Os Momentos Preciosos da Morte

Posted in Magic Story on 7 de Novembro de 2018

By Nicky Drayden

Nicky Drayden is a systems analyst who dabbles in prose when she's not buried in code. She resides in Austin, Texas, where being weird is highly encouraged, if not required.

Eu enfio meu cajado no solo esponjoso, me preparando enquanto examino os chapeus revirados do fungo ninho de pássaro — o cogumelo mais cobiçado entre os xamãs Golgari neste outono. Somente três fazendas de podridão conseguiram cultivá-los, e a nossa foi a primeira. Até mesmo os espécimes mais sem graça valem até um zino cada. Este aqui esbanja um tom bronze-dourado impressionante, com meia-dúzia de esferas turquesa dentro que mais parecem ovos, mas ele não foi feito para adornar as vestes elaboradas do Submundo. Este fungo será coletado para a minha própria coleção.

Eu removo um frasco de colheita da minha bolsa e rodopio o elixir verde-musgo até que ele brilhe sob a luz da lua. Eu viro o frasco e deixo uma única gota cair sobre o chapeu do cogumelo. Por um momento, ela fica lá como uma gota de orvalho perfeita, e então uma rede de gavinhas brancas se expande dali, guardando o fungo em um casulo mágico que o preservará até o próximo plantio. Eu testo a dureza do casulo com uma batidinha de minhas quelíceras, e depois o guardo em um compartimento marcado cuidadosamente em minha bolsa.

Canções de insetos ecoam pelas paredes decrépitas dos canais que formam os limites de nossa chácara, abertas para o céu noturno lá em cima. Uma sinfonia de grilos e cigarras cantam em coro com os berros gargântuos de um golias da ponte mortífera ao longe. Até mesmo alguns de meus irmãos cantam junto. Ouço o trinado melódico das asas de Razi acima dos outros sons. Ela é a melhor cantora da família. A favorita da Mãe desde que saiu do ovo, apesar de ela nunca admitir isso em voz alta.

De repente, a música no vento muda, saindo dos chamados para romances noturnos nos limites do território Golgari para o chilrear ríspido e veloz das notícias do Submundo — um novo lich foi nomeado. Eu olho pela extensão vasta de nossa chácara, e todos meus irmãos também pararam de trabalhar, tentando ouvir claramente o que esperamos em nossos corações — que o novo lich seja kraul. Como nós. Mas não, é outro elfo. Meus irmãos voltam ao trabalho, mas eu não consigo me desligar do restante da mensagem: o lich está procurando por um aprendiz com proficiência em identificação de cogumelos e um interesse perspicaz em necromancia.

“Por que você quer trabalhar para um elfo?” Perguntou Razi naquela noite, depois de cuidarmos de todos os campos e voltarmos para o abraço e a segurança da Mãe. “Eles usam pedacinhos de nós nos cabelos, e pintam olhos em suas faces para parecerem insetos, mas na hora de liderar . . . quem escolhem todas as vezes?”

“E quanto a Mazirek?”

“O que tem ele? É só um sacerdote kraul entre dúzias de górgonas e centenas de elfos Devkarin.”

Eu torço minhas asas, produzindo um tom amargo de desprazer. Eu sei que Razi não se sente assim por Mazirek. Ela só está chateada porque eu quero sair de nossa chácara. Eu também ficaria bravo se ela me dissesse que iria embora para cantar na corte de Vraska.

“Você é a melhor cantora,” digo eu. “Eu mal consigo segurar uma nota. Ellin é o melhor voando,” eu mexo minhas asas, sendo que uma delas tem uma má-formação. “Eu não consigo nem me erguer do chão. Eu sei muito sobre cogumelos, mas só porque Kuurik ensina muito bem. Necromancia pode ser a coisa especial na minha vida. Uma profissão que deixe a Mãe orgulhosa de mim.”

“Ela tem orgulho de você. Ela tem orgulho de todos nós. Dá pra ver nos olhos dela.”

Eu olho para os sulcos profundos e escuros onde eram os olhos de nossa mãe, mas não vejo o orgulho; vejo somente o vazio. Nós guardamos seu exoesqueleto iridescente, bem polido, como um farol visível de um lado a outro da nossa chácara. Ela é a âncora da nossa família. É tudo para nós. Assim que saímos dos nossos ovos, nos alimentamos com os órgãos internos dela — carnes doces e nutritivas que fizeram nossas pequeninas formas larvais crescerem. Depois nós perfuramos sua carapaça e fizemos nossos casulos embaixo dela, e por semanas ela afastou predadores com suas quelíceras em puro altruísmo. Por fim, todos os cento e sete emergimos e nos banqueteamos com o que sobrara dela, até que seu exoesqueleto foi limpo e estávamos fortes o suficiente para cuidarmos de nós mesmos. Agora, sua carapaça gigante é nosso abrigo durante as horas do dia, com exatamente o número certo de cantos e sulcos para que cada um de nós tenha um lugar só seu. A Mãe sacrificou tudo por nós. Como eu não teria vontade de deixá-la orgulhosa?

