As Ilusões das Brincadeiras de Criança

Posted in Magic Story on 23 de Janeiro de 2019

By Nicky Drayden

Nicky Drayden is a systems analyst who dabbles in prose when she's not buried in code. She resides in Austin, Texas, where being weird is highly encouraged, if not required.
Um aviso a pais e mães: observem que este conto trata de assuntos que possam ser considerados inadequados para leitores mais jovens.

Eu a espio pelas vitrines de sua loja de efígies e não consigo impedir meu coração desgraçado de voltear. Ela está debruçada sobre sua bancada, pintando rostos em miniaturas de caveiras, e depois afixando-as em corpos de bonecos vestindo roupas detalhadas que ela mesma fizera. O couro negro tem um corte melhor do que o das vestes da Diva do Flagelo, e o cuidado que ela tem ao adornar as caveiras com chifres atiça uma chama dentro de mim.

Desta vez eu tenho que falar com ela. Olrich, o filho de um diabo que às vezes eu ouso chamar de amigo, diz que vai me esfolar se eu trouxer outra efígie para casa ao invés do nome dela.

Eu respiro fundo e depois atravesso a rua, com cuidado para não atrapalhar a brincadeira de alguns cães de caça infernais que estão fazendo cabo-de-guerra com o fêmur de algum pobre voluntário que se enroscou nas festividades da noite passada. A maior parte das vísceras já foi coletada, e você nem imaginaria que uma dúzia tinha morrido aqui na sanguinolência que se passou, a não ser pelo vermelho-escuro que tinge os sulcos entre os ladrilhos.

Que época boa...

“Ímpio!” Grita um senhor enrolado em vestes brancas e azuis, da calçada na frente da loja. Eu olho para trás, para conferir se ele não estaria falando com outra pessoa.

“Como é que é?!” Pergunto eu.

“Demônio! Rouba-almas! Pai da fornicação!” Entoa ele, me entregando um panfleto do novo Centro de Recuperação da Integridade que abriu no fim da rua. “Reabilite-se! Abrace os caminhos da lei e da ordem antes que seja tarde demais!”

Já fui chamado de coisa pior, e apesar da maior parte delas ser verdade, não significa que eu goste de ser incomodado por elocutores Azorius enquanto cuido da minha vida. Tenho um lampejo de memórias da minha vida antes de encontrar Rakdos, antes de canalizar minha raiva na performance. Quando ossos quebrados e carne perfurada eram o meio pelo qual eu preferia expressar minha arte.

Mas então eu sinto que ela está me observando pela vitrine. Eu me esqueço imediatamente de atravessar esse cara com meus chifres e entro na loja.

Eu finjo dar uma olhadela, de olho nos bonecos pendurados pelo pescoço. Até mesmo suas efígies mais genéricas são melhores do que a maioria. A magia nelas me chama, e seus olhos de botões me encaram olhando direto para onde minha alma estaria, se eu tivesse uma. Eu solto o nó do pescoço de um boneco e o viro, inspecionando a qualidade dos pontos enquanto a espio pelo canto do olho. Eu também pego um grafite para manter a fachada, como se estivesse louco de vontade de desenhar o rosto de meu inimigo no boneco e incendiá-lo.

Deu de efígies, Kodo! As palavras de Olrich voltam a mim. Claro que estas não eram suas palavras exatas. Teve bem mais xingamentos e acusações, mas o que ele esperava? Que eu chegasse perto dela e começasse a conversar?

“Posso ajudar?” Pergunta ela, com olhos mais negros que a meia-noite e a pintura escarlate das festas de ontem ainda em metade do rosto.

Ilustração: Randy Vargas

“Hm. Eu. Ahhh . . .” Entrego o boneco e o grafite para ela, abruptamente. “Quero comprar esses aqui.”

Ela pega o boneco e o grafite. “Na-não. Você vem aqui toda semana há mais de um mês e meio. Da última vez você comprou uma resma inteira de pergaminho-mangra, e eu tive que conjurar outro lote! Nem mesmo Lyzolda tem tantos inimigos assim. O que você quer?”

É simples, se apresente. Puxe papo. Você é um demônio, Kodo. Aja como se tivesse um par de chifres!

“Eu,” gaguejo. “Eu, e você. Nós. . .” Nos vimos em várias festas, nos deleitando em prazeres hedonísticos e performances agonizantes. Ela era durona para os padrões humanos, e não se retraía com as performances de dor — comedores de vidro, caminhantes das brasas, o bobo que fazia malabares com caveiras flamejantes . . . mas sua tenacidade finalmente titubeou com o ogro que tentou arrastar um carrinho cheio de diabretes, com correntes e anzóis presos em suas pálpebras inferiores. Bom, talvez o carrinho tivesse diabretes demais naquela noite, e quando os urros do ogro retumbaram pelo salão, a mão dela se agarrou à minha e não me soltou pelo resto da noite. Bebemos, dançamos, nos beijamos, e gargalhamos quando descobrimos que a palavra de segurança dos dois era “ilusão”. “Nós. . .” eu faço alguns gestos obscenos, tentando dar a entender às depravações que aproveitamos juntos, mas ela apenas aperta os olhos esperando que eu diga alguma coisa.

“Ah! A fera com duas colunas!” Exclama ela.

Eu assinto com a cabeça, mas então noto que mais alguém entrara na loja, e tomara a atenção dela. O fedor agridoce e defumado de matéria-vazia me toma, e as sombras giram e mudam como se tivessem se esquecido de como agir. Eu me viro e vejo uma fera inferior — uma coleção interessante de membros azulados saindo de um torso com uma espinha nodosa protuberando no tórax e nas costas. Não há uma cabeça, mas eu sei que está me encarando.

Ilustração: Simon Dominic

“Não terminei de falar com você,” ela me diz antes de atender seu cliente. Ela carrega sacas de estopa que estavam no balcão para baixo de cada braço da fera.

Eu reúno toda a minha coragem enquanto ela está ocupada. Não terei outra chance dessas. A última pessoa que você quer emputecer em Ravnica é uma maga de efígies.

