam. Apenas o reflexo se move enquanto o dragão responde a si mesmo.

“Este deve ser um dos planos de existência dos quais Te Ju Ki me fala. Eu caminhei entre os mundos . . .

Tal percepção acende uma fagulha cintilante e ondulante, uma chama sem luz que parece envolver o dragão, e deste modo ele desaparece.


A água espera, imóvel, calma e na expectativa, como se estivesse quase atenta. Outro globo gira até a sombra da menina que dormia, e estoura.


O dragão cai confuso, abrindo suas asas no último momento para se acomodar sobre um pico serrilhado. Mas esta não é a montanha de nascimento, com seus declives suaves, presidindo sobre uma paisagem rica e magnífica. Este é um mundo selvagem, tempestuoso e acidentado que mal nascera, chamado Tarkir. Ventos ferozes recebem o dragão com lufadas de vento selvagens. As montanhas cantam, derramando árias de lava flamejante, e os rios jorram em conversas rápidas e encantadoras. Os corações do dragão se sentem como se estivessem em casa. Esta terra selvagem pode ser cuidada - não para criar o jardim de seus sonhos, mas para se tornar o que ela é, para cumprir a promessa de sua alma nascente.

Então, ele se entoca no solo e desencava as criaturas da terra. Ele nada nos rios borbulhantes e mares inquietos e lamaçais pesados, e cada ondulação ferve uma miríade de criaturas nas águas. A batida de suas asas cria raios e trovões pelo céu, e a tempestade cria dragões. Até mesmo o fogo gera coisas vivas, esplêndidas em seu calor e beleza.

Ou pelo menos esta é uma história que humanoides costumam contar sobre os dias mais antigos, pois quem testemunha a majestade e o poder de um dragão não consegue deixar de se associar com tal grandeza. Quando o conhecimento da magia aparece entre os vários povos, xamãs buscam a tutela do dragão. Para os mais sábios, ele conta a história da jornada que o trouxe até Tarkir. Ao contar a história, ele descobre que as piores partes do choque e traição se amainaram. O que será que acontecera com seu irmão gêmeo? Será que Nicol sobrevivera? E seu plano de nascimento? Se ele conseguiu caminhar entre os planos uma vez, certamente ele poderia fazê-lo novamente.

Ele busca em sua mente pela centelha que abre caminho entre mundos. Em um banho de chamas invisíveis e tremulantes, ele passa por uma escuridão cegante e desorientadora, e depois de um momento desagradável de embrulhar o estômago, ele se encontra novamente flutuando sobre as águas calmas e sua aura misteriosa de paz meditativa.

Ilha | Ilustração: Florian de Gesincourt

Ele encara esta imagem perfeita de si, olhando para ele.

Uma única gota d’água cai do céu lambente, ou talvez de seu próprio olho, e atinge a água. A ondulação de sua passagem abre um panorama. Por esta janela, ele vê sua montanha de nascimento, ainda orgulhosa, ainda coberta de neve, mas agora desfigurada por um crescimento feio e desagradável.

Como um rugido mudo de angústia, toda a emoção coagulada que ele pensara ter deixado para trás o inunda em um surto feroz. A centelha lhe dá passagem: ele se retorce pelas sombras, e de repente está lá, caindo do céu na direção da montanha de nascimento.

Ele se entrega a uma poderosa corrente de vento e circunda a montanha, descendo e descendo, até perceber que alguém construíra um templo no topo da montanha. Tal estrutura é um espetáculo chamativo de telhados em camadas, pintados de vermelho-sangue, e no topo havia dois chifres gigantescos curvando-se em convergência. Sacerdotes com vestes cerimoniais o veem e vêm correndo, tocando sinos e batendo em tambores. Alguns se prostram como em adoração, enquanto outros tecem magias e as lançam sobre ele, como uma rede para capturá-lo e trazê-lo até eles.

Ele foge destas demonstrações brutas de magia e voa montanha abaixo, buscando por algo que lhe seja familiar. A clareira onde Merrevia Sal fora morta, onde o velho chefe construíra seu templo, agora era a praça central de uma grande cidade que se espalhava pelo sopé da montanha, alcançando o local onde ficava o antigo povoado.

