Crônicas de Nicol Bolas: Sangue e Chamas

Posted in Magic Story on 18 de Julho de 2018

By Kate Elliott

Kate Elliott has been writing science fiction and fantasy for over 25 years, with 27 books in print. She's best known for her Crown of Stars epic fantasy series. Her next book, out in 2019, will be a gender-bent Alexander the Great as space opera.

Conto anterior: Sussurros de Traição


Ninguém deu permissão para Naiva sair cuidadosamente do abrigo rochoso para dentro do coração de uma tempestade de dragões, mas ela também não pediu. Ela agarrou sua lança e correu túnel afora, saindo em uma saliência de pedra parcialmente protegida por pedregulhos que a cercavam. O vento batia em seu rosto com lascas de gelo. O ar fazia sua pele formigar, erguendo seus cabelos.

No fim do dia a maior parte do céu estava clara, e as estrelas eram uma presença cintilante mais acima. Agora, espiando pela rocha, lá fora ela não via nada além de escuridão. Os uivos e guinchos de dragões recém-nascidos a ensurdeciam enquanto a tempestade rolava furiosamente pelo céu.

Um raio se partiu em uma centena de linhas serrilhadas que revelou dragões em queda e em voo, em uma agitação incessante igual a crianças com brincadeiras brutas, ou guerreiros em batalhas inexoráveis. Nuvens rolavam e craquelavam repletas de energia. A escuridão a engoliu novamente.

Uma forma saltou das rochas acima e se agachou ao lado dela. Pelo cheiro de pelo molhado, ela sabia ser o ainok silencioso, Darka.

“Onde está a Primeira Mãe?” Indagou ele.

“Aqui!” A Avó passou ao lado de Naiva.

Um clarão irrompeu de um raio. Chuva quente estourou contra o chão, sibilando ao encostar no solo. Fagulhas dançaram no ar.

“Encrenca!” Clamou ele. “Ela chegou!”

Quem é ela? De quem o ainok está falando? Naiva se perguntou.

Um raio relampejou em uma longa corrente, cortando caminho por todo o arco dos céus. Ele se partiu em uma vasta arquitetura de galhadas entrelaçadas com fogo. Um rugido mais alto que o estrondo de cem trovões fez Naiva cair de joelhos, onde ela ficou, sem fôlego. Darka também caiu, mal se apoiando sobre uma das mãos. Apenas a Avó manteve-se de pé, sem se curvar, agarrada em seu cajado.

“Ela encontrou o jovem da ninhada morto.” Seu grito mal podia ser ouvido no tumulto.

Iluminada com uma aura com sua mesma luz malévola, a dragoa gigantesca se ergueu dos pedregulhos onde o jovem da ninhada havia caído, e voou para dentro do coração da tempestade. Com golpes e fúria, ela levou os filhotes noite adentro. Fios de raios marcavam seu caminho. Trovões retumbavam atrás dela.

O grito do vento diminuiu até virar um vociferar ribombante. A chuva que caía como cascata diminuiu até uma bruma leve. Uma porção de estrelas apareceu mais acima do redemoinho.

Um lampejo de luz dourada apareceu como se o sol nascesse no zênite, mas o brilho foi extinto assim que apareceu, deixando as estrelas brilharem novamente. Ainda assim, algumas destas estrelas desapareciam em uma trilha descendente, apagadas e reaparecidas como se uma grande forma estivesse caindo dos céus. Naiva esfregou seus olhos, imaginando que a tempestade tivesse ferido sua vista, mas quando ela olhou novamente todas as estrelas brilhavam com firmeza. As nuvens começaram a esvanecer ao passo em que a chuva cessava. Com certeza a mancha que caiu não era nada além de uma distorção das nuvens e do vento.

A promessa do alvorecer sangrava um veio de luz pelo ar, apenas o suficiente para que as formas dos pedregulhos ficassem visíveis contra o céu escuro. Fec saiu da passagem e parou para inspirar profundamente.

“A tempestade passou,” disse ele.

A Avó assentiu com sua decisão costumeira. “Preparem-se. Chamem Oiyan. Partiremos assim que houver luz suficiente.”

“Não seremos presas fáceis e bem visíveis se Atarka voltar?” Indagou Naiva.

“Ela levará os filhotes de volta até Ayagor para uma caçada,” disse a Avó seriamente. “É a única habilidade com a qual ela se importa.”

“E os miúdos? Vamos deixar tudo para trás, depois de todo o trabalho que você teve para limpar o dragão?”

“O rio vai manter tudo gelado. Buscamos depois. Agora não é seguro.”

“Quando será seguro?” Indagou Naiva, irritada.

“Seguro apenas quer dizer que o último dragão que vimos está voando para longe de nós.” A Avó olhou para o leste, onde o horizonte se transformava em um dourado cintilante. “Fec, você puxa a dianteira. O restante seguirá assim que estivermos prontos. Tae Jin e Baishya, fiquem perto de mim. Naiva, vá com Fec.”

“Mas, Avó—” Naiva foi parando de falar quando viu o olhar surpreso de Tae Jin ao ver que ela teve a temeridade de protestar um comando de sua anciã. Baishya encontrou seu olhar e meneou a cabeça em desaprovação.

Ela seguiu cabisbaixa para a dianteira com o velho orc. Por que a Avó sempre mantinha Baishya perto dela, quando Naiva era a melhor caçadora e poderia protegê-la se algo desse errado? Não era justo.

“A jovem Naiva vem comigo hoje, com seus olhos perspicazes e rápidos para fazer sombra sobre meus orbes embranquecidos pela idade,” disse Fec enquanto eles saíam do amontoado de pedregulhos. Ele mancava bastante, mas ele usava seu cajado como se fosse uma terceira perna, negociando seu caminho pelo terreno acidentado.

“Sim, agradeço, devíamos permanecer quietos, e sem conversar.”

Sua risada rouca era suave. “Você preferiria caminhar ao lado do estranho jovem e bonito.”

