A Guerra da Centelha: Ravnica — Agentes Desesperados

Posted in Magic Story on 29 de Maio de 2019

By Greg Weisman

Greg Weisman is best known as the creator and producer of Gargoyles, and the writer-producer of Young Justice, Star Wars Rebels, and The Spectacular Spider-Man. He's the author of five novels: Rain of the Ghosts, Spirits of Ash and Foam, World of Warcraft: Traveler, World of Warcraft: Traveler - The Spiral Path, and War of the Spark: Ravnica.

Conto Anterior: Reunindo os Relutantes

Um aviso a pais e mães: observem que este conto trata de assuntos que possam ser considerados inadequados para leitores mais jovens.

I.

Dar um jeito de recrutar o Senado Azorius — com seu líder de guilda em conluio com o dragão do mal, Dovin Baan — e entrar em contato com a Casa Dimir — com seu líder de Guilda misterioso, o metamorfo Lazav — foi uma tarefa passada para outros voluntários, acho.

Mas o Mestre Zarek e o Senhor Beleren pediram para que a Mestra Kaya trouxesse as outras quatro guildas sumidas — o Enxame Golgari, o Culto de Rakdos, os Clãs Gruul e o Conclave Selesnya — para conversar sobre a Operação Desespero.

O que quer que isso seja...

Disseram que ela, como uma pessoa de fora, tinha um histórico menor (e levantava menos suspeitas) para a empreitada do que o próprio Mestre Zarek. Mas como líder de guilda, ela ainda teria autoridade suficiente e prestígio para pedir — e talvez ganhar — as audiências necessárias com cada guilda.

Dava para ver que a Mestra Kaya estava relutante, duvidando das suas chances de sucesso. Eu me inclinei e cochichei para que ela aceitasse a tarefa. “Eu posso ajudar com os Gruul, os Selesnya e—” eu ia dizer Rakdos, mas eu me parei. Sem a Hekara, eu não tinha acesso ao Culto. Terminei sem graça: “E... É, com Gruul e Selesnya.”

Nossa primeira parada seria nos Selesnya, que a Mestra Kaya achou que seria o mais fácil dos quatro. Claro que eu e Teyo fomos com ela.

Eu digo “Claro.” Mas é estranho que pareça tão automático. Viramos a comitiva leal dela em questão de horas.

E a Dona Nissa Revane veio com a gente também, já que o Senhor Beleren esperava que ela se desse bem com Vossa Senhoria Emmara Tandris, campeã élfica e líder de guilda interina dos Selesnya.

Infelizmente, estava difícil conseguir uma audiência com Vossa Senhoria Emmara. Para começar, tivemos que evitar a quantidade considerável de sinistrões liderados por um Deus-Sinistro chamado Rhonas, que estava a minutos de dominar a sede lotada do Senado e derrubando toda a oposição de Nicol Bolas com um só golpe.

Mas eu sou muito útil às vezes. Como eu disse para a Mestra Kaya, eu conhecia a maior parte das rotas secretas por dentro de Ravnica e consegui liderar nosso pequeno quarteto por passagens, becos e atalhos que não tinha como os invasores de Amonkhet conhecerem.

A Dona Revane, que geralmente falava muito pouco — ou quase nada, na verdade — parecia impressionada com a velocidade do nosso progresso e falou algumas palavras. “Você conhece bem a cidade,” disse ela para a Mestra Kaya, que estava logo atrás de mim. Acho que a Mestra Kaya pensou que a Dona Revane estava falando comigo, então ela não se preocupou em responder. Nem eu, pelos meus próprios motivos.

Nós demos de cara com uma única — inevitável — safra de Eternos, talvez procurando por mais vítimas. Teyo conjurou um escudo, e de trás dele a Dona Revane pediu a permissão de uma velha bétula para imediatamente crescer vários galhos que irromperam pelos cérebros de cada crânio de lazotep antes de voltarem aos seus lugares. O ataque foi tão veloz que passaram dois ou três segundos antes dos sinistrões começarem a cair no chão, mortos de vez.

Encontramos o Conclave em bom estado, bem fortificados. Sem nenhuma espécie de boas-vindas. Uma longa linha de guardiães Ledev e arqueiros sagitários bloqueava o nosso caminho. Ninguém nos deixava passar, nem mesmo em missão diplomática. Especialmente a Dona Revane parecia ser a inimiga pública número um, porque despertou Vitu-Ghazi, o que resultou na partida, desmembramento e quase completa destruição da Árvore do Mundo.

Então foi assim que Vitu-Ghazi chegou na praça do Décimo Distrito! A Dona Revane é mais impressionante do que parece. E ela já parece bem impressionante, para mim.

Eu notei que era hora de eu começar a fazer coisas impressionantes — ou pelo menos semi-impressionantes — se era para eu viver pelo que eu tinha pregado antes. Eu passei pela linha dos Ledev e debandei para dentro entre dois guardiães distraídos. Eu não tinha que ir muito longe.

Ele já estava de saída: meu padrinho, Guardião da minha Promessa de Vida, o mestre da lança Boruvo. Esse centauro um dia já foi Gruul — e o melhor amigo dos meus pais — mas ele encontrou seu chamado com os Selesnya e trocou de guildas há uns dez anos. Isso criou uma rixa não-permanente-espero-eu com os meus pais, mas para mim foi uma dádiva. O Mestre da Lança Boruvo tenta o tempo todo me comprometer a entrar para os Selesnya. Ele deixou bem claro que não me imaginava entre os Gruul. (E isso também não ajuda muito no relacionamento dele com Ari e Gan Shokta.) Eu continuei Sem-Portão, mas nós ficamos muito próximos. (O que especificamente não ajudava muito no meu relacionamento com o meu pai.) Agora eu preciso da ajuda ele, e chamei: “Padrinho!”

Ele se virou, e sua expressão severa (normalmente bem Gruul) se acendeu! “Afilhada,” disse ele. “Você não devia estar na rua. São tempos perigosos.”

“Digamos que eu tô tão a salvo quanto qualquer um. Até mais que a maioria.”

“Bom, suponho que sim.”

“Eu preciso de um favor, Padrinho.”

“O que você quiser, pequena.”

“Vem comigo e recebe a nova líder de guilda Orzhov, por favor.”

Ele grunhiu.

“Ela é minha amiga, padrinho.”

Ele ergueu uma sobrancelha, intrigado. “Hmm. Sobe aí,” disse ele.

“Sério?”

Ele não respondeu, mas estendeu a mão e me ajudou a subir no lombo dele, como eu fazia quando era criança. Eu ri com gosto, como se ainda fosse criança. E então ele trotou até a linha de frente.

Eu ouvi o Teyo chamar: “Onde está a Araithia?”

A Dona Revane perguntou “Quem?”

Antes de dar problema, eu chamei “Aqui!”