“Só... Pense bem, Bozak. Por favor, tá? Vamos falar nisso amanhã à noite.” Riza boceja, esticada na curva de uma das mandíbulas da Mãe. “Até a morte, irmão querido.”

“Até a morte,” digo eu, desejando não apenas um bom sono, mas um adeus afetuoso. Assim que o sol do meio-dia brilha sobre as profundezas turvas dos nossos canais, eu embrulho meus mapas, meus diários, meus frascos, e minha bolsa para colheitas, me esgueirando para sair enquanto meus irmãos e irmãs sonham.


A majestade do Submundo é esmagadora, com vastos túneis de pedra ocultos por névoas e arcos de entrada gigantescos, como mandíbulas abertas para engolir a todos. Os demais competidores vieram com seus robes mais finos, estriados em lamelas de cogumelos laranja e turquesa, enfeitados com joias feitas de pedaços de carapaças que outrora foram de meus companheiros de espécie. Eu aperto meu cajado contra o tórax, sentindo-me inadequado usando um elmo folheado a bronze, um peitoral de placa decorativo e modesto, e nada além disso. O lich observa a cada um de nós, com uma palidez mortal espalhada pela pele. Seus olhos estavam leitosos, assim como os encantamentos de marca d’alma na testa dele. Suas vestes são uma obra de arte: teias negras e fluidas com trinta e uma espécies diferentes de fungos formados em um mosaico que complementava sua silhueta esguia e quase esquelética.

Há vinte e seis de nós, corajosos (ou tolos) o suficiente para tentar identificar e coletar quatro dos cogumelos mais perigosos em toda Ravnica. Eu melhoro minha postura, mantenho minhas antenas de pé e todos os meus joelhos travados . . . pronto para ser o primeiro a voltar com os quatro espécimes. Eu trouxe elixires a mais para selá-los, já que a exposição a alguns dos esporos pode levar a paralisia, asfixia, morte, ou algo pior.

“Apenas um entre vocês será considerado com habilidade suficiente para servir como aprendiz,” diz o lich. “Trabalhe com detalhismo, astúcia, e rapidez. Caso você pereça, reconforte-se na informação de que seu corpo dará vida para gerações de decompositores, cuja prole apodrecerá corpos no Submundo por milênios.” E então ele solta um lenço tecido com a seda de aranha mais fina, sinalizando o início da competição.

Esta é minha primeira vez longe da chácara, e eu não conheço bem os caminhos no Submundo, mas o lich foi bondoso em nos fornecer um mapa. A maior parte dos outros competidores sai, mas um momento a mais observando o terreno vai economizar dois momentos perdido nos pântanos. Enquanto projeto meu caminho, um elfo esbarra no meu ombro ao passar por mim, partindo o pergaminho frágil em dois. “Cuidado por onde anda!” Grito eu, dedilhando um xingamento kraul com minhas asas. Ele olha na minha direção, mal conseguindo me ver além do volume da ombreira de cogumelos que adorna seus robes de um tom azul berrante. A boca dele não está visível, mas pelas rugas que suas marcas d’alma projetam eu tenho certeza de que ele esbarrou em mim propositadamente. Não importa.

Localizar o fungo-zumbi é fácil. É mortal, sim, mas não exatamente incomum. Eles preferem crescer sob a sombra dos manguezais, e o mapa diz que tem um mangue não muito longe daqui. Eu corro por águas salobras, agachando sob vinhas, na direção do pelotão mais atrasado. Nós saímos por uma ponte levadiça de concreto para um charco aberto. O manguezal . . . é assombroso, por assim dizer. Troncos nodosos e espessos são mantidos por raízes empoladas, e copas retorcidas parecem mais com tranças verdes do que folhas. A maior parte dos competidores já está limpando as raízes da árvore — o lugar perfeito para que o fungo-zumbi cresça. Eu corro para perto deles antes que peguem todos os espécimes, mas noto que há algo errado. O musgo das árvores . . . está do lado errado. E essas raízes. Parece que vi uma delas se contrair.

“Espectros da Floresta!” Grito eu, chamando a atenção de uma górgona que passava correndo. Nós dois paramos, viramos e começamos a correr na direção oposta, avisando os dois elfos e outro kraul que estavam mais atrás.

Ouvimos o ranger de velhos galhos e o vácuo de raízes sendo puxadas do solo encharcado. E então, gritos. Muitos e muitos gritos. E então... silêncio.

Nós cinco não paramos de correr até estarmos do outro lado do charco, e depois de ter passado por vários túneis estreitos demais para a envergadura de um espectro da floresta. Por fim, nos acomodamos, resfolegantes e aterrorizados.

“Bom, com certeza não podemos confiar no mapa,” diz a górgona. O cabelo dela está eriçado, mas eu arrisco um olhar na direção dela só para ver com quem estou lidando. Ela é jovem, com pele em um tom de oliva escuro. Olhos sábios como se tivessem o triplo de sua idade.

“Não acredito que o lich nos colocaria numa situação dessas,” digo eu.

“Elfos Devkarin são babacas mesmo,” diz o outro kraul.