Não foi a primeira vez que ela desejou ter a fachada calma de Baishya, ou a máscara severa da Avó, mas seus sentimentos transbordavam por todo seu corpo. Ela tentou fechar suas expressões faciais, parecer forte e menos passional, mas ela tinha certeza de que Fec ria dela silenciosamente, apesar de ele provavelmente nem estar prestando atenção nela. Ao saírem dos pedregulhos para a tundra aberta, o olhar dele seguiu pelo caminho como um caçador experiente que sabe ler os sinais da terra que indicam caça: gramíneas partidas, pegadas afundadas no solo, uma carcaça despida até os ossos, esterco fresco. Não importa o quanto ela tentasse se concentrar, seus pensamentos continuavam a trazendo de volta aos seus agravos. Não era justo que a Avó protegesse Baishya enquanto ela estava presa com um orc meio aleijado que zombava dela, e nem era parte do clã. Só porque a Avó disse que ele era do grupo não fazia com que fosse verdade. Ela chutou uma pedrinha para dentro de uma poça rasa. A rocha partiu o gelo formado sobre a água e afundou.

Ele deu uma olhadela na direção dela. “Fale o que pensa, jovem Naiva. Melhor não engasgar com palavras que podem ser atiradas como flechas.”

Pois bem. Era um desafio à altura dela!

“Por que a Avó abrigou você?”

“Quer dizer, abrigou um orc meio aleijado? Yasova sempre teve seus motivos.”

“Que respostas a Avó realmente acredita que vamos encontrar no túmulo de Ugin? Que tipo de respostas têm as coisas mortas, a não ser os sinais que dizem como elas morreram?”

“Nem tudo o que está morto se foi, ou está ausente. Os ancestrais ainda têm histórias para contar.”

“Atarka matou minha mãe por ter falado com ancestrais. É melhor deixar os mortos para trás, e se concentrar na caçada.”

“Melhor para os soberanos dragões. Talvez não seja melhor para nós, que devemos servir a eles ao invés de sermos os senhores, como outrora fomos.”

“Falar assim vai resultar em ser comido, se Atarka ficar sabendo.”

“Você vai contar a ela?” O tom dele a desafiou.

“Se for para salvar a tribo, eu conto.”

Mas a ideia de entregá-lo a Atarka a incomodava. Ele não estava errado ao apontar que a regência dos soberanos dragões era rígida e intransigente, que transformava as pessoas mais em servos do que em orgulhosos caçadores. Ela não queria se tornar um daqueles linguarudos sem tutano que alisavam e adulavam em Ayagor para tentar ganhar favorecimentos de Atarka, como se a dragoa se importasse com seus súditos mortais para algo além de trazerem mais e mais carne.

“Foi falar coisas proibidas o que fez com que você fosse banido de sua tribo?” Indagou ela.

“O que você chama de coisas proibidas, eu chamo de dizer a verdade. Mas não foi este o motivo, minha jovem.” Ele apontou para a perna direita, que arrastava. “No clã de Kolaghan, quem não consegue acompanhar é deixado para trás.”

“Então por que não aceitar a morte? Não seria mais honroso?”

“Há muitos caminhos para a honra. Muitos jeitos de lutar, mesmo que minha tribo não reconheça o valor deles.” Ele deu um tapinha em sua têmpora com seus dedos indicador e médio. Diferente dos humanos, ele não precisava de luvas pois a pele dura das mãos dele suportava o pior frio. Uma rede de finas cicatrizes tecia um padrão nas costas de cada uma das mãos - uma marca que não era de garra, diferente de tudo o que ela já vira em sua vida. Talvez fosse o modo que orcs envelheciam, como manchas de idade nas mãos de idosos encarquilhados, mantidos vivos por filhos sentimentais. “Muitas coisas valem ser salvas, como Yasova Garra de Dragão bem sabe.”

“Você sabe que esse nome não é permitido!”

“Se não usarmos, os jovens vão esquecer.”

“É melhor descartar o que não podemos usar. Atarka é nossa soberana agora - não a Garra de Dragão, não uma khan. Infelizmente, é assim que as coisas são.”

Ele fez um gesto sobre a garganta, cortando suas palavras. Humilhada pela prepotência para com ela — a própria neta de Yasova! — ela enrubesceu. Se ela fosse um dragão... Ela o queimaria. Queime.

Mas ele não reagia às palavras dela. Ele lambeu o ar. Endireitou suas costas. Ele guardou seu cajado em um laço nas costas, e puxou suas duas espadas com um movimento veloz, cuja eficiência a impressionou. Feitas de bronze, eram os objetos mais valiosos que ele possuía, apesar de não terem lâminas afiadas como as armas de obsidiana utilizadas pelo restante da tribo.

“Naiva, volte correndo. Eles devem ficar escondidos no abrigo.”

Sua raiva transbordou como chuva caindo do seu manto de feltro. Ela se virou, procurando pelo perigo.

Uma escuridão vasta vinha veloz na direção deles, monstruosa e silenciosa. Apenas uma criatura tinha tal galhada pontiaguda e brilhante. Naiva correu de volta para os pedregulhos, mas apesar de ser jovem e ligeira, não era uma soberana dragoa. A enorme forma de Atarka passou por cima dela em um banho de sombra e calor. A dragoa pousou com um estrondo bem na beirada dos pedregulhos. O chão tremeu. Naiva cambaleou, se recuperando com a mão, saltando para trás e voltando a correr.

Mas era tarde demais. A soberana Dragoa pegara a Avó e os outros a uma lança dos pedregulhos externos, colocando-se entre eles e a segurança das rochas. Naiva foi diminuindo o passo até caminhar. Ela sabia que não seria bom se mover com muita rapidez. Atarka pode parecer desengonçada, mas nada se movia mais rápido do que a soberana dragoa quando sua ira estava desperta.

O rugido da dragoa rolou mais alto do que a avalanche que arrancara metade do campo nevado no Gelo Eterno. Com um sibilo longo e cálido, ela estendeu uma garra e pegou Darka.

“Um lanche gostoso!” Disse ela, rouca. “Quase tão bom quanto urso.”

O ainok não se debateu ou implorou por sua vida; ele era orgulhoso demais, e não havia por quê, afinal.

A Avó caminhou para frente a passos largos e bateu seu cajado no chão três vezes, exigindo ser vista. Ela nunca se curvaria. Ela nunca se encolheria. “Atarka! Por dezoito anos meu povo a trouxe comida para honrar o nosso acordo. Tenho algo melhor e de mais substância para você do que um ainok magricela.”

Os grandes olhos piscaram. Um hálito escaldante os banhou. “Como o meu jovem da ninhada morreu? Era meu favorito.”

Naiva duvidava que qualquer um entre os jovens da ninhada fosse o favorito de Atarka, mas a dragoa era uma fera astuciosa e gananciosa.

A Avó disse: “Os filhotes devem tê-lo matado.”