O Teyo e a Mestra Kaya viraram para me ver andando no centauro atrás da linha dos Ledev. A Mestra Kaya parecia chocada. Os guardiães Ledev se separaram, se curvando e deixando o centauro passar.

Eu disse: “Mestra Kaya, Teyo Verada... e Dona Revane, permitam que eu apresente meu padrinho, o Mestre da Lança Boruvo.”

O centauro curvou sua cabeça para a Mestra Kaya e para o Teyo, mas pareceu fazer questão de não curvar a cabeça para a elfa, que observou em silêncio e parecia extremamente desconfortável o tempo todo.

Daí eu acho que comecei a balbuciar: “Boruvo era de um Clã Gruul antes de entrar para os Selesnya. É muito amigo dos meus pais. E eles o escolheram pra ser meu padrinho. Na verdade, ele era a escolha óbvia, a única escolha prática se for pensar. Eu acho que o meu pai sempre teve um pouco de ciúme do meu relacionamento com Boruvo. Não que seja por isso que Boruvo saiu do Clã. Ele recebeu o chamado, sabe. Ele acha que eu também tenho um chamado, e realmente quer que eu saia dos Gruul e entre pros Selesnya. E às vezes parece que esse é o caminho certo pra mim. Mas eu acho que sou bem indecisa na hora de—”

Mestre Boruvo pigarreou e disse: “Afilhada.”

“Eu tô desconexa de novo, não tô?”

“É compreensível. Mas eu acredito que tenhamos negócios a tratar.” Ele se virou para o Teyo e para a Mestra Kaya, dizendo: “Todos com o bom gosto necessário para notar nossa querida Araithia merecem a chance de uma audiência.”

Mais uma vez, a Dona Revane chegou perto para sussurrar, “Quem é Araithia?”

Dava para ver que a Mestra Kaya estava prestes a dizer que “Araithia” era eu, a Rata. Mas eu só sorri e meneei a cabeça, e a Mestra Kaya se virou para a Dona Revane. Ela notou que apesar de olhar na minha direção, ela não me via, como se eu nem estivesse lá.

E então —buuum— a Mestra Kaya finalmente entendeu. De repente, ocorreu a ela que eu era basicamente invisível para a Dona Revane. Eu praticamente conseguia ver que a Mestra Kaya estava repassando todas as nossas interações de hoje. (Além disso, eu mais ou menos consigo ler os pensamentos dela, assim, por cima.) Ela pensou na reação do Mestre Zarek ou na não-reação sobre mim — e como todo mundo tinha misturado meu nome com o do Teyo quando ele nos apresentou. Ela estava começando a entender que eu era meio invisível para todo mundo, menos para ela, para o Teyo, e para Boruvo. Meio invisível até para o meu próprio pai.

Eu disse: “Não é bem invisibilidade. Eu explico mais tarde.”

Essa foi outra dica. Agora a Mestra Kaya estava começando a suspeitar que eu sou um pouquinho psíquica, o que é verdade. Não que ela tivesse certeza. Ela estava acostumada a magos mentais como o Senhor Beleren e os comandos psíquicos gritados bem alto, e ilusões realistas, e eu conseguia perceber ela se perguntando se era isso o que eu estava fazendo com a Dona Revane.

E é claro que não era isso. Eu nunca faria uma coisa dessas!

“Mande a elfa embora,” disse Boruvo, tomando a atenção total da Mestra Kaya na hora. Ele olhava feio para a Dona Revane, com um desprezo intenso. “Mande-a embora e eu levarei vocês para falar com Emmara Tandris.”

A Mestra Kaya estava prestes a protestar. Afinal, a Dona Revane devia ser nossa arma secreta para ganhar o favor de Vossa Senhoria Emmara.

Mas a Dona Revane já estava se afastando, parecendo até aliviada. Ela disse: “Eu nunca fui muito boa em falar. Vocês dois podem ir com o centauro. Eu irei até o Gideon.”

E em segundos, ela sumiu.

Eu me inclinei para perto e sussurrei: “Que grosseria, Padrinho.”

“Pequena...

“Muita grosseria.”

Ele resmungou: “Bom... desculpa.”

“Eu te perdôo,” disse eu, muito satisfeita.

Ele resmungou outra coisa que eu não ouvi direito. Mas ele também não se conteve e sorriu um pouquinho.

Eu não tenho esse poder com muita gente, sabe? Então vai, às vezes talvez eu abuse um pouco. Não dá pra me culpar, né?


II.

Ao entrarmos em território Selesnya, os olhos de Teyo iam arregalando mais e mais. Eu não acho que ele tenha visto algo assim antes, naquele mundo desértico de onde ele veio. De Gobakhan. Tudo em Ravnica impressionava ele, e era muito fofo.

Acho que às vezes nós não valorizamos os nossos mundos — até vermos pelos olhos dos outros. Deve ser por isso que eu ainda estou Sem-Portão. Quando eu vejo os Selesnya pelos olhos do meu padrinho, ou os Gruul pelos olhos da minha mãe, ou quando eu vejo — via — os Rakdos pelos olhos da Hekara, sempre parece — parecia — tudo novo, rico, fantástico.

Enfim, eu ainda estava montada no lombo do Mestre Boruvo enquanto ele levava a Mestra Kaya e o Teyo para a audiência com Vossa Senhoria Emmara. Os corredores eram de um mármore que quase brilhava, cheio de arqueiros e soldados, todos usando armaduras decoradas para parecer com folhas ou gramas. Muitos deles eram elfos. Todos abaixavam suas cabeças, cumprimentando seu mestre da lança. Todos eles olhavam para a Mestra Kaya e para o Teyo com um tiquinho de ameaça. Nenhum deles chegou a olhar para mim, é claro. Passamos por um arco guardados por dois loxodontes imensos segurando machados. Mais uma vez, o Teyo arregalou os olhos.

Não tem loxodontes em Gobakhan, acho.

Os loxodontes cumprimentaram seu mestre da lança, olharam frio para a Mestra Kaya e para o Teyo, e não notaram a Rata.

Dava para perceber que o Teyo estava só começando a entender quando a Mestra Kaya viu a cara dele e cochichou para ele: “Só eu, você e o centauro conseguimos ver a Rata. De algum modo ela é invisível para todo mundo. Inclusive o próprio pai.”

Não era difícil ler os sentimentos do Teyo: Não faz sentido algum, mas ainda assim explica muita coisa!

Ele começou a me encarar, então eu sorri bem largo para ele e desci das costas do meu padrinho, para ficar entre meus dois novos amigos. Acho que eles mereciam o máximo de explicação que eu podia dar: “Eu não sou invisível. Eu sou insignificante. Uma rata. Uma ratinha. Quando você vê um rato, você olha pro outro lado. Tenta fingir que não notou. Tenta se esquecer dele até que consegue esquecer. A sua mente rejeita a presença dele.”