Tantos humanoides caminham pelas ruas da cidade... Ele nem consegue contá-los. Suas vozes sobem como o trepidar de rios sem represas, mas sob a agitação vívida há uma imobilidade fétida. Uma escuridão podre pavimenta os becos e cortiços, insinuando-se em cada transação. Sob a prosperidade de quem veste uma insígnia com chifres curvos, daqueles que banqueteiam em grandes mesas e servem em templos opulentos, daqueles que carregam espadas de ferro e lanças enquanto arrogantemente cuidam de suas vidas, se esgueiram presos famintos e escravos rejeitados. Em sua raiz, este lugar não parece muito diferente do povoado ensanguentado do chefe matador de dragões, apenas crescido como uma metástase.

Quem governa, agora?

Mas ele sabe no fundo de seus corações quem governa o lugar.

Ele reconhece a forma dos chifres curvos.

Meu irmão. Meu gêmeo.

Ele ainda me trai, as promessas que fizemos, a ligação que tínhamos.

Com um uivo de frustração, fúria e pesar, ele desaparece em uma chama invisível. Depois de uma passagem pela escuridão cega de retorcer as tripas, ele aparece novamente sobre o espelho d’água.

As águas tranquilas acalmam seu coração incomodado. A emoção irada se amaina. Por anos sem conta, ele flutua acima das águas, perdido em pensamento e perdido no propósito do ego. O mundo sobre o qual ele caiu primeiro — Dominária — é apenas um entre muitos. Por que carregar o fardo do passado quando há um universo inteiro de mundos aguardando para serem explorados? Ele não está mais confinado à montanha de nascimento, ou até mesmo a Tarkir, o lar de sua alma. O universo é maior do que ele, e é assim que deve ser. Uma nova paz se estabelece em seus corações. Com exaltação, alegria e propósito tranquilo, ele se lança em uma chama invisível ondulante.

O dragão desaparece.


A água espera, imóvel, calma e na expectativa, como se estivesse quase atenta. Outro globo gira até a sombra da menina que dormia, e estoura.


Ele caminha entre os planos, maravilhas e perigos se desdobram enquanto ele passa de um mundo para outro. A tumultuosa Zendikar. Innistrad, assombrada pela lua. Lorwyn, banhada pelo sol. A robusta Alara, com seu mana perfeitamente equilibrado. O fluxo verdejante da magia de Shandalar. E tantos mais, alguns vastos e saturados com mana, e alguns apenas fragmentos atenuados desprovidos de vida e de magia.

Jund (Planechase) | Ilustração: Aleksi Briclot

Será que Te Ju Ki suspeitava quão múltiplo é o universo? A grandeza do Multiverso lhe impressiona; sua magnitude o mantém humilde.

E ainda assim, seus pensamentos voltam ao seu irmão gêmeo. Ele evitara Dominária este tempo todo, sentindo-se preso e diminuído nos confins de seu passado. Talvez ele tenha suspeitado rápido demais de Nicol, que afinal era um dragão muito jovem, propenso a cometer erros impulsivos da juventude. Talvez ele tenha interpretado os chifres curvos erroneamente, ou o que significavam.

Ele também sofre com seu orgulho, assim como seu irmão gêmeo, e não consegue deixar passar uma injúria antiga. Ele pode ter visto o que queria ver, ao invés de explorar mais e descobrir a verdade. Certamente a verdade é mais importante que o orgulho, e mais satisfatória que o poder.

Ele encontrará Nicol e tudo voltará ao que era antes, entre eles. Ele tem certeza.

Neste ponto ele já dominava a arte de transplanar. Em um piscar de olhos, com o tremular de uma chama invisível, ele some.


A água espera, imóvel, calma e na expectativa, como se estivesse quase atenta. Outro globo gira até a sombra da menina que dormia, e estoura.


Estandartes ao vento, exércitos marcham pelas planícies de Jamuraa. Atrás deles se espalham os destroços de uma grande guerra: corpos partidos, cidades arruinadas, e terras envenenadas por batalhas travadas em feitiçarias impiedosas e no poderio devastador de dragões. Aqui e ali, flâmulas marcadas com a coroa de Arcades Sabboth jaziam partidas na poeira e na lama, onde seus consortes caíram nas mãos de um exército de perseguição. Estandartes carregando os chifres curvos avançaram até que os orgulhosos sobreviventes do exército em fuga se reuniram, preparados para um derradeiro enfrentamento.

O último grande combate é aberto pelos uivos de soldados enlouquecidos por gerações em guerra. Trovões de raios mágicos explodiam os corações do inimigo.

