A Guerra da Centelha: Ravnica — Operação Desespero

Posted in Magic Story on 5 de Junho de 2019

By Greg Weisman

Greg Weisman is best known as the creator and producer of Gargoyles, and the writer-producer of Young Justice, Star Wars Rebels, and The Spectacular Spider-Man. He's the author of five novels: Rain of the Ghosts, Spirits of Ash and Foam, World of Warcraft: Traveler, World of Warcraft: Traveler - The Spiral Path, and War of the Spark: Ravnica.

Conto Anterior: Agentes Desesperados

SPOILER: Esta história contém detalhes da trama de War of the Spark: Ravnica um livro de Greg Weisman.

Um aviso a pais e mães: observem que este conto trata de assuntos que possam ser considerados inadequados para leitores mais jovens.

I.

O Teyo, a Mestra Kaya, o Mestre Zarek, a Rainha Vraska e eu usamos túneis Golgari o máximo que deu. Mas as passagens antigas entre os salões de guilda Rakdos e Golgari foram fechadas quando Jarad vod Savo, o antigo líder da guilda Golgari, foi morto pela primeira vez em Rix Maadi por uma bruxa sanguinária Rakdos. Então no final tivemos que sair para a superfície e enfrentar os sinistrões coletores de Centelha que estivessem por ali.

Não encontramos nenhum, o que pareceu ser um bom sinal.

Além disso, do alto de um morro conseguimos ver a Praça do Décimo Distrito, e o portal não estava mais lá. A gente já sabia que o Senhor Jura e o Senhor Juba D’Ouro e a Dona Huatli e outras pessoas estavam fazendo o melhor que podiam — agora com a ajuda dos Golgari — para resgatar o máximo possível de ravnicanos. E o Mestre Zarek já tinha desligado o Farol. Agora estava claro que o Senhor Fayden, o Senhor Karn, a Dona Samut e o Homem-Demônio Ob Nixilis também tinham conseguido desligar a Ponte Planar. Eram as três primeiras das seis missões do Senhor Beleren concluídas.

Ou talvez quatro...

Todo o meu grupo parou de andar de repente.

Perguntei para o Teyo o que tinha acontecido, e ele disse que alguma coisa tinha mudado.

“O quê?”

“Eu—”

A Rainha Vraska disse: “Foi desligado. O Sol Imortal foi desligado.”

Engolindo em seco, eu disse: “Então vocês todos podem ir onde quiser, podem transplanar...”

A Mestra Kaya disse: “Não vamos a lugar algum.”

O Mestre Zarek disse: “Não. Ainda temos trabalho a fazer.”

Quatro missões concluídas. Só faltavam duas. O assassinato da Dona Cabelo-de-Corvo, Liliana Vess. Essa era a missão do Senhor Beleren com o Senhor Teferi, a Dona Jaya, e a Dona Vivien.

E depois tinha a nossa missão: A Operação Desespero. O Mestre Zarek falou que a Dona Lavínia vai representar os Azorius. E o Mestre Lazav dos Dimir prometeu que ia participar também. E com Boros, Izzet, Simic, Orzhov, Selesnya, Gruul, e Golgari já garantidos, só faltava Rakdos.

Eu não queria ir lá para baixo, para Rix Maadi. Não que o lugar me desse medo. Mas sem a Hekara lá, no lugar onde ela devia estar, eu tinha medo de simplesmente... dissolver... Tipo, virar uma poça. Esse tipo de coisa não acontece comigo sempre. Eu sou uma Rata bem resiliente, sabe? A maior parte do tempo, eu tenho que ser. Mas quando eu fico triste de verdade ou me quebro o coração, tudo bem, porque ninguém vê. Eu mal me noto, né? No caso, para quê enfiar a cara em tanta lágrima e tal?

Ajuda a quem?

Mas dessa vez eu teria testemunhas. O Teyo e a Mestra Kaya — talvez até o Mestre Zarek — iam me ver despedaçando. E se eles vissem, eu teria que ver também. E daí seria de verdade. Ia querer dizer que a Hekara está mesmo...

Enfim, nove guildas garantidas. Falta uma. E já foram quatro missões. Faltam duas. Bom... Três, na verdade. Não dá para esquecer a missão final. Porque depois de toda essa... parte fácil, né, sair do caminho, ainda tinha o dragão.

É... Ainda tem o dragão.


II.

O primeiro malabarista, usando couros vermelhos com rebites e laços que acabavam em anzóis de metal afiados, tinha seis tochas acesas no ar. Impressionante. O segundo fazia malabares com oito crânios humanos. O terceiro fazia malabares com doze crânios em chamas. O quarto era um esqueleto morto-vivo, com reforços de ferro fundido nos ossos, incluindo quatro chifres imitando os do seu mestre Rakdos, o Profanador. Ele fazia malabares com crânios de gato em chamas, puxados de uma pequena fornalha acesa dentro das suas próprias costelas.

Sem aviso algum, o esqueleto jogou um dos crânios em chamas no Teyo, que mal teve tempo de conjurar um escudo circular de luz branca para bloquear antes que o atingisse no olho. O crânio ricocheteou no escudo e atingiu a cara do esqueleto. Ele deu uma risada rouca e sem ar, e o Teyo se arrepiou todo.

A Mestra Kaya tentou tranquilizá-lo. “Eles só querem intimidar você.”

O Teyo olhou para o chão e resmungou: “Tá funcionando.”

O esqueleto sussurrou: “Entendeu errado, Mestra. Nós só queremos entreter vocês.”

O Teyo olhou feio para o esqueleto e disse: “Não tá funcionando.”

O esqueleto riu de novo e disse: “Bom, pelo menos você tá me entretendo.”

Estamos descendo os quinhentos degraus do Vestíbulo do Demônio para chegar em Rix Maadi. Veios de lava corriam pelas paredes abertas por vormes, e iluminavam tudo com uma luz vermelha e opaca. Tinha uma pessoa se apresentando a cada quatro ou cinco degraus. Depois dos malabaristas vieram as marionetes, criadas para atiçar pesadelos nos não-iniciados.

Mas eu não sou não-iniciada.

Eu já desci esses degraus e já vi essas apresentações, várias vezes, com a Hekara. Eram como se fossem velhos amigos — determinados a me lembrar que a minha melhor amiga nunca mais desceria esses degraus comigo.

Eu odeio eles! Por que eles estão aqui ainda, se ela não está?

