Julgamento

Posted in Magic Story on 17 de Maio de 2017

By Doug Beyer and Alison Luhrs

História anterior: Intrusão

Samut abandonou as Provas, a safra e sua antiga vida. Nos últimos dias, ela se dedicou a uma busca frenética, desesperada para sobreviver o suficiente para enfrentar o intruso que havia transformado seu mundo. Após descobrir que, poucas décadas atrás, sua cidade era bem diferente, Samut decide tentar convencer seu melhor e mais antigo amigo, Djeru, a acreditar nela. Depois que um confronto direto não foi capaz de convencê-lo, Samut recorre à única divindade que poderia poupar sua vida.


Samut havia passado três dias escondida. A luz dos sóis era um luxo da qual uma fugitiva não podia desfrutar. Ela corria de um esconderijo ao outro, se esgueirando pelos recantos escuros da cidade, longe dos olhos dos anjos e dos mortos ungidos.

Hoje, o abrigo de Samut era uma câmara de embalsamento abandonada. Ela entrou às pressas, derrubando uma mesa com unguentos ressecados e vasos de órgãos, e fechando com violência a pesada porta de pedra. Acendeu uma tocha no castiçal preso à parede. E, depois, esperou.

Há três dias, Samut havia sido capturada pelos vizires e mortos ungidos. Após seus imprudentes gritos de dissenção, uma profusão de mãos imobilizaram seus braços, taparam sua boca e a arrastaram para longe dos ouvidos da população. Ela conseguiu se libertar dos captores, deslocando o ombro no processo, e fugiu para os lugares escuros da cidade, contando com toda a velocidade que tinha—mas como pôde ter sido tão descuidada? Eram milhares de cidadãos que haviam aceitado alegremente aquele sufocante cobertor de mentiras. Como ela poderia achar que iria dissuadir seus corações simplesmente gritando pela rua? Bem, não mais. Samut só fazia questão de convencer uma pessoa agora.

Ela ouviu um som de arranhões na porta. Samut abriu a porta rapidamente, apertando os olhos diante dos raios de sol, que iluminavam partículas dançantes de areia no ar. Uma figura apareceu: uma múmia guardiã, coberta de linho dos pés à cabeça. Samut gesticulou para que ela entrasse.

A múmia arrastou os pés, passo a passo. Quando sua nova companhia chegou ao interior da câmara, Samut fechou a porta outra vez, com força, produzindo um ruído de arenito sendo arrastado.

A múmia olhou para Samut, com suas faixas limpas e arrumadas iluminadas pela luz da tocha.

Samut sorriu. "Então?" Me dê logo um abraço."

Labyrinth Guardian (Embalmed)
Guardião do Labirinto (Embalsamado) | Arte de Yeong-Hao Han

A múmia relaxou os ombros. "Isso é blasfêmia", ela murmurou em uma voz masculina familiar.

"Mas fez você chegar aqui sem que nossas vidas corressem risco", disse Samut.

"Eu mal consigo me mover", a múmia disse, tentando com dificuldade abrir os braços. "Tire isso de mim."

Ela ajudou a múmia a se livrar das faixas de linho. O rosto de seu amigo Djeru surgiu por baixo delas, e ele removeu sozinho o resto do disfarce. Aquele era o único rosto que ela queria ver. Era o único aliado que lhe restava no mundo—seu companheiro de safra, irmão de guerra e amigo.

Ela o envolveu com um abraço. "Fico feliz que esteja vivo", ela sussurrou no ouvido dele.

Djeru se afastou, segurando os braços dela. "Como conseguiu se libertar e me chamar até aqui? Soube que haviam prendido você depois da sua demonstração pública de . . . de dissenção."

Samut o olhou nos olhos, tentando interpretar o julgamento do amigo. "Pela minha heresia, você quer dizer."

"Por desafiar as leis dos deuses", ele disse em voz baixa.

"Foi por isso que pedi para você vir", ela disse. "Eu me libertei, Djeru. Você também pode se libertar."

"Libertar?" Do quê? Quer que eu viole as leis também?

Aquilo doeu. Samut via nos olhos do amigo que ele a culpava. Será que Djeru estava disposto a abrir mão da amizade entre eles? "As leis foram corrompidas. Assim como os deuses."

Djeru balançava a cabeça. "Você contesta o próprio Faraó-Deus."

Samut uniu as mãos em um gesto de súplica. "Mas ele é justamente a mentira que corrompeu o mundo! Havia antigos costumes antes do Faraó-Deus, antes dessas Provas. Ele fez o mundo esquecer o passado. Ele renomeou o mundo e os deuses da forma que lhe convinha."

"Foi para isso que você me chamou aqui? Para me desfiar suas estórias?" Ela andava de um lado para o outro, frustrado. "Eu deveria estar treinando, Samut. A prova do Zelo se aproxima. Ou você já se esqueceu da importância disso para um iniciado?"

"Eu não me esqueci da importância disso para você." Ela pegou um dos braços dele e apertou. "Mas eu não posso chamar uma mentira de verdade, e você também não deveria."

"O que você está dizendo?"

"Não entre na Prova final."

"Samut."

"Não desperdice sua vida. Não ofereça sua morte, só para—por esporte."

"Esporte? Você chama o auge mais sagrado da minha vida de esp—" Ele começou a andar em círculos, irritado.

Ela não deveria ter falado aquilo. Não mesmo. "Desculpa. Me desculpa. É que—eu vi o que os vizires não querem que vejamos. Eu vi como a nossa sociedade foi—alterada. O esqueleto do nosso mundo foi removido e substituído por outra coisa. Você acha que está tentando provar seu valor, mas está apenas se destruindo."

Ele apontou um dedo para ela. "Você está me dizendo para me destruir de outra forma, jogando fora tudo pelo que eu batalhei até hoje. Está me dizendo para eu me desonrar e desonrar os deuses."

Samut estava perdendo a discussão. Ela não sabia o que dizer. "Por que sua morte seria a vontade dos deuses? Por que sua morte seria a vontade de Nakht?" No mesmo instante, Samut soube que não deveria ter falado aquilo.

"Não meta o nome dele no meio disso", Djeru explodiu. "Nakht morreu indigno lá nas dunas por causa da nossa estupidez. Por causa da nossa intrusão imprudente. E agora ele vaga pelo deserto, comendo as tripas de cadáveres dessecados. Não vou cometer o mesmo erro com a minha própria vida.”