Ugin assiste horrorizado enquanto dragões menores, que ele não conhecia, lutam e caem na primeira onda de ataque. Arcades Sabboth comanda brilhantemente, voando para cá e para lá para afastar uma manobra de flanqueamento aqui, ou um ataque de feitiçarias acolá. Mas Nicol está sempre lá com uma contramágica, patrulhando incessantemente suas linhas de batalha enquanto companhias de soldados e feiticeiros competem pela honra de lutar na linha de frente, onde ele poderá vê-los. Ambos estão concentrados o suficiente na batalha para não notarem que Ugin está lá, sobrevoando-os do alto.

Em um lampejo de raiva, de vergonha por ter passado tanto tempo longe, o dragão dobra suas asas e mergulha. Em suas viagens, ele aprendera um feitiço que o protegia contra lanças de ferro e redes de magias mortais, então ele se lança entre os dois exércitos e desfralda suas asas em uma chama invisível e cintilante, dependurada ali entre eles como uma aparição. As tropas em choque se afastam. Até mesmo seus irmãos em guerra estão assombrados com sua aparição inesperada, para tentar apartar a briga.

Agora que tem a atenção de todos, o dragão ruge. “Nicol! Arcades! Vocês devem parar com isto! É errado!”

“Luto apenas para proteger o meu povo!” Responde Arcades, com um berro furioso. Mas ele é sagaz, e nota que a atenção de Nicol caiu por terra, prestando atenção no intruso e não mais nele ou em seu exército.

Enquanto o dragão flutua entre eles, Arcades puxa o restante de seu exército esfarrapado para uma retirada em grande escala.

As fileiras do outro exército aguardam suas ordens.

Nicol olha em choque para o espectro que o confronta.

“Que feitiçaria é esta?” Exige saber. “Ugin está morto.”

“Não é feitiçaria. Você não me conhece, Nicol?”

“É alguma magia maldita tecida por Arcades!”

Ele salta para a frente e com um jato de fogo tenta obliterar a miragem. Mas a mágica de Ugin é poderosa, tecida com todo o espectro da magia. A fúria de Nicol passa por ele sem causar dano, dissipando pelo ar. O exército aterrorizado mantém sua posição - até mesmo os atingidos por fagulhas, que se retorcem em tormento enquanto morrem.

“Nicol! Pare! Sou eu, de verdade.”

“Você está morto. Eu vi você ser aniquilado por uma explosão vil de feitiçaria humana. Foi a vingança deles pela minha vitória, destruindo o que eu mais amo. Mas eu vinguei você. Me dediquei a fazer do mundo um lugar digno da sua visão de paz e harmonia.”

“É isto o que chama de paz e harmonia?”

“Vai ser. Venha ver o que eu realizei. Venha, Ugin.”

Suas palavras vêm do coração. Ainda assim ele abandona seus soldados, deixando que eles recolham seus mortos e feridos. Batedores do exército de Arcades relatam esta mudança abrupta das circunstâncias, de como o vitorioso renunciara sua vantagem no campo de batalha. Mas Ugin não pode ficar para ver o que Arcades pretende fazer, muito menos dar uma hora ou um dia para falar com seu irmão mais velho, e perguntar o que ocorreu nos anos ou séculos desde que ele partiu.

Ele veio encontrar Nicol, então ele segue seu irmão gêmeo. Eles sobrevoam as planícies e montanhas de Jamuraa e por consequência o oceano, passando por outras ilhas e continentes. Dominária é linda, com cachoeiras e cascatas e serras esplêndidas, pastagens férteis e florestas em flor que respiram vida, recifes coloridos e ilhas com areias cintilantes. Mas em meio às paisagens impressionantes se aninhavam os resíduos da guerra: campos arruinados, vilarejos chamuscados, ossos espalhados. Até mesmo o terreno fora transformado por magias graves lançadas sem pensar nas consequências: rios bloqueados até inundarem povoados desafortunados, ravinas perfuradas sobre planícies pacíficas, avalanches enterrando vales silenciosos... Nicol observa a paisagem com um sorriso satisfeito, não parecendo notar nenhuma parte desta destruição horripilante.

