Crônicas de Nicol Bolas: O Agora Não-Escrito

Posted in Magic Story on 15 de Agosto de 2018

By Kate Elliott

Kate Elliott has been writing science fiction and fantasy for over 25 years, with 27 books in print. She's best known for her Crown of Stars epic fantasy series. Her next book, out in 2019, will be a gender-bent Alexander the Great as space opera.

Conto anterior: Perspectivas


Protegida sob os edros que cresceram sobre os ossos de Ugin, Naiva estava ajoelhada ao lado de sua irmã gêmea, segurando uma faca contra a garganta dela. Baishya estava perdida em um transe de sussurrante, com olhos fechados e mergulhada em uma visão que Naiva poderia compartilhar se tocasse a pele dela sem luvas. A magia vivia em sua irmã gêmea, e era algo negado a ela. A inveja e a raiva mordiscaram suas entranhas até não sobrar nada além de lascas pontiagudas.

Por que diziam a ela o tempo todo que ela devia proteger sua irmã gêmea? Não seria Baishya nada além de um fardo e um perigo para a tribo? Seria melhor se sua irmã estivesse morta. Assim, ela nunca mais seria tratada como a menos importante, pois seria a única. E nos anos por vir, as pessoas esqueceriam que Baishya existiu; nunca precisarão saber que a grande caçadora Naiva tivera uma irmã gêmea.

Uma linha fina e vermelha se formava ao longo da curvatura do pescoço da irmã.

Ainda assim, enquanto Naiva respirava e lutava contra os pensamentos difíceis, uma calma se expandiu lentamente pelas águas turbulentas do seu coração. A essência do Dragão Espírito a pressionava, clara e nitidamente, cortando o fio que a ligava àquela voz cruel que rasgava fendas de veneno na mente dela. Seu olhar abaixou para onde a faca estava, firme em sua mão. Por que ela estaria segurando uma faca contra a garganta de sua irmã?

“O que você está fazendo?!”

Uma forte mão arrancou a faca dos dedos dela, lançando-a para o lado. Ela fez um ruído intenso contra a parede, atingindo a parede do edro com um baque.

Piscando e confusa, ela se virou para ver que a Avó estava acordada e consciente. Yasova agarrou Naiva pelo queixo, forçando seus olhos a encontrarem os dela.

“Qual é o seu nome?” Exigiu a Avó, examinando os olhos dela.

“Sou Naiva,” disse ela, indignada, retraindo-se. “Já se esqueceu de mim?”

“É claro que não me esqueci de você. Cortei a barriga da minha filha morta para tirar vocês duas com a mesma faca que você estava encostando na garganta da sua irmã. Por que você não subiu de volta ao santuário, como eu mandei?”

“Tinha alguém no caminho . . . Mevra . . . não . . . um dragão . . . não pode ser . . .” Ela esfregou os olhos. Os eventos que acabaram de acontecer já pareciam nebulosos e surreais, como uma história que ela ouvira há muitos anos e não conseguia lembrar direito.

“Ele encontrou você.” A Avó estudou o casulo que as ocultavam. “Os edros nos protegem das garras dele.”

“Eu não estou entendendo.”

“O dragão que matou Ugin voltou.”

Seus pensamentos escavavam lama profunda, arrastando um nome para a superfície. “Nicol Bolas.”

“Sim. Ele toca as mentes para manipular as emoções dos outros. Ele mandou você matar sua irmã gêmea?”

A cabeça dela começou a doer. Quando ela apertou os olhos, formas pálidas e fantasmagóricas flutuavam como se tentassem formar uma memória coerente. “Eu não me lembro . . . não, não, espere. Eu tenho que levar você, Avó. Ele quer você.”

“Ele vai conseguir.”

“Você não pode voltar lá! Ele vai matar você.”

“Provável.”

“Então vamos ficar seguras aqui dentro até que ele se canse e vá embora.”

“Você pensa que ele se distrai facilmente como os jovens da ninhada Atarka? Não é o caso. O que você acha que vai acontecer se ele não me pegar?”

“Ele ameaçou destruir toda Tarkir. Ele conseguiria fazer isso?”

“Ele matou Ugin ao virar as mentes de todos os dragões contra seu progenitor. Ele é um planinauta, antigo acima de todas as contas. Então sim, devo supor que ele conseguiria destruir Tarkir caso ele decida fazê-lo.”

“O que foi que eu fiz?” Lágrimas de vergonha rolaram por suas bochechas. “Eu não queria trair você, Avó.”

“Você não traiu nada. Ainda assim, mesmo com tudo o que eu tentei ensinar a vocês duas, você não escutou com atenção. Entenda o seguinte: qualquer uma de nós pode morrer a qualquer momento, e todas nós vamos morrer eventualmente. O que importa é que nós tracemos fios que nos liguem ao passado, para que não nos esqueçamos de nossos ancestrais e do que eles têm para nos ensinar.”

“Eu vou sair e dizer que não consegui encontrar você!”

“Ele vai matar você e direcionar sua ira para Tarkir. Se o nosso povo deve sobreviver, nós precisamos ser mais espertas do que ele.” Ela estudou a face serena e os olhos fechados de Baishya. “Talvez seja por isso que Ugin nos chamou aqui.”

“Ugin está morto.”

“Sim. Ugin está morto. Ele não pode falar conosco usando os meios comuns. Ele não pode falar nem através da Mente Sussurrante.”

“Como Ugin saberia disso?”

Ela ergueu uma sobrancelha. “Ele a ensinou para as xamãs entre os nossos ancestrais.”

“Ele deve ter aprendido a falar mente-a-mente com o Bolas,” murmurou Naiva, raivosa. “Por que devemos confiar no Dragão Espírito? Ele pode estar nos manipulando esse tempo todo, não pode?”

“Ele ensinou segredos diferentes para as outras tribos.”

“Como a chama de lumespectro?”

“Sim. Compartilhando cada segredo com um clã, nenhum clã teria mais poder do que os outros. O que Nicol Bolas ofereceu a você para que me levasse até ele?”

Ela deu de ombros, envergonhada demais para revelar as palavras que ele dissera - e admitir as coisas horríveis em que ela pensara. “Eu não sabia que era tão fraca.”

“Você não é fraca. Os poderes dele são vastos. Eu pretendia contar a história inteira para você e para a sua irmã quando fossem mais velhas, mas parece que você tem um desafio grande o suficiente agora. Então escute com atenção. Anos atrás, antes de você nascer, eu ajudei Nicol Bolas a encontrar Ugin pois ele me prometeu acabar com os dragões de Tarkir. Para a minha vergonha, eu até conjurei uma mágica que o ajudou a virar as mentes dos dragões filhotes contra Ugin. É importante que você saiba da verdade, que me prometeram o que eu mais queria no mundo — o fim de todos os dragões — e eu cedi. Só depois eu descobri que a promessa era uma mentira. Eu sou fraca?”

“Não!”

“Então você também não é.”

Baishya cochilava em seu transe, intocada e tranquila. Uma onda de inveja formou um nó nas entranhas de Naiva; ela estava contente que Baishya fora poupada desta cena terrível - mas ainda assim, por que era a sua irmã gêmea que sempre era poupada das emoções brutas e dos tumultos da vida?

“Ah... Entendi o que ele prometeu. Você tem ressentimentos com a sua irmã.”