Samut queria gritar com ele—Seu tremendo asno! Você é um tolo, cego e orgulhoso! Prefere morrer do que mostrar que foi enganado por um falso faraó! Mas ela tentou manter a voz sob controle. Ela sabia que, se gritasse com ele, seria apenas mais uma dissidente qualquer, gritando pela rua—e ela perderia o amigo para as crenças autodestrutivas dele.

“Djeru, meu amigo”, ela disse. “Nakht morreu para nos mostrar como é ter uma vida ceifada cedo demais. Para nos mostrar a terrível futilidade da morte.”

“Não”, Djeru disse. “Ele morreu em vão.”

Algo estalou dentro dela. “VOCÊ TAMBÉM IRÁ!“, ela urrou. As palavras dela ecoaram pela câmara iluminada à luz de tocha, reverberando pelas paredes de pedra.

Djeru empinou o queixo. O jovem bateu no peito com uma solenidade ritualística. “Eu morro para retornar eterno”, ele disse, no ritmo do coro dos iniciados.

Samut abaixou a cabeça, sentindo-se subitamente mal. Ela começou a andar em círculos, lentamente, esfregando a nuca, enrolando mechas de cabelo. Todos os instintos dela diziam que era inútil tentar salvá-lo das próprias crenças. É claro que ela não tomaria aquela decisão por ele—quanto mais ela insistia, mais ele recuava. Ela teria que se afastar e deixá-lo se decidir por conta própria.

O problema é que se afastar não era o ponto forte dela.

“Não entre naquela Prova”, ela disse.

Ele riu. Era uma risada triste. “Sabe que eu tinha esperança que você tinha me chamado aqui para pedir minha ajuda?” Ele balançou a cabeça. “Achei que você queria minha ajuda para voltar ao caminho certo. Para depor diante de Temmet por você. Para impedir que você apodreça em algum sarcófago por aí.”

"Djeru."

“Você acha que estou jogando a minha vida fora? Você poderia ser a melhor iniciada da nossa geração. É um desperdício, Samut. Você escolheu ser um desperdício.”

“Não me importo com o que você pensa de mim”, ela murmurou. “Apenas não morra.”

“Talvez os deuses possam ensiná-la a acreditar, dissidente”, disse Djeru, caminhando para a porta. “Irei pleitear por você diante de Hazoret.”

Ela abriu a porta. Por um momento, veio uma luz ofuscante do lado de fora. Depois, o som da porta de arenito se arrastando, e a câmara voltou a ficar escura e silenciosa. O único movimento era das sombras que tremeluziam com a luz da tocha.

Samut ficou lá, parada por um tempo, envolta em uma bruma de fracasso. Ela se viu discutindo com os próprios argumentos, pensando se havia feito o suficiente para salvar a vida do amigo. Quem sabe apenas aquela conversa havia sido o bastante. Talvez ela tivesse conseguido plantar uma semente de dúvida no coração de Djeru, forte o bastante para ele pudesse resistir às mentiras do Faraó-Deus, renunciar às Provas e agradecê-la por salvá-lo. Talvez ele voltasse a procurá-la, de cabeça baixa, pedindo desculpas. Isso era possível, não era?

Ela conseguiu acreditar nessa possibilidade por três segundos inteiros.

Djeru era muito resoluto. Ele provavelmente nunca voltaria a falar com ela nos poucos e preciosos dias que faltavam para a Prova final, e jamais desistiria. Enquanto isso, a cidade ainda estava repleta de múmias e vizires que queriam matá-la. Se ela aparecesse em público outra vez, seria pela última vez.

No entanto, enquanto ela remoía mentalmente as palavras de Djeru, uma grande irritação a consumia. "Irei pleitear por você diante de Hazoret", Djeru havia dito. O que para ele era um ato de misericórdia, para Samut, na verdade pareceu uma oportunidade.

Ela escancarou a porta e correu, para longe das sombras, para a luz dos dois sóis.


Samut já estava sem fôlego quando chegou diante do monumento, entortando um tapete cerimonial com os pés. Ela olhou para trás, com as armas em punho, mas o pelotão de múmias que a perseguiam haviam parado na entrada. Seus faces inexpressivas ainda estavam voltadas para Samut, com seus vagos sorrisos de linho, mas elas estavam imóveis. As múmias precisavam de permissão explícita para entrarem na casa de uma divindade.

Samut recuperou o fôlego, guardando as armas de volta na bainha. Uma larga escadaria levava a algum destino escuro. Cada degrau era iluminado por braseiros com formato de chacais. Samut não conseguia enxergar até onde a escada ía—algum lugar no interior do monumento. Na cabeça de um deus.

Samut ajoelhou e se curvou, com a testa tocando chão. "Eu solicito uma audiência, grande Hazoret." E ela só se moveu quando ouviu a voz.

"Você pode entrar, iniciada."

A voz soava de todos os lados, palavras carregadas com uma pronúncia arcaica. Samut se levantou, e viu que as múmias permaneceram do lado de fora, esperando. Samut pegou uma vela cerimonial e a acendeu em um dos braseiros. Ela equilibrou a vela com cuidado em uma das mãos e pisou no primeiro degrau. O que ela poderia dizer para uma divindade para poupar a vida do amigo? Será que ela estava preparada para aquilo?

Ela subiu.

Os degraus ficavam mais estreitos a cada passo, e as paredes escuras cada vez mais próximas, à medida que ela subia. Ela percebeu que havia figuras paradas nos cantos escuros, múmias imóveis, com os corpos enfaixados e adornados com hieróglifos de Hazoret. Samut se perguntou se as múmias haviam sido vítimas do temperamento de Hazoret, candidatos não merecedores do paraíso após a vida.

Samut chegou a uma plataforma e abriu a boca, espantada. Diante dela, havia uma cortina de fogo de quase dez metros, emoldurada por um imenso arco dourado. Fagulhas da cortina de fogo pularam e caíram no cabelo de Samut. Ela sentiu o rosto queimando, mas teve o cuidado de não deixar a vela cair.

A cortina se abriu parcialmente, e Samut viu, inicialmente, pés. Ela olhou para cima e se deparou com Hazoret de cabeça abaixada, para enxergá-la. Um aro brilhante girava e ondulava suavemente ao redor do rosto da deusa chacal, como uma auréola de ouro vivo.

A boca da divindade se moveu, mas Samut não ouviu nenhum som. "Falaremos enquanto sua vela queimar. Gostaria de se sentar, iniciada?"

Samut percebeu que estava cercada de bancos, canapés acolchoados, divãs adornados—todos nas dimensões dos mortais e iluminados por castiçais. O interior do templo de Hazoret era mobiliado como um lar tradicional e confortável; um lugar para reuniões de família.