“Você não é insignificante,” protestou a Mestra Kaya.

“É um amor o que você disse, Mestra Kaya, mas eu sou sim.”

“É magia,” disse o Teyo.

“Suponho que sim,” respondi eu, dando de ombros e sorrindo. Só que talvez eu não esteja conseguindo sorrir direito. “Magia, e eu nasci com ela. Não tem muita gente que consegue me ver, só se souberem que eu estou lá e com concentração. Meu pai faz direitinho, mas ele tem que saber que eu estou lá para conseguir. Até hoje, só tinha três pessoas que conseguiam me notar sozinhos: a minha mãe, Boruvo e a Hekara.”

A Mestra Kaya assentiu com a cabeça. “É por isso que você ficou tão chateada quando contei que a Hekara morreu.”

Eu sacudi a cabeça, com empatia. “Não. Bom, talvez fosse parte disso, sim. Mas eu estava mais chateada porque a Hekara era tão legal e maravilhosa. Mas sim, acho que dói saber que tem uma pessoa a menos no mundo que vai me notar. Claro que depois eu encontrei vocês dois.”

Cada um pegou uma das minhas mãos e apertou de um jeito reconfortante.

Nesse ponto nós saímos de um corredor e ficamos de frente com Vossa Senhoria Emmara Tandris, de pé na frente da dríade Trostani, a líder de guilda dormente dos Selesnya, com suas três identidades simbióticas crescendo do mesmo tronco. A figura central, a Mestra Cim, estava dormindo. As outras duas estavam de costas uma para a outra. À esquerda, a Mestra Oba chorava com ardor. À direita, a Mestra Ses estava de braços cruzados e parecia raivosa.

O Mestre da Lança Boruvo se curvou bastante, o que sempre era interessante ver um centauro fazendo. Ele disse, “Vossa Senhoria Tandris, já conhece a Líder de Guilda Kaya, do Sindicato Orzhov. Com ela estão Teyo Verada e minha afilhada Araithia Shokta, ainda Sem-Portão.”

Vossa Senhoria Emmara apertava os olhos, procurando por mim pelo cômodo. Ela disse: “Araithia está aqui?”

Eu acenei, sorrindo largo. “Aqui, Vossa Senhoria!”

Vossa Senhoria Emmara piscou duas vezes e disse: “Mais uma vez, por favor.”

“Estou bem aqui, entre o Teyo e a Mestra Kaya.”

Boruvo tentou ajudar também. “Ela está entre os outros dois, Vossa Senhoria.”

“Ahh, sim,” disse Vossa Senhoria Emmara, radiante de repente ao me ver. “Ah, pequena, como eu queria que não fosse tão difícil. É tão bom ver sua face e ouvir sua voz.”

“É só porque toda vez é igual a primeira. Confie em mim, Vossa Senhoria ficaria cansada se me visse todo dia.”

“Sinceramente, eu duvido.”

Eu dei de ombros mais uma vez. “Posso provar com cinco minutos de conversa, Vossa Senhoria — mas não é por isso que estamos aqui.”

Suspirando pesado, ela ficou séria e olhou para a Mestra Kaya. “Eu sei porque estão aqui.”

“Emmara, por favor,” disse a Kaya. “Precisamos unir as guildas. Ral tem um plano, recebido por Niv, para salvar Ravnica - mas não funcionará sem a cooperação de todas as dez guildas.”

“E talvez nem funcione se todas as dez guildas cooperarem, certo?”

A Mestra Kaya não respondeu, mas seu silêncio disse muito.

“Líder Kaya, nós duas sabemos que Ral Zarek e Niv-Mizzet adoravam seus planos, estratégias, plantas-baixas... Até agora, todos eles foram desastres absolutos para as guildas, para Ravnica, e especialmente para Selesnya.”

“Mas dessa vez—”

“Os Izzet sempre têm nomes para seus projetos. Nada é real para eles até que o nomeiem, definam, criem limites. E é por isso que temos tão pouco em comum. Como Ral está chamando esse novo?”

A Mestra Kaya hesitou, parecendo quase envergonhada. Mas então ela endireitou as costas e disse com clareza: “Operação Desespero.”

Vossa Senhoria Emmara quase deu uma risadinha. Ela bem sorriu e meneou a cabeça, como a minha mãe costumava fazer quando eu fazia alguma coisa especialmente boba.

Mas a Mestra Kaya já tinha se preparado. “Eu sei o que parece, mas uma época de desespero pede por medidas desesperadas. Os planinautas e as guildas devem se unir para derrotar Nicol Bolas.”

“Eu não discordo de você, Kaya.”

“Bom, então—”

Vossa Senhoria Emmara a interrompeu de novo. Eu já estava acostumada. Ela tinha um jeito de interromper que não parecia grosseiro. Ela parecia se esgueirar entre as palavras, levantando a voz na hora certa como se fosse grama crescendo entre os ladrilhos. Ela disse: “Peço desculpas, mas há pouco apoio para qualquer coisa parecida com unificação dentro dos Selesnya. As coisas já estavam ruins antes da perda de Vitu-Ghazi. Mas agora...

Enquanto ela parava a frase no meio, eu já estava correndo até o meu padrinho. Ele se inclinou para que eu cochichasse para ele.

Se endireitando, o mestre da lança pigarreou e disse: “Vossa Senhoria, foram as criaturas de Nicol Bolas que devastaram Vitu-Ghazi.”

“Sim,” disse a Mestra Kaya, “Exato. E este não seria o primeiro mundo onde Nicol Bolas causou estragos. Duas planinautas — Vivien Reid de Skalla, e Samut de Amonkhet — relatam que os mundos de ambas foram devastados por Nicol Bolas. Skalla está completamente morto. E os poucos sobreviventes de Amonkhet estão lutando para... bem, sobreviver, enquanto os monstros dele continuam a devastar o que sobrara do seu mundo natal. Na verdade, eu suspeito que os problemas no meu mundo natal talvez tenham sido o trabalho dele, também. Não duvide do que digo, Emmara. O dragão transformará a toda Ravnica — talvez todo o Multiverso — em um túmulo.”

De repente a Mestra Cim acordou, com um lamento.

As formas de suas irmãs se viraram para ela, assim como Vossa Senhoria Emmara, com um susto, e Boruvo, se curvando bastante.

O Teyo parecia muito confuso, então eu fui até ele e expliquei: “Ela é a dríade Trostani, líder de fato de guilda Selesnya, as vozes da sua parun... hmm, no caso, a fundadora, Mat'Selesnya. A Mestra Cim, ali no meio, é a dríade da Harmonia. Ela ficou dormindo sem responder por meses. Ela acabou de acordar.”

“É,” disse o Teyo sem sarcasmo algum, “eu entendi essa parte do final.”