“Eu a amo!”

“Sim. É possível sentir amor e ressentimento por alguém ao mesmo tempo. Mas vocês sempre terão uma ligação, não importa o que aconteça.”

Naiva limpou as lágrimas do rosto, odiando como ela se sentia com elas. “Você estava segurando a mão dela. Você viu as mesmas visões? A água e as bolhas estourando?”

“Não, não consegui. Sua natureza como gêmeas deve ter aberto uma janela para você ver o que ela está vendo.”

“O que ela está vendo, se o Ugin está morto? Ou será que ele está apenas dormindo?”

“Os ossos dizem que ele está morto. Ainda assim, sua essência está contida dentro destes edros. Ele é a alma de Tarkir. Deve ser por isso que xamãs conseguem se comunicar com a parte dele enraizada em Tarkir, mesmo que ele esteja morto. Pelos mesmos meios que nos comunicamos com os ancestrais.”

“O que importa para nós? Por que não deixar o Bolas ter o que quer, para que ele vá embora?”

“Creio que Nicol Bolas não consiga destruir os edros. Mesmo que consiga, se ele destruir os edros a essência de Ugin será obliterada. Caso sua essência seja destruída, então mesmo que as rochas de Tarkir ainda estejam de pé, o mundo não terá mais alma. Será a morte do nosso povo, e de toda Tarkir. Até mesmo dos dragões. Por mais que eu odeie os dragões, eu amo meu povo mais. Não quero que o povo pereça, mesmo que signifique que, para isso, nós devamos salvar os dragões.”

Naiva observou a face da irmã. A expressão facial de Baishya era pacífica, mas os movimentos rápidos dos olhos dela indicavam que alguma parte de sua mente estava em atividade.

“As bolhas são memórias,” disse Naiva.

“Pegue a mão de Baishya novamente. Descubra o que Ugin está tentando nos contar.”

Naiva realmente tinha ressentimentos com Baishya, com sua magia e com suas certezas e propósitos estranhos, dinâmicos e misteriosos ao mesmo tempo. Por anos ela sentiu como se as pessoas não a tratassem tão bem quanto a ela por ser apenas uma caçadora, e muitos caçavam, enquanto sussurrantes eram raras e portanto preciosas. Ela fingira não sentir inveja. Era um alívio ter sua inveja amarga arrastada em campo aberto, mesmo que fosse repugnante. Sob o abrigo dos edros, nenhuma garra da mente de Nicol Bolas conseguia despedaçar seu coração. Por mais que ela se irritasse com a Bai, ela não queria imaginar o mundo sem ela.

Ela sorriu para o rosto da irmã, igual ao dela, o espelho para onde ela olhou durante sua vida toda. Após um aceno de cabeça da Avó decisiva, ela pegou a mão de Baishya. O mundo em torno dela esvaneceu enquanto as colinas cintilantes da mente de um Ugin adormecido a tomavam.


A paisagem é um lençol prateado de água, tão imóvel e reflexiva quanto um espelho que se estendia até o horizonte por todos os lados. Aqui e ali ilhas rochosas se erguem como torres em um mar infindável, cada um criando um local perfeito para meditação.

Nenhum vento agita o ar, e ainda assim, globos bruxuleantes e translúcidos flutuam como bolhas presas em uma brisa que não toca mais nada.

Um destes globos desliza mais e mais para perto, até a sombra da menina que dormia acima das águas. Quando sua frágil superfície toca a beira de sua forma enevoada, ela estoura. A fina esfera de líquido derrama memórias sobre a sombra da mente dela.


Um dragão flutua sobre as águas imóveis, observando o próprio reflexo, um espelho que olha de volta para si. O reflexo é tão completo em todos os detalhes que podia ser o dragão original olhando para dentro de um mar refletivo, e o dragão flutuando acima seria seu reflexo completo em cada detalhe.

Apesar deste lugar ser perfeito para a meditação, apesar de ele ter permanecido aqui por longos períodos para contemplar mistérios e eternidades, Ugin não consegue acalmar seus pensamentos turbulentos agora. Ele tivera tanta certeza de que Nicol ficaria radiante em vê-lo, que ele pediria para compartilhar os maravilhosos detalhes de suas jornadas através dos planos. Mas ele julgara mal. Ou talvez ele tivesse julgado mal a si mesmo.

Ele nunca devia ter partido da montanha de nascimento, mas ele não fugira de Dominária propositadamente. A centelha o pegou de surpresa. Ela o içou para fora como um peixe no anzol puxado da água, do único lar que conhecera, para ser lançado em praias desconhecidas. Ele não compreendera o que tinha acontecido até pousar em Tarkir, e então a sensação de pertencimento e ligação que ele sentiu por aquele mundo o mantivera ocupado por tempo demais.

Procurar o Horizonte | Ilustração: Min Yum

Seria culpa dele? Ou será que foi apenas como as coisas aconteceram? Talvez, se ele tivesse ficado, os eventos teriam ocorrido da mesma maneira. Nicol sucumbira ao pior em si, e agora ele pretendia infligir seu poder e sua raiva contra toda Dominária.

Seu arrependimento com o sofrimento de Dominária enquanto os dragões travavam guerra uns com os outros lutava com o alívio de saber que Nicol estava preso lá. Sem poder transplanar, ele nunca poderia impor sua visão terrível de lei e justiça sobre o restante dos planos de existência. Pelo menos, era alguma coisa.

Um lampejo forte, como o nascer de um segundo sol, lança um tom dourado contra as águas calmas. Um rugido furioso rompe o silêncio pacífico.

Um corpo gigantesco cai como uma pedra lançada dos céus. Logo antes de atingir a água, Nicol Bolas desfralda suas asas e se ergue no ar. Ele brilha tanto quanto o sol, e tem as cores da ira.

Com um rugido ao vento e um jato escaldante de fogo, ele mergulha na direção de seu irmão com assassinato no olhar. Ugin o encara, desconcertado com o ataque abrupto, imaginando de início que poderia ser um excesso de celebração e júbilo. Apenas quando as centelhas lancinantes do fogo de Nicol banham sua cabeça e criam bolhas em seus olhos, ele se esquiva de raspão para o lado. Sua asa direita passa pela superfície da água, cortando um rasgo no seu próprio reflexo. Ele se endireita e foge pelo arquipélago de ilhotas. Nicol persegue. Sua fúria garantem uma força e velocidade que faltam a Ugin, em seu pesar e exaustão.

O fogo queima as garras traseiras de Ugin. Um banho de magia cáustica, como uma nuvem de veneno, deixa seus quartos traseiros dormentes. Ele desvia pelas ilhotas. Ele já havia explorado o lugar com alguma frequência, e descansado sobre estes afloramentos escarpados sob o céu prateado e suas luas plácidas. Ele sabe exatamente onde se retorcer e virar, deixando Nicol ultrapassá-lo com um berro de raiva, dando a volta desajeitado.

Mas logo Nicol passa a entender o jogo. Ele muda de tática, subindo para ver Ugin de cima, sem obstáculos rochosos no caminho.

O grito de Ugin forma ondas na água como se tivesse se tornado um vento poderoso: “Nicol! O que você quer, me atacando?”

“Você ocultou o conhecimento sobre os planos de existência para si. Você mentiu para mim. Você me provocou com uma visão de tesouro que descobrira, e depois por puro despeito me abandonou.”