Os dois elfos empacam, provavelmente desacostumados a se verem em menor número. Eles saem amuados com alguns xingamentos e marcas d’alma raivosas.

“Não se preocupe com eles,” diz o kraul. “Zegodonis era o único elfo nesta competição que valia alguma coisa, e agora o espectro da floresta está palitando os dentes com os ossos dele. Um completo otário. Até para os padrões dos elfos.”

“Zegodonis?” Pergunto eu. “Aquele com os robes azuis berrantes e ombreiras gigantes? Com umas vinte patas de inseto no cabelo?” O elfo que rasgara o meu mapa.

“É esse mesmo. Da morte, a vida,” diz ele, cuspindo no charco.

“Da morte, a vida,” repito o dito Golgari, tentando acalmar os nervos. Mas eu não consigo parar de pensar em todas aquelas pessoas . . . mortas. Foi tão rápido. Se eu não tivesse esperado um momento para olhar o meu mapa, meus ossos estariam no fundo daquele charco também.

“Opa, qual é o seu nome?” Pergunta o kraul, para mim.

“Bozak,” digo eu, com um dedilhar de asas.

Ilustração: Wesley Burt

“Eu sou o Limin.” Ele sorri. Ele tem as asas mais incríveis, mas elas mal se mexem quando ele fala. Sem elas, as palavras dele parecem tão enfadonhas. Tão... élficas. Ele deve sentir minha inquietude, e oferece uma explicação. “Eu cresci no coração do Submundo. Lá você tem que se adaptar para sobreviver.”

“Entendo,” digo eu, apesar de não entender. Se eu tivesse asas como as dele, estaria dedilhando o dia inteiro. “Você?” Pergunto à górgona.

“Kata,” diz ela, sem se parecer impressionada. Ela desvia o olhar de mim como se fosse eu quem tivesse o poder de transformar carne em pedra. “Olha só. Fungo-zumbi.”

Mas ela tem razão; nem a seis metros de nós, há um pequeno amontoado do fungo crescendo sobre uma grade de esgoto. Cada um de nós coleta um espécime e o encharca com elixir de cobertura. Depois que o casulo endurece, eu encharco meu espécime mais uma vez, para garantir.

“Você salvou nossas vidas,” diz Kata depois de terminar de trabalhar com o cogumelo dela. “Estou grata por isso, mas não pense que vamos trabalhar juntos. Apenas um de nós vai vencer nesta competição.” Ela corre, deixando Limin e eu sozinhos.

“Faz sentido. Mas não quer dizer que não possamos fazer uma trégua temporária. Se compartilharmos informações e recursos, podemos praticamente garantir uma vitória kraul. O que diz?” Ele estica a mão, do jeito que os elfos fazem para firmar um trato. Eu seguro a careta enquanto pressiono minha mão contra a dele. De onde eu venho, um trato kraul é selado com um toque de mandíbulas. Talvez ele sinta que está se mesclando com o ambiente, mas eu me sinto um estranho no meu próprio corpo.


Juntos, coletamos espécimes jovens de cicuta verde que mal saíram do véu, e estamos firmemente à frente de Kata e de um dos elfos. O outro não está muito à frente. Ele olha para trás, tenta correr mais rápido, mas tropeça em uma raiz erguida e cai de cara sobre sua bolsa.

“Socorro, estou ferido” chama ele. “Limin . . . somos amigos, não somos? Praticamente crescemos juntos.”

“Ele furou o espécime do fungo-zumbi,” sussurro eu para Limin. Os esporos sobem na direção do rosto do elfo, mas ele não nota. “Precisamos voltar.”

“Será que avisamos?” Pergunta Limin. “Talvez ele possa—”

“É tarde demais.” Ele já parou de gemer. Ele fica de pé, e nós vemos o galho atravessado em sua bolsa de estopa, levando até sua cavidade torácica. Ele olha para cima, admirando as árvores em torno dele enquanto o sangue pinga por suas vestes. É como se a dor não o incomodasse.

“Qual dessas árvores parece mais alta?” Pergunta ele, com voz arrastada. Existem diversas variedades do fungo-zumbi, mas esta é a mais agressiva e a que age mais rápido. Já está reprogramando o cérebro dele para fazer a vontade do cogumelo. Seu corpo agora é um hospedeiro involuntário para a próxima geração.

O elfo escolhe uma árvore e a escala como se seu corpo tivesse sido feito somente para subir. Ele sobe até o topo e se prende lá. Daqui a algumas horas, cogumelos vão irromper de seus olhos, narinas, orelhas . . . alimentando-se lentamente dos tecidos dele até estarem prontas para chover esporos por todo o charco. Não sinto pena dele. É assim a vida . . . não é muito diferente do que eu e meus irmãos e irmãs fizemos com nossa mãe. Foi ela quem nos nutriu, que deu de si, mas ela não era nossa mãe biológica. Nunca a conhecemos. Ela depositara seus ovos sobre o besouro gigante e nunca mais dignou um pensamento para nós. Eu sei que a mente da Mãe fora comprometida, sussurros dos invasores que a compeliram a nos defender. Eu sei que os gritos dela não eram canções de ninar, mas ela nos ama. E nós a amamos. Nenhuma família é perfeita.

