Oculto Sob a Neblina

Posted in Magic Story on 10 de Outubro de 2018

By Nicky Drayden

Nicky Drayden is a systems analyst who dabbles in prose when she's not buried in code. She resides in Austin, Texas, where being weird is highly encouraged, if not required.

Uma mosca de segurança com asas prateadas faz um zumbido perto da minha orelha, e eu resisto a vontade de mandá-la embora. Quem fez a magia nela fez um serviço porco, provavelmente um mago mental do primeiro ano. Parece que o inseto passa mais tempo me encarando do que me ajudando a localizar carregamentos de armamento. Nas minhas primeiras semanas trabalhando nas docas eu não encontrei muita coisa, mas agora não passa um dia sem que eu encontre um caixote cheio de maças de batalha encrustadas com joias, ou armaduras de osso entalhado, ou facas embebidas em veneno. Há tensões cozinhando em fogo baixo em Ravnica, tenho certeza - mas a Casa Dimir não espera que eu pense. Eles esperam que eu trabalhe disfarçado sem ser pego. Com dúzias de caixotes empilhados, entulhados em um labirinto de passagens estreitas, meu serviço é simples — pé-de-cabra na tampa rapidinho, romper o selo mágico do caixote o suficiente pra deixar o inseto voar para dentro, e assim que ele voar para fora, repetir tudo na caixa seguinte . . . só que desta vez um vislumbre para dentro da caixa me chama a atenção.

“Uísque Contraforte do Sul,” dizia o rótulo, e sem pensar duas vezes a garrafa de uísque está nas minhas mãos. Cara, encantada, e envelhecida em cascos feitos de árvores mileniais escalfadas de florestas Selesnianas. Imoral? Talvez. Lucrativo? Com certeza. Bem feito por não fecharem a caixa com uma mágica mais forte. O inseto chilreia para mim, me manda seguir em frente, mas é tarde demais. Minha mente já está imaginando a pilha de zinos de ouro que eu posso conseguir por ele. A garrafa longa e esguia caberia direitinho no meu casaco de chuva. Ninguém iria notar. De repente o inseto assobia, e então eu olho para cima, agora já ouvindo perfeitamente os passos que se aproximavam, sons que eu devia estar prestando atenção. Desleixado, Merret, desleixado. Um turbilhão de névoa me obscurece do campo de visão, e naqueles momentos de tempo que eu ganhei, enfio a garrafa de volta em seu ninho de feno, fecho a tampa gentilmente, e depois tento parecer pouco suspeito.

“Ah! Merret!” Diz o meu chefe, Grimbly Wothis, com braços cruzados sobre o tórax amplo e chifres raspando nos caixotes empilhados por onde passava. Ele é metade homem, metade touro, totalmente afiado. “Exatamente quem eu estava procurando.”

“Senhor?” Digo eu, evitando contato visual, tentando mesclar com meu entorno. Querendo poder ficar invisível.

“A névoa está espessa demais, e eu tenho um investidor em potencial querendo ver o porto. Disperse para mim.”

“O Warwick não pode fazer?” Pergunto eu. Eu lido com um pouquinho de névoa, mas apesar de um ano inteiro de treinamento eu não tenho foco suficiente pra dispersar névoa do porto inteiro. Não consigo me concentrar o suficiente para infligir pesadelos ou expurgar memórias. Como agente disfarçado da Casa Dimir, não tenho muito mais a oferecer além da minha habilidade de trabalhar com um pé-de-cabra e má-fé.

Barreira de Névoa
Barreira de Névoa | Ilustração: Tianhua X

“O Warwick já foi. O Bender também. Só tem você.” Ele me olha de cima a baixo, com as narinas expandindo. “Infelizmente.”

“Agradeço pelo voto de confiança.”

“O que você acha deste voto, então . . . você não dispersa a névoa e não recebe o pagamento de hoje?”