“Eu voltei por você—”

“Você nunca voltaria por mim. Você só voltou para zombar de mim, pois não conseguia ficar contente até ter certeza que eu sofreria pela eternidade sabendo que você tinha ganho um prêmio que eu nunca poderia tocar.”

“Não é verdade. Eu não sabia—”

“É claro que sabia.”

Nicol mergulha na direção da água com as garras de fora. Enquanto Ugin se esquiva, ele ergue uma densa névoa da água para esconder sua movimentação. Nicol arrasta uma ranhura pela água, as ondas sobem e se aquietam lentamente enquanto Ugin considera o que fazer.

Nicol bate as asas para subir novamente. Ele começa a circundar enquanto a névoa dissipa lentamente. “Ugin! Não seja covarde até para admitir sua traição. Terei minha vingança de qualquer maneira.”

Ugin viajara por todo o Multiverso com a maior curiosidade, observando por onde passava, lembrando-se das lições de Te Ju Ki e do exemplo de Chromium Rhuell. Ele aprendera a magia da descoberta, do discernimento, e até mesmo da defesa. Uma coisa que ele não dedicara tempo algum para aprender foi a magia do ataque e do combate. Ele sempre preferia conversar ao invés de lutar, construir ao invés de desmoronar. Ele não pode vencer se copiar a agressividade de Nicol. Apenas a perspicácia, e um pouquinho de astúcia dracônica, poderão salvá-lo agora.

“Como você ganhou a centelha?” Pergunta ele, pois saber por quê pode ajudá-lo a compreender no que Nicol se tornara.

“A centelha que você queria negar a mim?”

“Eu não poderia ter lhe dado a centelha. Eu não procurei por ela. Ela veio a mim sem aviso.”

“É o que você diz, mas eu não acredito em você. E agora a centelha é minha. Eu não vou compartilhá-la com você. Eu não vou compartilhar os planos de existência com um inimigo que me traiu.”

“Eu não sou seu inimigo—”

Nicol mergulha novamente, em silêncio e determinação.

Ugin toma o único caminho aberto para ele, mesmo que significasse que Nicol o marcaria como fraco e covarde. Ele caminha para fora do Plano de Meditação e pela escuridão para cair na tempestuosa Zendikar. Dentro de um tumulto de nuvens, ele desliza pelos ventos com a certeza de que poderá recuperar o fôlego e pensar no que fazer em seguida: como escapar até que Nicol se acalme, como negociar, como convencer seu irmão gêmeo que foi uma questão de ignorância e não malícia.

Mas Nicol está logo atrás dele, estourando a escuridão com um lampejo de luz dourada. Ugin caminha mais uma vez, e depois mais uma, buscando um plano de existência que o esconda mesmo que seja por pouco tempo. Da movimentada Kephalai até a crescente Ravnica e assim por diante, Nicol continua logo atrás, sem relaxar em sua perseguição.

Fica mais difícil para Ugin enxergar, pois seus olhos formavam bolhas e pústulas, e suas extremidades vão ficando dormentes com a magia que Nicol controla. Ele vai se curar ao longo do tempo. Dragões têm este dom. Mas ele não pode descansar, nem correr, e não pode fazer mais nada além de fugir. Ao correr para ficar longe da animosidade insaciável de Nicol, ele começa a sentir seus ferimentos roendo suas forças.

Um desejo irrompe: ele pode voltar a Tarkir, onde sua alma se sente em paz, onde o mundo o acolhe e deseja curá-lo. Mas então a própria Tarkir ficaria vulnerável à ira de Nicol. Ele prefere morrer a deixar Tarkir ser destruída, e se alguém cometeria um ato tão vil e sem piedade, seria Nicol Bolas.

Quando o pensamento passa por ele, ele vê em sua mente as águas calmas do Plano de Meditação. Ele se vê refletido naquele espelho d’água nos mínimos detalhes. O que é, afinal, o Plano de Meditação? É um mistério que ele ainda tem de investigar.

As sábias palavras de Te Ju Ki o banham como um vento cálido, com um perfume que acalma seus corações tumultuosos.

A morte não assusta você? ele perguntara a ela. E ela respondera:

Minha essência continuará a existir em outras formas. Todas as coisas têm um fim. Às vezes, não é a mesma coisa que morrer.

Ele sabe o que precisa fazer. Nicol nunca vai parar de persegui-lo, a não ser que pense que seu irmão gêmeo está morto.

Ele transplana de volta ao Plano de Meditação, onde ele espera flutuando acima das águas calmas, ou talvez seu reflexo estivesse flutuando e olhando para ele. Ele está exausto e ao mesmo tempo impulsionado com forças renovadas, pela certeza de que ele rejeitará o que Nicol se tornara.

Pools of Becoming (Planechase) | Ilustração: Jason Chan

Em um clarão, Nicol aparece bem alto no céu lustroso. Ele mergulha, todo garras e dentes. Em um lampejo de compreensão, Ugin vê como a maldade está tecida por todo o ser de seu irmão gêmeo. Talvez fosse uma pequenina semente dentro dele, há muito tempo atrás; talvez a partida de Ugin tenha permitido que ela crescesse e florescesse. O irmão com quem ele nasceu, com quem ele voou — Nicol — fora inteiramente devorado por Bolas, o nome que Nicol se deu porque só conseguia valorar a si mesmo em relação aos outros. Talvez nada do que Ugin pudesse fazer teria mudado este resultado. Mas ele estava desapontado que tivesse chegado até aquele ponto.

Com um suspiro, Ugin aceita sua morte. Ele se deixa levar.

Bolas ruge triunfante quando sua magia ondula, formando uma nuvem de vapor em torno do seu inimigo odiado, e quando suas garras cortam fundo até os corações quentes do seu inimigo, quando seus dentes cortam a garganta desprotegida do seu rival.

Com um baque poderoso, Ugin cai nas águas calmas. O impacto ressoa como trovão. Ondas monstruosas se erguem com o deslocamento, varrendo as ilhotas escarpadas, destruindo-as em seu caminho. A perturbação banha muito além dos limites do Plano de Meditação, transbordando pela cavidade escura e abismal, cuja rede infinita liga os planos de existência entre si. O mar esvazia, expondo a rocha sob as águas, como ossos deixados sob o sol para clarear.

Arrastado pela força bruta do cataclismo, Nicol Bolas lampeja como um sol e desaparece, puxado de volta ao plano de seu nascimento, caindo sobre as ilhas de Madara.

O plano que outrora era cheio do silêncio da tranquilidade, agora está vazio. Agora era uma terra de rocha nua, infértil e partida, e toda sua serenidade fora drenada para os interstícios das eternidades cegas, uma fenda que nunca poderá ser preenchida.

Nada se move, pois nada permanece.

Um momento passa. Um ano. Uma geração.

Um milênio.

Ou talvez não tenha passado tempo algum.

Uma camada de líquido pálido corre, vindo do nada, voltando daquela rede invisível e intocável de escuridão. Com um silêncio misterioso, a água sobe inexoravelmente, preenchendo o plano mais uma vez com suas águas prateadas. Quando as águas param de subir, elas continuam a crescer, e naquele espelho imóvel espera o reflexo do dragão.