Estou tão absorto nas memórias do meu lar que Limin tem que me arrastar para longe. Trabalhamos juntos para obter o fungo presa-de-lobo crescendo em um toco de árvore que apodrecia no alto de uma escarpa dentro do território Selesnyano. As asas de Limin cintilam enquanto ele voa sem fazer esforço para coletá-los, enquanto eu jogo pedras no vorme adolescente que está tentando fazer dele um lanchinho. Finalmente chegamos no último espécime da lista.

Voltamos ao coração do Submundo, e minhas patas estão cobertas de musgo verde e brilhante até os joelhos. Eu faço pressão pelo charco, andando mais devagar ao notar que a canção dos insetos fica mais silenciosa - um aviso dos meus que algo perigoso está próximo. Tem um covil de cães musgosos mais à frente, com a entrada coberta de vinhas, líquen bioluminescente, e os cogumelos devora-anjo que estamos procurando. Um mergulho rápido na água, e eu ocultei meu aroma dos cães. Faço um gesto para que Limin faça o mesmo. Se estiverem dormindo, teremos uma chance.

Os chapeus são brancos, emplumados como asas de anjo, com micélios pretos e borrachudos logo abaixo. Eles não são venenosos como a cicuta verde e as presas-de-lobo. Estes aqui causam alucinações gravíssimas que levam você a matar quem estiver por perto, e você sai do transe uma hora depois perfeitamente bem, exceto pelo sangue de vinte e oito pessoas nas mãos.

Eu espio pela entrada da caverna, e três cães musgosos estão encolhidos nas sombras, e suas patas tremem como se estivessem sonhando — patas de obsidiana afiada encravando em carnes imaginárias, e latidos abafados vindo de suas bocas. Silenciosa e cuidadosamente, eu me estico para pegar os devora-anjos.

“Psst, Bozak!” Sussurra Limin. “Tem certeza que esses não são fungos pata-de-grifo?”

Um dos tentáculos de um dos cães musgosos se move, e eu imediatamente paro o que estou fazendo. Seguro minha respiração até que o tentáculo descanse. Com Limin voando logo acima da saída da caverna, em asas finas e brilhantes, eu só consigo pensar em como ele está espalhando seu cheiro e em qualquer segundo os cães musgosos vão notar.

“Tenho certeza,” sussurro. O pata-de-grifo é tão parecido com o devora-anjo que até alguns druidas de esporos experientes têm dificuldades de entender a diferença, mas meu irmão me ensinou a notar o formato ligeiramente diferente dos chapeus.

Eu coleto os cogumelos devora-anjo e os embalo cuidadosamente. Eu guardo minha amostra na bolsa de couro e entrego a outra para Limin. Limin pousa no charco, ao meu lado. Eu tento passar por ele, mas ele se põe no meu caminho. “Qual é o problema, Bozak? Com medo de não conseguir fugir de um cão musgoso?” Ele espia para dentro da caverna. “Ah, qual é. São praticamente filhotinhos.”

“Aham. Fácil dizer, para alguém como você.” No caso, alguém que consegue voar. “Agora, com licença, daqui para a frente é cada um por si.” Eu ouço mais passos chegando. Eu olho para cima e vejo uma silhueta com cabelos que balançam como um ninho de cobras. Kata nos alcançou. Górgonas são uma competição dura. Literalmente. E eu não pretendo pegar petrificação.

“Até a morte, e além!” Grita Limin, guardando seu cogumelo, e depois jogando uma pedra dentro do covil de cães musgosos. Ela atinge o meio da testa de um dos cães, e todos aqueles olhos brilhantes ficam alertas. Sua cabeça se ergue. O focinho se retrai em um rosnado. E então os outros dois cães estão acordados, rosnando logo atrás.

“O que você fez, Limin?” Pergunto eu, mas ele já está voando.

Os cães musgosos me encaram, se aproximando timidamente. Eu me viro e começo a correr, e é tudo o que eles precisam para me perseguirem.

“Cães musgosos,” grito eu para Kata, e logo estamos correndo, ombro a ombro, e os cães estão se aproximando.

“Consigo petrificá-los . . .” diz ela, resfolegante e quase sem conseguir respirar. “. . . se você conseguir alguns segundos para conjurar o feitiço.”

“Pensei que você não queria trabalhar juntos,” digo eu.

“Bozak, é sério que você resolveu ser mesquinho com cães musgosos tentando comer a gente?”

“Certo,” digo eu. “Eu distraio eles.”

“Me dá meio minuto, e depois volta para cá.”

Eu assinto e volteio minhas asas com um burburinho irresistível, e quando os cães me caçam, eu desvio por um bosquete de vinhas, e depois circundo o caminho de volta para Kata, e todas as gavinhas em sua cabeça se agitavam em puro incômodo. Ela lança seu feitiço e dois dos cães musgosos ficam mais lentos até congelarem, com bocas abertas em rosnados vis. A carne se torna pedra um centímetro por vez, mas não há tempo de assistir boquiaberto. Tem mais um cão vindo na minha direção e Kata está tentando conjurar mais uma vez, mas nada está acontecendo. De repente, o cão a alcança.