Por que eu estou aqui ainda, se ela não está?

Pensei que já tinha visto todos, mas a última marionete me tirou o fôlego. A moça carregava uma caricatura brutalmente correta da Hekara, bruxa da navalha completa, com lâminas de verdade.

Dava para sentir a preocupação da Mestra Kaya, quando a gente se olhou e compartilhou um momento de pesar. Ou eu gritava, ou me apoiava. Eu sorri triste e falei baixinho: “Não vai ser a mesma coisa, vir aqui sem ela.”

Que coisa besta e óbvia de se dizer. Mas o que mais tem para dizer?

A morte da Hekara era exatamente o motivo que fez a Mestra Kaya sugerir fortemente que a Rainha Vraska nos acompanhasse até Rix Maadi — e o motivo que fez a Kaya insistir com a górgona para vir sem seus defensores kraul ou Vetustos. Se o Culto queria uma explicação (ou exigia vingança) pela morte da Emissária Hekara, o Mestre Zarek e a Mestra Kaya queriam que a rainha estivesse lá para explicar (ou pagar o preço).

Surpreendentemente, Sua Alteza não se recusou.

A marionete da Hekara parecia ter vida própria, e jogou lâminas de verdade no Zarek e na Vraska. Elas não eram jogadas com força suficiente para causar dano de verdade nos líderes das guildas Izzet e Golgari, apesar da Rainha ter saído dali com um corte pequeno no braço e no rosto, pingando sangue devagarinho pela bochecha. Os pensamentos da Mestra Kaya estavam preocupados se as lâminas eram envenenadas. Eu sacudi a cabeça. “Não tem nada nelas. Mas talvez tenha na volta... Dependendo de como for lá embaixo.”

As marionetes acabaram e começaram os horrores em gaiolas, com diabos mascarados sentados em cima delas, prontos para soltar os monstrinhos. Esses horrores em especial eram coisas aracnídeas que bufavam e sopravam e guinchavam e lamuriavam, só que eram do tamanho de filhotes de nodorog, mas nessa escadaria apertada e claustrofóbica um filhote desses causaria bastante estrago. Os diabos gargalhavam selvagens, toda hora chegando perto das trancas para ameaçar abrir as jaulas. O Teyo se retraía toda vez, e isso só incentivava os diabos a fazer mais.

As paredes estavam pintadas com centenas de pôsteres que se sobrepunham, alguns divulgando apresentações de séculos atrás, e a maioria tinha algum insulto a outra guilda, com Orzhov, Azorius e Boros sendo os alvos mais comuns e mais populares. A Mestra Kaya parou para olhar um pôster que parecia tão antigo quanto o resto, que mostrava o Mestre Zarek, a Rainha Vraska, a Dona Lavínia e ela mesma pendurados como marionetes, cada um de um só fio enrolado nos pescoços. As cabeças dependuradas, línguas para fora, membros frouxos e rostos azulados e inchados. Quem estava segurando os fios era uma imagem da marionete da Hekara, e quem controlava a marionete da Hekara era o próprio Profanador. Não era um bom sinal para nossa recepção lá embaixo. A Mestra Kaya suspirou fundo e seguiu em frente. O Teyo parou para olhar também. Ele começou a ter um tique nervoso, tremendo a bochecha esquerda. Eu fiz ele continuar descendo, e disse: “Pelo menos eles não têm um poster contigo.”

“Ainda,” emendou ele, nervoso.

Depois dos diabos e seus horrores eram os engolidores de chamas. O Teyo fez menção de conjurar um escudo, mas eu parei a mão dele e sacudi a cabeça de novo. “Só vai incentivar eles. Presta atenção: quando eles inspirarem, pode passar.”

Enquanto a gente descia, o Mestre Zarek e a Rainha Vraska continuavam precavidos de um jeito estóico, cada um com seus pensamentos sombrios, a maioria deles — que eu conseguia sentir — eram sobre a Hekara. A não ser pelo Teyo que não a conheceu, nós todos estávamos de luto pela nossa amiga. Até a Mestra Kaya e o Mestre Zarek, que não tinham nada para culpar um ao outro, sentiam a perda da Hekara em cima e em torno deles. Em parte, eu acho que era porque o Mestre Zarek sempre foi distante com a Hekara — tirando vantagem dela sem reconhecer de verdade que se importava com ela — e apesar de ser tarde demais, agora ele sabia que se importava muito com ela. Ele se sentia culpado por isso, e uma parte irracional dele tinha raiva da Mestra Kaya por sempre ter sido afetuosa com a Hekara. Mas a maior parte dele era raiva de si mesmo.

Quanto mais a gente descia, mais quente ficava, e não só por causa dos engolidores de chamas. Os veios de lava nas paredes curvas eram mais líquidos aqui, e maiores. A lava cauterizante pingava nos degraus e a gente precisava evitar pisar nelas se queríamos manter nossas botas intactas — ou os pés.

Os engolidores de chamas acabaram e começaram os monociclos, que se equilibravam no lugar e eram muito impressionantes, sobre aparelhos que pareciam câmaras de tortura: travões de arame farpado, rodas com garras, selins feitos com cabeças de machado. Mais de um deles sangrava. Cada um deles ficou perto de fazer cortes no nosso grupo. Um deles, que não me via, quase cortou meu pé fora. Mas esse tipo de quase-catástrofe era comum, e eu me ensinei a ficar muito, muito ligada no que acontece à minha volta, o tempo todo. Eu pulei para o lado com facilidade.

Por fim, chegamos no último degrau e o Vestíbulo acabava na Área dos Festivais, guardados por dois ogros imensos usando máscaras feitas com crânios de ogros. A Mestra Kaya hesitou, mas os ogros não prestaram atenção em mim ou em ninguém mais — como se os outros quatro fossem mais quatro Ratas. Então a Kaya ignorou eles também, continuando a caminhar pelo grande pátio. No centro tinha uma fonte rachada e pichada, com a estátua de um centauro. De um ângulo específico a estátua ficava surpreendentemente elegante, mas eu sabia que se chegasse perto os outros viriam os pedaços de mármore que foram arrancados do homem-cavalo com uma marreta. A água descia por lábios quebrados, e gotejava da fonte rachada até uma fenda no chão, de onde ela subia como vapor.