Samut pigarreou. "Obrigada, grande Hazoret", ela disse. "Mas não sou uma iniciada. Não mais."

"Suas palavras e seu coração não estão de acordo. Sente-se."

Samut sentou rapidamente, ainda segurando a vela cerimonial.

A deusa dobrou as pernas embaixo do corpo, sentada em uma posição confortável, ocupando todo o centro do aposento. "Por que me procura com angústia em um momento que deveria ser de júbilo?"

Samut estava desconcertada com a rapidez com que a deusa leu sua alma. Ela já havia estado diante de deuses, claro, mas aquela era a primeira vez que ela conversava a sós com uma divindade. "Perdoe-me, Fervorosa. Não sinto jubilo pela Prova que se aproxima." Samut respirou fundo, tremendo. "Meu amigo Djeru deseja morrer. Na sua Prova. Nas suas mãos."

"Então você deveria celebrar!", disse Hazoret. "Seu amigo tem a coragem de buscar o mais elevado dos objetivos. Como você também deveria."

As mãos de Samut tremiam, enquanto seguravam a vela com cuidado. A pequena chama tremeluzia, e a cera derretida escorria sobre a vela. Para onde havia ido toda sua confiança e certeza de quando ela confrontou Djeru? Onde estava a convicção de que os deuses haviam sido iludidos, agora que ela tinha a oportunidade de dizer diretamente a um deles? "Eu sei que é isso que nos ensinam. Que todos devem batalhar para conquistarem seu lugar na vida após a morte, como os vizires nos dizem."

"São sábios ensinamentos."

"E eu—eu sei que Djeru não gostaria que eu interferisse no caminho dele." Samut percebeu que estava falando mais com a vela do que com a deusa. Se ela pretendia dizer aquilo à Deusa do Zelo, ela teria que dizer com fervor. "Mas eu não posso permitir. Ele não sabe a verdade sobre a vida após a morte a vida ou sobre as Provas."

Hazoret inclinou a cabeça, e não parecia contente Os olhos da deusa eram chamas frias e desafiadoras. "Mas você sabe, iniciada? Você sabe?"

Samut abaixou a cabeça envergonhada. Ela abriu a boca para argumentar, mas não conseguiu articular as palavras. A jovem percebeu subitamente o quanto era pequena e insolente, sentada no divã de uma divindade, recepcionada dentro da casa de uma divindade, presente ali apenas porque havia sido convidada por uma divindade. A poderosa Hazoret havia demonstrado apenas sua suprema generosidade ao recebê-la, e Samut, por sua vez, retribuiu com reclamações infantis e insolentes. Lágrimas frias e confusas se juntavam nos olhos da jovem.

O chão tremeu, como se o monumento inteiro estremesse com uma vibração baixa. "Eu poderia destruí-la por esse sacrilégio", disse Hazoret. "Você sabe bem."

"Sim", Samut murmurou.

"Mas eu jamais poderia aprisionar o coração de uma guerreira. E vejo que seu coração anseia pela luta. Então lute, iniciada Samut. Lute pela verdade no seu coração."

A jovem contemplou o pináculo de ferocidade e misericórdia diante dela. Samut agora sentia apenas admiração—ela queria que Hazoret se orgulhasse dela. E como consequência, temia desesperadamente fracassar.

Mas se não fizesse seu pedido, ela fracassaria com Djeru.

"Não sei de que forma pedir o que eu devo pedir", ela disse.

O chão estremeceu. Espinhos de ouro vivo irradiavam ao redor do rosto de Hazoret. "A guerreira hesita? Fale!"

Samut se curvou e limpou as lágrimas dos olhos. "Grande, Hazoret, Guardiã do Portão", ela disse. "Eu vim pleitear pela vida de Djeru. Eu lhe peço que, quando ele lhe ofereça a vida, que ela não seja tirada."

Hazoret cruzou os braços. Os olhos brilhantes da deusa vagaram, indo de Samut para o teto, percorrendo alguma distância mental que ela não podia compreender. Depois de um tempo, a deusa abaixou a cabeça para olhar novamente para Samut. "Esta é uma questão séria e aflitiva. É isso que ele deseja?"

"Eu falei com ele, mas ele me rechaçou."

"Então você seria capaz de alterar o caminho de seu amigo contra a vontade dele? Deseja aprisionar o coração dele? Você não concederia a ele o mesmo favor que eu concedi a você?"

Cada parte de Samut queria ruir de vergonha. Ela quase jogou a vela trêmula longe e fugiu. Mas o pensamento de Djeru sangrando, no chão, surgiu em sua mente. Ela viu a vida do amigo se esvaindo por duas perfurações—uma na cabeça e outra no coração. Seu irmão de guerra, realizando o sonho dele de morrer inutilmente. A ideia fez seu coração apertar dentro do peito.

“Ele se dedica a uma mentira.”

Este iniciado. Djeru. Você o chama de amigo?

“Sim, eu chamo.”

E apesar de compreender a crença de seu amigo, essa fé que inflama o coração dele—você acredita que ele está equivocado?

“Sim, poderosa Hazoret. Mas se me permite . . ." Samut engoliu em seco, reunindo forças para olhar nos olhos de Hazoret. “Não seria possível que vocês . . . também estejam equivocados?”

Hazoret não respondeu, mas Samut sentiu o tremor da plataforma sob seus pés, e o ranger de cada tijolo nas paredes ao redor. Sons de passos arrastados ecoavam do andar de baixo—os passos inexoráveis de múmias se aproximando.

Hazoret se inclinou, chegando mais perto, e de repente a deusa pareceu dez vezes maior, ocupando toda a visão de Samut. Não existia nada além do rosto de chacal coberto de ouro ondulante, incandescente e crepitante.

Samut se sentia cada vez menor no assento. Mesmo assim, mesmo se sentindo coberta pela raiva fervente de uma divindade, ela se sentiu tomada por uma extraordinária sensação de amor—o amor de Hazoret. Na proximidade entre as duas, ela sentia a calorosa generosidade implícita no convite de Hazoret, a hospitalidade de seu templo que se assemelhava a um lar, a robusta proteção de sua grandiosa casa. Aquele era o coração de Hazoret. Aquela era a Hazoret que ela, talvez, havia sido um dia. Era uma conexão.