“Eu cuido disso, chefe,” resmungo. Devia ter pego a maldita garrafa. Não tem como eu conseguir dispersar toda esta névoa. As contas estão atrasadas, a mulher e as crianças passam fome. Mais um dia de pagamento travado e mais dívidas. Eu ando abatido até a beirada do píer mais profundo e me concentro em toda a magia em volta. Eu puxo ar, atraindo o poder como se fosse inspirar cacos de vidro, e depois solto uma força que sai de mim como um trovão contra os meus tímpanos, só que por dentro. Um turbilhão de névoa mal se dissipa até a metade do caminho até o outro lado do rio - o suficiente para revelar uma esguia escuna Simic com velas embelezadas em espirais, que cortava a água. Dois tritões escoltavam a embarcação, lado a lado. O que estava na frente se vira para mim, faz cara feia e pressiona a palma da mão membranosa contra o casco do barco. Em segundos, a escuna desvanece em ondulações verde-água cintilantes, impossíveis de distinguir da água agitada do rio a não ser que você soubesse exatamente para onde olhar.

Grimbly Wothis bate seus cascos, e sua gargalhada grave e retumbante ressoa quase exatamente igual ao retinir ao clarim que avisa da névoa. “Não vimos nada daquilo, vimos?” Diz ele, virando-se para seu investidor com seu sorriso arteiro e amplo. “A neblina é um fator-chave de vendas para os tipos de embarcações que navegam por essas partes, e como você vai descobrir logo, é um fator bem lucrativo. Amanhã eu te mostro o porto. Hoje vamos beber em honra ao início de uma nova parceria!” Grimbly Wothis dá um tapinha amigável com sua mão gigante e peluda nas costas do investidor, direcionando seu caminho - mas não sem antes mirar um olhar gélido para mim, daqueles de esmigalhar a alma.


Meus pés sobem sem fazer ruído nos degraus molhados até o meu prédio, evitando esmagar as folhas caídas amontoadas nos cantos. Cortiços se amontoam, e suas torres se esticam para o alto como uma bocarra de presas esburacadas. O sol não bate aqui. Nunca. A Vila da Fechadura não é o pior bairro onde poderíamos ter acabado, de longe, mas às vezes o pessimismo me pega de jeito.

Nove andares de escada, espio para dentro de uma janela aberta. Nossa pequena cozinha parece que foi atingida por uma mágica de enfurecer, com tigelas reviradas e colheres espalhadas pelo balcão. A Tashi está equilibrando o bebê no quadril enquanto prepara bálsamos curativos leves, com uma mistura de araruta e tempero de varrasco para vender no mercado. Ela está trabalhando sob a luz fraca de uma única vela flutuando desconfortavelmente perto do tecido de sua capa — aquela verde, com as folhas douradas impressas na bainha. Eu meio que lembro dela cabendo direito, uma vez.

Eu giro a maçaneta e entro em casa. A Casa Dimir não sabe nada das armadilhas formidáveis que temos pelo chão. Blocos de madeira estão à espreita, prontos para empalar um pé descalço com suas quinas afiadas. Um xilofone de rodinhas, feito de costelas, oferece um meio rápido para quebrar um pescoço. Eu dou a volta neles, já é quase ensaiado agora, e me preparo para dar a notícia para a esposa.

“Merret! Finalmente,” diz Tashi, exasperada. Ela empurra o bebê para os meus braços, que já tem quase um ano de idade mas ainda está tão atarantado e apático quanto um recém-nascido. Ele quase não pesa nada, e seu nariz pinga catarro constante. Depois de dois segundos segurando ele e já escorreu por todas as minhas lapelas.

“Papai!” Soche, minha filha mais velha, vem correndo com tudo para me abraçar, batendo com o lado da cabeça bem na minha barriga. Eu mordo a dor e forço um sorriso.

“Soche, já não deveria estar na cama?” Pergunto eu.

“Eu queria ver você, Papai.”

“Foi boazinha com a sua mãe hoje?”

“Um terror absoluto,” minha esposa avisa. “Quebrou uma garrafa de essência de raiz de mat'ti. Tudo estragou! Onde vamos conseguir dinheiro pra substituir? Dinheiro para abastecer as lamparinas a gás, pra que eu não fique corcunda com essa vela o dia inteiro? Dinheiro pra alimentar o nenê?”