Fenda Tectônica | Ilustração: John Avon

“Você suspeitava que o mundo era um lugar tão vasto, Ugin? Viajei para todos os lugares, e nenhum lugar pequeno ou grande ficou sem que eu pousasse minhas garras. Sou soberano de metade de tudo, ao me erguer do menor para o maior de todos. Toda Dominária logo se ajoelhará frente a mim. Ninguém ousa me chamar de “último” agora. E você ressurge para compartilhar comigo deste triunfo.”

Enfim eles chegaram no continente e na montanha de seu nascimento. A cratera do pico está nua exceto pelo par de chifres entalhados em mármore, fazendo parecer que a própria montanha tem chifres.

“Não havia um templo aqui?” Indaga Ugin.

“Havia um há muito tempo, mas eu notei que não cabia a humanoides pisarem no solo sagrado que era apenas para dragões. Apenas para mim.” Ele pousa graciosamente, deixando espaço para que Ugin pousasse ao lado dele. “E para você também. Senti tanto a sua falta, Ugin. Minha angústia acabou comigo. Pensei em você todos os dias, me perguntando o que teria acontecido com você e como você estava. Então me diga: gostou dos meus domínios?”

Ugin fica em silêncio por tanto tempo que Nicol, perdido na contemplação de sua própria magnificência, eventualmente percebe que ele não o respondera.

“Compartilhe seus pensamentos comigo, Irmão. Não é impressionante o que eu realizei? Até você deve admitir que nenhuma criatura deteve tanto poder, sobre tantos, quanto eu.”

As palavras transbordam como lava. “Você tentou me influenciar com aquele truque mental. Como pôde, Nicol? Já era ruim que você fizesse tal magia terrível nos outros, mas em mim, no seu irmão gêmeo?!”

“Você não se dignava a desgostar do meu 'truque' quando não funcionava contra você.” Nicol ri levemente. “Eu era jovem, estava testando meus poderes. Mas agora não tenho necessidade daquelas inseguranças. Sou imperador de tudo - ou logo serei.”

“Tudo? Você acha que isto é tudo?” Ugin gargalha e sua barriga afunda com uma raiva que ele não compreende.

Nicol bufa, e sua cabeça gira para lançar um olhar frio. “Por que está rindo? Não se caçoa do poder.”

“Isto é apenas um fragmento em meio a uma miríade de fragmentos. Não é insignificante para quem vive e morre aqui, é claro. Mas comparado ao Multiverso que está além, é como se tomasse esta montanha como se fosse o mundo todo, sendo que é apenas um fragmento pequenino de tudo.”

“Do que você está falando?”

“Estou falando do que Te Ju Ki me ensinou—”

“Aquela humana velha foi vencida há muito pela morte, e sua sabedoria tagarelada não é nada além de poeira. Enquanto isso, eu e você ainda estamos aqui.”

“Se é isso o que você pensa, então não entende nada nem de morte, nem de sabedoria. Pensei que houvesse mais em você, Nicol. Você realmente acredita que esta conquista bélica mesquinha significa algo nos vastos confins do universo?”

Fagulhas saltam das narinas de Nicol. Um tufo de fumaça sulfurosa sibila de sua boca. Mas por muito, muito tempo, ele permanece em silêncio.

O vento uiva sobre a montanha. A neve começa a cair. Os flocos que pousam nas couraças escamadas dos dragões evaporam instantaneamente. A água pinga sobre a rocha, formando poças e congelando. Lá embaixo, a neve cobre a paisagem que os cercava com o manto do inverno. Ugin não se lembra de ter presenciado tanto frio ali, mas o clima que era um bálsamo claramente mudara. Até mesmo a grande cidade pareceu se dissolver, tomada pela floresta que se enroscou em torno de torres em decaimento, e subiu desmontando nobres avenidas. Ao longe, um círculo de fortalezas protege de qualquer aproximação à base da montanha. Mais além destas torres há templos descorados com chifres, e além dos templos há cidades menores, longínquas demais para serem vistas por olhos que não sejam dracônicos. Mas cada fortaleza e templo e cidadezinha era virada na direção da montanha, como se tudo o que importasse para Nicol era que todos os rostos estivessem virados para adorá-lo.

Nicol fala com uma voz melancólica e contemplativa. “Você voltou apenas para me insultar? Achei que éramos gêmeos, e não rivais!”

Com o charme destas palavras, Ugin se amaina. “É claro que somos gêmeos e não rivais. Nossos laços, nossa irmandade, é o único motivo pelo qual voltei. Se eu não tivesse voltado para encontrar você, estaria descobrindo todas as maravilhas que estão além deste pequeno mundo.”

