Retorno a Dominária: Episódio 11

Posted in Magic Story on 23 de Maio de 2018

By Martha Wells

Martha Wells has written fantasy novels, short stories, media tie-ins, and non-fiction. Her most recent works are The Harbors of the Sun, part of her Books of the Raksura series, and a science fiction novella from Tor.com, The Murderbot Diaries: All Systems Red.

O sol estava perto de se pôr quando o Bons Ventos passou a sobrevoar a costa para dentro de Urborg.

Gideon estava na ponte de comando com Liliana enquanto Jhoira guiava o navio voador sobre um pântano de charcos e canais cercados por ervas-daninhas e mato denso. Ruínas antigas estavam enterradas sob vinhas e musgos, o que indicava a longa história desta terra.

Eles já haviam passado perto de uma das ilhas externas, para onde Jhoira enviara sua coruja como batedora. Quando ela voltou, Jhoira explicou com seriedade: “O monumento aos caídos na invasão phyrexiana estava lá. As pessoas costumavam ir em peregrinação até ele, como símbolo de esperança em uma época terrível. Diziam os rumores que Belzenlok fez a Cabala desfigurá-lo, e pelo que minha coruja viu, o rumor é verdadeiro.”

“Eu também tinha ouvido essa história.” Teferi estava no outro lado da ponte de comando, de braços cruzados e o olhar fixo na selva pantanosa abaixo deles. Sua boca retorceu com desprezo. “Aparentemente a Cabala o chama de Tumba dos Tolos.”

Liliana fez uma careta. “Bom, meu símbolo de esperança é que quando a Lâmina Negra rasgar Belzenlok e drenar a vida dele, a dor será eterna e inimaginável.”

Jhoira sorriu. Teferi gargalhou e disse: “Eu gosto do jeito que você pensa, Liliana.”

Liliana o observou. “Não crie esse hábito; me conhecendo melhor, eu sou horrível.”

Gideon suspirou, e ela olhou feio para ele.

Enquanto o Bons Ventos voava mais para dentro do continente, a luz ia diminuindo gradualmente. O céu estava escuro com as nuvens de cinzas dos vulcões, e Jhoira baixou as luzes de navegação o máximo possível. Gideon conseguia discernir as estruturas Thran monolíticas, mas a maior parte das ruínas tinha o visual orgânico espiculado dos vestígios phyrexianos.

Swamp
Pântano | Ilustração: Titus Lunter

Algumas delas se erguiam acima das árvores em grandes formas circulares, outras tinham linhas retas difíceis de discernir sob a vegetação. As muralhas quebradas e torres eventuais marcavam os locais de cidades pequenas e grandes mais recentes, destruídas e retomadas pelo crescimento das plantas. Mas apesar de todas as ruínas, Urborg parecia longe de ser inabitada. Luzes de todos os tamanhos brilhavam sob árvores e vinhas, piscando rapidamente ou se movendo intencional e lentamente. Cada arbusto de vegetação parecia ser o lar de criaturas em constante movimento.

O humor geral dentro do navio estava sério enquanto eles sobrevoavam a paisagem sombria. Teferi e os outros desceram, mas Karn permaneceu na proa do convés, de guarda. Gideon ficou na ponte de comando com Liliana e Jhoira. Ele sabia que devia estar descansando antes da batalha de amanhã, mas ele não conseguia imaginar tentar dormir agora. Eles estavam tão perto do objetivo, tão perto deste último esforço antes de poder virar toda a atenção para Nicol Bolas.

“Tem certeza que esses amigos seus vão ajudar?” Liliana perguntou a Jhoira, parecendo apenas um pouco cética. Mais cedo, Jhoira tinha enviado sua coruja mecânica pelos pântanos para entregar uma mensagem aos seus contatos. “E não vão tentar vender a gente para a Cabala assim que nos virem?”

Jhoira ergueu uma sobrancelha, mas já estava acostumada demais com Liliana para se ofender. “Tenho certeza. Estou em contato com eles desde que decidi destruir a Cabala. Há muitos humanos vivendo aqui que se submetem à Cabala para sobreviver. Mas muitos lutaram e morreram tentando afastar as forças de Belzenlok das ilhas. Agora a resistência está concentrada em um lugar secreto. As pessoas com quem vamos conversar vêm de lá.”

“Ouvi falar das mudanças aqui, enquanto eu tinha meus próprios projetos. Ver em pessoa é bem diferente,” admitiu Liliana. “Claro, quanto mais soldados morreram nestas terras, melhor. Pelo menos para os nossos propósitos.”

“Já teve tanta morte em Urborg. Os guerreiros pantera já foram quase completamente extintos.” O rosto de Jhoira tinha um tom de tristeza. “E espíritos e liches construíram suas próprias cidades, pequenas e grandes, por todos os pântanos agora.”

“Espíritos?” Gideon franziu o cenho. “Dos mortos?”

“Sim, além de manifestações puras de magia sombria,” explicou Jhoira. “O número e a variedade de mortos-vivos aqui são quase infinitos.”

“Então eu devo me sentir bem à vontade,” disse Liliana, em tom seco.

A expressão sarcástica que Jhoira fez mostrava como ela sabia que não era uma piada. Ela adicionou: “A maioria não gosta da Cabala tanto quanto a gente, e eles têm que se defender contra os pesadelos criados pelas invocações de demência da Cabala — e outras ameaças.” Ela se inclinou para a frente, espiando pela escuridão e pelas brumas. “Minha coruja está voltando.” Sua face ficou imóvel enquanto ela se comunicava com o familiar. “E a resistência concordou em encontrar conosco.”