“Eu trouxe uma dúzia de maçãs ontem,” lembrei ela, esperando que isso atrase a próxima pergunta. Cadê o pagamento de hoje? O emprego nas docas pode ser um serviço disfarçado, mas o dinheiro é real e é a única coisa nos mantendo com a cabeça fora d’água.

“Estão moles, Merret. Fim de feira. O nenê come, come, e não cresce. Ele precisa de comida de verdade. Do tipo que se compra no começo da feira. Algo que encha a barriga dele!”

“A minha também!” Diz Soche, com tapinhas na barriga. “E a da mãe!”

“Já pra cama!” Ralha minha esposa, e pezinhos pequenos batem pelo chão de pedra. Soche engatinha para dentro do seu nicho de dormir ao lado da lareira apagada, e depois se enfia embaixo de uma pilha de cobertas puídas, e magias maltrapilhas de aquecimento deslizam por cima deles como tufos de pêlo.

“Eu . . .” Eu abro a boca, mas pela primeira vez eu noto como o rosto da minha mulher está afinado. Minha voz fica presa na garganta e as palavras não saem. “Eu não—”

“Consegue comida, Merret. Não me importa como.” Ela puxa o bebê dos meus braços e começa a encantar sua mistura de ervas novamente.

Eu fico ali parado por um momento, tentando entender como isto aqui se tornara a minha vida. A névoa vaza pela fenda sob a porta da frente, rodopiando em torno de mim como se a sonolência das ruas viesse puxar seu prêmio da minha casa. De dentro de mim.


Roubar no fim da feira não é nem de perto igual a roubar no mercado na Baixada da Fechadura. Ah, não, aqui é chique. Parece até que eu ganhei uma escolta pessoal, me seguindo a cinco passos de distância, com um sorrisão na cara. Eu tento despistá-lo, serpenteando pelos corredores, passando por uma vitrine com tortas de alce moído, por uma pilha flutuante de frutas sem manchas, e cestos com uma dúzia de larvas vivas diferentes para os viashinos perspicazes. Mas não importa o que eu faça, o cara do mercado ainda está perto. Acho que as mesmas cicatrizes que dizem “não brinca comigo” para os vendedores na Baixada gritam “ladrão” aqui nesse bairro chique.

Ilustração: Wesley Burt

Eu saio de mãos vazias, mas por sorte eu escuto aquela risada retumbante que me deixou desconfortável em tantas ocasiões. Eu olho para cima e identifico Grimbly Wothis e seu amigo investidor saindo de um apartamento quatro andares acima — de um edifício enorme, com cobertura ampla, e encharcado de feitiços de limpeza para ficar impenetrável aos grafiteiros. Eu sabia que ele morava por aqui, mas não imaginava algo tão legal. Lamparinas enormes de gás cortavam o ar obscuro, e sua luz cintilava nas insígnias prateadas que saltavam da pedra polida do edifício.

Eu observo pedestres passando entre os arcos de um mercado até o outro. Um indrik uivossauro enorme caminha penosamente pelas ruas, com uma focinheira mágica tão forte que eu consigo senti-la chiando de onde estou. Tropeis de trabalhadores se seguravam à rede de arreios amarrados nas suas costas, voltando para casa, vindos de distritos longínquos. Típico da hora mais movimentada da noite. Centuriões com armaduras de cota-de-malha e elmos com a luz do sol também estão de posto aqui, garantindo que o tráfego noturno se mantenha na legitimidade. Eu me escondo pelas sombras, e quando eu tenho certeza de que o meu chefe está bem longe a caminho do bar, eu me esgueiro para dentro da casa dele. O feitiço na porta dele é firme. Difícil demais para que eu consiga quebrar, mas minotauros são musculosos demais e cerebrais de menos para pensarem em si como alvos em potencial. Eu dou a volta no edifício, dou um salto para a sacada, e como esperava, encontro uma janela destrancada.