Acima da gente tinha trapézios vazios, presos em ganchos enferrujados, e uma única equilibrista de maria-chiquinha usando uma roupa justa quadriculada em vermelho e preto, deslizando descuidada por uma corda-bamba puída. Os movimentos dela eram muito graciosos e chamavam atenção. Ela olhou para baixo, para seu novo público, e o Teyo perdeu o fôlego. A boca e as pálpebras dela tinham sido costuradas.

Tinha gaiolas grandes o suficiente para horrores do tamanho de humanos. E tudo, mas tudo mesmo, estava casualmente respingado de sangue.

Do outro lado da Área dos Festivais, tinha mais dois ogros mascarados com crânios de ogro de guarda na frente da fachada de pedra ornamentada de Rix Maadi. Assim como a outra dupla, esses ogros não pareciam notar a gente. Ainda assim, nosso grupinho hesitou na frente do brilho avermelhado e agourento da entrada — até que a Rainha Vraska murmurou “dane-se,” e marchou para dentro da soleira arqueada e alta. O Mestre Zarek e a Mestra Kaya se entreolharam e a seguiram, e eu e o Teyo seguimos também.

A fachada de Rix Maadi era só uma fachada. Dentro não tinha arquitetura — só uma caverna vulcânica natural gigantesca. O vapor subia de um fosso de lava enorme no centro, e chaminés naturais ventilavam o lugar dali até a superfície.

Todo mundo estava suando bastante nesse ponto. Até o Teyo, o menino do deserto. Ele deu de ombros e disse: “Não é o calor; é a umidade.”

Calçadas elevadas de pedra cruzavam o fosso de lava. Cabos de aço cruzavam o teto, segurando mais ganchos e gaiolas enferrujadas. Recipientes cheios de sangue pontilhavam a paisagem. Também tinha vários cães de caça infernais dormindo, incluindo a favorita da Hekara, Serracote.

Será que ela também sente falta da sua dona?

As paredes estavam esburacadas com dúzias de portas levando a dúzias de cômodos. Algumas emanavam risadas. Outras, gritos. Muitas emanavam as duas. À nossa esquerda, no nível do chão, uma abertura grande na parede estava oculta por uma bruma sobrenatural de pura sombra. Uma brisa fedida flutuava lá de dentro. Já estive aqui várias vezes, mas ainda me dá arrepios.

Eu fui até a Mestra Kaya e cochichei: “Cadê todo mundo? Rix Maadi costuma estar lotada com gente se apresentando. Eu nunca vi isso aqui tão vazio.”

Ela olhou por todo o lugar avermelhado e obscuro. A não ser pelos cães de caça infernais e o rato (de verdade) ocasional, não tinha nenhuma alma aqui, viva ou morta, a não ser pela gente. Daí, como se fosse teatro, uma figura assustadora apareceu com um estouro de fumaça vermelha.

“Dama Exava,” sussurrei. “Bruxa sanguinária. É a atual segunda no comando do Profanador.”

Quando a fumaça foi dissipando, a Dama Exava começou a ficar visível. Era uma mulher alta e musculosa, usando uma máscara imensa e detalhada, decorada com dois pares genuínos de chifres de demônio. Um corpete apertado acentuava seus seios grandes e cintura desnuda. Ela usava botas acima do joelho e um cinturão largo com várias ponteiras de ferro dependuradas, todas manchadas de sangue. Ela estava em um palco pequeno e encarava meus quatro companheiros com soberba e desprezo. Ela nunca conseguiu me ver.

Eu nunca gostei muito dela.

A Mestra Kaya, o Mestre Zarek e a Rainha Vraska todos se entreolharam e curvaram suas cabeças ao mesmo tempo. O Mestre Zarek falou as formalidades: “Nós te honramos, Exava, bruxa sanguinária de talento raro, e pedimos encarecidamente por uma audiência com seu mestre, o Profanador."

A Dama Exava estudou cada um deles em silêncio. Daí ela olhou para o fosso de lava. Além da lava borbulhando, nada mais apareceu, nem mesmo o demônio.

“Aparentemente,” disse ela com uma voz contralto, “O Profanador não aceita dar audiência a vocês.”

Mas naquele momento a voz retumbante de Rakdos ecoou por toda a caverna: “ONDE ESTÁ NOSSA EMISSÁRIA?

O Mestre Zarek olhou feio para a Rainha Vraska, que deu um passo à frente pronta para o que aconteceria com ela. Mas antes que ela pudesse dizer alguma coisa, uma voz chamou: “Ela está aqui!”

O quê?! Sério?! A Hekara?!

Eu me virei para a entrada principal. Era o Senhor Tomik Vrona, trazendo um único thrull Orzhov que carregava um cadáver coberto.

Ai, não. Não, não, não, não, não... Por que fazer isso comigo?

O Senhor Vrona fez um sinal para o thrull, que parou. Ele descobriu o rosto do cadáver, o rosto da Hekara. Ele disse: “Eu trouxe Hekara de volta ao seu povo.”

Eu corri até o lado da Hekara. O thrull era alto, e eu tive que ficar na ponta dos pés para ver a minha amiga e dar um beijo na bochecha pálida dela. Era real, agora. Honestamente, eu não sei dizer se isso melhorava ou piorava as coisas.

A Dama Exava pigarreou impaciente. Ela disse: “Faça sua criatura colocar a bruxa da navalha no palco, aos meus pés.”

O Senhor Vrona fez um sinal e o thrull obedeceu. Eu o segui.

A Dama Exava se ajoelhou ao lado da Hekara e arrancou sua mortalha. Exava lançou no ar a mortalha, que pegou fogo dramaticamente — bem dramaticamente. Choveu cinzas em cima de todo mundo.

A bruxa sanguinária passou a mão da cabeça da Hekara até as pontas dos pés em uma carícia perturbadora e quase erótica. Ela disse: “Você devia tê-la trazido mais cedo.”

“Peço desculpas,” disse o Senhor Vrona, se curvando. “As coisas estão um pouco caóticas na superfície.”

“Isso não é da conta do Culto.”

“Mas devia ser,” começou o Mestre Zarek.

A Dama Exava se ergueu, estalando os dedos em dispensa. Em segundos, mais seis bruxas sanguinárias apareceram de mais seis nuvens de fumaça vermelha. Elas vieram e rapidamente tiraram as roupas da Hekara e a enfeitaram com sininhos e trapos. Quando o processo estava terminado, a Dama Exava disse: “Faça seu thrull levar Hekara para a Cripta do Bobo.” Ela apontou com um dedo longo e elegante para uma abertura desagradável.