Ele inspira, puxando as águas para ele. Elas se incham e espumam, subindo em cada canto e escama e ruga até que seus chifres cintilam e suas garras brilham e seus olhos se acendem com magia. Seria ele carne e osso, ou ele é magia e espírito? Será que isso importa?

O dragão flutua sobre a rocha seca, sob o céu luminoso.

Ele perpassa seu olhar pelo plano fraturado e por sua paisagem nua e infértil. Tal nível de destruição é a promessa que Nicol Bolas fez; é o que ele quer para tudo e todos que o desafiarem. Alguém deve se opor a ele, alguém que o conheça bem o suficiente para derrotá-lo. E Nicol Bolas não é a única ameaça contra o Multiverso.

Ugin tem muito a fazer se ele quer proteger os planos de existência.

Em uma chama invisível e ondulante, ele parte.


O fundo seco do mar fica lá, imóvel, vazio.

Bolhas começam a se formar, uma a uma, inchando diretamente da rocha. Uma a uma, elas estouram. O líquido de sua superfície desliza para dentro do fundo vazio do mar, e lentamente — muito lentamente — o Plano de Meditação começa a se encher novamente com memórias perdidas.


A água espera, imóvel, calma e na expectativa, como se estivesse quase atenta. Outro globo gira até a sombra da menina que dormia, e estoura.


No Plano de Meditação, o deus-imperador está empoleirado em um afloramento rochoso em meio às ruínas do que fora um belo templo, cujas colunas e teto foram lançadas ao chão na época do cataclismo. Para Nicol Bolas, estas marcas de devastação são marcas de vitória. Suas asas, estendidas, formam uma sombra acima das águas. Ele não se lembra exatamente onde Ugin caiu, mas ele caiu, e agora as águas opacas se tornaram o seu túmulo.

Este local, onde fora o seu maior triunfo, é um lugar adequado para ele refletir sobre seus planos. Para ter um ponto de foco onde ele pode concentrar sua meditação, ele escolhe um lugar no centro onde nenhuma ilhota rompe a superfície. Ali, ele ergue dois chifres curvos gigantescos que parecem emergir das águas, como se um dragão gargântuo estivesse dormindo ali embaixo, e seu corpo estivesse oculto. Quando ele termina, o céu brilha com um contentamento igual ao dele.

Ainda assim, uma certo descontentamento cutuca sua satisfação. Camada a camada, a máscara de vitória se quebra para revelar uma semente de rancor logo abaixo. Nem toda Dominária se encolhe sob o seu domínio. Ele tem inimigos insensatos o suficiente para acreditar que podem derrotá-lo. Além disso, há tantos planos de existência que aguardam sua presença... Como ele pode agraciar a todos com sua magnificência? Como ele pode provar que não é o último - que é o primeiro, o melhor, para todo o sempre?

O desafio se ergue à frente dele como as escarpas de uma montanha gigantesca, como a vasta imensidão de uma fenda que passa por vários mundos, como as espadas e lanças abundantes de um exército para o abate dos planos. A mandíbula insaciável de sua ambição devorará a todos.


A água espera, imóvel, calma e na expectativa, como se estivesse quase atenta. Outro globo gira até a sombra da menina que dormia, e estoura.


Em uma grande cidade de vidro e pedra, uma criatura alada com o rosto barbado de um homem e as graciosas patas de um felino gigante recebem o Dragão Espírito.

“Ugin, meu amigo, boas-vindas ao meu novo lar.

“O que traz você até este mundo?”

“Quando nos vimos pela última vez, nós conversamos sobre nosso inimigo em comum. Todos os mundos estão em perigo enquanto nosso inimigo permanecer inteiro, e livre. É por isso que estou aqui. Eu criei um ardil para livrar o Multiverso de sua influência, mas não posso concluí-lo sem você.”

“Para capturá-lo e prendê-lo, você terá que o atrair até algum local específico.”

“Eu irei atrai-lo até Tarkir.”

“Não seria Tarkir o lar da sua alma? Tal esquema não coloca o mundo de Tarkir em perigo?”

“É por isso que ele virá sem suspeitar de nada. Ele crê que eu nunca arriscaria Tarkir.”


A água espera, imóvel, calma e na expectativa, como se estivesse quase atenta. Outro globo gira até a sombra da menina que dormia, e estoura.


O Dragão Espírito plana em meio a uma tempestade, e nuvens se formam em torno dele enquanto os ventos vociferam. Ele está esperando. Um clarão anuncia a chegada de Nicol Bolas, e seus chifres curvos agora são enfeitados com uma pedra entre eles, como um terceiro olho que vê apenas o que falta a ele, o que ele ainda não possui.

Os dois dragões anciões se enfrentam aos rodopios, enquanto a tempestade cria um funil de ventos ferozes em torno deles. É uma luta equilibrada, um armado com astúcia e o outro com sabedoria. O Dragão Espírito sabe que é impossível matar Nicol Bolas diretamente. É por isso que ele havia criado um plano detalhado com seu aliado: sua única chance é prender o inimigo de modo que ele não consiga mais transplanar. Para fazer isso, ele deve segurar Nicol Bolas ali em Tarkir até que o artefato mágico possa ser ativado.

Com um rugido, ele desperta a força da alma de Tarkir. Dragões vêm de cada canto do mundo, em resposta ao chamado de Ugin. Mesmo com sua vantagem numérica, o Dragão Espírito não ataca. É apenas uma finta para atrair Nicol Bolas, e fazê-lo esquecer de ser cauteloso.

Ainda assim, até mesmo os planos mais organizados podem dar errado. Nicol Bolas vira os dragões de Tarkir contra seu próprio progenitor, e quando seu inimigo fora enfraquecido o suficiente pelos ataques deles, ele quebra o corpo de Ugin com um golpe mortal. O Dragão Espírito tomba até o chão. A força do impacto forma uma ravina na rocha e altera a paisagem. As reverberações da destruição rolam por anos e gerações e milênios, por todo o Multiverso.

Vitorioso, Nicol Bolas desaparece em um clarão de luz.


A água espera, imóvel, calma e na expectativa, como se estivesse quase atenta. Outro globo gira até a sombra da menina que dormia, e estoura.


Em uma grande cidade de vidro e pedra, uma criatura alada com o rosto barbado de um homem e as graciosas patas de um felino gigante recebem o Dragão Espírito. É a mesma memória, repetida exatamente.

“Ugin, meu amigo.”


O caçador sabe quando pegou sua presa. Uma forma sombria passa por uma cima sombra da menina que dormia. Uma mão com cinco dedos em forma de garra se estende até a sombra da menina e a puxa daquela visão.


Naiva deu um pulo.

“Aii! Me solta!” Sua irmã sacudiu a mão de Naiva e esfregou o ombro. “Parece que você arranhou meu coração!”

“Você viu?” Exigiu Naiva.

Baishya esfregou sua face, se sacudiu e soltou um suspiro. “Eu vi um oceano de memórias. Você viu também, Nai?”

“Sim. Através de você.”

A Avó ainda estava sentada de pernas cruzadas, observando atentamente. “Contem-me tudo.”

Falando apressadas, uma completando as frases da outra, as duas meninas descreveram o que viram. Quando terminaram, a Avó considerou silenciosamente por alguns suspiros, repassando o que elas haviam dito. E então ela assentiu com a cabeça, do seu jeito decisivo de sempre.