Eu passo para dentro como uma lâmina de neblina, com os pés mal tocando o piso de cerâmica rica. A dúvida me morde. Claro, eu já afanei uma ou outra coisa do mercado, e um ou outro bolso também, mas nunca fiz algo assim. Eu quase volto, lembrando do olhar decepcionado da minha mentora quando eu falhei em puxar um único fio de memória, depois de seis meses de estudo intensivo. “Talvez você não sirva para a Casa Dimir,” disse ela, para mim. Bem, ela não disse. Ela enfiou o pensamento dentro da minha cabeça, com a facilidade que alguém respira. E ele ainda está lá, bem na frente de tudo. Eu tento esquecer. Meu pai era espião. E três das minhas tias, e um dos tios. Espiar é um negócio de família. Eu consigo.

Depois de um corredor estreito, me encontro na cozinha. Uma lamparina a gás está queimando em fogo baixo, apenas o suficiente para jogar um brilho cálido e amarelado pela bancada. Lá, no balcão, uma cesta de pães. Eu pego um enorme, sentindo a sustância, parecendo um tijolo na minha mão. É perfeito. Mas ao lado da cesta, em uma prateleira de aramado, outra coisa chama a minha atenção. Elixires, uma dúzia deles. Eu puxo uma das garrafas, longa e retangular, feita com vidro espesso de artesão. “Elixir do Foco” dizia o rótulo de metal gravado. Lá dentro, um líquido azul brilhava como se estivesse banhado pela luz mais pura da lua. O pão é legal. Alimenta minha família hoje à noite, mas isto aqui . . . só algumas gotas desse elixir pode mudar as nossas vidas. Eu podia fortalecer minha magia, provar meu valor lá nas docas. Trabalhar para voltar a ficar bem quisto na guilda. Só algumas gotas. Meu chefe nunca notaria que eu peguei.

Eu puxo a rolha, e o aroma flutua bem pra dentro do meu nariz . . . um cheiro de algodão macio, como se fossem cobertores recém-lavados. Eu abro a boca, inclino a garrafa.

Uma gota.

Duas.

Só mais uma, pra garantir. Mas antes da última gota tocar na minha língua, as luzes acendem por completo. Meus olhos se arregalam e o elixir derrama todo em mim, passando para dentro do meu casaco. Eu fico lá, de pé, congelado como uma estátua quando uma minotaura entra na cozinha, com olhos semicerrados e rolinhos no cabelo, com um longo robe caindo quase até seus cascos. Nunca, nem nos meus sonhos mais malucos, eu teria imaginado que alguém em toda Ravnica aceitaria acordar ao lado do Grimbly Wothis todos os dias. Um espião de verdade dedicaria algum tempo para descobrir essas coisas. Como eu pude me enganar assim? Eu não sou espião, nem de perto. Eu mal sou ladrão.

Ela boceja, e eu vejo cada dente em suas gengivas. Nada muito ameaçador ali, mas eu tenho bastante certeza de que ela conseguiria me partir ao meio se decidisse. Eu ainda estou lá, completamente exposto, imóvel, sem nem ousar puxar névoa para me encobrir. Ela está metade dormindo, metade acordada, mas posso garantir que ela não vai continuar assim por muito tempo. Ela vai até o outro balcão na minha frente, pega uma tigela grande de metal, e a enche até a beira com grama e cevada. Depois, segurando a tigela com as duas mãos, começa a caminhar na minha direção.

Mas o elixir, eu começo a sentir o efeito. Pensamentos dispersos entram em foco, e eu começo a flexionar músculos que nem sabia que tinha. As pontas dos meus dedos brilham, e magias quase esquecidas estão na ponta da língua de repente. Eu puxo magia e a mente dela se abre para mim como se fosse um mapa. Uma puxadinha aqui, um empurrãozinho ali, e de repente eu sou invisível para ela. Ela está a centímetros de mim, mastigando, mastigando, mastigando . . . de boca aberta e com olhos distantes.

A culpa me toma. Eu desperdicei tanto do elixir. Devia pedir desculpas. Oferecer para pagar. Mas não podemos nos dar ao luxo de uma dívida dessas, especialmente não com o tanto que o marido dela me paga. Quando ele me paga. Além disso, se a Casa Dimir souber que eu sou ruim assim em espionagem, me desaparecem de vez. Estou fazendo a coisa certa, ficando calado. Mesmo se eu tiver que ficar aqui a noite toda. Eu prendo a respiração e seguro o pão contra o peito como se fosse a minha própria vida, reconfortado com o fato de que ele vai alimentar meu filho faminto em breve.