Não posso mentir . . . meu primeiro instinto é abandoná-la e seguir na direção da vitória, mas o que a Mãe pensaria disso? Esfrego minhas asas, criando uma linda canção. Insetos revoam na minha direção, um enxame de gafanhotos com dorsos prateados. Eu os atiço contra o cão musgoso, que para de atacar Kata, e começa a ranger dentes para afastar os insetos. “Vá, fuja!” Eu grito para Kata, mas ela teve outra ideia. O cabelo dela está agitado novamente. “Não!” Grito eu, mas é tarde demais. O terceiro cão musgoso se transforma em estátua, e com ele quase uma centena de gafanhotos. Eles caem ao chão como pedras roladas.

“O que foi? São só insetos,” diz ela ao notar meu olhar gélido.

Me preparo para contar a ela que são mais do que insetos, são os meus, mas eu noto que seu cabelo ainda está agitado. Para ela, eu também sou apenas um inseto.

“Apenas um pode vencer, Bozak. E serei eu.” Ela me olha fixamente. Suas pupilas dilatam até que seus olhos fiquem inteiramente pretos, e começa a aparecer uma luz leve nos cantos. Eu fico ali por um momento, chocado e imóvel, com a dor da confiança traída . . . mas o meu cajado pulsa contra a minha mão. Sua ponta é afiada o suficiente para perfurar carne, talvez. Eu me movo rapidamente e ponho o cajado para a frente. Ele pega a górgona no abdome. A luz nos olhos dela diminui, o feitiço é solto, e a dureza que começara a se formar nas minhas juntas começa a amainar.

Ela fica deitada lá, agarrando o cajado no ferimento de entrada, tossindo sangue. Meu cajado brilha, quase parecendo avivar com magia. Minha mente muda . . . e eu agarro o cabo, passando a mão pela curva externa perolada e nas estrias negras da curva interna. Eu mesmo o entalhei de uma das patas da Mãe. Qualquer resquício de magia que continha se foi, agora; o último presente dela. O incentivo dela me impulsiona, e minha mente tem somente um objetivo. Vencer.

Com todos os cogumelos guardados em segurança em minha bolsa de couro, tudo o que preciso fazer é voltar para o lich antes de Limin. Posso não poder voar, mas não preciso quando tenho insetos do meu lado. Eu esfrego minhas asas e solto um murmúrio grave, imitando o chamado de acasalamento do golias da ponte mortífera. O chão treme e quando vejo, tem um besouro gigantesco correndo bem na minha direção. Ele está confuso ao ver a mim e não a uma chance de acasalar, mas agarro sua pata e me seguro pela minha vida enquanto ele caminha penosamente, ganhando um tempo valioso. Vejo Limin à frente, e estamos nos aproximando, mas então a fera desvia e sou forçado a largá-la. Ainda assim, estou perto o suficiente para ainda ter uma chance.

E então, saído do pântano, uma figura coberta de musgo se ergue segurando um cajado em ambas as mãos. Ele bate em Limin quando ele passa, quebrando duas patas e parte de uma asa. Limin cai às cambalhotas na água pantanosa, gritando quando a figura puxa sua bolsa. O assaltante então olha para mim . . . orelhas élficas e marcas d’alma são visíveis pelo musgo áspero e verde em sua pele. Metade de seu rosto está coberto de farpas, e seus robes azuis berrantes estão esfarrapados.

Zegodonis. De algum modo, ele sobrevivera ao ataque do espectro da floresta. Nós corremos, eu o mais rápido que consigo, e ele mancando logo atrás. Ele me xinga, usando cada nome kraul que ele consegue lembrar, mas eu me mantenho de olho no prêmio. O lich está lá, não muito longe. Eu o alcanço primeiro, e instantaneamente me sinto coberto pela conquista. Eu consegui!

“Meus parabéns,” diz o lich, e sua voz morta combina perfeitamente com o resto de sua pessoa. Ele examina meus espécimes duas vezes antes que Zegodonis nos alcance, coxeando.

“Meus parabéns, também, a você.” Ele pega a bolsa de Zegodonis, olha para dentro. “Os dois completaram o desafio. E os dois devem servir sob minha tutela.” Os olhos do lich se iluminam quando ele olha para Zegodonis, algo que eu julgava impossível pelo olhar que ele me dera.

Devia haver um só vencedor, mas eu não ouso confrontá-lo. Ao invés disso, escolho saborear o momento e me concentrar em me tornar o melhor necromante possível.


“Não aqui. Lá!” Eu grito para o lacaio fungal pela quinta vez. Ele geme na minha direção, com membros cobertos por uma penugem branca e macia, com um grupo de cogumelos de caule longo nascendo de sua cabeça e ombros. O corpo dele se mantém inteiro por magia mortal e rizomas fungais que animam seus ossos, que ficaram sem tocar em carne desde o século passado. Lacaios são quase impossíveis de se trabalhar. Os zumbis Vetustos são decentes para receber instruções, apesar do lich não ter me encarregado de nenhum deles ainda. Mas eu gosto de observar como eles marcham em um ritmo de outrora, vestindo roupas finas empoeiradas com muitos frisos, babados e inúmeros botões de tecido costurados em seus coletes.