“O Dragão Espírito não se esqueceu de Tarkir. Temos uma chance para defletir Nicol Bolas. Uma chance desesperada. Vou aproveitá-la.”

“Você quer se render a ele?” Exigiu Naiva.

“Eu vou.”

“Mas ele já manipulou você uma vez.”

“Sim, então desta vez eu estou preparada. Não estarei tão vulnerável.”

“E se ele matar você?” Perguntou Baishya, e a voz dela embargou ao segurar a mão de sua avó.

“Eu não tenho medo de morrer. Eu ajudei a causar isto tudo, então é apropriado que eu ajude a terminar.”

Naiva puxou a mão de sua irmã gêmea. “Você fica aqui dentro, Bai. Você tem que ficar segura, porque quem vai se comunicar com o Dragão Espírito?”

“Não,” disse a Avó. “Nicol Bolas está com as garras em você, Naiva. Eu não a culpo, mas Baishya vai usar o seu manto e sair no seu lugar.”

“Que diferença isso vai fazer? Se ele invadir a mente dela, ou a sua, ele vai ver que não sou eu.”

“Talvez. Mas ele é arrogante. E ele nunca viu Baishya, então ele pode crer que não precisa investigar mais, já que ele acredita certamente que controla você. É uma chance que precisamos aproveitar.”

“Eu consigo, Nai,” disse Baishya. “A segunda coisa que uma sussurrante aprende é como defletir magia.”

“Ele é poderoso demais. Ele vai matar as duas.”

“Ela só precisa defletir o toque da mente dele para que ele sinta a semente da dúvida, assim como o seu manto vai diminuir suspeitas,” disse a Avó.

“E os edros vão te dar um pouco de proteção, como uma extensão do enfeite de cabeça de uma sussurrante,” adicionou Baishya.

“Sim,” concordou a Avó. “Agora, faça o que eu mandei.”

Naiva deu um suspiro para se acalmar, soltando-o com um sibilo que misturava frustração, raiva, medo e propósito. As meninas trocaram de mantos.

A Avó as examinou. “É uma sorte que vocês usam o cabelo do mesmo jeito.”

“Espera.” Naiva puxou o colar que usava, com o dente de um urso que ela matara quando tinha dezesseis anos, e o colocou no pescoço de Baishya. E então ela abraçou sua irmã. O medo  se encaixara entre suas costelas como a ponta de uma lança, mas agora que a decisão estava feita sua mente podia se concentrar na caçada. Ela entregou sua lança. A Avó e Baishya engatinharam pela abertura baixa, deixando-a para trás no espaço completamente cercado pelo casulo de pedra. Os passos delas raspavam no chão enquanto caminhavam.

Ela não conseguia suportar esperar sem saber de nada, então ela se ajoelhou ao lado da entrada, ajustando sua posição para poder espiar sem ser vista.

A Avó e Baishya estavam sob a sombra do dragão. Uma bufada flamejante, uma garra, um jato de magia as mataria facilmente, e ainda assim elas não se encolhiam ou se humilhavam.

Ninguém que estivesse ouvindo conseguiria confundir o ronco das palavras convencidas do dragão.

“Yasova Garra de Dragão. Você me serviu bem.”

“E você, Nicol Bolas, agiu exatamente como o Dragão Espírito esperava.” A Avó lançou suas palavras como uma lança, sem hesitar. “Você acha que é o enganador, mas foi ele quem enganou você.”

A sombra ondulou enquanto o dragão se movia inquieto. Em um tom mais agudo, ele disse, “O que você quer dizer?”

“Você voltou para ver se ele morreu mesmo.”

Fagulhas passaram pelo chão, como o prenúncio de uma chuva mortal. “É claro que ele está morto. Eu o matei.”

“Da última vez que você pensou ter matado ele, ele enganou você. Estou aqui para contar que ele o enganou novamente.”

“Por que você mente?” Gritou o dragão. “Eu o vi cair! Eu vi seu corpo atingir o chão. Sua própria neta confirmou. Pequena Naiva, não é verdade? Ugin está morto!”

“Se você tem tanta certeza de que Ugin está morto, então por que você voltou a Tarkir?” Disse Baishya com todo seu escárnio, justamente o tom que irritava Naiva mais do que tudo. Ouvir esse tom, virado a um planinauta estupidamente poderoso que poderia obliterar avó e neta com o menor dos toques de magia, a fez apreciar a coragem precisa e quieta de sua irmã, tão diferente da sua própria ousadia impetuosa. E ainda assim, quem estava sendo corajosa agora? Não Naiva, escondida dentro do espaço cavernoso dentro de um edro enquanto as outras enfrentavam o dragão.

Baishya continuou no mesmo tom de incitação. “Você não consegue admitir que voltou para conferir se ele morreu mesmo desta vez, depois de ele ter enganado você da última vez.”

A sombra se rasgou, desaparecendo quando o dragão voou. Naiva se estatelou no chão, virando o pescoço para conseguir ver o céu e as paredes da ravina. Sua forma física sumira de vista, mas sua magia irrompeu em uma demonstração de relâmpago bem acima, seguido por quatro trovões retumbantes. Um vento mágico irrompeu de cima, forçando a Avó e Baishya a ficarem de joelhos. Os edros se arrepiaram sob o vendaval. O vento foi tão forte que a portinhola de rocha que mais parecia uma escama cobrindo a entrada do edro caiu de lado, bloqueando a visão de Naiva e deixando apenas um dedo para entrar luz e ar.

Tão repentino quanto começou, a lufada de vento murchou. Uma escuridão se espalhou pelo chão com o retorno do enorme dragão. Apesar de ela não conseguir vê-lo, ela conseguia sentir sua presença gigante e malévola como uma garra presa em sua garganta. Ela tentou inspirar mas engasgou em um terror venenoso que a consumiu. Ela perderia as duas. Se ela corresse agora, ela poderia golpeá-lo, distrai-lo enquanto as duas corriam para se proteger sob os edros. Ela seria a ousada, a caçadora feroz, como ela sempre soube que seria o seu lugar dentro da tribo.

Ela se ergueu até agachar, preparada para empurrar a placa de pedra e lançar-se contra o inimigo.

Ao invés disso, ela pausou, forçando-se a respirar mais devagar.

Talvez a Avó temesse que até mesmo sob a proteção dos edros Naiva era fraca demais e não era confiável. Ou talvez o medo de que sua amada Avó não a valorizasse era a sua própria fraqueza falando, um inimigo que apenas ela podia derrotar. Ela tinha que confiar no mulher que a criara, que salvara o povo Temur da ira de Atarka.

Com os punhos cerrados, ela concentrou seus pensamentos. Por mais difícil que fosse, ela tinha que aceitar seu papel na caçada de hoje, que não era usar sua lança mas sim permanecer escondida.

Enquanto o grande dragão suspirava raivoso, um banho de calor escaldante rodopiou para dentro da fenda até a pequena câmara sob os edros. “Não brinque comigo. Posso matar as duas com um piscar de olhos. Depois disso, devastarei Tarkir com júbilo, até que nem mesmo um inseto caminhe por sua superfície arruinada.”

“Então vá em frente, ao invés de se vangloriar,” respondeu a Avó em seu tom costumeiro e brusco. “Mate-nos se quiser, destrua e arruíne Tarkir, pois não faz diferença alguma para o plano de Ugin. Sempre haverá um poder maior do que o seu.”