O Senhor Vrona fez mais dois sinais e o thrull pegou a Hekara. Acho que eu devia ter avisado.

Mas por algum motivo, eu não avisei.

Ladeado por uma procissão das seis bruxas, o thrull passou pela abertura com a Hekara nos braços.

Depois disso, eu falei: “Espero que o Senhor Vrona não goste daquele thrull. Ele nunca mais vai ver ele de novo.”

E de novo, na sua deixa, meus companheiros congelaram com o grito de morte do thrull. O Senhor Vrona parecia horrorizado. Tudo o que eu consegui fazer foi dar de ombros.

A Dama Exava disse: “Voltarei em um momento. Fiquem aqui.” Então ela pegou fogo, igual a mortalha da Hekara. Choveu cinzas de novo, mas nenhum de nós pensou que a bruxa sanguinária tinha queimado.

Meus pensamentos estavam todos com a Hekara. Eu nunca tinha visto o rosto dela sem sorrir. Até quando apresentava uma tragédia, os olhos dela sorriam. Acabou. Sem sorriso nos olhos dela. Sem sorriso na boca. Sem palavras de bondade trocadas entre amigas.

Você é a minha Rata.

Eu sou sua Rata.

Acabou tudo. Para sempre.

O Senhor Vrona estava dizendo para o Mestre Zarek: “Você tinha os seus deveres; eu tive os meus.”

O Mestre Zarek olhou para ele, muito sério. “Que seria o quê, exatamente?”

O Senhor Vrona olhou diretamente para a Mestra Kaya: “Eu sou assistente executivo da verdadeiralíder de guilda dos Orzhov. Passei anos acreditando que era Teysa Karlov. Agora, eu sei que é Kaya. Então eu estive cuidando dos negócios da minha mestra.”

A Kaya sorriu e o agradeceu. Então bateu a epifania: “Tomik, foi você quem mobilizou as tropas Orzhov para a batalha.”

“Isso foi o gigante Bilagru, em sua maior parte. Você causou-lhe boa impressão.”

“Depois que você o enviou para mim, preparado.”

O Senhor Vrona colocou a palma da mão para cima, como quem diz: Este é o meu dever.

Nesse momento a Dama Exava saiu da Cripta do Bobo, com as mãos absolutamente encharcadas com sangue de thrull.

Mais uma vez a Rainha Vraska deu um passo à frente, dizendo: “Grande e talentosa Exava, Ravnica precisa do seu auxílio. Se Hekara estivesse viva, ela insistiria para que você nos ajudasse com seu mestre—”

A Dama Exava a interrompeu: “A Emissária Hekara morreu por ter confiado em vocês três.” Ela apontou para a rainha, o Mestre Zarek e a Mestra Kaya. “Um de vocês a traiu, um de vocês a renegou, e um de vocês simplesmente falhou com ela.”

“É tudo verdade,” disse o Mestre Zarek com remorso evidente — mas bastante determinação. “E não há garantia alguma, a não ser esta: se as dez guildas não se unirem, Ravnica está certamente condenada.”

“E então o Culto de Rakdos dançará sobre o túmulo de Ravnica. Nós dançamos sobre túmulos muito bem. É uma especialidade nossa.”

“Tenho certeza que sim,” replicou o Mestre Zarek. “Mas os mortos não sabem dançar.”

“Você ficaria surpreso.”

“Por favor, escute. Niv-Mizzet nos deixou um último plano para derrotar Nicol Bolas. Se permitir que eu explique—”

NÓS JÁ SABEMOS TODOS OS DETALHES DA ÚLTIMA TENTATIVA DO MENTE DE FOGO ACUMULAR MAIS PODER,” ecoou a voz de Rakdos. “NÃO ACEITAMOS!

A Dama Exava sorriu perigosamente. “Acho que vocês deveriam ir,” disse ela.

“Mas—”

“Antes de emputecerem ele de vez.”

O Mestre Zarek, a Mestra Kaya, a Rainha Vraska e o Senhor Vrona pensaram, procurando dentro de si ou alguma coisa que pudessem fazer ou dizer para mudar a situação. Mas no final os ombros de todos só caíram e eles se viraram para ir embora.

O Teyo se virou para mim e perguntou: “Acabou, então? Vamos desistir?”

Mas eu não estava prestando atenção. Eu senti um cheiro ou ouvi alguma coisa ou senti uma presença... Eu estava olhando fixamente para a entrada da Cripta do Bobo. Alguém atrás de mim perdeu o fôlego.

“Que pressa é essa, minha gente?” Disse a Hekara, saindo do lugar oculto pelas sombras.

Eu devia ter corrido até ela, abraçado com tudo. Mas eu só fiquei ali, com medo de esperar que o que eu estava vendo era verdade, sabe?

“Hekara?” Perguntou o Mestre Zarek.

“Sou eu, né,” respondeu ela, dando de ombros.

“Você não tinha morrido?” Perguntou a Rainha Vraska.

“Ah, claro. Ficou com saudade?”

“Mais do que você imagina... minha amiga,” disse o Mestre Zarek.

“Para,” disse a Hekara. “Vou ficar com vergonha. Brincadeirinha! Eu nunca fico com vergonha. Pode ser meloso que eu gosto. É um teatro de horrores, mas todo mundo tem seus prazeres vergonha alheia, né não?

A Rainha Vraska disse: “Eu te devo desculpas, Hekara. Eu nunca devia ter traído a sua confiança.”

“Foi uma coisa bem bosta o que você fez. E morrer foi um saco. Mas vai, deu tudo certo. Afinal, não dá ser ressuscitada como bruxa sanguinária se não morrer primeiro, né?”

Eu acho que estava chorando. Eu sei lá. Eu nem me importava. “Você é bruxa sanguinária agora?” Perguntei eu, em reverência.

Mas o Mestre Zarek não me ouviu e falou por cima, com sua própria pergunta: “Você consegue convencer Rakdos a entrar para a Operação Desespero?”

“Aaah, que bom o título,” disse a Hekara, “Mas sério, relaxa. Eu represento o Culto no que você tiver planejado aí, camarada.”

“Não vai, não,” retumbou a Dama Exava. “O Profanador deixou suas intenções bem claras.”

“Sério? Porque ele não me falou nadinha.”

“Na hora você estava morta, e portanto era uma plateia bastante distraída.”

“Ele pode esclarecer as coisas agora...”