Os olhos de Nicol se apertam com um olhar inquisitivo e alarmante. “Onde você esteve? Se não foi uma feitiçaria que fez você desaparecer bem na frente dos meus olhos em uma magia ondulante, então o que aconteceu com você?”

“Eu sou um planinauta agora.”

Nicol me encara com olhos brilhantes.

“Nem tenho certeza de que haja outra pessoa como eu. Não encontrei sinal algum de outra criatura que consiga caminhar entre os mundos.”

Nicol pisca uma vez, mas não diz nada.

“Eu não sei por que, ou como, aconteceu. Só sei que estava em Dominária, olhando para você, e de repente fui lançado para além deste plano de existência. Fiquei chocado na hora. Estava confuso e desconcertado. Mas desde então eu descobri que há muitos planos, muitos mundos. Eles estão ligados por um espaço que parece uma sombra, uma teia de escuridão à qual tudo está ligado. Movendo-se por esta teia, consigo passar de um mundo para outro. Vi tantas maravilhas! Já visitei uma centena de mundos. Dominar Dominária é muito bom para um déspota de cabeça pequena como aquele velho chefe, que matou nossa irmã ferida e acreditava que o feito o tornara invencível e divino. Mas ele e seus herdeiros esquálidos não eram nada além de tiranos negligíveis comparados com a eternidade ou infinidade de—”

“Você está me comparando com aqueles humanos patéticos, fracos e de vida curta que eu destruí com o volteio mais superficial da minha mente?” As palavras emergem no sussurro mais leve de todos.

“Quando eu vejo o que você forjou com estas guerras sem sentido contra nossos irmãos dragões? Quando ouço você se gabar como uma criança insignificante se gabaria por matar uma mosca, dizendo que mataram um poderoso dragão? Sim, eu comparo você com estas criaturas patéticas. Pelo menos elas não sabem mais. Você devia saber mais.”

“Há quanto tempo você sabe fazer isso?”

“Desde aquele dia. Desde o dia em que você tentou manipular meus pensamentos.”

Aquele dia aconteceu há quatro ou cinco mil anos, de acordo com a contagem de tempo dos humanoides. E você nunca pensou em voltar até agora? Nunca disse para si mesmo: preciso compartilhar esta revelação importante sobre transplanar com meu irmão, meu gêmeo?”

“Como eu podia confiar em você? Tentou me manipular—”

“Me mostre como caminhar entre os planos. Me leve com você.”

Ugin começa, afoito. “Concentre sua vontade na centelha dentro de você e . . .

Ele vai parando de falar aos poucos. Era a centelha nascida dentro dele que lhe dava a capacidade de transplanar. Sem a centelha, os caminhos entre os mundos são simplesmente uma porta cerrada.

“Você não consegue, não é?” zomba Nicol. “É tudo mentira, não é? Você esteve escondido este tempo todo em um santuário covarde. Agora, quando estou prestes a conquistar o mundo — o único mundo que existe — você volta como um rato faminto, esperando roubar minhas glórias e tomá-las para si.”

“Você não acredita em mim.”

“É claro que não acredito. Você é um mentiroso. Sempre foi, um covarde mentiroso. Esta é a maior mentira de todas, nascida lá no fundo do seu coração assustado, invejoso que eu conquistei tudo o que você nunca teve a coragem ou a força de vontade de realizar. Sempre foi comigo o problema, não é, Ugin?”

“Você só consegue ver a si mesmo em tudo o que acontece. O que aconteceu com você?”

“Nada aconteceu comigo. Estou como sempre fui.”

“Sim, talvez seja verdade. Talvez tenha sido eu quem tenha mentido para mim mesmo a vida toda, pensando que você era melhor do que isso.”

“A mentira é que você acreditava ser melhor do que eu esse tempo todo. É você quem manipula, Ugin. Não eu. Eu só fiz o que precisava para ajudar na nossa sobrevivência. Só mantive a jura que fiz com você e com nossa irmã assassinada. O que você fez além de se esconder como um covarde, me abandonando? Você só voltou rastejando quando eu fiz todo o trabalho de deixar o mundo seguro o suficiente para nós.”