“Eu sou o maior dos poderes!” A voz dele retumbou, rachando pedras. “Como você verá em breve, Yasova Garra de Dragão, quando sua própria neta atravessar seu coração com uma faca. Vá em frente, Naiva. É minha ordem! Mate-a e eu darei tudo o que você deseja, o domínio sobre este mundo para que seja seu território privado de caça. Você será a primeira e a melhor, para todo o sempre.”

As palavras atravessaram o coração de Naiva como um desejo secreto e venenoso. A primeira e a melhor, para todo o sempre. A Avó devia estar treinando-a para ser a próxima líder depois dela, ao invés de perder tempo com Baishya e os outros xamãs. O caminho deles estava morto, como Ugin. Ele devia estar morto, e ela podia matá-lo de uma vez por todas.

Ela só precisava empurrar a placa de rocha e engatinhar para fora. Baishya nunca fora forte fisicamente, então seria fácil arrancar a faca das mãos de sua irmã. Ela colocaria a faca na garganta da Avó, sentiria o trovão de sua pulsação, a vulnerabilidade do coração que batia.

O grande dragão inspirou, com expectativa. Seu prazer em ver o amor virar ódio, a lealdade se transformar em traição, se espalhava pela cena como um calor devorador.

Seus dedos tocaram a pedra, pronta para empurrá-la.

A voz de Baishya a estapeou como um vento frio. “Talvez eu não queira caçar. Talvez nada do que você me oferece tente minha vontade, porque considerando tudo o que eu ouvi, você está preso no passado, preso em círculos, girando em torno da sua rivalidade com Ugin—”

“Eu não estou preso!”

“Mas vai ficar em breve,” interrompeu a Avó.

Naiva puxou sua mão, com dentes cerrados, lutando contra um desejo feroz de seguir em frente. Para o plano funcionar, ela tinha de ficar escondida. Ela tinha que fazê-lo.

“Você está no lugar exato onde os edros concentram forças mágicas em um nexo de grande poder,” continuou a Avó. “O Sol Imortal  está apontado para cá, para este local exato de Tarkir. Ele vai arrastar você para outro plano de existência e lá, vai prender você por toda a eternidade. Por que você acha que mantivemos você falando esse tempo todo? Para que possa ser ativado e você nunca mais poder transplanar novamente.”

Se ele fosse puxado de Tarkir, ele não poderia fazer dela a primeira e a melhor entre caçadores. Apenas ela poderia pará-las, e só então ela poderia ter o que sempre quis, o que ela merecia. Novamente, ela pousou a mão, com os dedos espalhados, contra a superfície lisa da placa de pedra, pronta para empurrá-la. Um pulso refrescante de calma passou pelo seu braço. Sua vibração calmante passou uma luz forte para dentro das profundezas da alma dela.

Era um desejo infantil, mesquinho e egoísta que a impelia. Ela era melhor do que isso. Ela seria melhor do que isso. Tremendo, ela cerrou o punho e o apoiou entre o queixo e a garganta, engolindo o sabor rançoso de sua inveja e ressentimento.

Lá fora, como se fosse uma reação a um movimento que ela não via, a Avó inspirou ruidosamente em expectativa e suspense. “Ah! Escute! Você está ouvindo o murmúrio do artefato, Naiva?”

“Estou!” Gritou Baishya no tom mais falso que Naiva já ouvira, mas como o dragão saberia disso quando não conseguia nem ver a diferença entre as gêmeas? “Exatamente como Ugin disse que aconteceria! Olhe lá para cima! Você vê a luz? É um segundo sol nos céus!”

Um rugido furioso fez os edros chacoalharem. A placa de pedra que estava solta inclinou, tremeu, e caiu de lado, abrindo a entrada do edro no mesmo momento em que a vasta sombra se ergueu. Rochas caíram da beirada da ravina, exatamente sobre o local onde a Avó e Baishya estavam. Uma avalanche de rocha e gelo surrou os edros indestrutíveis, formando lascas que voaram para dentro, rasgando a pele das bochechas de Naiva. Ela puxou o manto de sua irmã gêmea sobre a cabeça para se proteger. A poeira se ergueu e manteve a cena obscura até que ela não pôde ver nada além de um rodamoinho escuro e estonteante preenchendo o mundo. Ele atacara, e aqueles que ela mais amava seriam obliterados, e depois deles, toda Tarkir . . . e ela junto.

A luz lá fora mudou de cor, com um clarão forte e dourado que a cegou. O ar girou para fora, puxando a onda de poeira de volta para o exterior do edro.

Por algum motivo, ela ainda não estava morta. Seu coração ainda batia.

Lentamente, em um silêncio agourento, as partículas se assentaram. Sua boca estava irritantemente imunda, coberta com uma areia de sabor atroz. O silêncio tinha um peso horrível, como o fim de todas as esperanças, do arrependimento doentio de como o dragão a manipulara com tão pouco. A Avó esteve certa sobre a fraqueza dela esse tempo todo.

E ainda assim, o coração dela ainda batia. Ela resistira à magia de Nicol Bolas e permaneceu dentro do edro. Tarkir não fora partida e devastada.

Cuidadosamente, ela se agachou para espiar para fora.

A neve derretia dos edros angulosos por causa do calor, pingando pequenas e grandes gotas no chão. Ela esfregou seus olhos que ardiam enquanto as sombras e os brilhos do mundo voltavam gradualmente à vista. Raspando suas mãos, ela engatinhou para fora sobre uma pilha instável de rochas partidas, para uma clareira semipreenchida com os escombros mortais. As paredes da ravina se erguiam sólidas acima dela, observando os edros intocados. O céu azul brilhava, o sol estava a pino em uma indiferença magnífica, como sempre esteve em qualquer dia ensolarado.

O dragão tinha desaparecido. Mas ela estava sozinha.

A Avó salvara Tarkir, mas custou a sua vida, e a de Baishya.

Cambaleando para trás, ela se encostou na parede de edros. Suas pernas cederam e, sem conseguir impedir, ela deslizou até o chão. O que ela fez além de ser covarde e burra, escondida dentro do edro? Por que ela não agiu, lançando-se contra o dragão?

Mas ela sacudiu os pensamentos inúteis. A chance de morrer era parte do plano. Não teria funcionado de qualquer outra maneira. Ainda assim, ela não conseguia respirar, pensando em como ela teria que seguir pelo mundo sem sua irmã gêmea ao seu lado. Seu coração estava partido ao meio, mas de algum modo ela tinha que se levantar e encontrar os outros. Mas ainda não. Ela ainda não conseguia encontrar forças.

Um som miúdo rompeu o silêncio. Parecia exatamente com um passo no chão, mas não havia ninguém além dela ali, apenas uma pilha desorganizada de rochas enormes. Alguém tossiu.

Com um salto de adrenalina, ela saltou com a faca na mão. Um pedregulho grande se arrastou com um ruído rouco e raspado. Ele caiu de lado para revelar a Avó e Baishya, vivas, de pé, em um espaço mínimo formado por várias rochas que se apoiavam umas sobre as outras. Um brilho poderoso de magia se apagava dos braços esticados de sua irmã enquanto Baishya caía bruscamente para a frente.