O lacaio fungal que chamo de Benzi coloca o cadáver que está carregando na pilha que está no canto do gabinete de estudos do lich e depois se vira para mim. Com os sulcos dos olhos na minha direção, ele aguarda afoito pela minha próxima ordem. Eu suspiro.

“Desculpe, Benzi,” digo eu. Não devia ter gritado. Fico frustrado e desconto nos zumbis, às vezes. Não é exatamente assim que eu tinha imaginado, ser aprendiz de um lich — cuidando de mortos-vivos ao invés de aprender a trazê-los dos mortos. O lich está em Korozda numa consultoria; no salão da guilda Golgari, e ele levou Zegodonis. De novo. Houve um ataque fungal na Morada do Sol. Três oficiais Boros de alto calão foram expostos ao mesmo tipo de fungo-zumbi que nos pediram para coletar. Eles subiram as torres do salão da guilda deles, e um deles realmente chegou no topo. Vraska, nossa líder de guilda, está preocupada que os Boros possam usar isso como outra desculpa para infiltrar o Submundo, e chamou os liches para conferir como seria melhor proceder. Eles vão passar horas lá.

O lich não gosta que eu esteja em seu gabinete de estudos, e ele me repreende se eu fico tempo demais quando levo cadáveres, então a maior parte do que aprendi em magia eu ouvi atrás da porta. Mas agora eu posso explorar com liberdade sem o risco de ser pego. Há mais e mais prateleiras com caveiras: Diabos Rakdos com chifres espessos e curvos, e sulcos oculares que emitem um brilho verde-esmeralda quando as luzes estão baixas; viashinos de focinho longo, minotauros, gigantes . . . subindo mais e mais até a caveira de um dragão, que agora serve como púlpito do lich. Os espécimes de cogumelos em suas paredes fazem a minha coleção empalidecer de vergonha. Deve haver milhares. A podridão no ar é tão espessa, tão abundante e decadente, que estou tentado a experimentar um feitiço de morte só meu.

Eu pratiquei os movimentos que vi o lich fazer, e eu me atiço todo quando o mana passa por mim, correndo pela minha pele como centenas de formigas. Eu luto contra a vontade de sacudi-las, e relaxo - deixando o mana fluir pelo meu braço, com a luz verde pálida se acumulando na palma da minha mão. Eu canalizo uma parte para o cadáver não muito fresco de um rato que encontrei enquanto limpava atrás das criptas dos Vetustos.

E então, eu assisto. A pata traseira do rato treme, mas nada além disso. Tenho certeza de que, se o lich tivesse me instruído, eu conseguiria. Zegodonis já aprendeu várias mágicas. Eu esperava que a necromancia seria meu chamado, mas talvez seja a hora de admitir que limpar teias de aranha das criptas e mandar em lacaios fungais é o que eu farei pelo resto da minha vida.

Ouço vozes pelo corredor. O lich. Ele já está de volta. Não posso deixar que ele me encontre aqui. Eu me agacho para dentro de um nicho nos fundos do gabinete de estudos, e depois vejo que Benzi ainda está me encarando, pronto para me entregar.

“Venha!” Comando a ele. Ele cambaleia na minha direção. “Mais rápido!”

Gritar nunca acelera nada. Eu corro e enfio ele no nicho. Ele geme.

“Shhh,” digo eu. “Finja-se de morto.”

Benzi obedece, um truque que eu o ensinara no nosso tempo livre. Ele desfalece, apoiando a cabeça contra a parede de pedra fria. O lich entra por sua porta privada, com dois soldados Boros que o seguiam. Eles se mantém com orgulho e firmeza, mas do jeito que seus olhos redondos giram para todos os lados, sei que estão com medo de estar aqui. O lich vai até os frascos com espécimes de cogumelos e escolhe os que tiramos da caverna dos cães musgosos.

“Devora-anjo. Talvez seja o cogumelo mais mortal em toda Ravnica. Não mata, mas força quem inalar seus esporos a abraçar sua fúria. Lembram do massacre na Rua do Estanho?”

“Sim,” diz um dos soldados. “Prendemos alguns saqueadores Gruul depois. Quer dizer que pegamos os criminosos errados?”

O lich ergue uma sobrancelha fina e pálida. “Já plantei um espécime neutralizado nas vestes que Vraska usará no pronunciamento de hoje à noite para os Krunstraz, no Forte Pendurado. Exumem os corpos do massacre e analisem os esporos. As evidências mostrarão que o ataque veio da mesma planta. Os Boros não terão escolha, senão acusar Vraska de assassinato. Dessa vez dará certo, prometo a vocês.”

“Vamos lá, entrar de penetra numa festa,” diz o soldado Boros.

“De fato,” diz o lich, com seus dedos magros unidos pelas pontas. “E espero que, quando chegar a hora dos Boros apoiarem um novo candidato para líder de guilda, considerem como ajudei vocês hoje.”