“Bondosa Hazoret”, Samut murmurou. “Você se lembra de como costumávamos chamá-la? O povo deste mundo agora a chama de Guardiã do Portão, e Última das Provas—mas também de Mãe do Zelo. Cuidadora dos Corações. Nós somos seus filhos, sua família. Você nem sempre foi uma deusa cruel, empunhando a lança e o fogo nos portões da morte. Você era a deusa da compaixão e da inspiração, cujo coração flamejante inspirava as pessoas para realizarem os feitos mais grandiosos.”

Um clarão de luz passou pelo grande rosto dourado de Hazoret, e Samut pensou ter visto a deusa recuando momentaneamente, por uma distância quase imperceptível.

“Você é zelosa, sim”, Samut continuou. “Mas eu temo que o fervor que a tornou grandiosa foi corrompido para torná-la cruel. Você deixou de ser uma celebrante da vida para ser um instrumento da morte. Ainda resta algo disso dentro de você? Algum pequeno fragmento de memória daquela época antes do Faraó-Deus?”

O rosto de Hazoret pairava no ar acima de Samut, envolta pela auréola de fogo. Lágrimas caíam pela face de Samut e evaporavam. Agora ela só podia aguardar o julgamento da divindade.

E então, Hazoret falou, e as palavras soaram como um trovão.

Que ammits devorem o coração do seu peito.

Hazoret se levantou, se afastando de Samut. O rosto da deusa era agora distante e impassível, sem qualquer vestígio de intimidade. Samut olhou para a vela, com o intuito de apagá-la, mas ela já havia se extinguido e se transformado em uma poça de cera derretida.

Enquanto as múmias servas ocupavam o templo, a deusa disse suas palavras finais para Samut. As palavras partiram o coração de Samut—não pela promessa de punição, mas pela revogação das boas-vindas.

Ungidos“, disse a Deusa do Zelo. “Prendam a dissidente.


Samut sentia a própria respiração contra o rosto. O sarcófago era apertado, com apenas um dedo de folga para cada parte de seu corpo. Suas mãos foram deixadas para fora, isoladas do corpo e expostas ao ar seco exterior. Havia horas que ela estava aprisionada ali, e depois que o primeiro sol se ergueu no céu, a temperatura em seu cárcere ficou cada vez mais insuportável.

O desconforto já havia sido suplantado pela sede e, quando a sede foi suplantada pelo desespero, Samut já havia perdido a noção de tempo.

Inicialmente, ela tentou sair à força. Ela tentou usar a velocidade para golpear os cotovelos contra a parede, mas o esforço só resultou em hematomas e dores musculares. Ela empurrou e se debateu, mas a prisão parecia estar encantada de tal forma que ninguém poderia abri-la do lado de dentro.

Ela se recusou a chorar. Principalmente porque estava determinada. E parcialmente porque não podia desperdiçar água. Mas sobretudo porque sabia que estava exatamente onde precisava estar.

Samut logo percebeu que não estava sozinha. Havia sarcófagos semelhantes à esquerda e à direita, e dentro de cada um havia um dissidente como ela. As heresias eram diversas, mas cada um sabia o bastante para informar aos recém-chegados o que estava por vir.

"Não há monstros na Prova do Zelo", disse um deles, à esquerda de Samut, "Os monstros que os iniciados enfrentam na Prova final são os próprios dissidentes."

"Tudo que eles nos dizem é mentira." Samut balançou a cabeça, que batia nos dois lados da prisão.

"Os iniciados enfrentam dissidentes e hereges para comprovarem sua fé. Eles virão nos buscar em breve, para que sejamos os próximos."

"Eu acho que seremos os últimos", disse outro, à direita de Samut. "O segundo sol está a poucas horas de seu zênite."

“Que ele retorne prontamente!”, alguém disse ao longe.

"Cale-se!", Samut ouviu de ambos os lados.

"O Faraó-Deus não é deste mundo", disse Samut. Os outros se calaram para ouvir. "Eu vi os templos antigos. Nossos deuses são reais, mas ele não é."

Os outros continuaram em silêncio. A voz de Samut assumiu um tom grave.

"Se for nosso destino salvar o nosso mundo quando ele voltar, preciso salvar a vida de um acólito."

"Por que um?", perguntou uma voz à esquerda.

"Ele é forte e com muita convicção", ela respondeu. "Se existe alguém capaz de convencer uma divindade de que ela foi enganada, esse alguém é ele. Se eu puder convencê-lo, ele será capaz de qualquer coisa, e nós poderemos viver nossas vidas livres da influência do intruso."

Samut sabia que Djeru a odiaria por isso. Ela sabia que ele lutaria e cuspiria e provavelmente tentaria matá-la por estragar a morte dele, mas era necessário. Ela não podia enfrentar tudo isso sem ele.

O dia quente havia dado lugar à uma noite fria, e a pele de Samut estremecia quando ela se encostava nas paredes do cárcere. Dormir era uma esperança em vão, e ela sentia câimbra nos músculos por se manter parada e afastada do frio do sarcófago.

Eles virão pela manhã. Ela será levada à arena. Ela finalmente poderá convencer Djeru, eles sairão de lá vivos, e os dois derrotarão o intruso que arruinou o mundo deles.

A insônia de Samut foi interrompida pelas vozes do lado de fora.

"Quando Nissa tentou seguir os rastros dela, nós chegamos até aqui—"

"Aquilo são mãos—"

"Esses não estavam aí antes. Tem gente dentro, espera aí—"

Samut sentiu cheiro de algo queimando e sentiu as paredes do sarcófago se abrindo. A prisão caiu, e Samut piscou várias vezes, tentando entender o que via. Diante dela, havia dois estranhos: uma mulher de cabelos vermelhos e um homem alto e robusto.

Aquelas não eram as pessoas que iriam levá-la para a Prova final. Não, Samut pensou, não era para ela ser libertada!

Samut começou a correr, mas acabou tropeçando nas próprias pernas dormentes e exaustas. Ela foi detida por aquele que a libertou do cárcere, um homem que se apresentou como Gideon. O homem explicou que ele e os amigos a viram dias atrás correndo dos guardas e, por isso, vieram salvá-la.

Samut quis rir da arrogância dele. Em vez disso, ela perguntou por que eles precisavam justamente dela.

A mulher que o acompanhava se apresentou como Chandra e pediu para Samut explicar o que ela quis dizer, dias atrás, quando tentou alertar o povo sobre as mentiras das Horas.