“Você está certo. Eu nunca deveria ter voltado. Que seja. Aproveite sua ascendência sobre Dominária. É tudo o que você vai conhecer na vida, enquanto mundos incontáveis estão fora do seu alcance.”

Furioso e com o coração partido, Ugin desaparece em uma chama invisível e ondulante.


Um puxão rolou Naiva até ficar de lado. Quando suas costas bateram na parede fria do edro, ela abriu seus olhos, chocada. Sua mão tinha se soltado dos dedos de Baishya, o contato foi perdido. Sua irmã gêmea ainda respirava, seu tórax subia e descia lentamente. Sob as pálpebras fechadas, seus olhos se moviam sem descanso, como se tentasse absorver um fluxo interminável de visões. Será que ela estava presa em memórias ou em sonhos falsos? Será que o que elas viam era real, ou uma ilusão?

Caçadores confiam nas evidências na frente dos olhos: a pegada de patas ou cascos, grama partida que revela uma trilha, os aromas no ar e no chão, o farfalhar da passagem de uma fera, ou suas vocalizações que marcam sua posição. Como alguém confiaria em histórias entregues de um passado antiquíssimo ou sonhos que borbulham de uma fonte desconhecida? E se forem todas mentiras?

Um passo roçou do lado de fora, seguido por pedrinhas que rolaram da trilha. Ela abaixou a cabeça pela abertura para ver sua Avó descendo apressada pela trilha serpenteada. Apressando-se, ela agarrou sua lança.

“Avó.” Ela manteve a voz baixa, olhando nervosa para o céu apesar de não saber dizer por quê - ela apenas sentia um formigamento nas costas, um arrepio na nuca, como caçador seguido por um predador muito maior e muito mais mortal do que qualquer humano.

“Naiva!” A Avó pousou uma mão firme no ombro dela, sacudindo-a com uma rara demonstração de preocupação. “Por que vocês duas saíram da segurança da caverna? Onde está Baishya?”

Naiva indicou a abertura baixa e o interior obscuro. “Tentei impedi-la, mas sabe como ela é. O Dragão Espírito a atraiu até aqui e a prendeu em um reino estranho de água, como um espelho.”

“A prendeu?”

“Eu a segui. Quando peguei a mão dela, também caí em sonhos. Eu vi o que ela viu, sonhos que pareciam memórias. Então eu rolei e perdi o contato com ela, e acordei. Mas ela ainda está dormindo. É como se ela não pudesse parar.”

“O Dragão Espírito está tentando falar conosco.”

“Ugin está morto.”

“Você continua dizendo isso, mas os ancestrais nunca nos deixam realmente, a não ser que descartemos nossas memórias deles. O que você viu?”

Naiva não era contadora de histórias. Em vez disso, como caçadora, ela descreveu com eficiência a paisagem estranha e as bolhas flutuantes. A Avó escutou com atenção, e depois que Naiva terminou ela ficou em silêncio; sua face parecia concentrada como se ela estivesse caçando o segredo que procurava entre as palavras.

Enfim, Naiva não conseguiu mais suportar o silêncio e falou. “Mas o que tudo isso significa? Por que isso tudo está acontecendo?”

“Parece que Ugin não está morto, afinal. Mas também não está acordado. Devo concluir que o Dragão Espírito está tentando se comunicar conosco da única maneira que pode, como os ancestrais fazem às vezes, por meio de sonhos e visões. O povo-do-vento está em sintonia maior com os ventos da magia, então ele enviou-lhes uma visão das profundezas do seu sono. Eles chamaram Baishya até ele, sabendo que ela era uma sussurrante que consegue falar de uma mente para outra.” Ela pausou. “Como você e eu não conseguimos, Naiva. Não é algo que falta em nós. Apenas significa que Baishya tem seu próprio caminho na vida.”

“Passar uma visão dizendo para você vir até este túmulo?”

“Talvez. O mestre de Tae Jin deve ser um xamã poderoso. Assim, ele também recebeu uma visão, e assim ele enviou Tae Jin para me encontrar e me contar a história que Ugin contou aos Jeskai há muito tempo atrás. A história deve ser parte importante do que o Dragão Espírito quer que eu saiba. Mas o que eu devo aprender com todas essas dicas e marcos? O que Ugin quer que eu veja?”

“E se for tudo mentira, Avó? Sonhos podem ser mentira. Histórias antigas podem ser mentira.”