Uma explosão de magia irrompe de mim, a névoa salta para longe e pela primeira vez desde que eu comecei nas docas o rio está visível para todos os lados. Não é uma vista muito bonita — águas turvas, cheias de lixo e amontoados de plantas aquáticas invasivas. Não deixo de me perguntar se o mistério seria melhor para o Grimbly Wothis, ao invés do seu investidor ver a verdade nua e crua. Acontece que não é um porto muito legal, mas esse problema não é meu.

Eu fico impaciente, com todo esse poder nas pontas dos dedos, querendo me exibir um pouco na frente dos outros estivadores. O Yantis está operando a grua - um viashino com dedos pegajosos, o tipo certo para puxar alavancas e empurrar engrenagens. Mas a língua bifurcada dele já apontou uma meia dúzia de xingamentos reptilianos na minha direção, e parece ser a hora certa de fazer ele pagar. Eu repasso a magia de pesadelos que me ensinaram. Ela nunca materializou mais do que névoa antes, mas agora o Yantis tem feixes de vapor saindo pelo cérebro dele, esperando que eu dê um puxão. O poder grita dentro de mim, tão rápido, com tanta força, que eu não consigo controlar. O Yantis grita, lutando contra os vários nadas aterrorizantes bem na frente dele. A viga gira para a esquerda, a grua se solta e cai, rodopiando na direção do Grimbly Wothis e do investidor na beirada das docas. Meu chefe vê o caixote solto, vê o Yantis se debatendo, vê os últimos restos das magias de pesadelo flutuando dos meus dedos. Ele fecha a cara para mim e empurra o investidor no rio, no último segundo. Ele mesmo mal tem tempo de pular antes do caixote se chocar bem no lugar onde estavam.

Vidro ressoa ao quebrar, e o aroma pungente de um bom uísque preenche o ar. O inseto de segurança zumbe novamente no meu ouvido, com suas asinhas batendo e olhos apontados diretamente para mim. Não, não há nada encoberto em arruinar milhares de zinos em carga. Eu me retraio. Eu aguento perder meu emprego. Mas quando a Casa Dimir bater na minha porta, vai ser como se eu nunca tivesse existido. Hm. Como se fossem mesmo bater.

Eu corro pra casa o mais rápido possível. Teremos que juntar o que pudermos e deixar a Fechadura, talvez se esconder no velho Quarteirão Fantasma ou se refugiar nas ruínas do Mahovana, tomando as copas das árvores como nosso novo lar. Eu giro a maçaneta da entrada com tanta força que a tranca se parte, com remanescentes de magia fraca se dissipando como tufos pelo ar. Tashi está lá, de pé, segurando o bebê, com um sorriso gigante estampado no rosto.

“Merret! Merret, você tem que ver isso!” Ela me mostra o bebê. Ele está desabrochando. Com bochechas rechonchudas, seu sorriso gengival brilhando e uma fagulha inegável em seus olhos. “Ele está tão forte agora. Olha, os músculos. Acho que qualquer dia desses, ele anda.” E então ela me puxa para perto, me beija no rosto, dizendo como me ama e eu nem consigo explicar que nossas vidas estão para mudar - e não para melhor. “Tudo vai ficar bem,” diz ela, mas eu só estou olhando fixamente para a mancha de elixir azul no pedaço de pão que o bebê estava mastigando. Vendo como ele cintila levemente, como se fosse a luz do luar.

E então o bebê espirra, e cada vela no apartamento se acende em um clarão.

Alguma coisa aconteceu. Boa, ou ruim, não sei. Não há tempo para pensar com as batidas na nossa porta. Eu ponho meu peso contra ela. O Grimbly Wothis está do outro lado berrando sobre como ele sabia que fui eu quem causou o incidente, e que eu arruinara a carga e assustara o investidor. Dizem que tritões xingam como nunca, mas capatazes do porto ganham deles, com certeza nos cascos. Com a tranca quebrada, esta porta não vai segurá-lo por muito tempo. Eu sussurro para Tashi se esconder no balcão com o nenê, e para Soche se enfiar no nicho de dormir, e se manter escondida pelas cobertas. “Quanto a mim. . . Não há lugar suficiente no nosso pequeno casebre para se esconder. Não importa, porque quando aquele casco bate no chão, voam farpas e eu saio voando, caindo de queixo no chão.