“Diga à sua mestra que eu desejo a ela o mais depravado Carnafúria!” Diz ela, dispensando a fera de duas colunas com um sorriso. E então ela endurece a face e se volta para mim.

“Oi,” digo eu, estendendo a mão. “Meu nome é Kodolaag. Nós ficamos em algumas festas.”

Ela olha para mim uma vez, e cruza os braços. “Aham. Você me é familiar. Máscara de couro vermelho? Piercings simétricos na maça de ferro presa a uma corrente?” Um rosnado se fixa na garganta dela. “Você tem noção de que esse é o meu local de trabalho?”

“Ímpio!” Vem a voz do velho mais uma vez, desta vez gritando com a fera inferior. “Escória!”

Eu tento não me concentrar na voz dele e manter o foco no motivo pelo qual estou aqui. “Eu sei que não é apropriado, mas eu pensei que nós—”

“Você pensou que nós pudéssemos ter algum tipo de ligação não-declarada que se estenda para nossas vidas privadas?”

Bom, dizendo assim em voz alta parece mesmo tolice. Eu sorrio e tento me salvar. “Então, hoje à noite tem um Imiturno a algumas quadras daqui . . .

“Sim?”

“Pensei em talvez te convidar? Eu me apresento hoje. Uma coisa poética, de comentário social.”

“Vou ter que passar. É a primeira noite do Carnafúria, e eu estou atrasada na confecção das efígies. Não que importe, com aquele pateta Azorius ali fora afastando minha clientela.”

“Por que você não . . . sabe?” Eu aponto para uma efígie, e faço um som de explosão, balançando os dedos como se fossem brasas caindo.

“Tem uma nova lei nos céus, que saiu semana passada. Magias de efígie contra membros do Senado Azorius são puníveis com prisão. Ele é irritante, mas não vou arriscar perder minha loja.”

Talvez ela não possa arriscar mandá-lo embora, mas eu não tenho nada a perder. Eu puxo uma folha de pergaminho-mangra da lata e um pedaço de grafite, e vou até a vitrine. O homem Azorius está gritando com um casal de ogros agora. O Pico do Escárnio e os bairros próximos estão sob o domínio Rakdos desde que eu me lembro, e isso dá alguns milhares de anos pelo menos. Mas os Azorius andam sacudindo as coisas com sua presença, comprando propriedades baratas, criando fendas de segurança em todos os lugares, e depois reclamando quando artistas de rua respingam sangue nos jardins bem-cuidados toda noite. É enlouquecedor ver minha comunidade cair vítima da ordem e da justiça.

Faço um desenho rápido do homem. Minha habilidade com desenho é bruta, mas eu consigo sentir a magia sangrando do pergaminho, amarrando a ilustração e a pessoa com fios invisíveis. A imagem começa a dançar pela página, e os movimentos espelham os que o homem está fazendo na calçada. Eu dou uma batidinha no vidro da vitrine e ele se vira. Eu mostro o desenho, pressionando-o contra a vitrine. Ele não deve saber como o pergaminho-mangra funciona, porque ele não reage ao desenho. É uma magia fraca, usada mais por crianças para atormentar seus irmãos, e às vezes seus pais quando não conseguem o que querem. Apenas um minuto ou dois com dores agonizantes de despedaçar a mente antes que os efeitos se dissipem por completo. Brincadeira de criança.

Ilustração: Wesley Burt

O homem me vê rasgar a folha ao meio verticalmente, e um rasgo serrilhado parte o desenho em dois. Ele agarra a cabeça com ambas as mãos, gritando a plenos pulmões. Quando o rasgo chega no umbigo, ele já está tonto e delirante o suficiente para mancar para longe.

“Pronto,” digo eu. “Resolvido.”

Ela não parece impressionada. “Aham, e em cerca de dez minutos eu vou ter meia dúzia de encarceradores Azorius batendo na minha porta. Não consigo vender nada se estiver trancada lá em Udzec.”

Eu fico esperando que ela me mande embora, para que eu possa abandonar essa experiência miserável, mas a postura dela mudou. Não tem mais braços cruzados e cara feia. Não se engane, ela ainda está irritada pra diabo, mas de certo modo parece que estamos nessa juntos.

“Quantos bonecos você precisa vender?” Pergunto eu.

“Trinta para fechar a semana.”

“Você consegue vender isso facilmente no Imiturno de hoje. O dono do lugar é um bom amigo meu. Tenho certeza de que ele vai deixar você montar um quiosque. Os encarceradores perderão interesse em um simples delito de efígie assim que a carnificina do Carnafúria começar.”

“Sério?” Ela ergue a sobrancelha com ceticismo, e depois estende a mão. “Meu nome é Zita. Tem certeza de que seu amigo não vai se importar?”

Zita. Consegui o nome dela, desgraçado.

O meu sorriso se alarga. “Eu e o Olrich somos praticamente família. Não tem como ele dizer não.”


“Não,” diz Olrich, espiando pelas cortinas do palco vermelho-sangue para o fosso cercado por pedras onde a multidão vai se aglomerar em algumas horas. Zita está ao lado da grade de uma fornalha apagada com vinte sacas dos seus melhores produtos aos pés. “Com certeza não quero me envolver com magia de efígie. Vai ter Azorius aqui hoje em força total para pegar delitos.”

“Você nunca teve medo deles. O esquete que você fez sobre o Baan há alguns meses já virou lenda.”

“As coisas não são mais como eram antigamente, Kodo.” Olrich, como diabinho frenético que é, sai correndo em quatro patas, na direção do que passa por uma cozinha neste estabelecimento.

“Eu vou cobrar um favor. Consigo uma plateia para você em Rix Maadi!” Eu grito para ele. Ele pára. Se vira. O maior sonho de Olrich é fazer performances no nosso Salão de Guilda, mas conseguir aparecer no palco de lá é quase impossível se os seus fãs não aparecerem aos milhares. Ele se lança nos meus braços para ficar no nível dos meus olhos. Agora eu tenho a atenção dele. “Faz alguns séculos que eu me apresentei lá, mas eu ainda conheço bastante da trupe. Eu consigo o palco central no Parque do Festival! Imagine o calor escaldante. O aroma de enxofre fresco em seus pulmões. Por favor . . .