Deixando de lado a confusão sobre como eles conseguiram encontrá-la, Samut contou aos estranhos o que ela havia descoberto. Ela contou sobre as tumbas vazias, sobre como aqueles que morriam na Prova do Zelo eram levados para outro local, sobre a dança dela, e sobre as gerações mortas antes de tudo isso. Ela observou os dois estranhos se entreolhando, assentindo e buscando ajuda. Eventualmente, mais três estranhos chegaram e se juntaram a eles. Eles trocaram informações e tentaram calcular quanto tempo tinham antes do retorno do Faraó-Deus.

Samut tentou gravar os nomes, ao ser apresentada a Nissa, Liliana e Jace. Ela se juntou ao grupo para ajudar os outros dissidentes a saírem dos sarcófagos.

Jace se dedicou a esclarecer os fatos para a nova aliada. "O Faraó-Deus é um dragão de outro mundo, Samut. Creio que ele tenha vindo para cá em um momento de desespero. Caso contrário, ele próprio teria criado um lugar."

Nissa contou ao grupo o que ela havia encontrado nos muros de Nactamon. "Eram oito deuses, agora são cinco. Não sei ao certo o que houve com os outros três, mas os deuses sobreviventes foram todos adulterados de acordo com as intenções de Nicol Bolas."

"Os iniciados matam uns aos outros na Prova da Ambição", disse Gideon, em uma voz carregada de confusão. "As Provas são feitas para produzir mortos. Aqueles que morrem na Prova do Zelo são levados para um local separado. Ainda não descobri por quê."

Liliana respirou fundo.

"Meu terceiro demônio está aqui."

Todos se voltaram para ela. Samut não fazia ideia do que a mulher quis dizer, mas os outros ficaram em silêncio e pareciam furiosos.

"E você não contou pra gente?", Chandra perguntou, fumegante.

Nissa estreitou os olhos. "Você pretendia mesmo nos ajudar com Nicol Bolas ou era essa sua verdadeira motivação?"

Gideon se virou para o homem de azul. "Jace, você sabia disso?"

O homem pareceu visivelmente desconfortável. ". . . É uma motivação secundária para o nosso grupo. Quanto mais rápido Liliana se libertar de seu contrato, mais rápido ela poderá lutar com capacidade total—"

Nissa balançou a cabeça. "Jace, isso vai contra o nosso propósito."

Chandra foi direta. "Para alguém tão esperto, você parece pensar demais com todas as partes do seu corpo, menos com seu cérebro, idiota—"

"Liliana, você espera mesmo que o grupo abandone nosso objetivo e lute suas batalhas por você?" Gideon perguntou olhando para a mulher vestida de roxo.

Ela levantou o queixo e colocou a mão dentro do bolso direito, distraída. "Sim, porque você não podem derrotar Nicol Bolas sem mim!

"Parem!" Samut interveio. Os outros olharam para ela, cheios de raiva. Ela acalmou a voz e olhou nos olhos de cada um dos forasteiros.

"Quero deixar uma coisa clara", disse Samut. "Não temos tempo para discutir. Só temos tempo de ir para a Prova do Zelo e salvar a única pessoa que pode me ajudar a libertar Nactamon. O Faraó-Deus não está aqui, e não sabemos do que ele é capaz até que ele chegue. Todos vocês irão me ajudar a resgatar meu amigo, porque nenhum de vocês tem algum outro tipo de plano. Entenderam?"

Os outros cinco assentiram em silêncio.

"Ótimo."

Gideon deu um passo à frente. "Eu juro ajudá-la a salvar a vida do seu amigo."

Ele faz promessas rapidamente, pensou Samut. Ela assentiu com a cabeça.

E congelou.

Elas os sentiu antes mesmo de vê-los.

Os deuses.

Todos eles.

Andando um lado do outro, eles se aproximavam, Hazoret à frente, e os demais logo atrás. Os outros quatro devem ter vindo para ver o espetáculo, para ficarem juntos, agora que o Faraó-Deus estava quase chegando.

Samut se sentiu compelida a ficar parada em silêncio. Os outros mortais sucumbiram ao mesmo feitiço.

"Dissidentes. A hora de vocês chegou", disse Hazoret, com a voz dura como aço. "Venham e enfrentem os últimos iniciados na Prova final."

Uma névoa cobriu o grupo, e tudo ficou escuro.


Hazoret the Fervent (Invocation)
Hazoret, a Fervorosa (Invocação) | Arte de Joseph Meehan

Os dissentes acordaram com cártulas de controle penduradas no pescoço. Estavam em pé, imóveis como cadáveres, no centro de uma grande arena. Os sóis gêmeos brilhavam com força total, e o suor escorria pela nuca de cada um.

Samut, Chandra, Jace, Gideon, Nissa e Liliana foram forçados a entrar em um ringue, cada um virado para o lado de fora. No outro lado da arena havia uma grande plataforma e, acima dela, estava Hazoret, Deusa do Zelo, ladeada pelos outros quatro deuses de Amonkhet.

Era difícil encarar o panteão. Olhar para eles enchia de vergonha os corações dos dissidentes. Somente Samut olhava nos olhos dos deuses. A ira em suas entranhas não era contra eles, e sim contra aquele que os havia corrompido. Os deuses dela eram bons. Eles eram bons. O que foi feito com eles era um pecado acima de qualquer pecado. O intruso iria pagar, quem quer que fosse ele.

Nas tribunas ao redor estavam os ungidos, silenciosos e imóveis. A serenidade respeitosa dos antigos iniciados enchia Samut de temor. A presença deles era um lembrete do futuro especial que esperava por aqueles que participavam da Prova final.

Abaixo da plataforma dos deuses estavam quatro iniciados. Todos tensos de expectativa, desesperados para vencer.

Enquanto os outros dissidentes permaneciam congelados pela magia dos cártulas, Jace preparava um ataque psíquico na cártula pendurada em seu pescoço. O objeto o havia deixado imobilizado e mudo, mas sua mente estava livre para lutar.

Jace, acho que já dei um jeito.

O puro frescor da voz de Nissa na mente de Jace desviou a atenção dele. Ele moveu os olhos para a esquerda e viu a mão de Nissa estremecer, movendo-se contra o encantamento da cártula.

Como você fez isso? Jace perguntou na mente dela.

Ela respondeu dando de ombros mentalmente. São como linhas de força, ela pensou. Uma fonte de mana diferente, mas com o mesmo princípio.

Ela não teve tempo de dissolver o feitiço por completo. Hazoret ergueu a lança acima da plataforma e se pronunciou.

A voz dela ecoou como um sino por toda a arena.

"Iniciados. Diante de vocês estão hereges, almas condenadas que negaram seu Faraó-Deus e seus costumes. A tarefa de vocês aqui, na Prova final, é matar cada um deles."