“A dríade da esquerda é a Mestra Oba, a dríade da Vida. À direita é a Mestra Ses, a dríade da Ordem. Sem a Mestra Cim elas andaram brigando, sem conseguir decidir nada pela guilda. Vossa Senhoria Tandris tentou manter Selesnya inteira durante a... hmm, ausência de Trostani?”

O lamento da Mestra Cim ficou mais alto, mais ainda, e depois foi diminuindo. Todo mundo esperou segurando o fôlego. Enfim ela falou — ou quase — as palavras dela rodopiavam pelas nossas mentes como se fosse a brisa brincando com as folhas de uma árvore.

Eu ouvi a canção que toca no vento, irmãs. a dríade da Harmonia se virou para a dríade da Ordem: Ses, a Ordem de Bolas é a Ordem do Túmulo. Você brigou com sua irmã, mas ela ainda é sua irmã. Seria mesmo assim que você quer vê-la findar? Ver toda Vida findar?

Com isso, a Mestra Oba também apelou para a Mestra Ses. Há uma Ordem na Vida. Não seria suficiente?

A Mestra Ses ficou em silêncio por um tempo. Ela olhou para longe de suas irmãs. Ela olhou para o céu. Ela pareceu sentir tudo, menos concordância.

Mas por fim a Mestra Ses se aquietou, assentindo com a cabeça: Trostani está em Harmonia novamente. É a vontade de Mat'Selesnya que o Conclave se una às demais guildas para derrotar Nicol Bolas.

Então... Uma já foi. Faltam três.


III.

“Tem algo diferente,” disse o Teyo.

“Sim,” disse a Mestra Kaya, “eu senti também. O Ral teve ter conseguido desligar o Farol.”

“Planinautas ainda podem vir?” Indaguei eu.

“Sim, mas não serão atraídos. Não tem mais um chamado para vir.”

“E isso é uma coisa boa?”

“Acho que sim. Temos número suficiente para derrotar o dragão. Ou pelo menos o suficiente para morrer tentando.”

Eu dei um soquinho no ombro da Mestra Kaya, dizendo: “Olha, mas que otimismo, hein?”

Eu não sei o que eu tinha na cabeça! Não se pode dar qualquer tipo de soco em uma Líder de Guilda!!

“Ai.”

Envergonhada mortalmente, eu corri e chamei: “Por aqui.”

Ela fez shhh.

Eu não sei o que estava acontecendo comigo, mas eu parei e revirei os olhos para ela. “Ninguém mais me ouve. Ninguém mais quer. Além disso, estamos quase chegando em Skarrg. Quando a gente chegar lá, vocês deviam me deixar falar com eles.”

“Achei que não te ouvissem,” disse o Teyo. E então ele pareceu impactado, com medo de me magoar.

Ele é fofo demais!

Enfim, só o fato de eu ter gente para comentar a minha situação já facilita muito. Me deixa animadinha, acho, e daí que vêm os soquinhos e reviradas de olhos e tal. Eu disse: “A maioria não consegue. Mas a minha mãe, Ari Shokta, consegue. E o meu pai consegue se estiver prestando atenção. O mesmo vale para Borborigmo. Ele me acha fofinha, o que é verdade. Eu sou uma Rata fofinha!” Eu gargalhei e o som ecoou pelas paredes curvas do túnel. Eu estava mesmo animada. No caso... Olha, eu estou acostumada a ser eu. Eu tenho que estar, porque quase toda hora de todo dia eu sou a única companhia que tenho, sabe? Mas o fato de que o Teyo e a Mestra Kaya conseguiam me ouvir rir e ouvir os ecos tinha uma magia própria. Eu não acho que passei tanto tempo assim com alguém que conseguia me ver desde que era pequenininha, com a minha mãe. Nem a Hekara passou um dia inteiro assim comigo.

O Teyo estava me encarando. Eu acho que fiquei vermelha, porque daí ele ficou vermelho, provavelmente com vergonha alheia por mim, acho.

Tentei fingir que ele não me pegou encarando e continuei o caminho. A gente estava passando pelos túneis do esgoto como... bom, como ratos! Rá! Era escuro, úmido e apertado. O Teyo, esse neném do deserto, pingava de suor. Eu fiquei com pena dele. Por fim, chegamos no final do longo túnel de tijolos. Eu me aproximei da porta de ferro e me ajoelhei para arrombar a fechadura rapidinho.

Rápido até para impressionar a Mestra Kaya, que disse: “Você é mesmo boa nisso. Melhor do que eu, e eu me considero especialista.”

Eu acabei revirando os olhos de novo!

O que há de errado comigo?!

“Por favor,” disse eu — com atitude demais. “Aprendi a fazer isso aos seis anos. Quando ninguém sabe que você existe, não destrancam nadinha pra você.” Eu abri a porta e ouvi os sons tão familiares e tão família de vozes enraivecidas e armas se chocando.

Eu corri por mais um túnel, com o Teyo e a Mestra Kaya passando trabalho para me acompanhar.

Esse último túnel se abriu para Skarrg, Terra da Reunião, um parque subterrâneo imenso na cratera dos restos de um palácio enorme e muito antigo. Eu avaliei a situação na hora e soube que precisaria de ajuda. Gan Shokta estava lutando contra o ciclope Borborigmo, com trinta ou quarenta outros guerreiros Gruul assistindo. Vários machados voaram na direção das nossas cabeças. Um voou logo acima do meu crânio.

Que bom que eu sou baixinha. Eu nem tenho que me abaixar.

Por instinto, o Teyo conjurou um escudo triangular e outro machado ricocheteou nele. A Mestra Kaya ficou incorpórea e um terceiro machado passou por ela direitinho, fincando um bocado na parede atrás dela. Vendo que os meus amigos conseguiam se cuidar por pelo menos um pouquinho de tempo, eu corri para casa.


IV.

“Ari!” Gritei eu.

“Por favor, Araithia, sem gritar!”

“Achei que guerreiros Gruul tinham que gritar!”

“Em batalha. Não com a mãe,” disse ela, e agarrou meus punhos com força. Então ela me puxou e me deu um abraço apertado. Minha mãe tem um abraço de urso de verdade mesmo, mas eu adoro. “Você fica tempo demais fora de casa, garota. Acredite ou não, eu fico com saudade.”

“Nem!” Eu soltei, gargalhando.

Ela agarrou meus punhos de novo.

“Temos que ir,” disse eu. “Gan Shokta e Borborigmo estão se matando.”

Ela fingiu um bocejo. “De novo?”

“Sim, mas hoje eu preciso que eles escutem o que os meus amigos novos têm pra dizer.”

“Você fez amigos novos, pequena?” Perguntou ela, com alguma esperança e animação própria.

“Eu— Sim. Dois. Mas Ari... a Hekara morreu.”

“Eu sei, Araithia. Me falaram. Sinto muito, muito mesmo. Ela matava com os melhores. E era uma boa amiga pra você. Uma amiga digna.”