“Ah, acho que conhecemos o Devkarin certo para o serviço,” riem eles.

O lich sorri - um esticado angustiante de lábios ressecados que revelam uma expansão interminável de dentes acinzentados. “Zegodonis!” Grita ele. Zegodonis entra correndo. “Mostre a saída para estes bons soldados, sim?”

“Sim, meu lich,” diz Zegodonis, curvando-se exageradamente.

O lich examina sua pilha de corpos, e depois inicia suas mágicas de reanimação. Eu espio por um canto, observando como ele conjura, e um a um, cada cadáver volta cheio de vida. Espero, nervoso. Tenho que avisar Vraska.

Eu olho para baixo e percebo que ainda estou segurando o rato morto na minha mão - exatamente o que preciso para criar uma distração. Se eu conseguir fazer o lich olhar para um lado, eu consigo sair de fininho pelo outro. Eu encaro o rato, e conjuro a mágica como vi o lich fazer. A luz verde enche a palma da minha mão de novo, agora mais espessa - mais calda do que água. Eu encharco o rato com ela. Bigodes se movem. A cauda treme. Quatro pequeninas patas caminham pelo ar.

Eu puxo um cogumelo cauda-de-javali da minha bolsa, macio como queijo. Eu alimento o rato. Ele mordisca e enche a boca. Pedaços de cogumelo mastigado caem do buraco em seu abdome, mas não ele não parece notar. Com muito cuidado, eu jogo alguns pedaços do cogumelo aos pés do lich e depois coloco o rato no chão. Ele derrapa pelo piso, come os dois pedaços e depois morde o tornozelo do lich com vontade.

O lich se enfurece, e seu braço acaba por derrubar um grimório de seu púlpito. Pergaminhos antigos voam por todos os lados. Em meio ao caos, eu me esgueiro pelas sombras e saio pela porta. E então eu corro o mais rápido que posso até o Forte Pendurado.


Eu sinto centenas de olhos sobre mim ao me aproximar do Forte Pendurado. Eu estico meu pescoço, olhando para a fortaleza lá em cima, pendurada no teto como um ninho de vespa. Até mesmo daqui, ouço os cliques e zumbidos de outros kraul como eu, eriçados com a empolgação de uma visita de nossa líder de guilda.

“Preciso falar com Vraska,” digo eu para os guardas.

Espero que peçam credenciais, ou pelo menos perguntem por que estou aqui, mas o guarda apenas me olha de cima a baixo, decidindo que eu não poderia ser uma ameaça. “Apenas no saguão. Pode subir,” murmura ele, fazendo menção para a entrada mais baixa do Forte.

“Na verdade, podem me subir?” Ele dá uma olhada na minha asa torta e depois assobia para um guarda alado, que me toma nos braços para dentro do primeiro andar do Forte. Lá em cima há um grande átrio, com musgo em cores de joias descendo das saliências. A guarda real, esmagadoramente kraul, está em cada andar, e eu consigo sentir o zumbido coletivo em meu exoesqueleto. Sete andares acima, Vraska está inclinada sobre o corrimão, acenando para seus seguidores devotos. Eu aperto meus olhos. Acho que aquela é Vraska. Daqui, ela está do tamanho de uma formiga.

A multidão é tão grande... Nunca conseguirei alcançá-la a tempo. Os oficiais Boros já devem estar a caminho, então aconteça o que acontecer, tenho que fazer agora. Me forço pelo enxame até encontrar uma das janelas do Forte, um atalho útil até Vraska. Eu cometo o erro de olhar para baixo, com a tontura nublando meus pensamentos. Tudo o que eu preciso fazer é escalar sete andares, e eu sei exatamente como subir sem um pingo de medo.

Arpoador Kraul | Ilustração: Kev Walker

Eu puxo uma amostra de fungo-zumbi da minha bolsa, e a coloco na minha língua. O casulo derrete. Minutos se passam, e com eles, vai-se o meu medo de alturas. Não consigo pensar em nada além de como eu gostaria de chegar no topo do Forte Pendurado. Eu me espremo para fora da janela, prendendo pata após pata na estrutura externa. Eu subo sete andares, e depois forço meus pensamentos a afastarem os invasores fungais. Preciso parar de subir.

Mais alto, o fungo me diz.

Mais alto.

Mais alto.

Ele bate como o meu coração. Mas preciso entrar. Passo por uma série de câmaras nas coxias até encontrar o átrio. Vraska está lá, de costas para mim, dando um discurso apaixonado para o Krunstraz, seus cabelos balançando com selvageria. Uma dúzia de espécimes de cogumelos adornam suas vestes. Eu procuro pelo cogumelo devora-anjo. Vejo guarda-sois dourados nos ombros dela, chapéus-escarlate élficos no seu corpete, fungos clava-coral, mata-borrão . . . e bem ali, entre os fungos pata-de-grifo tecidos no trilho do vestido, eu vejo onde o lich escondera o cogumelo devora-anjo, ligeiramente mais alto do que seus vizinhos não-letais. Eu me aproximo, um passo de cada vez. Seus guardas e conselheiros estão com ela, mas só têm olhos para a multidão abaixo. Um de seus conselheiros se vira e me vê. Ele pede licença e começa a vir na minha direção. Leva um momento para que meu cérebro o identifique como kraul. E então o rosto dele fica óbvio. É Mazirek.