Mal conseguindo respirar com a poeira nos pulmões, e com a esperança que apertou seu coração, Naiva correu imprudente até elas, deslizando e tropeçando em rochas soltas até alcançar o pedaço de solo intocado. Ela tomou sua irmã gêmea pelas costas, erguendo-a. Sua irmã estava quente. Respirando.

“Você usou sua magia para segurar as rochas!” Gritou ela, porque era a única coisa que ela tinha pensado em dizer. Lágrimas abriam caminhos em sua face empoeirada e ensanguentada.

“Ele se foi?” Sussurrou Baishya, apoiando-se em sua irmã com confiança.

“Ele foi embora,” disse a Avó. “Ele não podia arriscar que fosse um blefe.”

“Eu tinha certeza que ele mataria vocês!” Naiva começou a tremer quando a importância disso a atingiu. Baishya: morta. Mas não estava morta. Ela estava viva. Elas sobreviveram.

“Era um risco,” concordou a Avó. “Mas ele sabia que se eu estivesse dizendo a verdade, até mesmo o tempo de voar para nos atingir com uma das garras poderia ter sido tarde demais para ele. Creio que ele tinha certeza de que a avalanche criada por sua partida nos mataria.”

“E de certo modo você estava dizendo a verdade,” disse Baishya. “Realmente havia um estratagema para prender Nicol Bolas com o Sol Imortal. Só que Ugin morreu antes de colocarem os planos em prática.”

“Será que o Dragão Espírito está realmente morto?” Naiva observou atentamente a superfície dos edros sem um arranhão, pensando na inteireza vívida das memórias que as garotas compartilharam. Como seria possível que uma memória pudesse passar com tanta força dos mortos para os vivos?

“Todas as coisas terminam,” disse a Avó. “Às vezes, não é a mesma coisa que morrer.”

Um estalido fez com que elas olhassem para cima. Rochas soltas se soltaram da parede da ravina, deslizando ruidosamente pelos edros até tamparem a abertura do edro onde ela ficou escondida. Mais estalidos e rachaduras se formavam em torno delas, ecoando entre as altas escarpas.

“Precisamos sair daqui,” disse a Avó.

Elas subiram cuidadosamente o amontoado de escombros para onde a trilha emergia da avalanche, parando ali para recuperarem o fôlego.

Passos vieram correndo lá de cima. Naiva arrancou a lança das mãos de sua irmã e se abaixou, com a lança em riste, relaxando logo em seguida quando seus companheiros apareceram. Tae Jin corria na frente, e sua lâmina de lumespectro fulgurava com uma luz formidável.

“Apague esta lâmina!” Ralhou a Avó. “É um sinal que trará todos os dragões até aqui.”

Obediente aos comandos dos mais velhos, o jovem puxou a magia de volta para dentro de si, e a lâmina se dissolveu como bruma sob o sol de verão. E então ele olhou para Baishya, que usava o manto e o colar de Naiva. Ele a cumprimentou educadamente com um aceno de cabeça e se apressou para se aproximar de Naiva.

“Você está bem, Naiva?” Perguntou ele com um olhar tão atento que a fez enrubescer. “Você deve ter enfrentado o dragão sozinha!”

“Sozinha não, porque sempre tenho minha irmã comigo. Mas como você sabia que era eu? Nós trocamos de mantos.”

“Sim, estou vendo. Suponho que você teve algum motivo de caçadora.” O sorriso dele enrugou os cantos dos olhos, dando um vislumbre do ancião que ele poderia vir a ser se Ojutai e seus jovens da ninhada não o caçassem pelo crime de ser um guerreiro lumespectro. “É verdade que quando nos conhecemos eu achava as duas iguais. Mas agora já caminhamos juntos por alguns dias. Eu não confundiria você com a sua irmã, nunca mais.”

“Por que está tão vermelha, Nai? Pegou sol demais?” Baishya exigiu saber, com um sorriso convencido. Ela deu uma piscadela para Tae Jin como se piscasse jocosamente para um primo, e ele também enrubesceu, sem se afastar de Naiva.

A Avó olhou para um e para o outro sem demonstrar emoção em sua face, antes de se virar para seus quatro caçadores leais. Mattak, Oiyan, Rakhan e Sorya observavam os escombros que enterraram o espaço aberto e a abertura do edro - o único resíduo visível de uma batalha titânica, vencida com palavras e truques ao invés de poder e de lâminas.

“Foi uma ilusão?” Indagou Mattak. “Eu nunca vi um dragão tão gigantesco, e tão magnífico.”

“Magnífico, realmente,” disse a Avó. “Espero que a ameaça da armadilha de Ugin signifique que nunca mais vamos vê-lo novamente.”

“Seria bom se tivéssemos convencido ele a matar os Soberanos Dragões antes de partir,” murmurou Naiva.

“O caminho do que poderia-ter-sido só leva a angústia,” disse a Avó. “Uma criatura dessas não faz favores para os outros, apenas para si mesmo. Além disso, como eu sei bem demais, quando você tenta transformar sonhos egoístas em realidade, são as consequências que você não esperava que machucam mais. Ficamos com o que já tínhamos. Aceito de bom grado. Onde está Fec?”

O som de mais passos desconjuntados foi sua resposta. O orc chegou por último, segurando um formão finíssimo em uma das mãos e um chifre no outro, com suas espadas embainhadas nas bainhas em suas costas.

“Você ia atacar o dragão com o chifre, ou com o formão?” Perguntou a Avó, com uma erguida sardônica de sobrancelha.

“Ficou imediatamente óbvio para mim que um dragão desses não poderia ser derrotado com nossas magias débeis,” disse Fec. “Então eu pensei que a surpresa talvez funcionaria onde armas falhariam.”

Ela riu feito criança.

“E ainda assim o dragão se foi e vocês estão vivas,” adicionou Fec.

“Contarei a história quando estivermos sob a saliência da rocha, longe da vista de dragões vagantes. Atarka e Ojutai mandarão seus jovens da ninhada para investigar os estranhos eventos de hoje.” A Avó começou a subir o caminho. “Meninas! Venham comigo!”

Lado a lado, elas se apressaram para seguir a Avó.

Naiva estava quase delirante de alegria e mal conseguia pensar, e ao mesmo tempo tinha energia demais para ficar quieta. Então, ela fez a primeira pergunta que voou de sua mente. “E o fígado e os corações daquele jovem da ninhada? Vamos buscá-los no caminho de volta?”

“Sim,” disse a Avó.

Assim que Naiva começou a perguntar para que os órgãos seriam utilizados, Baishya interrompeu quase sem fôlego.

“Será que eu podia aprender a transplanar? Ou será que é magia reservada apenas para dragões?”

“Não apenas para dragões, já que eu conheci um planinauta antes de vocês nascerem. Ele pareceu tão humano quanto você e eu, e era especialmente desrespeitoso e um pouco entediante quando reclamava e implorava,” disse a Avó, tossindo com desgosto.

Mas era mais do que apenas uma tossida. Ela estava ficando sem fôlego enquanto subiam a trilha íngreme pela beirada da ravina, e teve de se apoiar pesadamente em sua lança, mesmo que nunca tivesse precisado dessa ajuda antes. Quando ela outrora parecera eterna, a jornada difícil e o confronto com o poderoso Nicol Bolas a deixaram exausta. Talvez ela não morresse neste ano, ou até mesmo em cinco anos, mas a mortalidade tinha suas garras fixas nela. A informação se afundou como uma pedra no coração de Naiva. Ainda assim, agora ela compreendia que Yasova Garra de Dragão  não temia a morte para si, apenas a obliteração de seu povo.