“Não será necessário,” disse a Dama Exava. “Eu vou esclarecer.”

Mas a Dama Hekara balançou o dedo para Exava. “Mas você não é a Chefe. Não a minha chefe, no caso. Você é só uma bruxa sanguinária. E como agora eu também sou bruxa sanguinária, acho que não preciso seguir suas ordens. Você não está mais acima de mim na hierarquia, Exava. Só está, tipo, do lado.”

“Bruxa, eu te mato de novo!” A Dama Exava saltou com as mãos ensanguentadas na direção da garganta da Hekara.

A Hekara virou uma estrela para o lado. A estrela virou uma cambalhota, que emendou com um salto mortal para trás. A Hekara parou em cima do palco e eu aplaudia!

Quando ela estava em terreno elevado, a Hekara materializou várias lâminas nas duas mãos, e lançou todas ao mesmo tempo. “Uma vez bruxa da navalha, sempre bruxa da navalha!”

A Dama Exava não estava preparada. Ela parou a maior parte das lâminas com um aceno de mão, mas mais de uma entrou na pele. Isso não a parou, mas não era como se a Hekara estivesse sozinha nessa luta. O Mestre Zarek ligou seu Acumulador e lançou um raio relativamente pequeno que atingiu as costas da Exava. Ela gritou e caiu de joelhos.

Um cão de caça infernal reagiu, mas a Hekara a interceptou, dizendo: “Quieta, Serracote. Senta!”

Serracote parou, mas não sentou. Ela rosnava em ameaça, e uma saliva ácida pingava da sua boca, chiando quando atingia o chão. O Mestre Zarek recarregou, pronto para atirar de novo. A Hekara fez um aceno de dispensa sem nem olhar para ele. Ela continuava falando carinhosamente com Serracote: “Não liga pro Ral. Ele é bonzinho. E a Exava vai voltar a ser diva rapidinho. Agora senta!”

Serracote sentou.

A Hekara falou para o fosso, para o ainda-ausente Rakdos: “Vou lá ajudar meus amigos agora. Cê não se importa não, né, Chefe?”

O Profanador continuou em silêncio.

“Então tá bom,” disse a Hekara, gargalhando. “Vamos nessa!” E então ela veio na minha direção. Eu estendi os braços para ganhar um abraço, uma girada, ou qualquer coisa que ela quisesse fazer.

Vem cá, queridinha, me dá um abração.”

Eu sou sua Rata.

Você é a minha Rata.

Nada disso aconteceu.

Ela passou por mim — sem nem me notar.

Eu... fiquei atordoada. Eu olhei mais além e vi o Teyo e a Mestra Kaya olhando para mim com pena. Então eu olhei para longe. Mas a gente sabia. Na hora. O que quer que tenha sido feito com a Hekara para ela voltar a viver mudou o suficiente nela para que ela não consiga mais me ver.

Eu acabei de perder ela de novo...

Mas que diferença fazia isso agora? A gente tinha saído para trazer quatro guildas de volta para o rebanho.

Faltam zero. Quatro já foram. E essa última acabou comigo.


III.

Acho que em algum ponto eu devo ter voltado a respirar.

Enfim, ela estava viva, né? Era isso que importava, na verdade. Eu perdi a Hekara, mas pelo menos ela estava de volta, sabe?

Tem coisas piores do que descobrir que uma pessoa que você ama ainda está no seu mundo... mesmo que você não esteja no dela.

Eu andei ao lado dela de lá até a praça.

O Teyo disse: “Quer que eu diga alguma coisa para ela?”

A Mestra Kaya disse: “Não fique se torturando.”

Eu fingi que não ouvi. Eu só decidi, sei lá, me banhar na luz da presença da Hekara por um tempinho.

E em algum ponto eu devo ter voltado a respirar.

Uma parte de mim pensava que provavelmente ela ia me ver de novo.

Dá um tempinho...

Mas parte de mim sabia da verdade. Ela era bruxa sanguinária agora. Era a Dama Hekara. E eu ainda era só uma Rata insignificante. Ela não olhou para mim. Ela não queria ver algo como eu. Ela estava muito acima de mim agora. Além disso, eles fizeram alguma coisa para trazer ela de volta. Mudaram ela um pouquinho. Mas tudo bem. Ela provocou o Mestre Zarek e a Rainha Vraska o caminho inteiro. Então não mudaram tanto assim nela. E pelo menos eu ainda conseguia vê-la. Depois que eu sequei os olhos.

Então, é isto. Eu devo ter voltado a respirar.


IV.

Nós esperamos quando um por um (ou ocasionalmente de dois em dois) todos chegaram furtivamente nas ruínas da antiga Embaixada do Pacto das Guildas — tentando não atrair a atenção dos sinistrões ou da Dona Cabelo-de-Corvo. Eu sorri para o Teyo. Eu sabia que ele ainda estava preocupado comigo, então eu mudei de assunto: “Não se preocupe. Eu vou explicar tudo que for acontecendo.”

Ele disse: “Eu acho que entendi o básico, já.”

“É, mas você não conhece todos os envolvidos.”

Ele ia começar a dizer algo, daí parou e disse: “Obrigado, Araithia. Vai me ajudar muito. E espero que... seja um baita entretenimento.”

“Você só gosta de me ver falar um monte.”

Ele ficou vermelho. O que me fez ficar vermelha. Daí eu dei um soquinho no braço dele.

“Ai.”

“Nem doeu.”

“Não sou eu quem decide isso aí, não?”

“Não, bebezão.”

“Eu ainda sou mais velho que você.”

“Não muito.”

“Não. Não muito.”

“Ganhei.” Eu fiquei com vontade de dar um beijo nele. Então eu dei outro soquinho nele.

“Ai.”

Todo mundo tinha chegado e eu comecei. “A Operação Desespero, o plano final do Mente de Fogo, requer todas as dez guildas, as linhas de força de Ravnica, os ossos chamuscados de Niv-Mizzet, e aquela coisa lá.”

Eu estava apontando para um modelo de bronze da cabeça de um dragão — especificamente do Mestre Niv-Mizzet — carregado pelo Quimiomante-Chefe Varryvort, um goblin Izzet. “O nome daquilo ali é Receptáculo do Mente de Fogo e vai conter o espírito dele de onde estiver agora — se isso aqui funcionar, no caso, e pelo nome do plano seria querer demais, né?”