Não falamos nada por um momentinho.

E daí eu agarrei a mão dela e a puxei comigo. “Anda, mãe!”


V.

Eu conseguia ouvir meu pai falando alto e raivoso, ecoando pelos túneis até Skarrg: “Borborigmo está pensando em matar você aqui mesmo, Assassina de Fantasmas. Ele responsabiliza você e o mago da tempestade pela queda dele.”

“Eu compreendo,” a Mestra Kaya estava dizendo cuidadosamente. E então, um pouco mais mordaz: “Por outro lado, Teyo e eu ajudamos a salvar a sua vida. E além disso nós somos amigos da—”

Antes que a Mestra Kaya conseguisse mencionar o meu nome, Gan Shokta gritou com força: “Não preciso ser lembrado do meu...momento de fraqueza. Eu devo a vocês. Reconheço isso. Mas não pense por um segundo que eu ficaria mais feliz em ver vocês do que o ciclope. Acreditem, vocês escolheram a pior hora possível para vir.”

“Não queremos incomodar vocês aqui. Mas não há escolha, Gan Shokta. Não há escolha, Borborigmo. Precisamos que os Gruul—”

Nessa hora a gente já tinha entrado no cômodo e Ari chamou meu pai com uma mistura de exaltação e urgência: “Ela tá aqui, Gan!”

Gan Shokta se virou: “Aqui? Onde?

Ari foi até ele, com os braços em volta de mim. Minha mãe é bem mais alta e bem mais musculosa do que eu. Então a presença dela costuma passar por cima da minha, com abraço de urso ou não. Ela também estava armada até os dentes, com espada e machado, duas adagas longas e uma corrente de ferro em volta da cintura, como um cinto que fazia pressão nas minhas costas. Mas nós temos o mesmo cabelo preto, e dizem que o sorriso é igual. Ela respondeu meu pai, dizendo: “Bem aqui!”

Todos os olhos em volta da fogueira se viraram para Ari Shokta.

Gan Shokta apertou os olhos. Ele disse: “Me chama, menina!”

“Estou aqui, Pai,” disse eu.

“Ela está aqui, abraçada comigo, Gan,” disse a esposa dele.

E então Gan Shokta sorriu: “Estou vendo.”

Borborigmo grunhiu que também me via, e alguns outros na multidão assentiram com a cabeça também, apesar da maioria só estar fingindo me ver para impressionar os superiores.

Eu falei com meu pai e com o ciclope com toda a formalidade que a ocasião pedia: “Grande Borborigmo. Lendário Gan Shokta. Peço a vocês que unam os Clãs e ajudem as outras guildas. Ou será o fim para todos nós.”

Gan Shokta grunhiu sua resposta, apontando para Borborigmo: “É isso o que eu estava dizendo para ele. Só que o tolo teimoso não quer ouvir.”

Borborigmo se lançou na minha direção, estendendo sua mão enorme. Eu saí do abraço da minha mãe para a mão dele, que se fechou em torno de mim e quase me escondeu.

Eu vi que o Teyo deu um passo involuntário para a frente, protetor sem precisar.

É esquisito que eu fique feliz por isso? No caso, eu não preciso de proteção. Não do Borborigmo. No final, de quase nada. Ainda assim...

A Mestra Kaya colocou a mão no ombro do Teyo e sussurrou algo para que ele parasse.

O ciclope me ergueu para que eu pudesse cochichar uma coisa na sua orelha (com um bocado de cera). Eu disse: “É muito importante, mesmo. Os Gruul — e toda Ravnica — dependem de você.”

Ele sacudiu a cabeça violentamente.

Eu fiz uma concha com as mãos e cochichei de novo. E dei um beijo na bochecha dele.

Ele ficou vermelho um pouco, e eu sabia que tinha conquistado o velho coração-mole...

Duas já foram. Faltam duas.”


IV.

“Por favor,” pediu o Mestre Zarek. “Chega.” Ele alcançou nosso grupo na entrada de Korozda. “Passei sessenta e seis minutos inteiros drenando a energia do Farol. Estou cansado e não tenho paciência nenhuma para os seus joguinhos. Ou para sua amiga imaginária.”

“Não é um jogo,” replicou a Mestra Kaya. “A Rata não é imaginária, e falando nisso, abra sua mente, Ral, que coisa. Até parece que você nunca viu uma mágica de invisibilidade antes.”

“Bem, se ela usa magia de invisibilidade, mande ela parar de usar.”

“Não é tão simples assim, com ela. É... inato. Ela não consegue conjurar e desconjurar.”

Eu disse: “Provavelmente não vai funcionar, mas... aponta a cabeça dele exatamente para onde eu estou.” Eu observava o Mestre Zarek enquanto o Teyo e a Mestra Kaya me escutavam. Ele ainda achava que estavam caçoando dele, parece, e ele revirou os olhos com a “pegadinha” patética deles.

“Vale a pena tentar,” disse a Mestra Kaya, e sem avisar ela passou por ele como fantasma - que deve ser uma sensação super desconcertante.

“Que droga, Kaya, que Krokt você está—”

Atrás dele, a Mestra Kaya literalmente agarrou a cabeça dele com as mãos agora sólidas, e mirou para, bom... para mim.

Eu acenei e disse: “Oi.”

O queixo dele caiu e a mente dele disse algo tipo De onde ela veio?

“Inicialmente, eu venho dos Clãs Gruul. Mas eu sou Sem-Portão se é isso que você tá perguntando. Meu nome é Araithia Shokta, mas você pode me chamar de Rata. Todo mundo chama. Bom, não todo mundo. Meus pais e o meu padrinho não, mas todas as outras pessoas que sabem que eu existo. A Hekara me chamava de Rata. Eu sinto falta dela. Aposto que você também. Eu sei que você fingia não ligar muito para ela, mas também sei que valorizava a amizade dela. Ela era uma amiga tão leal, né? E tão engraçada. Ela me fazia rir de gargalhada, aos montes. Pouca gente consegue fazer isso comigo. Pelo menos não de propósito.”

Ele tinha que se concentrar para me ver e me ouvir, o que quer dizer que ele poderia me perder de vista em qualquer segundo, e isso pode explicar porque eu estava falando rápido desse jeito.

Só que a gente sabe, né?

“Não se ofenda. A Hekara me pediu, e eu faria qualquer coisa por ela. Qualquer coisa mesmo. Ela sabia que você não ia me notar. No caso, eu acho que no começo ela esperava que você me notasse, mas ficou bem claro no começo que não foi assim. E o Líder de Guilda Rakdos mandou ela ficar por perto de você, e você ficava dando bolo nela. Então ela teve que pedir ajuda minha, né. É meio que culpa sua. Então eu segui você onde você estivesse.”

Eu olhei para a Mestra Kaya e disse: “Por isso que eu fiquei surpresa que você não tinha me notado.”