“Os filhotes sentiram cheiro do sangue dele e vieram banquetear. Eles não o mataram.” Ela mordeu a cabeça de Darka fora antes de jogar seu corpo longe em um arco alto. Ele caiu longe da vista de todos, mas perto do lugar onde Naiva sabia que a carcaça do jovem da ninhada estava. A morte dele a enojava, mas todos eles enfrentavam a morte diariamente. Pelo menos a dele viera rápido.

“Digam verdade, ou eu como o outro ainok,” rosnou Atarka, se agachando para perto de Yasova. “Você o matou?”

A Avó não se moveu, mantendo-se entre o dragão e o irmão de Darka, Rakhan. “Eu não matei o jovem da ninhada. Mas como eu dizia antes de você desperdiçar a carne do meu ainok, matamos algo melhor para você.”

“Melhor do que carne de ainok?”

“Muito melhor. Um dos Ojutai matou seu jovem da ninhada e se alimentou das entranhas dele. Vingamos a morte do seu jovem da ninhada matando o intruso. Um dragão, para o seu próximo banquete!”

Atarka ergueu sua cabeça e testou o ar. O odor pungente da tempestade ainda estava lá, entrelaçado com o aroma de grama, terra, sangue secando e rochas antigas.

“Me mostre.”

A Avó gesticulou para que os outros ficassem para trás, e começou a caminhar sozinha na direção dos pedregulhos mais distantes onde o jovem da ninhada havia depositado o dragão Ojutai morto. Atarka bateu uma pata no chão, na frente da anciã.

“Todos vêm. Todos.” Uma bufada de fagulhas subiu de suas narinas. “Sei seus truques. Como todos se não estiver satisfeita.”

A Avó sinalizou para que eles viessem em fila atrás dela.

Naiva manteve suas costas firmes e seu olhar para a frente; todas as crianças foram ensinadas a nunca desafiar um dragão olhando diretamente em seus olhos, mas também a nunca se encolher em submissão, ou fugir. Era melhor morrer do que se encolher. Ela deixou os outros passarem, trocando um olhar com Baishya. Sua irmã gêmea hesitou, preparando-se para ficar para trás com ela, mas Naiva gesticulou para que seguisse em frente. Somente quando todos os outros estavam na frente, Naiva se mobilizou ao final da fila. Nada além do ar a separava de Atarka. A Soberana Dragoa caminhava atrás deles, e cada pisada era um terremoto. Quando a dragoa expirava, fagulhas rodopiavam perto de seu corpo. Era tão difícil não olhar para trás... Não que um olhar fosse salvá-la. Uma girada, uma explosão, e ela estaria morta, obliterada, mas ela queria fazer o que a Avó faria. Ela queria provar-se digna de ser neta de Yasova Garra de Dragão: destemida, um escudo vivo entre sua tribo e o perigo.

Seus sentidos sobre o mundo se expandiam: cada passo podia ser o seu último, cada inspiração podia ser a sua última, e cada batida de seu coração podia ser o fim. Tae Jin olhando para ela; a respiração curta de Baishya; o pesar endurecido de Rakhan; outros caçadores silenciosos e em alerta, prontos para qualquer coisa - mesmo se aquela coisa fosse a morte, que esperava a todos no fim.

Mas Atarka os deixou viver, ou talvez tivesse jogos mais cruéis em mente para jogar com seus reféns. Viviam ao bel-prazer dela. Os Soberanos Dragões eram mais poderosos do que os meios de vida antigos, então qual era o objetivo em preservar ancestrais que foram esmagados e derrotados? Se fossem dignos, com certeza teriam vencido.

Inesperadamente, Atarka saltou para cima e com um uivo de júbilo voou por sobre todos para pousar ao lado do corpo do dragão Ojutai. O dragão esguio estava bem rasgado após a batalha titânica, mas todos se prepararam quando Atarka cheirou o corpo e inalou seu sangue coagulado. Será que ela perceberia que nenhuma arma humana cortara o corpo?

Ela bateu sua cauda de um lado para outro, forçando o grupo de caçada contra um pedregulho e os prendendo lá. Pensando na mãe delas, Naiva se posicionou à frente de Baishya, mas o olhar do dragão não recaiu sobre a herdeira dos dons xamãnicos da mãe delas, mas sobre Tae Jin. Felizmente, sua túnica consertada cobria a tatuagem lumespectra, mas suas feições e cabeça raspada o marcavam como diferente dos outros humanos.

Ela bufou várias vezes. “Do que se trata, este forasteiro?”

A Avó deu um passo à frente, na direção da dragoa. “Ele é parte do meu grupo de caçada.”

“Fffah! Ele tem cheiro de Ojutai, aquele cabeça-de-vento pomposo cuspidor de gelo.”

Tae Jin deu um passo à frente, erguendo seus braços, com as palmas para cima, unindo seus antebraços no gesto que traria a lâmina de lumespectro nas mãos dele.

“Tae Jin! Não comece o que você não pode terminar.” Ninguém cruzava o caminho da Avó. Quando ele abaixou seus braços obedientemente, ela voltou sua atenção à Soberana Dragoa. “Ele veio se unir ao nosso grupo pois ouviu relatos de sua grande ferocidade e estatura, Atarka. Qual a utilidade de um bravo guerreiro em servir um cabeça-de-vento pomposo cuspidor de gelo quando ele pode caçar a serviço de uma dragoa verdadeira como você?”

Atarka rosnou, e sua cabeça balançava hipnoticamente de um lado para outro enquanto ela considerava primeiro a carcaça, e depois o jovem. “Ele não parece robusto o suficiente para caçar para mim.”

“Caçadores também obtém sucesso sendo espertos.”

Tae Jin deu um passo à frente. “Sou útil de outras maneiras, ó grande Atarka. Por exemplo, posso contar muitas histórias.”

“Palavras me entediam. Não têm gosto bom, como carne.” Ela passou seu olhar incandescente de volta para a Avó. “Pode assistir enquanto eu como ele junto deste dragão de Ojutai.”

“Como preferir, Atarka. Mas considere. O próprio Ojutai enviou seu jovem favorito da ninhada para caçar este homem. Ele não queria que o homem deixasse seus domínios para servir a outra Soberana Dragoa maior. Você vence Ojutai mantendo este homem vivo em sua tribo quando Ojutai quer vê-lo morto.”

A cruel risada de Atarka os banhou como gelo. “Gosto assim. Conte uma história enquanto eu banqueteio. Depois, eu decido.”