Samut analisou cada iniciado diante dela, em uma busca desesperada por Djeru. Será que ele já tinha ido? Será que ela chegou tarde?

Não. Ali. No final. Djeru estava de pé, com a espada khopesh na mão, em sua posição habitual, imóvel. Ele parecia realizado e orgulhoso, sorrindo cheio de fé.

Graças aos deuses. Ele ainda estava vivo, e Samut pretendia mantê-lo assim.

Gideon o avistou ao mesmo tempo que ela. Ele sentiu um frio na barriga. Ele teria que matar Djeru, da mesma forma que Djeru havia matado piedosamente a safra dele?

No outro lado, Djeru viu Samut e sentiu o sangue ferver. É claro que ele teria que enfrentar sua melhor amiga naquele dia, o último que ele passaria naquele corpo. Era, de fato, o destino.

Hazoret abaixou a lança.

"Estamos a apenas alguns momentos das Horas. Que comece a Prova final."

A deusa ergueu uma mão, e sua marca da fúria da batalha apareceu ao redor da cabeça deles.

Samut havia estudado os efeitos da magia de Hazoret, é claro, mas experimentá-la era totalmente diferente do que ler sobre ela.

Ela precisava lutar.

Ela precisava vencer para satisfazer e conquistar a graça da filha escolhida do Faraó-Deus.

A magia de Hazoret era uma chama bem-vinda e zelosa na mente deles e um impulso de força em seus membros. Ela havia encantado a todos eles. Todos estavam sob o mesmo feitiço. Todos estavam compelidos a ferir, matar, abandonar a lógica e abraçar o fervor de Hazoret.

Não havia mais racionalidade.

Restava apenas a necessidade de lutar.

As cártulas de controle sumiram dos dissidentes e, ao recuperar os próprios movimentos, o grupo de hereges avançou.

Samut se lançou diante de Djeru em meio ao frenesi dos dissidentes que também avançavam. A magia que manipulava seu corpo e sua mente exigia a luta e a morte. Mas seu coração a lembrava de seu objetivo.

Ela tinha que manter Djeru vivo. A qualquer custo.

Jace foi o primeiro a tentar usar magia. Ele ergueu a mão, instintivamente, com a intenção de esmagar a mente do iniciado que corria em direção a ele. Quando a luz não apareceu e nenhuma mana veio ao seu chamado, ele arregalou os olhos de surpresa. O iniciado diante dele se inclinou para frente, o levantou e o lançou de costas no chão, deixando-o sem fôlego.

Chandra saltou habilmente sobre o corpo de Jace. Ela abraçou a magia de Hazoret com facilidade, e apesar de seu fogo não surgir, ela esmurrou e arranhou o iniciado em frente a ela com toda força. Ela ria loucamente. A sensação de libertação era incrível, e enquanto o iniciado que a enfrentava batia e chutava, Chandra saltava e se esquivava. No entanto, por mais que ela tivesse poder de fogo, lhe faltava treinamento. O iniciado acertou um soco em um de seus rins e outro em seu rosto. Chandra urrou de ira e se atracou com o iniciado no chão. Liliana se juntou a Chandra em questão de instantes, mantendo o outro iniciado no chão, com o rosto contorcido pela fúria de Hazoret, enquanto as duas mulheres se esforçavam ao máximo para lutar sem magia.

Nissa era a única que estava se saindo razoavelmente bem sem magia. Ela havia levado alguns socos do terceiro iniciado que a enfrentava, mas levantou Jace do chão e o lançou contra seu adversário. A marca vermelha de Hazoret brilhava forte e vibrante sobre a cabeça de Nissa, enquanto ela deu um grito de batalha de Joragan diante de Jace e do iniciado.

Gideon estava tão perdido quanto os outros, sem a magia. Ele corria, se esquivando e rosnando a cada passo em direção a Djeru, do outro lado da arena.

Samut, no entanto, era a mais rápida. Ela chegou até ele primeiro. Eles se olharam nos olhos. Por trás da magia, ela sentiu a surpresa dele.

Djeru avançou contra ela instintivamente com a khopesh, e Samut se esquivou com facilidade. Em menos de um segundo, ela saltou e se posicionou para que ficassem de costas um para o outro.

A compreensão dele foi imediata e silenciosa.

Ela iria protegê-lo. Eles lutariam juntos.

Gideon, marcado pela magia e descontrolado pela sede de batalha, encarou os dois amigos. Ele ergueu os punhos com falta de prática e uma abundância de músculos.

Djeru agarrou firme a espada e começou sua prece.

“Hazoret, Guardiã do Portão da Vida Após a Morte e favorita do Faraó-Deus”, Djeru clamava.

Ele gritava sua prece enquanto se movia, com pleno domínio no estilo de luta que tanto havia praticado e em perfeita harmonia com as habilidades dinâmicas de Samut.

Hazoret acompanhava os dois, enquanto Djeru orava em voz alta. A voz do iniciado era alta e firme, sincronizada com o movimento da batalha e entremeada pela respiração e pelo esforço.

“Contemple, poderosa Hazoret, o zelo de seus filhos!” Djeru gritou.

Ele brandou a khopesh, abrindo um corte fino e superficial no antebraço de Gideon, que arregalou os olhos, vendo o próprio sangue pela primeira vez—

“Minha prece final nesta forma física não será para mim. É para a pessoa que mais merece sua misericórdia!

A perna de Samut encontrou o rosto de Gideon, derrubando facilmente aquele homem alto e robusto no chão, esparramado—

Djeru continuou, ofegante de raiva e adrenalina. “Por favor, eu lhe imploro, perdoe Samut, minha mais cara amiga! Ela tem habilidades que não possuo, e seu valor é comprovado por seus talentos!"

Os dois se entreolharam brevemente—fala sério? Sim, é claro que sim, Samut—os dois corpos se moviam em meio ao caos, golpeando outros dissidentes, em uma sincronia perfeita, khopesh e chutes habilidosos, dançando lado a lado—

"Perdoe-a pelas intrusões! Perdoe-a pelas dúvidas!" Djeru suplicava, respirando ofegante.

Gideon limpou o sangue que escorria de suas feridas e gritou: "Você está jogando sua vida fora! Por que deseja morrer?!" Djeru o ignorou e acertou o nariz do forasteiro com uma cotovelada, um soco no rim e um corte em seu orgulhoso rosto—

"Contemple a fé de Samut nos antigos costumes!" Djeru pontuava a prece com um golpe de sua espada khopesh. "Veja como ela estudou nosso passado e tornou manifesta a cultura de nosso povo!"