“Ei, você!” Diz ele.

Eu tento me recompor para contar sobre o meu lich e os Boros, e o cogumelo devora-anjo, e o golpe contra Vraska, mas o fungo-zumbi que comi recobriu todas as outras funções que não envolvessem subir e tudo o mais que eu consigo pronunciar é um resmungo incompreensível.

Mais alto.

Um guarda me pega pelo braço, puxando violentamente. Devia estar doendo pelo ângulo da torção, mas não doi.

“Tirem ele daqui,” diz Mazirek.

O guarda me empurra para a frente, mas eu concentro meus pensamentos. Se o fungo tirou minha sensação de dor, posso usar isso ao meu favor. Eu puxo contra o guarda, uma vez, duas, com violência suficiente para deslocar meu braço. Um latejo entorpecido aparece quando o braço é quebrado, mas estou livre e o resto não me importa.

O guarda fica lá segurando meu braço enquanto eu corro na direção de Vraska. Eu agarro o cogumelo devora-anjo em seu vestido e engulo-o inteiro. Não posso deixar que o encontrem aqui. Não posso deixar que os Boros agarrem o Enxame por dentro, logo quando estamos nos recuperando do caos com a mudança na liderança. Eu corro até a janela. Olhar para baixo ainda assusta, mas eu sei o que devo fazer. Eu bato as asas, e salto.

Talvez o que é excelente em mim é que há muitas coisas que consigo fazer suficientemente bem.

Consigo imitar o canto de acasalamento bem o suficiente para enganar um golias da ponte mortífera.

Consigo jogar uma pedra com precisão suficiente para atingir um vorme no olho a quinze metros de distância.

E eu consigo estender minhas asas e voar o suficiente . . . cair longe o suficiente do Forte, garantindo que Vraska não seja implicada no massacre da Rua do Estanho.


Eu tremo nas águas rasas de um charco do Submundo. Eu não esperei sobreviver à queda, mas talvez minhas asas tenham segurado o suficiente. Meu corpo lateja inteiro, não exatamente com dor, mas com uma pressão desconfortável como se eu estivesse segurando o fôlego por tempo demais. A vontade de subir passou. Pensei que talvez estivesse enfurecido com o cogumelo devora-anjo agora, mas talvez o lich realmente o tenha neutralizado? Para garantir, eu devia ficar em algum lugar longe de qualquer pessoa. Eu tento me sentar, mas duas de minhas patas estão quebradas e tem uma rachadura na minha carapaça, de fora a fora. Há outra coisa errada comigo — um fungo dentro de mim que é poderoso, preciso e observa meus pensamentos.

Eu mexo meu braço restante, mas não é o movimento costumeiro. Parece mais um esforço combinado, como quando meus irmãos e eu tivemos que erguer a Mãe para longe da beira do rio durante nossa primeira enxurrada. Meus outros sentidos começam a aparecer também, como se fossem processados e filtrados por cem mentes diferentes antes de chegar em mim.

“Leva. Tempo," diz uma voz ao meu lado. Muitas outras palavras tinham sido ditas, mas eu só consegui entender essas duas. Em um esforço coordenado, eu viro meu pescoço. Meus músculos se arrastam ao invés de apenas mover.

Ilustração: Svetlin Velinov

Minha visão está nublada, com pressão de material fúngico atrás dos meus olhos, criando raízes. Alguns dos cogumelos brotaram nos cantos e estragam minha visão periférica. Eu os toco, sentindo chapéus de ponta-cabeça com pequeninas esferas embaixo. Fungos ninho de pássaro. Será que minhas amostras se romperam na queda? Eles não são os cogumelos que crescem mais rápido, e eu começo a me perguntar por quanto tempo fiquei inconsciente.

“Cuidado,” diz a voz. Eu me concentro muito na pessoa, e vejo feições de kraul.

“Razi?” Eu digo o nome da minha irmã, mas quando eu tento dedilhar minhas asas, não consigo sentir nenhuma delas. Eu entro em pânico, tentando tocar minhas costas. Eu sinto tocos, cobertos com uma penugem macia.

“Asas. Perdidas. Queda.” A face atrás das palavras começa a coagular. Leva muito, mas muito tempo até que eu o reconheça.

“Mazirek?” Eu me levo a ele, atraído por anos de admiração, mas também fisicamente. Eu olho para ele como os lacaios fungais olham para mim, esperando ansiosamente por um comando.

Talvez eu não tenha sobrevivido a queda, afinal. Mas há lugares piores do que acabar ligado ao kraul mais poderoso do Enxame. Eu puxo minhas feições para formar um sorriso, completamente humilde e pronto para servi-lo da melhor maneira que eu puder.

Aquele momento que leva para que eu entenda tudo — esse é o momento da morte — não quando você dá seu último respiro, ou quando o coração bate pela última vez. É o momento quando você percebe que tem sua morte inteira pela frente, e as possibilidades são infinitas.


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