A Avó olhou para Tae Jin. Destemido, ele caminhou até ficar do lado da anciã.

“Contarei uma história que minha mãe me contou quando era menino. Ela a aprendeu de seu próprio mestre.”

Quando a grande dragoa começou a rasgar a carne do dragão menor que esfriava, Tae Jin começou a falar.


Há muito tempo atrás, havia um rei de muita bondade, maior do que todos os reis da terra. Este rei era um dragão de força e sabedoria especiais. Outrora conhecido como o último dentre seus irmãos, Nicol viajara pelo continente de nascimento com seu irmão Ugin para descobrir a verdade do mundo. Mas a verdade era severa. O mundo era severo. Violência e assassinatos irrompiam até mesmo no mais ordeiro dos reinos humanoides, até mesmo onde havia bastante espaço para todos, onde a vegetação crescia fértil e as feras vagavam em abundância.

Perturbado e incomodado com tal revelação, o jovem dragão viajou até a montanha de seu nascimento, junto de seu irmão. Ele não sabia ao certo o que buscava, mas esperava encontrar iluminação. Uma possibilidade muito mais terrível o recebeu quando chegou no antiquíssimo pico.

Os humanos que viviam sob o resplendor da montanha de nascimento tinham elevado um assassino como seu chefe, e seus herdeiros também eram assassinos.

Assassinos de dragões.


Atarka ergueu a cabeça, com carne e tendões pingando de suas mandíbulas, fixando um olhar quente e dourado sobre Tae Jin. O ar craquelava com expectativa. Ele agora tinha a atenção dela, e isso não era uma coisa boa.

Ele esfregou os olhos, sacudiu a cabeça para clareá-la, e murmurou: “Esta não é a história que eu queria contar. Deixe-me tentar de novo.”


Com feitiçarias vis, o chefe e seus herdeiros faziam dragões de presas, sem se importar com a superioridade nobre dos magníficos. Estes humanos débeis se alimentavam de sangue e ossos de seres maiores do que eles, na esperança de roubar aquela força para si. Com lanças e feitiços, o chefe colocou seus súditos sob seus pés. Quem o agradava e bajulava prosperava, e quem fosse pego sussurrando traições morria. Os que não podiam lutar, trabalhavam com fome nos campos para alimentá-lo. Os saudáveis e fortes ganhavam lanças e chicotes para açoitar os rebeldes e os estrangeiros até a submissão. Com o passar dos anos, o chefe veio a reger sobre mais pessoas e estendeu sua vontade por terras maiores. Os gananciosos prosperavam, e os fracos gemiam sob o fardo de seu trabalho interminável.

Mas dragões não sofreram estas indignações por muito tempo. Tal afronta requer uma resposta. Quando o jovem dragão chegou na montanha de nascimento e viu a injustiça e o abuso que estava sendo feito contra os vulneráveis, ele sabia que devia agir. É verdade que o irmão não era tão ousado; ele fez objeções desnecessárias; ele hesitou. Mas fazer nada para vingar a morte de um dos seus é o mesmo que matá-los pelas suas próprias mãos.

Em número reduzido e sem poder competir com a feitiçaria cruel dos humanos, o jovem dragão venceu os humanos por ser mais esperto. Com astúcia incomparável, ele colocou os herdeiros um contra o outro para que lutassem entre si, até que todos perderam a guerra pela sucessão. Ao longo da guerra, seu irmão foi arrebatado para o nada por uma explosão de magia humana, sua própria garra de vingança. Mas o dragão triunfou. Dragões sempre triunfam pois é sua natureza, serem maiores do que todos os outros.

No lugar do chefe brutal, o jovem dragão foi aclamado como salvador do reino, a quem foi oferecido o trono. Quem outrora adorou o bebe-sangue de dragões agora se curvava à frente de um dragão. Ele governava de acordo com preceitos debatidos longamente com seu irmão, pois eles tinham vontades de compreender o escopo e o coração do mundo. Ele sabia que podia honrar a memória de seu amado irmão melhor se agisse como ele agiria, como ele teria pedido ao irmão para fazer.

E então ele reinou com justiça, paz e ordem, por muitas gerações.


Atarka cuspiu uma garra, depois de ter engolido um grande pedaço de perna.

“Não é uma história!” Rosnou ela. “Onde está a caça? Onde está o sangue e os ossos partidos?”

Tae Jin colocou suas mãos em prece e inclinou sua cabeça para a frente, demonstrando respeito. “Ó grande Atarka, por favor, me deixe continuar e ficará satisfeita.”

“Ou eu como você.” Balançando sua cauda gigantesca, ela abaixou sua cabeça para continuar a se alimentar.

“Nos últimos dias da liderança de Shu Yun,” disse ele, e titubeou. Sua boca formava palavras, mas nenhum som saía. Novamente, ele pressionou os olhos como se sua visão falhasse. Após um momento de luta, seus lábios se abriram como se tivessem escolhido fazê-lo, e ele continuou.


Foi então que o jovem dragão ficou conhecido como o segundo sol. Ele reinou com justiça, paz e ordem. A história do reino desonroso do assassino de dragões foi passada de anciões para crianças, através das gerações, e celebrada com um festival anual presidido pelo bondoso rei dragão.

Mas a inveja cria dragões, e assim dragões se multiplicaram pelas terras além do harmonioso reino. O rei era apenas um dragão, e seu reino era modesto. Ele manteve suas fronteiras fortes e seguras para seus súditos por todo o tempo que pôde.

Um dia, uma revoada de dragões atacou os povoados pacíficos ao longo do rio que separava seu reino harmonioso das planícies e terras inférteis onde Palladia-Mors caçava há muito.

Imediatamente ele se apressou para encontrar a ameaça, sobrevoando uma fileira de vilarejos queimados e refugiados fugindo freneticamente da carnificina. Ele encontrou sete dragões grandes e ruidosos mastigando uma manada domesticada de feras aterrorizadas. Os saqueadores apenas lhe dignaram um olhar antes de voltarem ao seu banquete. Tal insolência teria a retaliação merecida!

Ele fez um anel de chamas em torno deles, não para prendê-los — já que poderiam facilmente voar — mas para chamar sua atenção.

“Por que incomodam meus súditos que nada de mal fizeram, e comem suas manadas tão valiosas?” Ele exigiu saber.