Os pés de Samut quebravam ossos, e as mãos faziam florescer hematomas—ela havia nocauteado outro dissidente que avançava contra Djeru com uma lança—

"Por favor, conceda a Samut uma morte glorificada."

Os dois iniciados se entrelaçam na dança violenta. Empurrões, agarrões, ombros deslocados, cabeçadas—

A fúria no rosto de Djeru era banhada por suas mais sinceras lágrimas. "Não posso passar a vida eterna sabendo que ela não existe mais. Ela não pode sofrer o mesmo destino de Nakht."

O feitiço de Hazoret começou a se quebrar. O tempo começou a passar mais devagar. As cores e os sentidos normais voltaram, e Samut parou. Djeru estava vivo. Como ela poderia mantê-lo assim?

Djeru concluiu largando o khopesh no chão, uma rendição formal. "Ouça minha prece, Hazoret!"

"Estou ouvindo, Djeru."

A magia da batalha se dissipou.

A prece de Djeru havia terminado.

A deusa Hazoret estava de pé acima da arena.

"Aproximem-se, Djeru e Samut."

Ao redor deles, poças de sangue, os cadáveres de três iniciados (pescoço torcido, garganta aberta e corpo jogado na multidão). Os estranhos conhecidos como Sentinelas estavam vivos, piscando, confusos, percebendo que a magia deles havia voltado.

Djeru segurou as mãos de Samut durante o breve silêncio. "Samut, eu escolho esta morte."

Samut balançou a cabeça. "Preciso que você me ajude a derrotar o maior dos intrusos. Preciso que você me ajude, e não posso fazer isso se sua alma não estiver aqui."

"Nos veremos no paraíso, minha amiga."

Samut fechou os olhos, derrotada.

Djeru se virou para Hazoret e se aproximou.

A arena parecia infinita, o tempo parecia ter parado, e ele caminhava em silêncio pelo chão de areia e pedra. Toda a existência de Djeru se resumia àquela caminhada, colocando um pé após o outro para receber sua recompensa.

Samut não podia esperar. Ela não podia ficar ali parada. Não depois de tudo que ela havia feito para convencê-lo a ficar vivo.

Por favor se aproxime, Samut, filha de nosso passado. A voz de Hazoret era o calor de uma lareira aquecendo a mente de Samut. Ela seguiu o amigo e se viu ao lado dele diante da deusa.

Hazoret se inclinou para olhar para os dois. Ela falou primeiro com Djeru.

"Você não matou os dissidentes restantes."

Djeru engoliu em seco. "A Prova final não deve ser onde estes dissidentes encontrarão suas mortes. Eles desconhecem nossos costumes."

Hazoret moveu a cabeça para trás suavemente, aprovando.

"Você reivindicará seu lugar entre os eternos, Djeru?"

Lágrimas rolavam pelo rosto de Djeru. Uma morte gloriosa era tudo que ele sempre quis, tudo que ele sempre desejou. Ele fez que sim com a cabeça. Ele teria seu lugar. A morte dele teria um significado.

Samut sentiu o coração apertar ainda mais ao compreender o que precisava fazer. Djeru nunca a perdoaria. Como ele poderia?

Hazoret olhou para Samut.

"Somente se sua fé for verdadeira, você se mostrará digna, Samut. Você aceitará minha dádiva?"

Sem hesitar, ela balançou a cabeça.

"O maior dos intrusos está quase chegando", ela disse, com a voz fraquejando, olhando nos olhos de Hazoret. "Tenho uma missão para cumprir."

Hazoret reagiu com um pequeno suspiro desapontado. Os olhos de Djeru estavam vidrados, em choque e decepção. Ele não conseguiu reagir. Djeru apenas engoliu em seco e apertou o ombro da amiga. Um silencioso adeus.

Era demais para ele.

Samut exalou, trêmula. "Me desculpe, meu amigo. Espero que um dia você me perdoe."

Seu pedido de desculpa foi respondido por uma expressão confusa no rosto de Djeru.

"Aproxime-se, Djeru."

Djeru caminhou adiante e fechou os olhos, em reverência. Ele se ajoelhou e abriu os braços.

Hazoret ergueu a lança, e Samut fez das tripas coração.

Ele precisava sobreviver. Ele tinha que sobreviver. Não havia volta. Samut não podia perder outro amigo para uma morte sem sentido. Samut tomou impulso e avançou, contando com sua velocidade e precisão para intervir, enquanto Hazoret erguia a lança para trás.

A deusa arremessou, e Samut saltou.

Tudo aconteceu em um piscar de olhos.

Samut saltou sobre Djeru, caindo para o lado com ele, ao mesmo tempo que ela ouviu um estrondoso CLANG, e um clarão dourado irrompeu atrás deles.

Assim que ela caiu, Samut percebeu que o estrondo tinha vindo de Gideon, atrás dela. O forasteiro se interpôs entre os dois amigos e a lança de Hazoret, e sua magia dourada formou uma barreira entre ele e a morte.

Ele manteve a promessa, Samut pensou com um breve sorriso.

Sua alegria foi instantaneamente destruída pela expressão de surpresa do amigo, pressionado contra o chão embaixo dela.

Samut quis desesperadamente desviar o olhar. Ela não pôde. A traição dela estava clara no rosto de seu melhor amigo. Djeru tremia de fúria.

"Como você pôde?"

"Djeru, eu sei que não é isso que você queria—"

Como PÔDE?!"

Ele a empurrou de cima dele e desferiu um soco, do qual ela se esquivou com tanta facilidade quanto desviaria de uma pena caindo. As lágrimas se acumulavam nos olhos de Djeru, e Samut ouviu interjeições de surpresa vindo dos deuses na arena.

No céu, acima de todos, o segundo sol começava a se encaixar entre os chifres no horizonte, chegando ao tão esperado fim de seu ciclo.

Djeru não reparou. Ele tentou se atracar com Samut, em tentativas infrutíferas que foram dando lugar a soluços de agonia.

Os deuses começaram a caminhar em direção à saída da arena, com a atenção voltada para o céu.

Somente Hazoret ficou para trás, estranhamente atordoada pelo que havia acabado de acontecer. Ela segurava outra lança, com as mãos incertas.

Gideon, distraído, encarava Hazoret, com os dentes cerrados e os olhos vidrados. Ele abaixou o olhar, confuso, depois se virou para Djeru.