Ilustração: Deruchenko Alexander

“Certo. Mas ela fica no canto, lá longe. E é bom você me conseguir um palco na frente do próprio Rakdos!”

“Rakdos e eu, somos praticamente família . . .” digo eu, e dez segundos depois estou dando as boas novas para Zita.

A multidão começa a encher o lugar pouco depois de ela montar a barraca. Não é o local ideal, mas ela está longe o suficiente da entrada para não chamar atenção de encarceradores que passarem. Zita ainda não está impressionada comigo, mas ela também não está queimando uma efígie minha ainda. Logo ela vai ouvir os meus poemas, que provavelmente vão convencê-la de vez... Ou não.

Olrich prepara o público com suas palhaçadas diabólicas e uma imitação perfeita de Niv-Mizzet que inclui até cuspir fogo nos pés daqueles desgraçados que foram tolos o suficiente para sentar na primeira fila. Ele está ótimo, hoje. Pensamentos sobre uma performance em Rix Maadi provavelmente ainda nadam na cabeça dele. Muitos artistas jovens aspiram a isso. Eu não os culpo. Em Rix Maadi, as gargalhadas são mais altas, os truques são mais espetaculares, o sangue é mais vermelho, mais espesso, mais doce. Noite após noite você coleta suas recompensas, e compartilha de todos os prazeres da carne. Você cria seguidores, fãs insaciáveis que se deliciam em sua devassidão habilidosa, até que um dia Rakdos nota que você tem alguns fãs a mais que ele.

E então, ele mata metade deles.

E depois disso os truques são comedidos, a gargalhada é abafada, e o sangue corre em respingos. Você faz as malas e deixa o Submundo para tentar ganhar a vida pelas ruas de Ravnica, recitando poemas para bêbados.

Eu subo no palco, coloco meus óculos sobre o nariz, e olho para as anotações amassadas em minhas mãos. Tambores batem, e o couro humano gera notas percussivas agudas que reverberam pelo fosso. Eu leio:

 

Ferro. Correntes. Sangue. Facas.

Filhos. Filhas. Maridos. Esposas.

A vida cai às gotas ralo abaixo.

Sem prazer, não existe dor.

 

Momentos roubados, anos ceifados.

Tempo que passa, e o coração ainda arde.

Fora daquele lar onde o amor vivera,

A morte coloca um tapete de boas-vindas.

 

Uma pessoa bateu palmas timidamente. Eu olho para cima, esperando que seja Zita, mas não é. A plateia se perde em conversas paralelas, entornando cerveja. Eu consigo ganhá-los de volta, mas preciso fazer algo mais arriscado.

Eu limpo a garganta de modo desagradável para chamar atenção. “Então, aposto que notaram todas as fendas de segurança por aqui, brilhando em pleno ar, e depois sumindo, puf, assim que você olha bem para elas. Não dá nem pra cagar sem se perguntar se algum mago onividente infeliz está assistindo você fazer força na latrina. Mas justiça seja feita, o que o guisado de diabrete do Olrich faz no seu intestino devia ser um delito punido com prisão!”

“Não tem nada errado com o guisado. Eu como todo dia!” Grita Olrich de fora do palco, mas é tarde demais. Eu consegui algumas risadas e a plateia está se afeiçoando a mim.

“Isso é por causa do seu estômago de ferro fundido, amigão, e o controle do seu esfíncter é lendário!” Eu aponto para o demônio na primeira fila com a colher enfiada em sua tigela de sopa. “Já pra esse tolão aqui, coitado, acho que o código Azorius 3435-T vai ser descumprido logo . . . uso de material explosivo em local confinado. E o espaço . . . é o das calças!”

Eu me deleito nos uivos e berros roucos. Um ogro salta de seu lugar e se agarra no candelabro de ferro retorcido acima. Ele se balança de um lado para outro, acrobaticamente, e apesar do cuecão de jacquard estampado não estar fazendo seu trabalho, e de pedacinhos de cimento começarem a cair do teto, todos olham maravilhados para suas manobras graciosas. Pelo menos até que um dos espinhos de ferro encravados em seu ombro se prende nos detalhes do candelabro.

Com um rasgo de carne, o ogro cai de volta em seu assento gritando de dor. Ele afoga sua vergonha em um caneco de cerveja. O sangue no ar permanece, e se a atenção da plateia estava em brasa antes, agora está em chamas.

“E a escrita celeste está mais em alta do que nunca. Tem tanta runa de lei acesa em cima de Nova Prahv que o céu acima do Salão de Guida deles brilha mais do que todas as velinhas no bolo de aniversário do Rakdos. Brilha tanto que senadores Azorius se bronzeiam no caminho pro trabalho!” Ergo a mão e aperto os olhos como se olhasse diretamente para o sol. “Aaai! Que dor! Mas não é como se pele vermelho-queimada não fosse sexy, não é mesmo?” Eu faço uma pose sensual e as risadas começam. Eu ganho uma cantada também, e não posso dizer que estou desapontado quando olho para cima e vejo que ela veio de Zita.

“Como vocês sabem, Udzec abriu há pouco tempo. Prisão. De segurança. Máxima.” As vaias vêm com tudo. “Eu sei, eu sei. Quantos de vocês conhecem alguém que está em Udzec?” Quase toda a plateia ergue a mão. “Ouvi dizer que já está lotada. Quinze mil prisioneiros naquele Monólito. Na verdade, só tem uma coisa mais cheia em toda Ravnica do que Udzec: o ego do Dovin Baan!” Eu endireito lapelas imaginárias e caminho como se tivesse um atiçador de brasas enfiado no traseiro, apontando para pessoas aleatórias na multidão, e fazendo minha melhor versão do líder de guilda, eu digo com voz nasalada: “Você ganha uma cela, você ganha uma cela, e você ganha uma cela! Todo mundo na prisão!” A multidão vai ao delírio. “Rindo de mim, cidadão? Ninguém ri na presença de Dovin Baan!”