Leva um momento para a neblina dentro da minha cabeça clarear, mas assim que consigo, eu me estendo para o espaço entre mim e o Grimbly Wothis, tentando puxar aqueles feixes mágicos, tentando me esconder da vista dele, mas é inútil. Agora, Grimbly Wothis está de pé sobre mim, com o cenho franzido e um olhar tão afiado quanto as pontas de seus chifres. Pedaços de madeira, restos de embarcações, estão presas no corpo dele, e o cheiro dele é uma combinação de pêlo molhado e rio fedido.

“Você me deve, Merret.” Ele dá uma olhada pela minha casa e ri com aquela gargalhada retumbante, como se a ideia de que eu tenha algo de valor fosse uma piada excelente. “Eu tiraria do seu salário, mas você passaria três vidas recuperando o valor daquele uísque. Aí eu pensei em descontar na sua pele, mas parece que você tem mesmo algo de valor considerável, afinal.”

Meu coração se aperta no peito, e não solta. Eu acompanho os olhos dele chegando até a cozinha.

“Eu faço qualquer coisa,” digo a ele, me tropeçando entre ele e o armário. “Libero o porto todas as horas. Turnos duplos. Minha esposa! Ela pode trabalhar, também. Vamos pagar o que devemos, eu prometo.”

“Eu vi pela janela o que a criança fez, o truque com as velas.” Seu casco chuta minha canela e eu me mordo para aguentar a dor. Outro chute, bem nas costelas, e eu me enrosco todo.

E então ele já passou por mim, escancarando a porta do armário da cozinha. A Tashi está lá dentro, soluçando, com o bebê dormindo no colo dela. Ver minha esposa sofrendo e meu filho em perigo me acendem uma fúria que me coloca de pé novamente. Eu conjuro a magia . . . antes era como uma tarefa enfadonha, como se fosse sugar um canudo rachado, com muito esforço, mas agora a magia entra em mim com um fluxo tão irrestrito quanto o do rio.

“Uma criança dessas vale alguma coisa,” diz o Grimbly Wothis, tentando tirar o bebê dos braços da minha esposa. Ela chuta, morde, grita, e agora o bebê está acordado, e aos berros.

As pontas dos meus dedos dançam com a luz, e os fios da mente do meu chefe se abrem para mim. Eu puxo e estico, tecendo um pesadelo especial para ele, construído com seus medos mais profundos. Agora Grimbly Wothis também está gritando, uma nota perfurante e perfeitamente afinada que sacode o vidro das nossas lamparinas. Ele luta contra os inimigos invisíveis à frente dele, tocando panelas e potes, derrubando cadeiras. Ele está dando passos fortes por todo canto, sem saber para onde está indo. Meus nervos se esticam quando esses passos se aproximam da pilha de cobertas onde Soche está escondida. Aqueles cascos . . . eu perco o foco por apenas um momento, mas é suficiente para que o Grimbly Wothis afaste os pesadelos e corra até o meu filho.

E assim o meu filho está nos braços do Grimbly Wothis, com as costas arqueadas, soltando um grito de partir o coração que me rasga por dentro.

“Como sempre, você não se concentra, Merret,” ralha Grimbly Wothis. “Mas agora, estamos quites.”

“Me devolve o meu f—”

Grimbly Wothis ergue a perna bem alto, e por um momento eu fico impressionado com a flexibilidade daquela musculatura toda, e então seu casco bate bem na minha boca, e o meu mundo explode de dor. Eu seguro o sangue com as minhas mãos, mas elas não conseguem segurar tudo. Eu devo ter perdido a consciência por um momento, porque o Wothis já está na porta, tentando manobrar seus chifres pela soleira, enquanto o bebê se debate e minha esposa está agarrada à pelagem nas coxas dele. Com uma sacudidela firme, ele a lança para longe. Ela sai voando e bate no canto de um dos armários. Algo se racha. Algo que não é madeira velha.