“Somos descendentes de Vaevictis Asmadi e vamos atacar onde quisermos!” Gritaram eles, batendo caudas e brandindo garras.

“O que aconteceu com Palladia-Mors?” Indagou ele, honestamente impressionado que dragões menores tivessem conseguido afastar sua selvagem irmã.

“A afastamos para caçar em outro lugar. Agora, vamos afastar você e tomar suas terras férteis e carnes dóceis para nós.”

Assim como seus progenitores, eram truculentos de mentes pequenas. Mas até mesmo um dragão magnífico como ele não conseguiria derrotá-los sozinho... Mas ele não estava sozinho. Ele tinha súditos que cantavam louvores a ele com poemas, pedindo por nada mais que a honra de se provarem dignos de sua generosidade real e de sua nobre perspicácia. Ele tinha exércitos com guerreiros afoitos e uma academia cheia de feiticeiros inteligentíssimos que ele mesmo ensinara, e todos buscavam um desafio para suas habilidades contra os maiores dos inimigos. Ele tinha as armas dos assassinos de dragões, mortos há muito tempo.

Ilustração: Yongjae Choi

Um lampejo irritante de pensamento craquelou em sua mente, com o timbre da voz de Ugin, ralhando com ele: Se era errado quando os humanoides matavam dragões, então é errado matarmos nosso próprio povo. Ou será que Merrevia Sal morreu em vão, Nicol? Nunca foi por ela, mas sim pela humilhação que você sentiu por não conseguir salvá-la?

A morte da irmã e a vingança que ele executara foram diferentes - não que Ugin tivesse a sagacidade ou o discernimento para reconhecer esta verdade. E, de qualquer modo, Ugin estava errado. Vaevictis era abusivo, e seus descendentes abusivos rasgariam seu reino harmonioso ao meio só por diversão. Até mesmo Ugin teria de reconhecer que eram saqueadores inúteis. Além disso, Ugin não estava aqui. Era chegada a hora de colocar suas armas poderosas em uso.

Com clamores de sinos e berrantes o exército se organizou, trazendo as balistas e seus virotes cobertos de veneno. Feiticeiros em vestes pretas e douradas caminhavam a passos largos em colunas disciplinadas, cantando marchas bélicas. Na beira do rio eles encontraram os sete jovens dragões, e os orgulhosos exércitos fizeram chover feitiçaria e veneno sobre os inimigos.

Foi uma derrota absoluta. Um massacre.

Que intoxicante era ver o voo certeiro dos virotes envenenados, perfurando barrigas com escamas amolecidas por feitiçarias astutas! Vísceras se derramaram pelo chão, queimando os que ficavam presos embaixo delas. Os gritos dos vitoriosos exultantes se mesclavam com os gritos de agonia dos dragões moribundos.

Que satisfação era ver os fanfarrões falastrões tombarem ao chão com asas paralisadas, tomando seus últimos suspiros enquanto seus corações e pulmões cediam e seus olhos descansavam. O triunfo era doce, e ainda mais porque ele ousara atacar dragões, as criaturas mais poderosas e perigosas de todas.

Mas um dos dragões sobreviveu, voando em fuga tão veloz que o jovem dragão rei não podia perseguir, já que ainda não estava totalmente crescido.

“Perseguimos?” Indagaram generais com ardor.

“Sim!” Ele se lembrou com clareza como Vaevictis e seus irmãos já o atormentaram e o perseguiram por nenhum motivo além de ser divertido para eles serem seres desprezíveis. Ao menos ele podia se vingar de tal insulto.

Encorajados, o grande exército começou a se mover, marchando, cavalgando e rolando além das fronteiras robustas e bem-guardadas. Eles perseguiram a trilha do dragão pelas grandes planícies onde Palladia-Mors outrora caçara, tomando suprimentos de vilas e aldeias em sua passagem. O terreno foi secando, e logo eles alcançaram o que ao longe parecia uma muralha, mas era uma barreira forte de colinas acidentadas, voçorocas retorcidas, e cumes espetaculares. Mais além, ao norte, se erguia a grande serra onde ficava o lar de Vaevictis e seus irmãos.

Alguns nas tropas resmungaram, pois os suprimentos começaram a ficar escassos, e a água mais escassa ainda. Depois que o jovem rei comeu os dissidentes — covardes sempre têm gosto amargo — o restante marchou destemido para o norte, pela pradaria plana, com as terras inférteis às suas costas.

O sol nascia quando ele viu quatro dragões voando na direção deles. Vistos de longe eles não pareciam especialmente formidáveis, mas ao se aproximarem seu tamanho gigantesco e comportamento feroz ficou evidente. Os três irmãos Lividus, Ravus e Rubra gritavam insultos ao se aproximarem, chamando-o de “raquítico” e “nascido por último.” O pior era que os insultos nem eram inteligentes.

O maior deles era o próprio Vaevictis, voando na dianteira por sua força superior. Em suas garras dianteiras ele carregava o corpo inerte do dragão que fugira da batalha perdida.

Com um rugido de tremer o chão, Vaevictis sobrevoou o exército e soltou o dragão. O corpo tombou até o solo enquanto soldados se empurravam aos gritos, tentando sair do caminho. O cadáver caiu com um baque forte, esmagando uma companhia de lançadores em apenas um instante. O sangue inundou o terreno empoeirado, e chamas irromperam onde as últimas fagulhas do hálito do dragão caíram sobre a grama seca. Os feridos berravam agarrando-se a fraturas expostas, enquanto curandeiros tentavam puxar seus camaradas de baixo do peso morto do dragão.

Com uma gargalhada, Vaevictis clamou: “Fuja, pequeno Nicol. Fuja, e eu pouparei sua vida.”

No começo de sua vida, a raiva teria tomado o jovem rei dragão enquanto se retorcia e bufava com tal zombaria. Ele amainou sua raiva decapitando vários generais. Mas as falhas de seus subalternos não era o mais importante agora. Acabaram os dias de abuso de Vaevictis contra ele. Ele ordenou que o exército em pânico entrasse em nova formação, promovendo oficiais que ainda não haviam perdido a cabeça.

O desafio precipitado de Vaevictis oferecia uma vantagem inesperada. Vaevictis pode ser grande e malvado, mas não era tão inteligente quanto pensava ser.

O jovem rei dragão ordenou que as balistas apontassem para cima, usando o espaço longo entre o pescoço quebrado e a cauda retorcida do dragão morto como fortificação. Quando Vaevictis deu a volta para se reunir com seus irmãos que se aproximavam, a artilharia começou a lançar seus virotes envenenados. Eles eram hábeis; tinham de ser, já que os que não se mobilizavam eram rebaixados à escravidão.