“É chegada a hora de vocês duas compreenderem suas próprias responsabilidades, e o quanto está nos ombros de jovens como vocês,” continuou a Avó. “O clã Temur não pode morrer, mesmo que durma como Ugin, escondido até que possa acordar novamente. Ele só poderá acordar se houver memórias para guiá-lo.”

“Como os entalhes podem ser suficientes?” Indagou Naiva.

“Suficientes para o quê? Nada pode permanecer do mesmo jeito que era nos dias da minha juventude, ou da de vocês quando forem velhas. A mudança é mestra de todos nós.”

Eles chegaram na saliência rochosa. Mattak e Oiyan foram para a beirada para ficarem de guarda, enquanto Rakhan e Sorya colocaram uma panela para ferver sobre uma fogueira. A Avó sentou-se cansada sobre uma pedra, deixando suas netas se dedicarem a ela como nunca fizeram no passado quando ela cuidava delas, criando as menininhas até a beira da vida adulta. Elas tiraram seu manto, limparam a poeira e o suor da sua face, e a entregaram uma tisana quente para aquecer suas mãos e fortalecer seus pulmões.

Tae Jin olhou para Naiva. “O que eu posso fazer?” Perguntou ele com voz suave.

A Avó gesticulou, indicando que o jovem poderia sentar-se ao lado dela. Fec se acomodou na frente delas, do outro lado da fogueira, e organizou ferramentas de entalhar sobre outra pedra. Ele começou a entalhar o chifre que estava carregando, um que seria adicionado à coleção de esculturas escondidas nas cavernas.

“Tae Jin, você é bem-vindo a ficar conosco se assim desejar,” disse a Avó.

“Devo voltar para o meu mestre. Ele tem mais para me ensinar. Depois disso, será responsabilidade minha passar este conhecimento aos que vierem depois de mim, para que o Caminho Jeskai não morra.” Ele olhou para Naiva, suspirou, e meneou levemente a cabeça. “É o meu dever, não importa o que mais eu queira.”

“Sim, é claro que é,” disse a Avó rapidamente enquanto Naiva torcia as mãos sem dizer nada. No mundo difícil dos clãs, o dever sempre vinha primeiro. “Ugin mandou você aqui com uma história para nos contar, com esperanças de que pudéssemos utilizá-la para tirar Nicol Bolas de perto de Tarkir, para sempre. Mas não foi apenas por isso que Ugin mandou você. O Dragão Espírito compreendeu as lições que a anciã sábia Te Ju Ki ensinou. Não é apenas uma questão de Ugin ou de Nicol Bolas. A questão também envolve os Temur, e os Jeskai, e todos os clãs de Tarkir. Eu me lembro de todos, apesar de vocês jovens não terem conhecido aquele mundo. Nossos Soberanos Dragões querem obliterar o conhecimento de tudo o que veio antes deles. É por isso que devemos fazer tudo o que pudermos para salvaguardar o coração de nossos ancestrais.”

Ela estendeu o braço. Fec a entregou o chifre entalhado. Girando o chifre, ela exibiu um lindo entalhe, recém começado, sobre duas meninas subindo uma montanha íngreme.

“Algum dia, talvez bem à frente no agora não-escrito, nascerão pessoas que encontrarão essa história, e ela transformará sua compreensão do mundo.”

Ela devolveu o chifre ao Fec. Ele voltou a trabalhar com concentração fácil e habilidade consumada.

Baishya cutucou Naiva e sussurrou: “Eu falei que a Avó o acolheu na tribo por algum motivo...”

“Devo voltar para Ayagor e caçar para Atarka. Acima de tudo, ela precisa acreditar que matou todos os sussurrantes. Ela nunca pode suspeitar da existência da Mente Sussurrante. Fazemos o que é necessário para sobreviver. Por agora, vocês vão ficar aqui, meninas.”

“Mas a abertura do edro está bloqueada,” protestou Naiva.

“Com cuidado, ela pode ser desencavada. Baishya, você deve ver se Ugin continuará a se comunicar com você pelo oceano de memórias. Fec fará registros do que você vir. Tudo o que ele entalhar ficará guardado aqui, escondido com o restante do nosso estoque. Naiva caçará para vocês, e manterá todos a salvo.”

“Será que ficaremos a salvo algum dia?” Indagou Naiva.

“Seguro apenas quer dizer que o último dragão que vimos está voando para longe de nós. Quanto a Nicol Bolas, espero que ele considere arriscado demais voltar para Tarkir.”

“Você mentiu para ele,” adicionou Naiva. “E se for a história dele a que está certa, e a história de Ugin for a mentira que nos manipulou a salvar sua essência da vingança de Nicol Bolas?”

“Nunca saberemos.” Ela pousou os olhos sobre Tae Jin, que estava sentado tão imóvel e silencioso quanto as águas do Plano de Meditação por onde as gêmeas vagaram. “Eu sei que você deve voltar para o seu mestre. Mas deixe-me pedir para ficar aqui, por favor, pelo menos por alguns meses. Gostaria que você recitasse a história de Ugin novamente para o Fec, para que ele possa entalhar e preservá-la em mais de um lugar. Nós, povos dos clãs, devemos trabalhar em conjunto para nos salvarmos. É o único jeito. Esta também é uma mensagem que Ugin nos enviou.”

Naiva segurava a respiração enquanto Tae Jin encontrava os olhos severos da Avó. Mas ele sorriu, e assentiu com um olhar breve e tímido para ela. “Sim. Vou ficar aqui por um tempo.”

Uma chama de exaltação a energizou. Ela não queria sorrir, mas não pôde impedir o sorriso largo que se formou em sua face.

Baishya riu pelo nariz e deu um chutinho na canela de Naiva.

“Aii!” Disse Naiva, rindo.

Tae Jin enrubesceu novamente, pigarreou e disse com uma solenidade altiva: “Ainda estou ferido. Eu não tenho esperança de fugir ou me esconder dos jovens da ninhada Ojutai até que tenha recuperado totalmente minhas forças.”

“Sim, esse é exatamente o porquê,” disse Baishya revirando os olhos de forma extravagante.

Naiva deu-lhe um beliscão, e Baishya respondeu com uma cotovelada.

A Avó sorriu um dos seus raros sorrisos tranquilos. “Esta é a sua tarefa, minhas meninas. Crianças nascerão sem saber outro modo de vida além dos Soberanos Dragões. Eles pensarão que sempre foi assim, que humanos podem apenas se curvar para dragões, que os grandes dragões não podem ser derrotados. Mas a história de Ugin nos ensinou outra lição, uma que o Dragão Espírito talvez não tivesse a intenção de passar. Até mesmo o maior dos dragões pode morrer.”

“Você realmente pensa assim?” Indagou Naiva.

“Sim, realmente. Pois no agora não-escrito, tudo pode vir a acontecer.”


Coleção Básica 2019 Arquivo das Histórias
Perfil do Planeswalker: Nicol Bolas
Perfil do Planeswalker: Ugin, o Dragão Espírito
Perfil do Plano: Tarkir

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