O Chefe Varryvort colocou gentilmente o Receptáculo sobre os ossos escurecidos do Mestre Niv-Mizzet.

“Então, o Plano A era dar ao Mestre Niv-Mizzet o poder de lutar contra Nicol Bolas. Isso não deu certo, e o resultado tá ali. O Plano B — o Farol — falhou também. Esse é o Plano C, eu acho. Ou isso, ou eu perdi a conta."

“Então o Mestre Zarek está consultando com a Dona Revane. Diz o Senhor Beleren que ela é tipo especialista em linhas de força. Ela tem uma ligação mágica com elas. Então o Mestre Zarek está explicando o que precisa para realizar.”

O Mestre Zarek e a Dona Revane falavam baixinho demais para a gente entender as palavras. Mas quando o Mestre Zarek ficou em silêncio, eu fiquei também. A Dona Revane começou a estudar o problema por um... tempão. Ela ficou completamente sem se mexer, parecendo mais uma estátua pintada do que um ser vivo. Enquanto a gente observava, o Chefe Varryvort veio para o lado do Teyo, acho que para sair do caminho. Sem me ver, ele quase pisou em mim, mas eu só dei um passo para o lado e fiquei do outro lado do Teyo.

Finalmente a Dona Revane assentiu com a cabeça, dizendo: “Pode ser possível. As linhas de força foram perturbadas pela Ponte Planar, mas sem a Ponte eu creio que consiga consertá-las e ajudar Ravnica a se reestruturar.”

“Bom, pelo menos isso é promissor,” disse eu. “Agora tudo o que temos que fazer é esperar pelo restante dos representantes de guilda chegar.”

O Mestre Zarek, a Mestra Kaya e a Rainha Vraska já estavam lá, e a Hekara também, é claro. A Dona Lavínia chegou em seguida. Parece que o Mestre Dovin Baan fugiu de Ravnica, e a Mestra Lavínia agora era líder interina do Senado Azorius.

A Hekara, impaciente, começou a virar estrelas no cômodo dizimado, e os sininhos nas faixas de couro da sua roupa nova tilintavam. Eu suspirei: “Ela é tão legal!” E então ela virou estrela bem na minha frente.

Mas tudo bem, né? Tudo bem!

Borborigmo chegou depois, com meus pais. Ari sorriu para mim, e apontou onde eu estava para Gan Shokta e para o ciclope. Os dois apertaram os olhos para o espaço vazio ao lado do Teyo até conseguirem me ver. Eu me senti um pouquinho melhor, e disse para o Teyo: “Minha mãe é bem legal, também.”

Vossa Senhoria Emmara Tandris, campeã do Conclave Selesnya, chegou com meu padrinho Boruvo, que trocou alguns rosnados perigosos com seus antigos companheiros de clã — especialmente com a minha mãe, que considera ele um traidor por ter trocado de guilda. Eu me perguntei se era por isso que eu ainda era Sem-Portão. Será que era porque eu sabia que não me encaixava nos Gruul — mas não queria arriscar perder a mãe por escolher uma guilda diferente?

Só Krokt sabe que eu não posso perder mais ninguém.

E quem sabe? Pode ser que eu me dê muito bem nos Gruul. É difícil dizer.

Eu notei que o Teyo estava se preparando para erguer um escudo e impedir uma luta. Mas não ia acontecer luta nenhuma. Eu dei um olhar severo para cada um deles e disse: “Não dá pra gente viver em paz?”

Os quatro assentiram sem relutar muito.

Depois, veio a Oradora Principal Vannifar do Conluio Simic, acompanhada do Senhor Vorel.

E então a Mestra Aurélia, líder da Legião Boros, voou para dentro do cômodo vinda direto da batalha.

Só quando todos os outros tinham se mostrado o líder Lazav da Casa Dimir revelou que estava lá desde o começo — bem do lado do Teyo — saindo da forma do Chefe Varryvort.

“Que droga, Lazav!” Disse o Mestre Zarek com uma voz entrecortada e perigosa. “O que diabos você fez com o Varryvort verdadeiro?”

O Mestre Lazav “tranquilizou” o Mestre Zarek falando devagar: “Seu quimiomante-chefe está tirando uma soneca. Ele estará bem de manhã — caso isso dê certo e qualquer um de nós estejamos bem de manhã.”

Eu notei que a Dona Revane parecia desconfortável, então eu cutuquei o Teyo. Ele olhou para mim, confuso. “Ajuda a elfa,” sussurrei eu.

Ele assentiu e deu um passo à frente, dizendo: “Por favor, juntem-se em torno da Dona Revane.”

A Mestra Kaya se aproximou, e a Dona Revane indicou onde ela precisaria que a líder Orzhov ficasse. O processo foi repetido com a Hekara, o Mestre Zarek, a Mestra Lavínia, o Mestre Lazav, a Mestra Aurélia, Borborigmo, a Oradora Principal Vannifar, a Rainha Vraska e Vossa Senhoria Emmara. Teve um pouco de reclamações resmungadas (meio bobas) — e bastante falta de confiança entre eles, com a Mestra Lavínia e a Rainha Vraska quase brigando quando a Dona Revane colocou uma do lado da outra. Mas a Dona Revane finalmente escolheu falar, declarando: “Deixem-me esclarecer uma coisa: sem um ato de união perfeita, de todas as guildas em uníssono, o plano não tem esperança nenhuma de sucesso. Vocês devem colocar todo agravo — grande ou pequeno — para trás.” Dizer essas coisas em sequência pareceu deixar a elfa exausta, mas elas funcionaram. Logo os dez representantes de guilda estavam de pé em um círculo mais ou menos certinho em torno da Dona Revane com os ossos e o Receptáculo do Mente de Fogo. Os poucos assistindo — eu, o Teyo, o Mestre da Lança Boruvo, o Senhor Vorel, Ari e Gan Shokta — estavam em um bolinho do lado de fora do círculo. A minha mãe parecia estar olhando o Teyo de cima a baixo. Ela franziu o cenho um pouquinho e me deu um olhar de questionamento. Aparentemente, Teyo Verada não tinha passado no crivo para ser um amigo confiável para a filha de Ari Shokta.

Fiquei meio arrasada, e eu não queria ferir os sentimentos do Teyo, então eu olhei para o outro lado e fingi não notar.

“Vocês estão sobre as antigas linhas de força do Pacto das Guildas,” disse a Dona Revane, chamando atenção de volta para o assunto.