Então seus virotes atingiram em cheio, mais de uma vez. Rubra levou um virote no olho. Apesar do golpe não o matar imediatamente, o veneno chegou em seu cérebro. Ele fugiu com dificuldade na direção da muralha, talvez tentando se refugiar em um de seus picos, mas perdeu a consciência e caiu por terra logo além do vagão de suprimentos. A retaguarda correu até ele com espadas e lanças para causar estrago em seu corpo amolecido, gritando e dançando em júbilo. O jovem rei dragão estava ocupado demais evadindo dos sopros flamejantes de seus primos para repreender seus soldados, que se banhavam triunfantes no sangue quente da fera morta.

Ilustração: Scott Murphy

O restante do exército não estava indo tão bem. O próprio Vaevictis tomou cinco golpes diretos, mas ferro não penetrava sua pele grossa. Ele rugiu fogo sobre as fileiras da artilharia, explodindo balistas em grandes bolas de fogo. Lividus e Ravus arrebataram os céus para agarrar soldados, lançando-os pelo ar para suas mortes. Montarias entraram em pânico, jogando seus cavaleiros ao chão enquanto fugiam. Os vagões de suprimentos começaram a queimar com seus desafortunados carroceiros e aios. A fumaça ondulava para o alto, lançando cinzas pelo terreno.

“Vai se arrepender de ter me desafiado!” Rugiu Vaevictis, dando a volta com um irmão de cada lado. “Vamos prender você ao chão e rasgar a carne de seus ossos enquanto ainda estiver vivo.”

Com muito de seu exército morto ou mutilado, a ameaça não era vazia. A força bruta não lhe serviria agora; somente sua perspicácia superior conseguiria salvar o dia.

O jovem rei havia ganho o controle de seus feiticeiros há muito tempo, utilizando seu toque mental penetrante. Sob seu comando, eles teceram um feitiço de ocultação, cobrindo o campo de batalha com uma névoa carregada de fuligem. Sob esta cobertura, ele fugiu com o restante do exército para as colinas acidentadas e voçorocas retorcidas. Duas balistas sobreviveram, empurradas por soldados que ganharam forças com o desespero. A retaguarda, ainda encharcada de sangue, entrou em formação; eles sobreviveram pois, nas palavras do capitão, o sangue sagrado do dragão os protegera do fogo.

Era um ponto a se considerar quando ele conseguisse recuperar o fôlego. Ele levou seu exército exausto e cambaleante como um leviatã ferido até uma voçoroca profunda com escarpas em ambos os lados.

“Grande Rei, não seria isto uma armadilha mortal?” Opinou um de seus generais.

“Apenas se você não sobreviver à batalha que está por vir.” A pergunta o irritou, mas não havia tempo de disciplinar o general. Às vezes você tem de atrasar uma punição a um ofensor para mover-se rapidamente e salvar sua pele.

Além de uma curva acentuada na ravina ele permitiu que parassem. Talvez um terço do seu exército permanecera com ele, além de sete virotes e duas balistas. Apesar dos virotes terem perfurado as escamas de dragões menores, estes dragões anciões eram mais resistentes. Mas o olho era vulnerável. E ele também tinha seus feiticeiros, dos quais um esquadrão permanecera.

Em momentos curiosos, quando ele visitava a montanha de nascimento ou quando voava sobre as águas, ele pensava em Ugin. Em seus corações ele se sentia obrigado a acreditar que um vento invisível desperto por feitiçarias o arrancara dali, pois se não fora feitiçaria Ugin não era nada além de um covarde que abandonara seu irmão - justo quando Nicol mais precisava dele. Ele não conseguiria suportar acreditar que Ugin seria tão fraco e desonroso. Por gerações ele trabalhou juntamente com sua academia de feiticeiros para recuperar, ou descobrir tal magia que replicaria o desaparecimento de Ugin. Ninguém conseguira ainda, mas os feiticeiros conseguiam desintegrar grandes rochas.

Eles tinham uma chance, se todos conseguissem cumprir suas tarefas no momento certo.

Um berro ecoou pelas paredes da ravina. Os baques pesados de um corpo gigantesco se aproximando sacudia o chão.

“Esperem,” ordenou ele para suas tropas inquietas e assustadas. “Esperem.”

Lividus se assomou sobre a ravina, bloqueando a vista.

As balistas soltaram seus virotes direto no enorme dragão. O primeiro bateu sem causar danos em seu ombro, enquanto o segundo se prendeu entre escamas em sua coxa, ficando dependurado até que ele o sacudisse. E ele riu, olhando para cima.

Uma sombra escureceu a ravina quando Ravus desceu dos céus.

“Agora!” Clamou o jovem rei.

Trabalhando juntos, os feiticeiros lançaram a magia de desintegração sobre o dragão acima deles. Ela o atingiu como uma onda invisível, e o atravessou. Ravus se lascou como rocha aquecida, até explodir. Escamas choveram sobre suas tropas em discos mortais. Metade dos feiticeiros foi morta na hora, perfurados por fragmentos pontiagudos de ossos ou esmagados por placas de carne em queda.

Ilustração: Even Amundsen

“Ravus!” Com um grito de pesar furioso, Lividus incendiou as balistas no mesmo momento em que novos virotes voaram. A força de seu golpe mandou os virotes deslizando contra as paredes da ravina, deixando o jovem rei vulnerável apenas com as balistas chamuscadas, os últimos feiticeiros, e seu esquadrão de retaguarda encharcado de sangue.

Isso não é o que você aprendeu com Arcades,” Ugin clamara no último momento de sua existência, furioso com a tentativa de Nicol manipular os pensamentos dele. O toque não servia para dragões. Ou ao menos era isso o que Nicol acreditara na época. Mas talvez ele só não tivesse funcionado em Ugin.

Olhando para Lividus de baixo, ele sabia que só tinha mais um virote para atirar, uma chance precipitada e perigosa.

“Agora você morre, minhoca rastejante,” sibilou Lividus.

“Primo!” Ele capturou o olhar brilhante de Lividus com seus olhos. Ele enterrou uma garra sombria de dúvida nos corações do outro dragão, tentando desenterrar seus agravos. “Não me admira que Vaevictis tenha mandado você na frente. Ele sabia dos riscos, expondo você e Ravus ao invés dele próprio. Ele não faz isso sempre?”