A Avó agarrou o queixo dela e a forçou a olhar nos olhos dela enquanto ela examinava cada detalhe do rosto de Naiva. “Suas pupilas parecem normais. Você ouve um sussurro na sua cabeça?”

“O que você quer dizer com isso? Não! O que você acha que está acontecendo?”

“Mevra e os outros estão mortos, temos quase certeza. O que tomou a forma de Mevra eu ainda não sei, mas se minhas suspeitas são verdadeiras estamos em um perigo terrível.”

A voz da Avó tinha um monotom que lançou um arrepio de medo pela carne de Naiva, um verme de gelo que mordia seu coração e a fez sentir como se fosse desmaiar. “Que perigo? Onde estão os outros?”

“Escondidos na caverna sagrada. Você deve subir e encontrá-los.”

“O que você vai fazer?”

“Eu não sei,” disse a Avó. Essas três palavras foram a coisa mais assustadora que Naiva ouvira em toda a sua vida, pois a Avó sempre sabia o que fazer. “O aviso que o Dragão Espírito está tentando nos dar pode ter chegado tarde demais, mas devo tentar me comunicar diretamente com Ugin para descobrir o que ele quer. Se o que você disse é verdade, talvez eu consiga alcançar seus sonhos por meio de Baishya.”

Um estalido a fez olhar para cima. As duas olharam fixamente para a beira da ravina, lá no alto, e além dele havia o grande céu azul. O sol estava em seu zênite e não havia nuvens. Nada se movia, nem um pássaro, nem um inseto.

“Minha doce criança,” disse a Avó com uma voz baixa e esfarrapada com uma emoção inesperada. Ela a beijou nas duas faces. “Vá, rápido. Vá em silêncio. Você compreende? Não deixe que nada distraia você.”

Ela engatinhou para dentro da pequenina abertura, desaparecendo dentro da estrutura de edros. Um tremor no chão sob os pés de Naiva parecia o tremor de um terremoto distante, ou o arrepio de uma criatura que rolava sob o solo.

“Avó?” Sussurrou ela.

Não houve resposta.

Um surto de medo lançou adrenalina em seus músculos e a fez tremer. Mordendo o lábio, ela suspirou e afastou a onda de terror, mas não conseguia parar de pensar em como as duas pessoas que ela mais amava no mundo estavam dormindo inconscientes, absolutamente desamparadas. Ela colocou o pedaço de rocha cristalina de volta na entrada, ocultando-a sem trancá-la no lugar, para que seja fácil deslocá-la de dentro. Depois de dar dez passos trilha acima, ela olhou para trás. Dali, a superfície do edro parecia tão lisa e intacta que ela teve medo de tê-las prendido lá por acidente, que elas não conseguiriam se libertar e se encontrariam em uma prisão que ela criara. E se elas morressem de sede ao lado dos ossos do Dragão Espírito?

Ela voltaria para conferir só mais uma vez. . . .

Um movimento lampejou na periferia do seu campo de visão. Ela girou, apontando sua lança na direção da trilha. Uma mulher saiu de trás de uma cumeeira, negociando a última volta antes do caminho fazer uma linha reta até a base da ravina. Ela estava em gravidez avançada mas era impressionantemente rápida em seus passos, fortes e graciosos, sem parecer carregar nada pesado. Naiva a reconheceu imediatamente. O rosto de Mevra era uma visão familiar no encontro anual em Ayagor, quando os vários grupos de caçada e grupos familiares tinham de se apresentar para Atarka. Ela era parente da Avó por avós que eram irmãs, e era uma líder de caçada, inteligente e com a cabeça no lugar, uma das poucas pessoas que a Avó genuinamente respeitava.

O rosto de Mevra sorriu ao ver Naiva. Era um sorriso tão amigável e agradável, tão tranquilizador.

“Saudações, Irmãzinha. Vim de tão longe para encontrar você e sua família, e para descobrir alguma família para mim.”

“Quem é você?” O medo apareceu em sua voz e pulava por sua carne, apesar de ela não saber dizer por quê.

“Não nos conhecemos? Qual é o seu nome, e a sua família?”

A boca de Naiva se abriu antes dela saber que devia falar. As palavras simplesmente voaram. “Sou Naiva, filha de Kiarka, filha de Yasova.”

“Yasova! Sim, é Yasova quem procuro. Ela não está aqui? Eu não a vi descendo nesta direção?”