E então o lugar fica quieto como se fosse uma cripta. Eu vejo um encarcerador Azorius se esgueirando pela entrada. Eu limpo a garganta novamente e mudo o curso, alfinetando os Gruul dessa vez. As risadas são forçadas. A tensão no lugar é palpável. Eu termino a apresentação ainda assim — vinte e três minutos de tortura pura. A plateia começa a diminuir na metade, e até Zita parece já querer ir embora. Assim que a última piada sai da minha língua bifurcada, eu me retiro para as coxias e recupero os sentidos. Os Azorius não costumavam me deixar nervoso assim. Cem anos atrás, nós teríamos zoado o soldado coletivamente e o convencido a sair do local morto de vergonha. Mas nestes últimos meses, algo mudou. Agora, estou nervoso, preocupado em ser preso por usar algo tão inocente quanto pergaminho-mangra.

“Já vi apresentações piores,” diz Olrich, saltando sobre meus ombros para me consolar. Ele sempre foi bom mentiroso, e hoje eu aprecio isso mais do que nunca.


Eu ajudo Zita a carregar suas sacas de volta para a loja. Deve ser seguro, agora, com o Carnafúria em força total. Mestres de Cerimônias dançam em seu desfile flutuante, jogando colares de vértebras douradas para a multidão. Organistas tocam melodias altíssimas e excruciantes que mal podem ser consideradas música. O vômito é tão abundante que flui pelas ruas, e sinos de matança tocam ao longe — um toque para cada alma que Rakdos tomou neste ano. Eu ignoro tudo. Não estou afim de celebrar.

“Estou louco, ou estamos trazendo mais efígies do que levamos?” Pergunto para Zita.

“Vendi doze, mas quando aquele encarcerador entrou, todos devolveram. Eu também comecei a fazer uma nova enquanto você falava. Tinha que passar o tempo de algum jeito.”

“Essa doeu.” É, então fechou. Eu nunca mais a verei novamente. Pelo menos não sem nossas máscaras. Três quadras a mais, e ela sai da minha vida para sempre.

“Olha só isso,” diz Zita, apontando para uma pichação do lado de uma loja de couros: Dovin Bann fede mais que ovo de dragonete. “Escreveram 'Baan' errado. O cara pode ser um vendido puxador de tapete pra subir na carreira, mas se você vai caluniar alguém, tem que pelo menos acertar o nome.” A magia ainda está fresca, e Zita consegue mudar o primeiro n para formar um a passável. “Melhor?”

“Acho que sim,” digo eu, chutando pedregulhos com meus cascos. Continuamos o caminho, mas um desfile de vícios nos interrompe. Carros flutuantes meticulosamente decorados fazem manobras pelas ruas, carregados por demônios enormes que fazem até mesmo minha envergadura passar vergonha. Bobos se movem pelas rodas pontiagudas de ferro fundido e gaiolas de tortura, sem se preocupar com a morte certa se derem um passo em falso.

Ilustração: Jonas de Ro

Eu cometo o erro de olhar por tempo demais, e um dos bobos me prende num olhar cativante, dando vontade de me voluntariar. Eu subo no flutuante e chego até as escadas distorcidas da gaiola de tortura que parecem dar uma ilusão de ótica. Espinhos, provavelmente envenenados, me esperam se eu cair, porque gritos mais altos geram ânimos mais altos, e o Carnafúria não é hora para se reprimir. Mas eu não sou um voluntário comum. Eu vivi em gaiolas de tortura por séculos. Eu dou dois saltos mortais e me encolho, pego em uma barra, depois na outra, balançando de cada lugar enquanto me lanço mais e mais alto. A estrutura de ferro vai ficando mais precária enquanto eu vou subindo. A solda é mais fraca, o metal é mais fino, mas eu tiro tudo isso da cabeça e me concentro na performance. Para encerrar, um apoio de mãos sobre a pira flamejante, e depois desço diretamente na plateia, onde recebo aplausos de todos os lados.

Depois de dez segundos sentindo o cheiro da minha própria carne queimando, me sinto festivo. Eu encontro um vendedor de rua e compro horror defumado ao mel para nós dois, compartilhando carne macia que solta do osso.

“Você devia ter uma apresentação assim,” diz Zita se apoiando em mim enquanto lambe molho picante e vermelho dos dedos. A barreira que ela erguera entre nós, de repente, sumiu. É melhor do que isso. É como se nunca tivesse existido. “Você foi incrível.”

“Eu já tive uma apresentação assim . . . uma vez.

Ela olha para mim, pronta para que eu abra meu coração, mas botas batem nos ladrilhos atrás de nós. Nos viramos para ver um soldado Azorius marchando em nossa direção.

“Alto lá!” Ordena ele. “Dou voz de prisão por violação do código Azorius 3691-J . . .

Eu solto as sacas dos bonecos e coloco as mãos atrás da cabeça, esperando pela magia que prende os pulsos. Pergaminho-mangra idiota. Mal é uma magia de efígie!

. . . depredação de um prédio público,” continua ele, “além do código Azorius 6342-P, caluniar um Mestre de Guilda,” diz o encarcerador, prendendo Zita com magia suficiente para amarrar um gigante.

“Ela não depredou prédio algum!” Eu digo, relaxando os punhos. “Bom, aquela pichação não foi ela quem fez. Ela só corrigiu um erro de ortografia.”

Zita me encara friamente.

“Sua declaração como testemunha corrobora a culpa dela e foi registrada, cidadão,” entoa o encarcerador.

Eu me retraio. “Mas . . . !” E é assim que Zita sai da minha vida. Completamente, desta vez.