“E o que isso tem a ver com ossos de dragão?” A Mestra Aurélia perguntou em um tom bem suspeito.

Mais uma vez a elfa parecia desconfortável, e o Mestre Zarek deu um passo à frente antes de rapidamente voltar ao lugar quando a Dona Revane olhou feio para ele, frustrada que ele tivesse saído do local designado. Ele disse: “Estamos aqui para a ressurreição do Mente de Fogo como novo Pacto das Guildas Vivo.”

Pelo jeito isso era novidade para praticamente metade dos líderes de guilda.

O Senhor Vorel gritou: “O quê?!” e a Mestra Aurélia rosnou: “É isso o que vamos fazer?!” Eles fizeram isso mais ou menos ao mesmo tempo. Borborigmo rugiu com os dois.

A Mestra Lavínia resmungou: “Não tentamos isso antes, quando ele era vivo? O que faz você pensar que—”

A Hekara interrompeu: “Não é a Operação Desespero por nada, sabe?”

O Mestre Zarek ergueu as mãos e disse: “Nós tentamos, e falhamos. Mas os mesmos termos se aplicam. Jace Beleren perdeu o poder do Pacto das Guildas Vivo. Precisamos desse poder para derrotar Nicol Bolas. Se obtivermos sucesso aqui, Niv-Mizzet voltará com este poder, e o utilizará contra o Dragão Ancião. E então o Mente de Fogo renunciará como líder da guilda Izzet e, sendo um dos paruns mais antigos, sábios e veneráveis, assumirá seu novo papel como árbitro imparcial para as dez guildas e para os Sem-Portão. Os deuses bem sabem que será difícil fazer um trabalho pior do que Beleren.”

A Mestra Lavínia, a Rainha Vraska e Vossa Senhoria Emmara franziram o cenho com esse comentário, mas o resto apenas reconheceu a verdade e se aquietou um pouco.

Na ponta dos pés, eu cochichei para o Teyo: “Que bom que ele reconheceu os Sem-Portão. A gente sempre é esquecido quando os grandões se juntam para falar dos negócios das guildas.”

A Hekara praticamente pulava no lugar, dizendo “Eu nunca participei de uma conjuração com todas as guildas. Agora eu estou até contente que o Chefe não quis vir.”

A Mestra Aurélia meneou a cabeça e zombou: “O demônio não se incomoda em salvar Ravnica, então manda um de seus peões.”

Eu cochichei de novo: “A Legião Boros sempre foi intolerante com os Rakdos.”

A Hekara fez que não com o dedo. “Não é assim, nem um pouco. O Chefe não me mandou vir no lugar dele. Eu super vim sem permissão.”

A Rainha Vraska deu um sorrisinho. “Hekara, se formos honestas, você veio desafiando abertamente a vontade dele.”

“Exato!”

Isso começou outra rodada de reclamações e recriminações. Vossa Senhoria Emmara e a Oradora Principal Vannifar se viraram para o Mestre Zarek, exigindo saber como ele espera algum sucesso quando o líder de guilda e parun do Culto com seu próprio nome não estava de acordo.

A Mestra Aurélia disse: “Até tentar isso é praticamente sem sentido.”

Depois de um olhar frustrado para o Mestre Zarek, a Hekara tentou voltar seu monociclo verbal da rebelião jovial de agora há pouco. “Não me entenda mal. O Chefe está apoiando esses esforços.”

A Mestra Aurélia a espiou. “Mas é mesmo?”

“Ah, sim, totalmente. Completamente. Provavelmente.”

O Mestre Zarek se interpôs (verbalmente, só — ele nunca arriscaria ganhar outro olhar gélido da Dona Revane): “Devíamos tentar ainda assim. A cerimônia levará apenas...” Ele foi parando com um olhar questionador para a Dona Revane.

“Cinco minutos, no máximo,” respondeu ela. “Considerando que funcione.”

A Mestra Kaya disse: “Cinco minutos? Tempo é algo precioso, mas cinco minutos é pouco demais para não fazermos o esforço.”

A Dona Revane olhou para todos no círculo. Cada um dos dez assentiu, concordando; alguns com entusiasmo, outros com determinação, e outros com uma relutância considerável. Mas ainda assim, todos assentiram.

Longe de parecer entusiasmada, determinada ou relutante, a Dona Revane disse aparentemente sem emoção: “Todos, por favor, respirem fundo.”

O Teyo inspirou e expirou bem fundo.

Eu dei uma risadinha. “Acho que ela estava falando só com as pessoas dentro do círculo.”

Ele ficou muito vermelho.

“Olha, que coisa,” disse eu. “Você fica muito bonitinho com vergonha.”

Ele ficou muito vermelhíssimo.

“Aham, bem assim!”

Minha mãe fechou a cara de novo. Eu ignorei ela mais um pouco.

Enquanto o Teyo passava trabalho para recobrar a compostura, a Dona Revane começou a entoar — com a voz baixa demais, eu não conseguia ouvir. De onde ela estava, junto com ossos e o Receptáculo, linhas começaram a acender embaixo dos pés dela. Linhas pretas. Linhas azuis. Linhas verdes. Linhas vermelhas. Linhas brancas. E então, de repente, as linhas se lançaram para várias direções, formando círculos concêntricos sob os pés dos dez representantes.

Os olhos do Teyo se arregalaram, e ele estudou as linhas fascinado. Acho que devem ter agradado a mente geométrica dele, sabe?

O que interessava a ele começou a me interessar também, por algum motivo, então eu tentei prestar bastante atenção. Todos os representantes tinham dois círculos coloridos embaixo de cada um deles, e nenhuma combinação era igual. A Mestra Kaya, por exemplo, era cercada por um círculo branco e um círculo preto. Linhas pretas ligavam seu círculo preto com outros círculos idênticos em torno da Rainha Vraska, do Mestre Lazav, e da Hekara. O segundo círculo da Hekara era vermelho, o que a ligava a Borborigmo, à Mestra Aurélia, e ao Mestre Zarek. O segundo círculo dele era azul, conectando-o com a Mestra Lavínia, o Mestre Lazav e a Oradora Principal Vannifar. O segundo círculo da Oradora Principal era verde, ligando com Borborigmo, com a Rainha Vraska e com Vossa Senhoria Emmara. O segundo círculo da Vossa Senhoria era branco, ligando-a à Mestra Lavínia, Aurélia e Kaya. Era meio que perfeito, se for ver. Enfim, o Teyo parecia ter gostado bastante.