Eu me concentro o máximo que posso, ignorando os gritos do meu filho e os soluços horríveis vindos da minha esposa. Eu puxo a magia, tentando prender a garganta espessa do meu chefe, mas o fluxo voltou a ser pingado. Se ele sentiu algo, não é mais do que um arranhão na garganta. Ele tosse uma vez, e olha para mim. E ele ri.

“Vejo você nas docas amanhã, bem ced—” Ele arregala os olhos, e sua respiração fica presa. Eu olho para os meus dedos dormentes. Nem um suspiro de magia gira em torno de mim, mas o Grimbly Wothis foi pego pela mente, eu tenho certeza. Eu vejo um vislumbre daquela intensidade nos olhos do meu filho. Ele arqueja as costas novamente, estende os bracinhos e, de repente, some. Desapareceu. Completamente.

“O que você fez com o meu filho?” Minha esposa grita, segurando suas costelas quebradas.

Minha corajosa Soche já tinha saído do seu esconderijo e estava atirando blocos de madeira no Wothis. Uma delas dá bem no meio da testa.

“Pare! Vai atingir o bebê!” Digo eu, aos tropeços, tentando ver meu filho pela invisibilidade. Eu tateio os braços do meu chefe em busca dele, mas não há nada. O pânico me toma. Será que ele deixou o bebê cair?

Grimbly Wothis começa a tossir, puxando o ar intensamente enquanto recupera sua compostura. Seus olhos vermelhos me encaram. “Cadê o bebê?” Diz ele, como se me acusasse do desaparecimento da criança.

Estou com tanta raiva que não consigo pensar, e dou-lhe um soco direto no queixo. Suas narinas expandem, e seus olhos relaxam como se eu tivesse acabado de dar permissão desta briga valer tudo. Estou com os punhos erguidos, tentando empurrá-lo porta afora, e ele está tentando se empurrar para dentro, quando Tashi grita o nome do bebê e todos paramos para olhar.

O bebê está lá, sentado no chão. Ele tem arranhões nos braços e está segurando uma fruta estranha, roxa, com forma de estrela. Nunca vi nada igual. Ele a coloca na boca, e a pele amarga faz seus lábios fecharem com força. Ele larga a fruta, e se empurra, prestes a engatinhar. O Grimbly Wothis ainda está tentando forçar o caminho na minha direção, mas eu seguro ele com tudo o que posso. “Vai pra mamãe,” digo ao bebê. “Vai pra mamãe!”

Mas o bebê não está ouvindo. Seus olhos estão concentrados em algo no outro canto da sala. E então eu vejo a quase-sombra sentada na poltrona ao lado da lareira. Todos nós vemos. Ele. E eu noto no fundo do meu cérebro que ele esteve ali sentado por muito, mas muito tempo. Ele está coberto por uma longa capa de couro, feita da pele de alguma fera já extinta há anos . . . ele tem uma postura de realeza, mesmo no trono raquítico que é a nossa poltrona. Toda a magia no cômodo e neste bloco de apartamentos, talvez até no bairro todo, flui na direção dele, como uma cavidade que se abrira de repente no meio de um lago distraído. Eu sacudo a cabeça, tentando me livrar de pensamentos improváveis. Seria este o Lazav? Lazav, o Mentor, Líder de Guilda da Casa Dimir? Cada osso dolorido no meu corpo quer se prostrar na presença dele, apesar de que fazer isso seria a maior desfeita possível.

O bebê faz força mais uma vez, e de repente está de pé . . . cambaleando para frente e para trás antes de dar seu primeiro passo tímido. Ele sorri por um momento, orgulhoso de si mesmo, e depois dá outro passo, e mais um, até que o impulso o leva direto aos braços de Lazav. Ele ergue o bebê até o seu colo.

“Quaisquer débitos que Merret lhe deve serão pagos por completo até o fim do dia de amanhã,” diz Lazav para o meu chefe. “E em troca você não terá mais contato com qualquer membro desta família. “Não é verdade, senhor Wothis?”