Todo mundo sabe que Udzec não pode ser invadida pelo lado de fora, mas Olrich diz conhecer alguém que trabalha lá dentro . . . ou pelo menos trabalhava lá dentro. Pelo jeito que as coisas estão, a queda na dignidade dos Azorius foi bem feia. Perto assim das docas, o casebre dela não é diferente das cabanas de pescadores em volta. Nuvens espessas de incenso escapam pelas fendas dos lados, mantendo a maior parte do fedor do lado de fora.

Ilustração: Adam Paquette

Ê, Vidências, diz a placa de madeira gasta por intempéries pendurada ao lado.

“Tem certeza?” Pergunta Olrich pela décima segunda vez. “Porque depois de passar por essa soleira, não tem mais volta.”

“Eu não posso deixar a Zita apodrecer na prisão! Eu sei que é ridículo, mas eu sinto como se fôssemos almas gêmeas.”

“Você não tem alma, Kodo.” Olrich se eriça. “Mas se ela é tão importante para você, vamos nessa.”

“Olrich!” Responde uma mulher, abrindo a porta um segundo antes de batermos. Ela é toda enrugada; não como uma velha, mas como se tivesse jogado uma pele velha em cima do corpo sem se preocupar se cabia direito. Ela se agacha e abraça o diabo, com um abraço demorado o suficiente para que eu me pergunte que tipo de passado eles tiveram.

“Que bom ver você, Lucinka. Este é—”

“Kodolaag,” diz ela, estendendo a mão e me dando um aperto de mão vigoroso. “Que maravilha conhecer você finalmente. Em carne e osso.”

Ela nos deixa entrar e dentro há duas cadeiras para visitas - uma delas tem uma almofada para que Olrich fique no mesmo nível. Uma caixa coberta de papel metálico está no meio da mesa. “Você contou que estávamos vindo?” Eu sussurro para Olrich. Ele sacode a cabeça.

“Como você está?” Pergunta Olrich. “Parece que você deu uma decoradinha na casa.”

“Ocupada. A pirataria Simic está em alta, mais do que nunca. Um em cada três barcos que saem daqui não voltam a aportar. Eu ajudei a melhorar as contas, avisando a capitães que hora é melhor partir. Não pagam muito, mas ultimamente minha consciência está clara como uma bola de cristal.” Sorri ela, educadamente. “Eu perguntaria como você está, mas . . .” Ela toca o meio da testa e enche um copo para cada um de nós com Uísque Contraforte do Sul, e coloca uma única pedra de gelo no meu copo antes que eu tenha tempo de pedir.

“Você é maga de precognição,” Eu digo enquanto ela toma um golinho, basicamente para não ter tempo de dizer antes de mim. Um sorriso torto se prende no rosto dela.

“Desculpe. É um hábito horroroso. Preciso me lembrar que as pessoas gostam de formar as perguntas na cabeça antes que eu possa respondê-las. Mas estou bem melhor do que era antes. O Senado nunca nos incentivou a considerar as ramificações da nossa predição. Eles têm boas intenções, mas a paixão deles pela justiça pode ser um pouco . . . ambiciosas demais, presas ao texto da lei e não ao espírito dela. E para responder sua próxima pergunta, sim. Sim. Trinta e sete anos. Eu não conseguia encarar a ideia de prender gente que ainda não tinha cometido um crime. E é estritamente platônico. Eu sei que você não ia perguntar essa, mas está na sua cara.”

Minha cabeça está girando.

“Desculpe. Eu fiz de novo, né? Ai, ai.”

Olrich confia nela, e ela parece legal, então eu passo a maior parte das minhas economias pela mesa. “Não é muito. Até mesmo os bons poetas ganham uma ninharia, e eu nem sou bom.

Lucinka ergue a tampa da caixa em cima da mesa. “Ali dentro tem tudo o que você precisa pra fazer o que você quer. Não fale em voz alta. Não tente nem pensar no assunto. Quanto mais espontâneo você for, menos chances tem de levantar suspeitas dos magos de precognição. Faça uma visita a Udzec amanhã pela manhã. Entre na fila atrás da minotaura com crina ruiva e cacheada. O restante vai ficando mais aparente quando for necessário. Vocês dois precisam estar lá para dar certo.”

Olrich abre a boca para fazer uma objeção, mas Lucinka o encara.

“Sim, vocês dois. Cada um de vocês tem habilidades necessárias para libertar a inocente.” Ela dá mais um grande gole do uísque, coloca a garrafa na caixa, fecha a tampa firmemente e depois me entrega a caixa. “De nada. E não abra até entrar na fila.”


Runas rodopiam do lado de fora de Udzec, um pilar gigantesco que arranha o céu. Chegamos lá cedo, observando visitantes se enfileirando na direção da entrada. Estou agarrado na caixa, resistindo à vontade de espiar lá dentro. Por fim, nós a vimos, a minotaura com cachos ruivos cascateando pelas costas. Olrich e eu furamos a fila rapidamente atrás dela.

A fila vai ficando mais lenta, até parar. Olrich e eu nos entreolhamos, e então abrimos a caixa para ver o que havia dentro: meia garrafa de uísque, um macaquinho de bebê com folhas de outono no babador com um cobertor combinando, e um amuleto de ferro fundido com um âmbar embutido, com curvas de tom preto dentro que se moviam como sombras do mundo inferior. Magia de Luta-Sangrenta . . . Eu já a vi algumas vezes na última noite do Carnafúria. O Mestre de Cerimônias escala uma gaiola de tortura de cinco andares e quebra a pedra, liberando uma explosão flamejante de magia de Luta-Sangrenta na multidão, causando caos e tumultos instantaneamente. Sempre agrada a multidão. Bom, pelo menos quem sobrevive.

Ilustração: Johann Bodin

“Não podemos ser pegos aqui com isto,” digo eu para Olrich. “Vamos acabar numa cela também.”

“Lucinka não daria uma direção errada. Eu confio nela. Deve ter algo que devemos fazer com essa coisa.”