Ela soltou o Mestre Zarek e se aproximou de mim, dizendo: “A primeira vez que eu vi você hoje eu pensei que você fosse vagamente familiar, como se eu já tivesse te visto pela cidade. Mas eu sou estrangeira aqui, então eu vejo muita gente que eu não noto se não forem ameaças.”

“E não tem como você saber que você não devia conseguir me ver, então nunca foi um assunto. Ou nunca pensou em me dar oi!”

“É, bom, desculpa por isso.”

“É, bem, eu te perdoo,” disse eu, imitando o ritmo dela meio atrevida, e segurando as mãos dela.

Tentando acompanhar, o Mestre Zarek disse abruptamente: “Então você andou me seguindo desde que eu conheci a Hekara?”

“De vez em quando. Ela não precisava dos meus serviços quando ela estava contigo. Mas eu tentava ficar por perto, pra conseguir encontrar você e dar relatórios quando você mandava ela pastar.”

A Mestra Kaya deu um sorrisinho enquanto o Mestre Zarek repassava todas as implicações do que eu estava contando. Isso fez ele perder o foco e me perder de vista.

O Teyo notou a confusão dele e ofereceu ajuda: “Ela está ali do lado da Kaya.”

O Mestre Zarek se concentrou — e lá estava eu! Ele disse: “Desculpe que eu não conseguia ver você, acho.”

“Eu tô acostumada. E a sério, eu tô impressionada com o que você está conseguindo agora. A minha mãe disse que meu pai levou três meses depois de eu nascer para se concentrar em mim. Você pegou meio que instantaneamente. Você está mais aberto a coisas novas do que pensa.”

“Eu acho que estou muito aberto a experiências novas.”

“Não, você não acha não. Você quer ser. Mas você não acha que é. Mas você é. Não é estranho, isso?”

O Mestre Zarek deve ter notado que estava de queixo caído, então ele fechou a boca.

A Mestra Kaya ainda estava sorrindo quando ela disse: “Não temos tempo. Precisamos ir.”

Ela nos levou para dentro de Korozda, o Labirinto da Decadência, o que significa que estávamos descendo em círculos. São círculos concêntricos que levam mais para baixo, para dentro do território do Enxame Golgari. Eu deixei os líderes de guilda nos levarem, apesar de eu estar pronta para corrigir o caminho se entrassem no corredor errado. Eu já estive nessas sebes de fungos putrefatos muitas, muitas vezes mesmo, e já resolvi o enigma há muito tempo atrás.

Nós — ou talvez os três, já que ninguém me notava, é claro — já ganharam direito de entrada em Korozda porque passaram sob a fortaleza de Pevnar, o Forte Pendurado, um castelo de cabeça para baixo com a fundação presa no teto. O Mestre Zarek estava preparado para enfrentar oposição do Krunstraz que ocupara o Forte. Mas os guerreiros insetoides kraul só nos observaram (ou no caso os três) entrar no labirinto.

Arpoador Kraul | Ilustração: Kev Walker

Agora, chegando perto do centro, estava claro que não tivemos oposição, mesmo porque a gente não encontrou ninguém. O que significa que estavam esperando a gente (os três). Ou talvez seja que a gente estivesse entrando numa armadilha. Ou, sabe, talvez as duas coisas.

Nós olhamos para todos os lados procurando sinais de emboscada. Eu vi o Mestre Zarek conferir o Acumulador que ele carregava nas costas. Eu me esgueirei e olhei o medidor. Tinha passado um pouquinho da capacidade máxima. Drenar o Farol deve ter deixado ele com a pilha toda.

Ele andou mais rápido e passou por Kaya para entrar primeiro no grande anfiteatro circular, com suas várias fileiras de assentos de pedra, tudo coberto por um musgo macio e aveludado.

A lich Vetusta de Vraska, uma feiticeira Golgari morta-viva, estava esperando para receber a gente (ou eles): “Saudações, Líder de Guilda Zarek. Saudações, Líder de Guilda Kaya. O Enxame Golgari dá as boas-vindas a Svogthos.” Sua voz soava como o vento quando passa por folhas mortas caídas em cima de um túmulo.

Eu notei que o Mestre Zarek não se lembrava do nome da lich, então eu me esgueirei até ele e sussurrei “Storrev.”

Ele deu um sorriso discreto e eu ouvi pensar distintamente: Obrigado, Rata.

“Que isso.”

Com certa formalidade, ele disse: “Apreciamos as boas-vindas, Storrev.” Os Vetustos pareciam ligeiramente surpresos e até um pouco lisonjeados que o Mestre Zarek soubesse o nome dela. E mais uma vez ele pensou claramente — e dessa vez a menos contragosto — Obrigado, Rata.

Eu dei uma risadinha.

“Estamos em um momento de crise," disse a Mestra Kaya. “Viemos falar com Mazirek.” O Senhor Mazirek, líder dos kraul, era a mão-direita da Mestra Vraska — e o candidato mais provável para substituí-la como Líder de Guilda Golgari.

A Madame Storrev suspirou, assentiu com a cabeça e disse: “Sigam-me.”

Nós cruzamos o anfiteatro e seguiram a lich para dentro de Svogthos, o salão subterrâneo da guilda Golgari. Antigamente era uma catedral Orzhov, magnífica e cheio de arcos, que caiu por uma cavidade há alguns séculos. Os Orzhov a abandonaram. Os Golgari tomaram a ruína para si.

A Madame Storrev nos levou para um cômodo cavernoso conhecido como Estatuário. Uma calçada elevada de pedra passava pelo centro, com estátuas dos dois lados. Só que as estátuas não eram bem estátuas. Eram vítimas. Vítimas da Mestra Vraska. Igual a Mestra Isperia, cada um deles estava petrificado. Mas diferente de Isperia, que tinha um último olhar de surpresa leve, cada um desses troféus foi capturado com um último olhar de terror, com mãos erguidas tarde demais para proteger-se do olhar mortal da górgona.

Um número de pessoas estava no final da calçada elevada em torno no enorme trono de pedra da Mestra Vraska — ou no caso eu devia dizer Rainha Vraska. Era interessante que nenhum deles estava sentado no trono. Será que era porque ninguém tinha tomado o lugar da Rainha Vraska como líder de guilda? Ou será que era porque o trono meio que dava medo, já que era feito de mais inimigos mortos da rainha, entrelaçados antes de serem permanentemente petrificados no lugar?

Quando começamos a chegar perto, deu para ver que o Senhor Mazirek não estava entre os figurões Golgari.

A Madame Storrev se curvou levemente, e o Mestre Zarek, a Mestra Kaya e o Teyo (e eu não, claro) foram apresentados ao guerreiro kraul dos Krunstraz, Azdomas, a líder do devkarin Matka Izoni, o trol Varolz, e a elfa xamã Cevraya.