A hesitação do grande dragão, o arrepio de ressentimento suprimido, o impulsionou a continuar.

“Ele só voa na frente quando sabe que ninguém tocará nele. Você não se cansa das ordens dele? De seu jeito intimidador e autoritário? É culpa dele que Ravus e Rubra estejam mortos. Uma vez vocês não conspiraram para suplantá-lo, mas ele surrou a todos até se submeterem? O que você vai fazer agora que ele só tem você para abusar? Ele sempre teve medo de você, já que só você tem o mesmo tamanho dele. É por isso que ele mantém você por baixo. Eu posso ajudar, mas teremos que trabalhar juntos.”

Ele pressionou a ponta envenenada de sua mente afiada dentro do rancor fervilhante de Lividus. Era muito fácil, afinal, tão fácil quanto fora com humanoides. Seu primo tinha o corpo forte, mas a mente fraca.

“Lá vem ele! Se você o atacar, mando meus feiticeiros contra ele. Nos livraremos dele para todo o sempre.”

E lá vinha Vaevictis. Lividus se ergueu para recebê-lo com um rugido. É claro que Vaevictis não suspeitava de um ataque, então o primeiro golpe o pegou com a guarda baixa, ferindo seu ombro direito o suficiente para sair sangue. Sua fúria explodiu ao golpear em resposta, um golpe que teria mandado o jovem rei às cambalhotas pelos ares. Mas Lividus era tão grande quanto Vaevictis. Apesar do golpe tê-lo feito cambalear, ele se recuperou rapidamente, e com uma rajada de fogo e o impacto de sua cauda, ele revidou.

“Agora,” disse o jovem rei para seus feiticeiros sobreviventes.

Novamente, eles lançaram o feitiço de desintegração contra os grandes dragões, mas talvez por ser dividida entre dois corpanzis ou porque apenas seis magos eram poucos, mesmo que trabalhando juntos, a magia não fez nada além de desconcertar os dragões por um momento.

Ainda assim, cada um deles uivou de raiva, imaginando que um batera no outro.

“Traidor! Enganador!” Clamou Vaevictis, lançando-se contra Lividus em igual maneira como, há muito tempo na cidade de Arcades, um jovem de modos comedidos fora incitado a atacar e matar seu próprio irmão.

A batalha entre eles se renovou com tal ferocidade que o impacto e a algazarra trovejavam pelas colinas acidentadas e ecoava até o fundo das ravinas profundas.

A vingança era doce. Mas o vencedor ainda seria maior do que ele.

O jovem rei bateu em retirada. O esquadrão de retaguarda encharcado de sangue, claro, teve de ser morto para que não passassem o conhecimento sobre como o sangue de um dragão ancião protegia a carne fraca de humanoides. Ele permitiu que os feiticeiros vivessem por tempo suficiente para criar uma bruma de ocultamento que o carregasse por boa parte das planícies, mas ele os matou depois para que ninguém comentasse sobre como havia dragões maiores e mais fortes no mundo, e seus súditos talvez quisessem adorar a eles em seu lugar.

Ao voar para longe com ímpeto, ele contemplava o que havia aprendido. A ganância e a inveja são incitações que arranham até mesmo o coração mais enfadonho. Dragões sucumbem com tanta facilidade quanto os outros, se você encontrar um cerne para incendiá-los.

Vaevictis viria atrás dele, disso ele tinha certeza. Então ele tinha de encontrar um meio de manter seu primo ocupado.

Ao invés de voltar ao seu harmonioso reino, ele viajou mais adentro das montanhas escarpadas, buscando os descendentes de Lividus, Ravus e Rubra. Que notícias terríveis ele teria que entregar a eles! Vaevictis virou-se contra os próprios irmãos. Que desgraça. Provavelmente o grande dragão também queria erradicar seus descendentes, para que nenhum traço de perfídia sobrevivesse.

A facilidade com a qual os ingênuos se alinhavam com seus propósitos lhe dava um prazer surpreendente. Voltar ao seu reino pareceu algo enfadonho e sem aventuras. Ao invés disso, ele fez uma jornada até um novo lar de dragões, um novo território para inflamar. Ele buscou Palladia-Mors. Ela se lembrou dele com uma pancada de dispensa na cabeça dele, mas ouviu avidamente sua história sobre como Vaevictis agora estava vulnerável.

Ah... A vingança era realmente doce.

Nos anos que se passaram, as histórias foram contadas à beira de lareiras, ou por refugiados amontoados em torno de fogueiras, buscando a segurança de acampamentos - não que eles estivessem a salvo em algum lugar, afinal.

Dragões de um clã atacavam as montanhas sólidas de um clã primo. Em meio aos picos cobertos de neve, dragões lutaram batalhas trovejantes, garra a garra, chama a chama. Carne chamuscada caía dos céus. Ossos se espatifavam na base das escarpas. Aqueles cuja fome nunca podia ser saciada rasgavam seu caminho pelos moribundos, banqueteando-se da carne ensanguentada de sua própria espécie.

A ganância e a inveja crescem quanto mais alimentadas elas são. Mandíbulas se abriam para engolir porções maiores, e garras se estendiam para atingir presas cada vez mais distantes.

Dragões viravam suas atenções para os campos e manadas dos povoados humanoides. Alguns apenas queriam devorar humanoides, do mesmo modo que caçavam e devoravam manadas selvagens. Outros queriam cuidar deles como se fossem gado, prontos para o abate quando a fome doer. Alguns deles queriam ensinar e guiar humanoides, mas seus esforços costumavam ser respondidos com ingratidão e mal-entendidos. Até mesmo o esperto Chromium Rhuell se escondeu enquanto tentava ser algo que não era, para que os humanos que ele dizia o amarem não caçoarem dele, e para que dragões que desprezavam sua filantropia de fala mansa não o comessem.

Nenhuma jaula pode prender a ganância. Não há correntes que prendam a inveja. Quando elas crescem, são chicoteadas pelo desejo e pela raiva, e assim os dragões nunca se saciavam. Sua fome não era aplacada.