Eu olho para trás, pronto para sair e reagrupar, mas pelo menos cem pessoas bloqueiam a saída. Eu fico na ponta dos cascos e vejo magi-anuladores Azorius na frente da fila, inspecionando a todos em busca de magia e contrabando. Uma entre eles, uma vedalkeana esbelta e azulada, parece que está começando o terceiro turno seguido, cansada e propensa a erros, mais preocupada em segurar seus bocejos do que em fazer buscas detalhadas. Um jovem elfo carregando um bebê passa por ela, e a magi-anuladora mal presta atenção na criança. Uma revista simples. Ela recebe uma reprimenda do parceiro, que faz revista na criança com mais detalhe. Eu olho para o macaquinho, e depois para Olrich. “Eu acho que você devia vestir isso.”

Os olhos dele se acendem. “Mas de jeito nenhum. Tenho trezentos anos a mais do que você, pelo amor de Rakdos!”

“Eu sei. Mas você mesmo disse. Você confia na Lucinka.”

“Ela é uma médium com cara de uva passa, trambiqueira, é isso o que ela é,” bufa ele, mas ainda assim se enfia no macaquinho, que tem uma aba no traseiro para que seu rabo possa balançar livremente.

“Você está tão bonitinho quanto no dia em que se manifestou,” digo eu.

“Ninguém vai cair nessa.”

“Eu acho que você subestima como suas bochechas são fofas.” Ele está adorável mesmo, e apesar disso nos ganhar um pouco menos de precisão na busca, não será suficiente para passar algo tão potente quanto magia de Luta-Sangrenta pelos magi-anuladores.

“Engole isso aqui,” eu digo a Olrich, estendendo-lhe o amuleto na palma da minha mão. É pesado, mas o estômago do Olrich é praticamente um cofre. Eu já vi ele esconder um saco de moedas do tamanho do meu punho quando suspeitou que seus funcionários roubavam dele. “Ponha essa barriga de ferro pra jogo. Não temos tempo de pensar muito.”

O olhar que Olrich me dá poderia congelar Rix Maadi, mas ele obedece. A última coisa que precisamos é de uma distração à moda antiga. A minotaura na nossa frente está usando uma capa de lã com capuz abaixado. É o lugar perfeito para esconder uma garrafa de uísque. Muito, mas muito cuidadosamente, eu coloco a garrafa dentro do capuz, esperando que ela esteja leve o suficiente para não repuxar o tecido.

A minotaura se vira e me olha feio, mas quando vê Olrich enrolado nos meus braços, os olhos dela se iluminam. “Ah, mas que ferinha bonitinha. Nossa, ele tem os seus olhos. Que pena que este mocinho tenha que fazer uma visita em um lugar desses. Nunca, nem em mil anos, eu imaginaria que estaria aqui, mas o marido se amigou com os tipos errados. Te digo, se fizer negócios com corretores Orzhov, pegue recibos por escrito!”

“Próximo!” Chama a magi-anuladora.

A minotaura se vira para a frente, caminhando e sacudindo sua crina, desconcertada. “Jitka Wothis, visitando Grimbly Wothis.”

Os magos pedem para que ela se aproxime e fazem seu trabalho de detectar e nulificar magias. Ela passa por essa parte, mas na hora da revista eles encontram a garrafa.

“Como isso foi parar aí?” Grita ela. “Não é minha!” Todos os magos perto da nossa fila convergem para ela, a não ser pela vedalkeana, que apenas boceja e nos chama enquanto a minotaura tenta furar quem ousar se aproximar de seus chifres.

“Sinto muito que seu pequeno tenha de ver essas coisas,” diz a magi-anuladora, conjurando distraída uma mágica sobre mim. “Você não acredita no tipo de coisa que as pessoas tentam trazer sorrateiramente aqui para dentro.” Ela faz cócegas no queixo de Olrich. Eu olho feio para ele até que ele dá uma risadinha adorável. “Bebida, armas encantadas, poções. De tudo. Mas se algo passar pela gente, os magos de precognição pegam. Se alguém ousar pensar em invadir esse lugar magicamente, a gente consegue trancar tudo em vinte segundos!”

Suas mãos revistam Olrich, e eu tento não pensar sobre você-sabe-o-quê escondido você-sabe-onde. Se o estômago do Olrich segura o guisado de diabrete, talvez magia tenha dificuldade em escapar dali de dentro.

Por fim, com um aceno, nos deixam seguir. Um suspiro escapa dos meus lábios, mas antes de conseguirmos dar dois passos, outro mago nos chama. “Vocês dois aí. Esperem um minuto.”

Ele marcha em nossa direção, e depois coloca um livro nas mãos de Olrich. Um livro para colorir: Quebrando o Ciclo da Impiedade Geracional. Uma caricatura enorme de Rakdos está na capa, sendo atropelado por um Vedalkeano vestindo roupas impecáveis, mais do que levemente parecido com o Baan. “Os Azorius estão comprometidos a ensinar as próximas gerações sobre os caminhos da justiça, não importa em que buraco de pântano eles nasceram.” Ele passa a entregar livros para colorir a todas as crianças que vieram visitar um pai ou mãe encarcerado, e eu fico absolutamente impressionado com a quantidade de crianças que estão lá.

Olrich começa a rasgar o livro ao meio, mas eu o tiro das mãos dele. “Não faça isso. Tudo está acontecendo aqui por algum motivo. Olhos abertos. Mente limpa.”

“Certo. Mas eu juro que se alguém me apertar as bochechas, eu mordo a cara deles.”


Eu passei tanto da minha vida vivendo no momento presente que levo algum tempo para reconhecer a sensação de coalho na barriga. Culpa. Remorso. Uma sensação esmagadora de inadequação. Zita está sentada do outro lado da mesa, na minha frente, com um filme de magia azul-pálida que desencoraja qualquer contato físico.

“Como você está?” Pergunto eu. “Estão tratando você bem?”

Ela assente com a cabeça. “Não é tão ruim, aqui dentro. A comida é decente, e os guardas são agradáveis o suficiente. Além disso, eu fiz alguns amigos.”

Eu suspiro pesadamente, aliviado. “Fico contente de ouvir isso. Você ouve tantas histórias horríveis . . . condições desumanas, trabalho forçado, brutalidade...”