“Quem diabos você pensa que é?” Diz o Grimbly Wothis, bufando e se endireitando com a cabeça para a frente, chifres prontos para a batalha.

“Ninguém,” diz Lazav, com a voz tão reverente quanto um sussurro, apesar de não ter afabilidade alguma. Ele acena com a mão e o cômodo começa a rodopiar, com magias prateadas e brilhantes girando pelas beiradas da minha casa. Eu me agarro ao chão, sentindo o peso do mundo sobre os meus pulmões. Tudo gira mais e mais rápido — mobília tremendo, janelas prestes a estilhaçar para fora de suas esquadrias. E então tudo pára de repente.

Por um longo momento só há um silêncio absoluto, e então o Grimbly Wothis murmura: “Certo. Tá bom. O que você quiser,” e cambaleia tonto para fora da casa, quase tombando pelo corrimão.

“Bem,” diz Lazav, sorrindo para mim com meu filho mordiscando contente um dos nós de seus dedos. “Este garotinho vai nos aturdir mais do que você nos desapontou.”

“Você não vai ficar com o meu filho,” digo eu, respeitosamente mas com firmeza.

“Não queremos o seu filho. Pelo menos não deste jeito. Ele fica com você. Você o criará como quiser. Mas em troca pelo pagamento das suas dívidas, gostaríamos de enviar uma tutora para a sua casa, para supervisionar o aprendizado dele. E claro, vamos dar a você um estipêndio modesto para que possa fornecer adequadamente às necessidades dele. E às suas.”

Meu queixo caiu. Eu me aproximo da Tashi, puxando-a gentilmente para perto de mim. Tento afastar um pouco da dor dela, e então só nos entreolhamos estupefatos, cada um pensando em perguntas para fazer e titubeando.

“O meu irmão é especial?” Vem a voz de Soche, um pio aterrorizado.

Lazav gargalha rouco, como pedras raspadas em costelas. Algo no meu cérebro torce para o lado, minha mente fica nebulosa, e de repente estamos todos rindo e a tia-avó Bea está sentada na poltrona, com o bebê pulando em seu joelho. A Soche está tocando música no seu xilofone, e a Tashi está na cozinha picando umas frutas roxas estranhas que ela deve ter comprado no mercado. Eu me aproximo dela e ela sorri para mim, me dando na boca um pedaço da polpa doce. Enquanto eu mastigo, meu queixo dói um pouco, como se eu tivesse levado um soco na cara.

“Tem certeza que está tudo bem se a minha tia ficar aqui por um tempo?” Pergunta ela. “Só até ela se recuperar? Ela não vai incomodar, e pode ajudar a cuidar do nenê enquanto eu trabalho um pouco.”

“Tudo bem, claro. Eu gosto dela," digo eu. “Tem algo especial nela, sabe? Aquela sabedoria que vem com a idade? Acho que vai fazer bem para a nossa família.”


Guildas de Ravnica Arquivo das Histórias
Perfil do Plano: Ravnica

Latest Magic Story Articles

MAGIC STORY

27 de Fevereiro de 2019

A Ascensão de Reza by, Nicky Drayden

Conto anterior: O Livro-Razão das Fortunas Ocultas Um aviso a pais e mães: observem que este conto trata de assuntos que possam ser considerados inadequados para leitores mais jovens. M...

Learn More

MAGIC STORY

20 de Fevereiro de 2019

O Livro-Razão das Fortunas Ocultas by, Nicky Drayden

Conto anterior: Princípios da Seleção Não-Natural Um aviso a pais e mães: observem que este conto trata de assuntos que possam ser considerados inadequados para leitores mais jovens. Da...

Learn More

Artigos

Artigos

Magic Story Archive

Procurando mais? Explore nosso arquivo e mergulhe em milhares de artigos sobre Magic escritos pelos seus autores favoritos.

See All

Usamos cookies neste site para personalizar anúncios e conteúdo, oferecer recursos de redes sociais e analisar o tráfico da web. Ao clicar em SIM, você consente que nós configuremos cookies. (Learn more about cookies)

No, I want to find out more