Ilustração: Adam Paquette

Dragões cruzavam os poderosos mares para encontrar novas terras, onde podiam alimentar sua fome de carne e de poder. Quando até mesmo estas praias distantes ficaram cheias demais, dragões lutaram entre si com unhas e dentes, gelo e fogo. Sob estandartes de dragões, elevaram orgulhosos bandos bélicos dentre humanoides que os adoravam ou os temiam. Feiticeiros que buscavam um poder dracônico dominando seus dons mágicos vinham de joelhos para oferecerem serviços, pois em todo o mundo não há criatura mais poderosa que um dragão - não houve desde o início dos dias, e nunca haverá por toda a eternidade.

Até mesmo o sábio Arcades Sabboth, que ralhara e dera sermões sobre o tema de paz e ordem e sobre modos corretos de governar, lançou seu poderio dentro da grande guerra ao ouvir sussurros da sabedoria que tocavam sua mente.

Os outros não respeitarão a autonomia do seu ponto de vista. Eles virão atrás de você se não for atrás deles primeiro.

Assim, até mesmo Arcades marchou com seus seguidores contra fortalezas regidas por parentes distantes. Quando ele os derrotou, ele lançou seus ossos sem tutano dentro do mar, onde as águas os moeram e formaram as areias pálidas que banhavam as praias do mundo todo.

E então as guerras correram furiosas, enquanto apenas um dragão mantinha a promessa com o povo sobre o qual governava. Ele não se esquecera da promessa que fez ao seu irmão gêmeo: que não haveria uma lei para eles e uma diferente para nós. Só deveria haver uma lei.

Só haveria uma lei.


Tae Jin foi parando de falar e, boquiaberto, olhava fixamente para o chão como se tivesse esquecido do que estava dizendo, ou até mesmo de quem era.

Atarka ergueu a cabeça. Havia ligamentos dependurados de sua boca. Ela engoliu o fígado e os corações inteiros, e rasgou músculos e gordura de perto dos ossos. Uma gosma cobria suas pernas dianteiras, onde ela pisara nas entranhas do dragão de Ojutai depois de ter rasgado sua barriga. Ela abriu sua boca, e depois abriu mais ainda, mostrando a temível topografia de seus dentes, e depois cerrou seu maxilar de repente, com uma risada rouca.

“Só há uma lei: comer. Foi um bom banquete. Podem ficar com o forasteiro.”

A Soberana Dragoa saltou para o alto com um bater de asas que deixou a todos de joelhos. Logo, eles a perderam de vista, voando para nordeste dali, na direção do Qal Sisma.

“Minha cabeça...” Como se seus ossos virassem água, Tae Jin caiu em um colapso completo, de pé em um momento e sentado no outro, curvado para a frente e com a cabeça entre as mãos.

Naiva correu na direção dele, mas a Avó chegou lá primeiro e fez um gesto para que ela saísse. Ela se agachou ao lado dele e inclinou sua cabeça para trás, a fim de poder ver os olhos dele. O que ela viu lá fez seu cenho franzir.

“Você está consciente, Tae Jin?”

“Sim . . . só estou uma dor de cabeça que me faz lacrimejar.”

“Que história era essa, tão parecida com a de Ugin e ainda assim, tão diferente da dele?”

“Eu não sei. Eu queria contar a história dos últimos dias da liderança de Shu Yun. Da última reunião entre os khans, e de como eles caíram frente aos dragões.”

“Me lembro daquele dia, e do que sucedeu, bem demais.”

“Pensei que uma história de vitória dessas manteria a Soberana Dragoa entretida.”

“Então de onde veio esta história?”

Novamente ele esfregou os olhos, e depois se levantou com cautela, como se não tivesse certeza se suas pernas o segurariam de pé. “Esta outra história . . . veio em um sussurro para a minha mente. Talvez seja uma história que minha mãe me contou quando era muito jovem, e eu tinha me esquecido dela até agora.”

A Avó se levantou. “É uma reviravolta agourenta. Uma vez, um sussurro tentou alterar os eventos em Tarkir. Para a minha vergonha, eu escutei aquela voz. A morte de Ugin é, em parte, culpa minha. Talvez as visões que seu mestre e o povo-do-vento receberam não tenham vindo dele. Mas se vieram, é ainda mais importante que cheguemos ao túmulo de Ugin logo. Primeiro, precisamos honrar Darka por sua proeza de caçada em vida, e por aceitar sua morte sem titubear.”

Eles puxaram os restos mutilados do ainok do meio das ruínas ensanguentadas deixadas por Atarka. Seu facão e amuletos foram embrulhados para serem devolvidos aos seus parentes ainok. Os itens de sua bolsa foram divididos pelo grupo. Objetos assim eram valiosos demais para serem abandonados. Depois, ao modo ainok, eles deitaram seu corpo no chão e o cercaram com pedras. Cada um fez uma breve oração e uma compartilhou uma única memória, nada muito elaborado. Todo espírito passava para o reino dos ancestrais, e com outra caçada sempre à vista, a maior honra que podiam mostrar ao defunto era continuar perdurando, ano após ano, geração após geração.

“Seu espírito caminha à nossa frente para dentro do não-escrito, agora,” disse a Avó ao colocar uma grande rocha sobre o peito dele, como lembrete do peso das obrigações que prendem cada membro da tribo aos demais. O sol, também, era um parente, e o sol observaria os pássaros e feras e insetos devorarem os restos dele.

Ela se afastou. “Todos prontos?”

Naiva olhou em volta. É claro que estavam prontos, lanças e facões nas mãos, bolsas a tiracolo... A tribo sempre estava pronta.

“Precisamos chegar ao túmulo de Ugin antes que a tempestade caia.”

A Avó os levou para longe dos pedregulhos e dos restos mastigados e dos ossos esmigalhados dos dragões mortos. Abutres circulavam acima, esperando pela chance de se alimentar com as sobras. Mais à frente, Fec esperava para entrar em formação com eles.

Naiva perscrutou o céu. As borras de nuvens escuras foram sopradas para sudeste, como uma manada em fuga. O sol nascente derramava sua luz dourada por toda a tundra. Ao longe, na beirada das colinas, uma estranha espiral de pedra se ergueu do chão, e as feições eram tão nítidas e delineadas que por um instante Naiva acreditou na ilusão o suficiente para achar que poderia estender a mão e tocá-la.

“Você acha que tem outra tempestade de dragões chegando?” Perguntou ela para sua Avó.

“Acho que já chegou.”


Próximo conto: Estranhos Conhecidos

Coleção Básica 2019 Arquivo das Histórias
Perfil do Planeswalker: Nicol Bolas
Perfil do Planeswalker: Ugin, o Dragão Espírito
Perfil do Plano: Tarkir

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