Zita sorri, mas seus olhos se mantém distantes. “Não em Udzec, com certeza. Cumprirei minha pena em paz, um dia após o outro, e o futuro não vai começar a parecer uma ilusão.”

Ilustração: Randy Vargas

Eu fico tenso. Ilusão. Nossa palavra de segurança. Tudo por aqui não está indo bem. Os guardas devem estar forçando os prisioneiros a falarem bem da prisão— senão... Preciso tirar a Zita daqui agora, mas se soltarmos o poder da magia de Luta-Sangrenta o lugar inteiro vai se trancar em segundos e ainda estaremos aqui dentro.

“Eu juro que vou tirar você daqui, Zita,” sussurro eu. “Eu vou dar um jeito.”

Ela assente devagar, e depois olha para Olrich. “Qual é a do bebezinho?”

Olrich abre a boca para xingá-la, mas eu enfio o livro para colorir na frente dele. “Aqui, ó,” sigo eu. “Fica distraído aí, filhão.” Ele abre o livro, olha a próxima ilustração, e depois a rasga em mil pedacinhos, enfiando a página na boca.

Zita olha em volta rapidamente, e depois estende a mão pela barreira mágica. Ela cerra os dentes quando uma descarga elétrica passa pelo corpo. Ela toca o livro para colorir, e o soldado Azorius na página ganha vida.

“Não pode tocar nada!” Diz o guarda de pé atrás de Zita.

Zita ergue as mãos. “Desculpa, desculpa. Eu só queria abraçar meu filho. Tenho tanta saudade dele...”

O guarda ergue a sobrancelha para o que parece uma família não-tradicional, mas eu tenho certeza que ele já viu de tudo em um lugar desses. Ele se acomoda, e Zita olha para mim com firmeza. Eu olho para a página com a ilustração, imitando o guarda de pé atrás dela. Um pergaminho-mangra improvisado. Eu faço um furinho na panturrilha da efígie, e o guarda massageia uma cãibra na perna. Eu continuo esperando que os magi-anuladores detectem a magia e nos peguem, mas esta magia deve ser fraca demais para detectar. A Zita acabou de nos dar um jeito para sair daqui.

Eu cutuco Olrich, e faço com que ele puxe papo com a Zita enquanto eu desenho cada um dos guardas e magos de plantão na sala de visitas, vários em uma mesma página, enquanto dúzias de visitantes conversam com seus entes queridos. Eu conto as ilustrações duas vezes, para conferir se peguei todos mesmo. E então eu arranco as páginas do livro e as lanço contra a barreira.

Magia elétrica incendeia o papel, e os guardas uivam em uníssono como se estivessem sendo queimados vivos. Zita se lança contra a barreira mágica, se retraindo um pouco com o choque. Suas vestes ardem em brasa, como se estivessem prestes a pegar fogo. Ela se despe das vestes prisionais, e Olrich lhe entrega seu cobertor de bebê. É pequeno demais para enrolá-la, mas ela o estuda por um segundo, rasga ângulos precisos, e depois de algumas amarras e encaixes ela faz vestes curtas, mas passáveis.

Eu uso as duas últimas páginas do pergaminho nos sentinelas dos corredores sinuosos. Temos a espontaneidade do nosso lado, e se formos rápidos, estaremos longe antes que os magos de precognição descubram nossa escapada.

Ouço passos antes de entrar em outro corredor, e eu desejei que o Olrich não tivesse comido aquela primeira página. Mas então ele limpa a garganta e diz: “Cidadãos! Vejam! Sou eu, seu estimado líder de guilda, Protetor da Justiça, Provedor dos Protocolos!” Com a imitação impecável de Dovin Baan que deixa a minha embaixo do casco. “Fechai seus olhos e contai com minha engenhosidade e compreensão, as mesmas que transformaram esta guilda em um farol de eficiência e retidão reluzente, como está hoje.”

Os passos param. “Mestre Baan? Eu não sabia que estava—”

“Como eu disse, olhos fechados! Comece a contar!” Ordena Olrich.

“Um,” vem a voz mais miúda. “Você sacudiu a hierarquia, livrando o Senado daqueles que usaram o poder inadequadamente, em benefício próprio.”

Entramos silenciosamente no corretor, passando pelo soldado, e logo nos vemos em uma fila organizada com o restante das pessoas que estão saindo do edifício. Estamos indo rápido. Nós vamos conseguir.

“São eles!” Diz uma voz familiar. “O demônio com o filho diabo! Desenhem um círculo da veracidade em volta de mim, para não haver dúvidas de que eu digo a verdade!” Nos viramos e vemos a minotaura novamente, com narinas tremendo.

“Eu também!” Diz uma vampira, evitando os raios de sol diretos que entram pelas janelas. “Eu vi ele fazer.”

Antes que pudéssemos negar, Olrich e eu estamos presos por magia. Zita olha para nós.

“Vai,” falo para ela sem fazer som algum. Ela hesita, e depois se perde em meio ao mar de gente.


Assim que nos dão nossos uniformes, somos colocados para trabalhar com o restante dos delinquentes não-violentos, e pré-delinquentes. Outro carregamento de quartzo branco se move lentamente acima, um círculo de trinta e seis magos colocando o bloco flutuante dentro da localidade de Exner, a nova prisão que vai fazer Uzdec parecer pequenina.

Agora, é apenas uma estrutura de andaimes de ferro que alcança as nuvens. É um projeto ambicioso, mas com mais de 20.000 prisioneiros fazendo trabalho forçado, vai ser erguida rapidamente e deve estar pronta para inaugurar na próxima primavera.

O bloco de quartzo atinge o chão com um baque surdo. Eu me aproximo com minha picareta, tirando pedaços. Agora eu sou rápido e preciso. Nos primeiros dias, os soldados me açoitaram por quebrar formas irregulares e por demorar demais. Aqui, longe das minúcias dos magi-anuladores, é mais fácil fazer magia sem ser pego, e temos vários xamãs em nosso grupo para curar a pele ferida. Ouvi as histórias deles. Crimes pequenos, falsidade ideológica, e na maioria dos casos pré-crimes com base nos caprichos dos magos de pré-cognição trancados em torres de marfim.