“Mazirek?” Perguntou o Mestre Zarek.

O Senhor Azdomas fez uma série de cliques e ruídos de garganta antes de falar. Teve uma raiva sombria nos cliques e na voz dele: “Mazirek era outro colaborador de Nicol Bolas, revelado pela Rainha Vraska antes de sua partida.”

Vraska o revelou?”

“Sim,” disse a Madame Storrev com sua voz de folhas, “Vraska liberou os Vetustos e nos entregou nosso atormentador, Mazirek.”

“Ele pagou o preço final por trair o Enxame,” adicionou o Senhor Azdomas com certa finalidade.

A Mestra Kaya olhou do Senhor Azdomas para a Madame Storrev para Matka Izoni para a Dona Cevraya e depois mais para cima para encontrar os olhos do trol enorme coberto de fungos, o Senhor Varolz. A assassina de fantasmas parecia estar medindo as forças de cada um deles — avaliando o que seria necessário para derrubar a todos, caso precisasse. “Que mal lhe pergunte... quem lidera a guilda agora? Viemos falar com essa pessoa.”

Todos eles trocaram olhares perigosos antes que a Madame Storrev conseguisse dizer: “Cada um desses indivíduos — exceto por mim — tem direito ao trono de Vraska.”

“Vraska veio tomar o trono de Vraska.”

Todos nós viramos para ver uma figura emergindo — transplanando, acho — de uma silhueta.

Era a própria Rainha Vraska.

Quando ela ficou visível, o Mestre Zarek se lembrou de colocar a mão na frente dos olhos. A Mestra Kaya fez o mesmo. Eu mesma ergui a mão do Teyo. Eu gostava da Rainha Vraska mas gostava mais do Teyo — e não queria que ele decorasse o Estatuário.

Com uma das mãos ainda erguidas, o Mestre Zarek ligou seu Acumulador. A Mestra Kaya puxou uma de suas longas adagas. Os dois estavam prontos para enfrentar a górgona que os traiu.

A Rainha Vraska ignorou os dois e falou com os Golgari: “Alguém questionaria meu direito àquele trono?”

A Madame Storrev, o Senhor Azdomas, o Senhor Varolz, e a Dona Cevraya se curvaram imediatamente, dizendo em uníssono: “Não, minha rainha.” Matka Izoni não parecia muito contente, mas se curvou e falou a mesma coisa meio segundo depois dos outros Golgari.

O Mestre Zarek arriscou olhar para a Rainha Vraska e viu o que eu via. Os olhos dela não estavam brilhando, o que significa que ela não tinha invocado a magia que petrifica as pessoas. Era um pequeno alívio, mas a gente sabia que ela podia invocar esse poder rapidinho. E ela tinha outras habilidades, outras armas também. Por exemplo, o cutelo pendurado no seu cinto.

“Você está ridícula,” disse o Mestre Zarek para ela, tentando substituir a amargura no tom dele com algo próximo de desprezo. “Está vestida do quê? De pirata?”

Uau, uma rainha pirata! Que ideia irada!

Ela o ignorou de novo, passando por ele para sentar naquele trono horroroso.

“Estou surpresa que você voltou a Ravnica,” disse a Mestra Kaya sem emoção, “Chocada, na verdade...

“Escandalizado,” corrigiu o Mestre Zarek.

“Especialmente depois que desligaram o Farol?” Perguntou a Rainha Vraska, como se tentasse provocar seus antigos amigos, seus antigos aliados.

O Mestre Zarek estava com carga completa, pronto para lutar. Tinha eletricidade estática passando pelo cabelo espetado dele. “Então, qual das duas?” Rosnou ele. “Você supôs que o Bolas já tinha sido derrotado — ou que ele já tinha triunfado?”


IV.

A Rainha Vraska nos levou por túneis Golgari, obviamente sabendo que seus antigos amigos, o Mestre Zarek e a Mestra Kaya, estavam bem atrás dela - um deles carregado e pronto para fritá-la e a outra desembainhada e pronta para espetá-la.

O Mestre Zarek praticamente sibilou para as costas da Rainha Golgari: “Se virar para olhar para mim, eu não vou hesitar.”

Parecia uma situação intolerável, então eu corri até a Mestra Kaya e sussurrei: “No fundo a Hekara gostava mesmo da Mestra Vraska, sabia? Talvez a gente deva dar o benefício da dúvida? Enfim, por que você acha que ela voltou?”

Sem entender direito, a Mestra Kaya disse: “Eu não sei. Vou perguntar.”

“Perguntar o quê?” Rosnou a Rainha Vraska por cima do ombro.

“Minha amiga Rata quer saber por que você voltou. Ela está inclinada a confiar em você porque Hekara considerava você uma amiga. Mas eu já estive inclinada a confiar em você também...

Uma frase assim não daria muitas respostas úteis, e a Rainha Vraska ignorou a pergunta e o julgamento. Ou pelo menos ela tentou. Eu fui mais à frente para ler o rosto dela — e talvez ter um senso geral dos pensamentos dela. Ela estava em conflito, com certeza, mas eu também tive certeza que ela estava determinada a ajudar... ajudar a gente, Ravnica, e certamente ajudar os Golgari.

Depois da chegada dela, o Senhor Adzomas rapidamente atualizou a rainha com a situação atual de Ravnica. Eu notei que ela não sabia nada antecipadamente sobre a crise — e nem nada para se surpreender. Ah, a não ser pela parte que o Senhor Beleren perdeu os poderes como Pacto das Guildas Vivo. Aquilo pareceu tirar o equilíbrio dela e mostrou, pelo menos para mim, que os sentimentos complicados dele por ela eram correspondidos.

O Senhor Adzomas também relatou que os Golgari, os Sem-Portão, e outros civis de guildas estavam presos em vários locais da cidade, à mercê dos Eternos do dragão.

A Rainha Vraska tinha oferecido ajuda, que foi rejeitada imediatamente pelo Mestre Zarek. A Mestra Kaya ia começar a rejeitar também. Mas eu meio que interferi, dizendo: “Nós precisamos dos Golgari; ela manda nos Golgari, então não temos muita opção.”

“Não podemos confiar nela.”

“Ainda assim, nós ainda precisamos dela.”

“Você não estava lá. Você não sabe. Se ela não tivesse—”

“Eu sei. Eu sei, sim. Pode acreditar que eu sei.”

“Então como eu—”

“Acho que tem que testar. Dar a ela a chance de provar que dá pra confiar nela. Ou provar que não dá.”

Então a Mestra Kaya suspirou pesado e se virou para a Rainha Vraska, aceitando a ajuda dela. E quando o Mestre Zarek fez outra objeção, a Kaya forçou ele a aceitar também, a contragosto.