Naquela hora os onze participantes da cerimônia (dez, mais a Dona Revane) tinham caído num tipo de transe, com os olhos brancos. De repente, uma luz dourada saiu dos vinte e um olhos cegos.

O número era ímpar porque né, Borborigmo é um ciclope, então ele tem um olho só.

A Operação Desespero tinha sido ativada. Um portal incolor — que parecia água — se abriu sobre o Receptáculo do Mente de Fogo, e uma fumacinha vermelha e azul desceu como se fosse sugada pelo portal até o Receptáculo. Os ossos pegaram fogo, e chamas amarelas e laranjas se ergueram — iluminando o suficiente para que cegasse a todos nós temporariamente. Nós erguemos as mãos para proteger a vista, e apertando os olhos, eu vi a Dona Revane envolvida em chamas. Envolvida, mas não em chamas: a elfa não gritava, se retorcia, ou queimava. A conflagração se expandiu da elfa, dos ossos, e do Receptáculo para englobar também os dez líderes de guilda. E assim como a Dona Revane, eles não demonstravam sinais de serem queimados pelo fogo. Ainda em transe, eles não pareciam notar.

Infelizmente, outra coisa notou.

Eu fui a primeira a ver, apontando para cima e gritando para superar o rugido do fogo: “Temos companhia!”

Quando a luz das chamas foram ficando mais e mais brilhosas, ela atraiu a atenção de um dos Eternos-deuses. Eu não lembrava do nome dele, mas ele tinha uma cabeça tipo de pássaro, e só um braço. O sinistro gigante cruzou a praça em passos tremendos, e logo estava acima das ruínas da antiga embaixada, espiando a Operação Desespero ainda em andamento, e todos nós!

O Teyo nem piscou, que abençoado. Quando o punho gigantesco do sinistro desceu, o Teyo estendeu as duas mãos e manifestou uma esfera de luz que cobriu a todos nós. No impacto, o escudo mal aguentou — e o Teyo ficou atordoado. Ele caiu de joelhos e eu o agarrei para impedir que ele caísse de cara.

“Você conseguiu,” sussurrei ele. “Continue.”

Ele assentiu meio entorpecido, e ergueu os braços mais uma vez.

Veio outro golpe. O escudo de luz se despedaçou com o impacto — mas impediu que o punho do Deus-Sinistro encostasse em qualquer um de nós. O Teyo grunhiu e sacudiu a cabeça para se recuperar. Mas atordoado como estava, ele não parecia conseguir erguer um escudo novo. O próximo golpe nos esmagaria.

Mas o Teyo ganhou tempo suficiente para que a Dona Revane e os líderes de guilda fizessem o que precisavam. O ritual foi concluído sob o escudo dele. Mana suficiente tinha sido filtrado pelos participantes para fluir pelos ossos do Receptáculo do Mente de Fogo. As chamas amarelas e alaranjadas ficaram douradas, e fez a fumaça azul e vermelha dentro do Receptáculo pegar fogo. A fumaça brilhou púrpura por um segundo antes das chamas douradas superarem todas as outras cores. A conflagração pareceu tomar forma e solidificar em torno dos ossos de dragão, preenchendo-os e transformando o esqueleto em uma criatura viva.

E então o Mestre Niv-Mizzet foi renascido, com escamas de um dourado brilhante igual ao que era emanado dos seus olhos. Tinha um decágono entalhado — queimado, na verdade — no tórax dele, e esferas mágicas em preto, azul, verde, vermelho e branco rodopiavam em torno dele como cinco planetinhas orbitando um sol.

Ainda apoiando o Teyo, eu disse: “Isso tá diferente.”

O Teyo não conseguia falar. Os olhos dele reviraram, e eu segui o olhar dele bem a tempo de ver que o punho do Deus-Sinistro vinha com tudo na nossa direção.

Mas o novo e melhorado Mente de Fogo desfraldou suas asas e se lançou aos ares na direção do monstro. As asas douradas do dragão brilhavam com uma luz dourada, e o arco que ele fez para cima cortou o punho do Deus-Sinistro fora. Ele caiu como um pedregulho a três metros de nós, sacudindo o chão sem causar maiores danos.

O bizarro com cabeça de íbis agitou seu braço amputado de lazotep contra o Mestre Niv-Mizzet, mas o dragão desviou do golpe com facilidade, batendo as asas e se erguendo acima do inimigo. E então o Mente de Fogo abriu bem a boca; seus dentes incisores rasparam um contra o outro, gerando uma fagulha que acendeu o fôlego do dragão. Uma torrente interminável de chama envolveu o Eterno-deus, incinerando o que restava da sua carne e derretendo o lazotep, formando uma chuva de metal que caiu três metros à nossa frente, chiando contra o chão mas sem causar mais danos.

Ari e Gan Shokta comemoraram. O Senhor Vorel grunhiu com uma satisfação óbvia. O Mestre da Lança Boruvo grunhiu igual. Eu sorri, e o Teyo acho que tentava não desmaiar. Minha mãe se ajoelhou do nosso lado e, com a mão calejada no ombro do Teyo, disse: “Seu garoto fez bem, Araithia.”

Foi a minha vez de ficar vermelha. “Ele não é meu garoto,” disse eu. “Ele é meu amigo.”

“Ele consegue te ver, pode te proteger.”

“Eu não preciso de proteção.”

“Nós todos precisamos de proteção de vez em quando. Só não precise muito.”

“Não, mãe.”

Os onze estavam apenas começando a sair dos seus transes. O Mestre Zarek sacudiu a cabeça para se recuperar e olhou para cima... bem a tempo de ver o Mestre Niv-Mizzet caindo.

O dragão caiu três metros à nossa esquerda, sacudindo o chão — e esmagando nossas esperanças. O Mente de Fogo estava lá caído, respirando pesadamente, mal se mexendo. Uma asa parecia torta sob o corpo em um ângulo tão estranho que eu me encolhi.

Gan Shokta disse: “Só isso? Será que o grande poder do novo Pacto das Guildas Vivo já gastou, depois de lidar com um Eterno só, com um só braço?”

O Mestre Zarek parecia atordoado, e todo mundo estava impactado, enraivecido, ou as duas coisas. De repente, a noção de que o Mestre Niv-Mizzet teria o poder de derrotar Nicol Bolas parecia tola, e, bem, desesperada.


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