"Djeru", ele disse, "ela ia matar v—"

"EU SEI O QUE ELA IA FAZER!" Djeru cuspiu, com o rosto retorcido de fúria. Ele empurrou Samut para o lado e avançou contra o estranho. A invulnerabilidade de Gideon vibrava a cada golpe, e seu rosto expressava uma patética confusão por baixo da suave luz dourada de sua magia. Ele não tentou bloquear os golpes, apenas deixou Djeru continuar dando soco após soco.

"Essa era minha chance, e agora ela SE FOI! ELA SE FOI, SEU MALDITO!"

Gideon balançou a cabeça, sem acreditar, por trás de seu brilhante manto dourado de proteção. Samut viu que a resistência natural de Gideon estava deixando Djeru ainda mais furioso. Ela viu o quanto ele queria destruir aquela barreira, retalhá-lo, arrancar as vísceras e cobrir aquele escudo encantado com o conteúdo das tripas dele. Samut sentiu pena, mas não arrependimento. Ela sabia o quanto ele ficaria irado. Ela sabia que eles haviam arruinado a vida do melhor amigo dela.

Por fim, Gideon ergueu a mão diante dele para deter o ataque de Djeru. Ele não o tocou, apenas se afastou.

"Por que você quer morrer?!"

"Porque eu quero existir!" Djeru exclamou, soluçando.

Ele caiu de joelhos, aos prantos.

Tudo mais era silêncio. O único som na arena era o do guerreiro derrotado. Os outros intrusos assistiam de longe, em silêncio. Samut sentiu um nó na garganta. É claro que era aquilo que ele temia. Depois do que havia acontecido com Nakht, como poderia ser outra coisa?

O lamento de Djeru ecoava pelas centenas de ungidos nas tribunas. O mundo deixou de existir, e tudo que restava era o fracasso dele. O panteão de deuses atrás de Hazoret havia partido. Eles precisavam estar no rio Luxa. As Horas iriam começar.

As mãos de Samut tocaram os ombros de Djeru enquanto ele chorava.

Ela se abaixou junto dele e, em voz baixa, murmurou.

"Temos muito o que fazer e muita gente para ajudar. Foi para isso que você treinou, não para aquilo."

Djeru não conseguiu responder. Ele só conseguia chorar.

Samut continuou murmurando, "Temos que envelhecer juntos, Djeru. E algum dia, em um futuro distante, nosso povo terá vidas longas e plenas, e só então caminharemos pela eternidade lado a lado. Eu lamento que você não tenha conseguido o que queria, mas fico feliz que esteja aqui." Ela beijou a testa de Djeru, como agradecimento.

Ele sentia apenas pesar. Samut apertou o ombro dele.

"Vamos, Djeru, você precisa levantar agora."

Depois de alguns instantes, ele se levantou.

Ele lançou um olhar mortal para Gideon, que estava de cabeça baixa, com os olhos fixos no chão.

Você interveio, disse uma voz calorosa na mente de Samut. Ela olhou para cima e se deparou com Hazoret. Samut assentiu com a cabeça.

O que tem a dizer em sua defesa?

”Eu acredito em você, Deusa das Dádivas”, disse Samut. ”Acredito que você não seja o que é forçada a ser. E que protegerá seus filhos no momento que mais precisarmos de você.”

Hazoret ficou parada. Insegura. As orelhas dela se mexeram e foram iluminadas pelos dois sóis.

"As Horas começaram, Hazoret", Samut disse em voz alta.

Um forte som de trombeta ecoou pela cidade, reverberando na estrutura da arena.

Samut, as Sentinelas, Hazoret e um arrasado Djeru olharam para o céu, enquanto uma sombra cobria tudo, como uma nuvem passando sobre eles.

A sombra projetada pelo segundo sol começou a engolir lentamente a arena. Todos eles assistiram parados enquanto a escuridão deslizava de um lado . . . até o outro.

Por fim, a visão deles se ajustou à mudança de luz. O mundo estava agora à meia-luz, com uma tonalidade sinistra do que era antes.

"Começou. As Horas começaram!" Hazoret passou por cima de Samut, Djeru e Gideon, com seus olhos aguçados fixos no horizonte.

"Vamos, Djeru, temos que ir." Samut passou o braço por trás dele para carregá-lo.

Djeru limpava as lágrimas. "Ainda há uma chance. Se as Horas começaram, o Faraó-Deus ainda poderá nos agraciar."

Samut balançou a cabeça e ficou de boca fechada. Sua pele estava arrepiada com o frio causado pela sombra do segundo sol.

Ela tremia de frio.

Fora da arena, eles ouviram uma multidão gritando, correndo em debandada, o mais rápido que podiam, para as margens do rio Luxa. O Portão da Vida após a Morte estaria adiante. De acordo com a primeira profecia no Tomo das Horas, o portão se abriria quando o segundo sol estivesse totalmente posicionado entre os chifres, revelando a promessa do Faraó-Deus.

"Djeru, temos que correr. Precisamos garantir que o máximo possível de pessoas sobreviva nas próximas horas."

O segundo sol não chegou a se pôr, mas agora sua sombra cobria a cidade toda, e tudo estava à meia-luz. Tudo estava gelado. Djeru nunca havia sentido frio antes.

"Samut, temos que ir para o rio. As Horas começam com a abertura do Portão da Vida Após a Morte. Ele está vindo. O Faraó-Deus terá misericórdia comigo!" Djeru começou a correr para a saída da arena, em direção à multidão de cidadãos em veneração no lado de fora.

Liliana, Jace, Chandra e Nissa correram para a saída.

Gideon ficou para trás.

Ele olhava para o antebraço e observava uma gota do próprio sangue escorrendo até sua mão.

Ele sabia que precisava correr e alcançar os outros. Mas estava atônito, olhando para o corte que Djeru havia feito em seu braço.

Seu sangue corria espesso e escuro sob a sombra do segundo sol. Escorria com facilidade.

O coração de Gideon batia em um ritmo ansioso dentro do peito.

Hazoret havia sussurrado em sua mente no momento que ele se entrepôs entre ela e Djeru. As palavras dela se repetiam na mente dele, sem parar, no ritmo de seu coração em pânico.

Não sou a primeira nem a última dos imortais que cruzarão o seu caminho.

Amaldiçoado seja o homem que se esquece do próprio passado,

pois eu vejo sua morte, Quiteon Iora.

Você não é um deus.

Gideon estremeceu com aquelas palavras enquanto assistia ao sangue do braço pingando no chão da arena.

Ele olhou para o sol passando por trás do chifre do imenso monumento ao longe, e o homem indestrutível sentiu apenas um horror sombrio e desolador.


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