Ilustração: Even Amundsen

Olrich anda abatido na minha direção no nosso horário de almoço, com a mão nas costas. Ele me dá um presente: um colar magrelo feito com vértebras de roedores e vime. “Eu sei que não há muito para celebrar . . .

Tinha quase me esquecido que era o último dia do Carnafúria. Parece que faz uma vida inteira que eu entrei na loja da Zita, determinado a não ser um esquisitão e começar a ser um amigo, mas não faz nem uma semana inteira. Espero que ela esteja lá fora fazendo festa em algum lugar, com sangue pelo ar e tumulto pelas ruas. É a época mais festiva da decadência e devassidão.

Eu olho para a torre esquelética de Exner. Pontas de ferro serrilhado aqui e ali, que eu conseguiria escalar em segundos. Minha mente já está em movimento, e o tempo que eu tenho para orquestrar este plano está acabando. Magos de precognição ouvirão meus pensamentos imediatamente. “Olrich,” digo eu, sacudindo-o pelos ombros. “Lembra daquela coisa que você engoliu? Ainda tá aí dentro?”

“Aham, me matando de cólica, mas eu ainda não tive chance de me livrar dele.”

“Cospe ele.”

“Mas—”

“Agora! Anda!"

Olrich libera o amuleto. Não pelo orifício que eu esperava, mas pesadelo dado não se olha os dentes. Eu agarro o amuleto e corro para a torre inacabada. Soldados saltam de pé, me perseguindo com açoites e magia correndo por eles e pelo ar. A magia me alcança, mas eu ignoro a dor e subo, imaginando estar em performance mais uma vez, girando, caindo, mergulhando perigosamente, ainda um passo à frente da mira deles.

Eu alcanço o topo e separo um segundo para curtir a vista . . . milhares e mais milhares de prisioneiros embaixo de mim, e centenas de guardas. Quando Lucinka previu que eu libertaria a inocente, eu pensei que seria apenas Zita e não incontáveis vítimas de injustiças.

Eu bato com a pedra do amuleto contra o andaime de ferro, mas nada acontece. Eu olho para cima e vejo uma dúzia de arcontes dominando o horizonte, irradiando luz branca. As feras voadoras atravessam as nuvens mais baixas, ganhando velocidade e se aproximando. Os magos de precognição sabem o que eu quero, o espetáculo que eu pretendo incitar, se eu conseguir lançar essa magia. Nunca pareceu tão difícil para os Mestres de Cerimônias, mas aqueles amuletos não ficaram vários dias no estômago de um diabo, apodrecendo em profundezas de escuridão pura. Mas se a pedra é mais forte do que isso, talvez a magia seja também. Eu junto todas as minhas forças, flexionando músculos que tensionaram contra as rochas, e bato a pedra novamente.

O amuleto racha e solta uma multitude de gavinhas pretas, pressionando a luz para longe e transformando o dia em noite. O amuleto pulsa com o vermelho profundo e rico de sangue recém-derramado, e então a pedra se rompe por completo, mandando uma única nuvem de magia derretida bem alto no céu escurecido. Tudo fica quieto e imóvel por apenas um momento, e então uma explosão me tira os sentidos. Eu me seguro no andaime enquanto as brasas de Luta-Sangrenta chovem sobre o local de construção inteiro.

Quando a fumaça dissipa, os arcontes ainda estão vindo, mas é tarde demais para alguém se organizar contra um tumulto tão gigantesco. A loucura se espalha. Ferramentas se tornam armas. O sangue pesa no ar, e o espírito da época me enche com a fúria mais perfeita. E com um sorriso infantil no meu rosto, eu corro para dentro da luta, afoito para participar da maior celebração de Carnafúria que já existiu.


Três cadeiras, uma delas com uma almofada, estão em torno da mesa de Lucinka, e uma caixa embrulhada em papel metálico está em cima dela. Eu, Zita e Olrich nos sentamos enquanto Lucinka brinca com as dobras de sua pele, como se tivesse tímida sobre alguma lacuna que acabasse ficando à mostra.

“Quando eu posso—” Zita começa a perguntar, sem estar acostumada a conversar com uma maga de precognição.

“—voltar à sua loja? Infelizmente, nunca. Suas vidas pregressas acabaram. Os Azorius não vão parar até que cada uma das pessoas que escaparam durante a revolta seja levada à justiça. Eles admitiram 3.300 pessoas, mas o número real é muito maior.”

Zita franziu o cenho. Eu sei como a loja era importante para ela. “Certo, então para onde—”

“—vamos agora? Vocês terão que começar vidas novas no Submundo,” diz Lucinka. “Vocês três trabalham bem juntos. Comecem uma nova trupe. Juntem uma equipe em quem podem confiar.”

Olrich se endireita. “O Submundo. Uma trupe? Já estou vendo . . . as piadas mais vulgares, as acrobacias que mais desafiam a morte, as fantasias mais extravagantes!”

“Fantasias,” diz Zita, com um pouco de animação tomando sua voz. “Eu sei fazer fantasias.”

Lucinka sorri, sábia. “Vão precisar, mesmo, porque o tipo de trabalho que vocês farão como trupe se estenderá além do mero entretenimento. Enquanto a maioria das pessoas que vocês libertaram eram boas, tem algumas que precisamos nos preocupar. Uma em particular.”

Eu olho para a caixa na mesa. “E o que está aí dentro vai nos ajudar a capturar essa pessoa?”

“Haha, não. É um presente de casamento para você e para a . . .” ela olha para os olhos arregalados de Zita. “Ah, esquece. É só mais uma pergunta que você não vai fazer por algum tempo. Nossa, eu sou muito ruim nisso.”

Zita aperta meu joelho afetuosamente por baixo da mesa. Eu olho para ela e sorrio. O amanhã pode ser uma ilusão, mas eu espero por ele ansiosamente...


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