“Não há nada aqui, como pode ver.” Naiva se concentrou em mover seu pé esquerdo, ou algo para fugir, mas seu pé não quis se mover. Um terror doentio se agarrou às suas entranhas, e ela respirou até que conseguisse dizer palavras compreensíveis. “Nada além destes edros, que cobrem os ossos de um dragão que morreu há muito tempo.”

“Não faz tanto tempo. Um momento. Um suspiro.”

“Há minha vida toda,” disse Naiva.

“Ah, você é muito jovem, mera filhote.”

“Quem é você?”

“Você não me conhece?”

Neste ponto, a respiração de Naiva vinha aos tropeços, como se ela estivesse correndo e não pudesse parar, e ainda assim ela não tinha se movido. A mulher grávida que vestia o rosto de Mevra desceu mais e mais, ficando cada vez mais perto. Seu treinamento de caçadora atiçava todos os alertas: a mulher não tinha aroma de feltro ou suor, não tinha brilho de óleo em suas bochechas descobertas. O vento não mexia nos seus cabelos negros.

Seus passos não faziam barulho, nem roçavam minimamente no chão.

Seus pés não tocavam o solo, e havia um dedo de distância entre as solas de suas botas e a terra granulada.

O que a Avó tinha dito mesmo? Ilusões fazem com que vejamos algo que não está lá.

“Quem é você?” Naiva repetia imprudente, e suas mãos agarravam o cabo de sua lança no nível da mulher, que ainda descia com aquele deslizar misterioso. “Você não é Mevra. Não é parente minha.”

A mulher grávida parou. Ela piscou lentamente, e o lento abaixar e levantar de suas pálpebras pareceu transformar o dia em noite. E então ela sorriu, um sorriso só um pouco largo demais, brilhante demais, afetuoso demais.

“Uma filhote sábia, tão observadora. Onde está Yasova?”

“Não está aqui, como pode ver,” disse Naiva com firmeza apesar de sentir-se tonta com todo o esforço de permanecer de pé. “Quem é você? Você não é Mevra. Seus pés não estão nem tocando o chão.”

“Que esperta, essa!”

A gargalhada da mulher grávida encheu a ravina, ecoando das paredes altas até Naiva cair de joelhos, largar sua lança, e tapar as orelhas com suas mãos. A risada foi quebrando enquanto o sorriso da mulher ficava mais largo, girando em torno da cabeça, se partindo como se cortado por uma lâmina para expor sua garganta; seus lábios se descascaram para ingerir sua cabeça, depois seus ombros, e depois ela virou do avesso em uma distorção horrenda de um nascimento. Mas o que emergiu do corpo derretido da mulher se retorceu e esticou, crescendo vorazmente como se este novo ser desejasse ingerir o próprio céu.

Um dragão se desdobrou da ilusão, criatura tão magnífica que a memória do poder de Atarka parecia miserável em comparação. Ele era tão grande que bloqueava o sol, permitindo que sua luz delineasse suas formas de cada lado, como se ele mesmo brilhasse. Arco-íris refratavam em torno dele, lançando arcos de cores por todo o céu como se comemorassem a chegada dele. Em choque, Naiva olhou para cima até ver os chifres curvos agora familiares para ela, das estranhas memórias que ela compartilhara dentro do edro. Uma gema brilhante na forma de um ovo flutuava entre os chifres, girando de maneira lenta e hipnotizante.

“Tudo ficará bem agora,” disse o dragão com sua voz suave e encantadora. “Você está segura agora, pequena Naiva. Todos os seus problemas serão resolvidos. Tudo o que você sempre quis será seu, porquanto você viver. Confie em mim. Só preciso de uma coisa. Só uma coisinha.”

Ela nunca se curvaria. Ela nunca se encolheria. Nunca. “O que você quer?”

“Quero Ugin.”

“Ugin está morto.”

“Foi isso o que eu pensei da primeira vez que o matei, mas ele não estava morto, afinal. Desta vez eu voltei para ter certeza. Você é a caçadora indômita, que será renomada como a mais poderosa de todos os matadores de dragões, que vai me ajudar a destruí-lo por toda a eternidade.”


Coleção Básica 2019 Arquivo das Histórias
Perfil do Planeswalker: Nicol Bolas
Perfil do Planeswalker: Ugin, o Dragão Espírito
Perfil do Plano: Tarkir

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