Então agora esses três líderes de guilda, junto comigo e com o Teyo, o Senhor Azdomas e a Madame Storrev caminhamos pelas vias subterrâneas e esgotos de Ravnica, em uma missão de resgate.

A Rainha Vraska parou embaixo de uma grade de ferro fundido enorme. Ela gesticulou com uma das mãos, com cuidado para não olhar para trás já que o olhar mais inofensivo iniciaria um ataque preventivo do Mestre Zarek.

O Senhor Azdomas se aproximou e puxou a grade. O som do ferro raspando contra pedra ecoou pelos túneis.

Uma voz vinda de cima rugiu: “Quem está aí?”

O Senhor Zarek se esqueceu de desconfiar da rainha e deu um passo à frente, perguntando com um sussurro alto: “É o Juba D’Ouro?”

Era mesmo; o Senhor Juba D’Ouro enfiou a cabeça para dentro do túnel. “Zarek?” O leonino viu o líder de guilda Izzet e falou com certa urgência: “Eu estou liderando alguns dos outros planinautas para ajudar a evacuar os civis. Mas os Eternos nos cercaram. Seis ou sete safras de uma vez. Estivemos presos dentro dessa velha capela por mais de uma hora. O edifício está completamente cercado. Eles estão atraídos pelas nossas Centelhas e não querem seguir caminho. Conseguimos segurar a Horda Medonha até agora, mas é uma batalha perdida. Khazi foi coletada quando um Eterno deu um soco que furou a parede e a agarrou pelo pulso.”

A Rainha Vraska se colocou do lado do Mestre Zarek e disse: “Essa era a saída.”

O Senhor Juba D’Ouro apertou o olho bom para ela e disse: “Você deve ser Vraska. Jace esperava que você viesse. Ele tem fé em você.”

A Rainha Vraska franziu o cenho, mas disse: “Traga todos para cá. Os Golgari vão mantê-los a salvo. Você tem minha palavra.”

O Senhor Zarek bufou alto com escárnio, mas conseguiu não dizer nada.

Sem fazer um som, o rosto do Senhor Juba D’Ouro desapareceu da abertura. Passou um minuto. Dois. A rainha e o Senhor Zarek trocaram olhares confusos. Eu ia subir e ver se podia ajudar quando o Senhor Juba D’Ouro desceu. Ele se aproximou da górgona sem demonstrar medo e disse: “Não fomos apresentados. Eu sou Ajani Juba D’ouro, das Sentinelas.” Ele estendeu a mão.

Ela agarrou o antebraço peludo dele, e ele segurou o antebraço liso dela. Ela disse: “Boas-vindas ao território Golgari, Ajani Juba D’ouro. Você está a salvo aqui.”

Ele assentiu com um sorriso. E então ele se virou para a abertura no teto do túnel e disse: “Comecem a trazê-los para baixo.”

Um por um, ravnicanos — na maioria crianças — foram descidos até os braços do Senhor Juba D’Ouro, do Senhor Azdomas, da Mestra Kaya, do Teyo e da Rainha Vraska. Eu também queria ajudar, claro, mas eu podia ter ficado ali parada o dia inteiro e ninguém teria entregue criança nenhuma para mim. Então eu só tentei ficar fora do caminho, sabe?

O Mestre Zarek também ficou longe, ressabiado. A Rainha Vraska recebeu uma criancinha élfica — cinco ou seis anos — que se enterrou no peito da górgona e soluçou pesadamente com medo e pesar. A rainha pareceu impactada. Mas segurou a menininha.

Teve um barulho vindo de cima. Uma voz gritou para baixo: “Eles arrombaram as portas!”

O último ravnicano do grupo desceu, seguido por dois planinautas que eu tinha visto na reunião. O Senhor Juba D’Ouro apresentou eles rapidamente como a Dona Mu Yanling e o Senhor Jiang Yanggu. Ele chamou lá para cima, “Mowu, vem cá!”

Um cachorrinho se jogou lá de cima nos braços do Senhor Yanggu. Era um cachorro bem menor do que o que eu tinha visto na sede do Senado.

Será que ele trouxe dois cachorros?

O Senhor Yanggu colocou o cãozinho no chão do túnel e ele começou a crescer e virar o cachorro de três caudas que eu tinha visto antes, tão alto quanto seu dono.

Krokt, eu quero um cachorro mágico também!

O Senhor Juba D’ouro perguntou: “Onde está Huatli?”

“Aqui!” Chamou a Dona Huatli enquanto descia. “Sou a última, eles estão bem atrás!” Como se quisessem provar que ela estava falando a verdade, um braço coberto de lazotep se enfiou pela entrada, e não atingiu a Dona Huatli por muito pouco.

A mão subiu de volta e foi substituída pelas cabeças de três Eternos. Eles começaram a descer devagar só porque cada um deles não esperou pelos outros.

Isso deu a Rainha Vraska o tempo que ela precisava. Ela invocou seu poder — eu o vi acumulando atrás dos olhos dela — concentrada no teto para evitar a ira do Mestre Zarek. A górgona abraçou mais apertado a elfinha e cobriu os olhos da menina com uma das mãos. E então quando os três sinistrões encheram a passagem, a Rainha Vraska olhou para cada um deles e petrificou um de cada vez. O som deles calcificando foi meio que legal, e o resultado foi não só de impedir que eles atacassem, mas também de selar a passagem e a única descida dos Eternos que enchiam a capela logo acima.

A Madame Storrev se aproximou de sua rainha e sussurrou no ouvido dela. Ela ouviu e se virou para o Mestre Zarek, que deu um passo para trás — mas não tentou eletrocutá-la (o que parecia ser um bom sinal, para mim). Talvez fosse porque os olhos dela não estavam mais brilhando, ou seja, ela não era uma ameaça imediata. Ou talvez seja porque ela ainda estava segurando a pequena elfa nos braços, que chorava baixinho. Ou talvez — talvez — seja porque ela estava recuperando um pouquinho da confiança que eles tinham.

Ela disse, “Por toda a cidade, os Golgari estão abrindo caminhos seguros para cada ravnicano que encontrarem. Estamos lutando contra o exército de Nicol Bolas e preservando a vida.” E daí, com bastante sarcasmo, ela adicionou: “De nada.”

O Senhor Zarek não disse nada.

Eu pensei: Três já foram. Falta uma.

A Mestra Kaya disse: “Ótimo. Agora tem mais uma coisa que precisamos que você faça..."


A Guerra da Centelha Arquivo das Histórias
Perfil do Planeswalker: Ajani Juba D’Ouro
Perfil da Planeswalker: Huatli
Perfil do Planeswalker: Jace Beleren
Perfil do Planeswalker: Jiang Yanggu
Perfil da Planeswalker: Kaya
Perfil da Planeswalker: Mu Yanling
Perfil da Planeswalker: Nissa Revane
Perfil do Planeswalker: Ral Zarek
Perfil da Planeswalker: Vraska

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