“Ótimo,” disse Gideon. Ele estava pronto para acabar logo com isto, e deixar esta terra estranha para trás.


Já estava escuro quando o Bons Ventos parou perto de uma pequena cidade na beira de um charco, semienterrada sob musgos e árvores em vegetação descontrolada. Tinha portões pesados e uma muralha de rocha, iluminada por uma variedade de luzes coloridas. O que Gideon conseguia enxergar do convés do Bons Ventos era extremamente curioso, com pontes que se estendiam entre formas arquitetônicas estranhas e o que parecia o campanário de uma torre caída de lado e formando parte de uma nova estrutura.

Os outros ficaram a bordo enquanto Gideon e Jhoira desceram uma escada de corda até a pequena clareira do lado de fora da cidade. Depois que tinham terminado de descer, um jovem jamuraano saiu das sombras. “Por aqui,” disse ele, guiando o caminho pela vegetação.

Gideon ficou preocupado em se afastar demais do Bons Ventos, mas eles seguiram por pouca distância até um abrigo. Ele fora construído onde uma grande árvore caíra sobre a curva de uma estrutura phyrexiana antiga.

Quatro pessoas esperavam ali, sentadas sobre uma esteira no chão sob a luz de uma pequena nuvem de bruma brilhante que flutuava ali perto. Dois eram humanos, mas os outros dois eram guerreiros pantera. Eram altos, magros e musculosos, com as cabeças e as faces dos felinos predadores esguios de onde vinha sua alcunha. Todos carregavam armamento pesado, além de uma mistura de armaduras de couro comum ou metal, além de enfeites cobertos por espinhos obviamente saqueados da Cabala.

A guerreira pantera fez um gesto para que se aproximassem. “Jhoira. Eu sou Sayrah. Você pediu a nossa ajuda.”

Gideon ficou de pé, de guarda, assim como o guia que virou-se de costas para o grupo e ficou de guarda, sob as sombras das árvores. Jhoira sentou-se e disse: “Agradeço por conversarem conosco.”

Sayrah inclinou sua cabeça, dizendo com um toque de ironia: “Quando ouvimos que Jhoira estava aqui com o navio voador lendário, foi difícil ficar longe.”

Jhoira não perdeu tempo. “Viemos para atacar a Fortaleza.”

Sobressaltada, Sayrah ergueu uma pata larga. “Se você veio em busca de guerreiros, somos muito poucos para ajudar.”

“Não, não vamos pedir a mais ninguém para lutar nesta batalha.” Jhoira se inclinou para a frente. “Só preciso de duas coisas. Primeiro, das roupas de um batedor ou cavaleiro da Cabala, de alguém que estaria procurando por pessoas para capturar para a arena de lutas da Fortaleza.”

“Isso nós podemos fazer facilmente.” Sayrah gesticulou para os outros, e um dos humanos ficou de pé e se esgueirou pela escuridão. “E a outra coisa?”

“Informação. Você pode nos mostrar em um mapa onde as últimas grandes batalhas de Urborg ocorreram?”

“Mais uma vez, é bastante simples.” Sayrah abriu um bolso em seu cinturão e puxou um mapa dobrado muitas vezes.

Algo se moveu na vegetação e Gideon segurou a empunhadura de sua espada. Mas o jamuraano disse: “Está tudo bem. É um espírito da cidade. Eles odeiam a Cabala e não vão nos trair.”

A figura que saiu das sombras era pequena e bulbosa, com cabeça achatada e pele cinza-escura. Ele parecia mais rolar do que caminhar, mas Gideon conseguia ver claramente que tinha pelo menos três pernas. Um olho girou até olhar para ele enquanto passava.


Pé-de-Limo mandou seus brotos ficarem sob o convés. Este lugar era estranho de um jeito próprio, ainda mais ameaçador do que a vastidão de água que eles acabaram de sobrevoar. Mas tinha algo nela que chamava o Pé-de-Limo, que relutantemente subiu as escadas até o convés. Arvad e Tiana estavam perto das escadas de corda presas ao guarda-mancebo, e os outros humanos estavam na proa.

Pé-de-Limo ficou nas sombras próximas da ponte de comando, mas foi se aproximando do guarda-mancebo aos pouquinhos, atraído por algum estranho impulso. Ele se esticou para olhar para baixo, para o verde emaranhado.

Na escuridão, formas brilhantes se moviam sob a vegetação. Algo disse: Quem é você e de onde você veio?

Pé-de-Limo respondeu: Eu sou o Pé-de-Limo, e eu vim do Bons Ventos. Quem são vocês?

Yxarit e Iyrgth e Syl-Spreita e — Pé-de-Limo foi esmagado por uma torrente de nomes. Mas o que é você? perguntaram as vozes. Você é igual a— As palavras viraram imagens, aromas. Folhas de verde vivo eram aquecidas pelo sol; flores e terra úmida e fértil.

Pé-de-Limo disse: Yavimaya. O Raff tinha dito que o Pé-de-Limo era de Yavimaya, e que ele e seus brotos deviam voltar para lá depois deles matarem Belzenlok. Pé-de-Limo não tinha certeza daquilo. O Bons Ventos era tudo o que ele conhecia.

Iyrgth disse: Tem algo de Yavimaya aqui, entrelaçado com o chão, de muito tempo atrás. Veio até aqui para lutar.

Viemos lutar contra o demônio, disse o Pé-de-Limo.

O demônio, o demônio, sussurraram as vozes umas para as outras, passando a informação. Lutar contra o demônio.

O Pé-de-Limo se estabeleceu apoiado ao guarda-mancebo para falar com seus novos amigos. Era bom ser compreendido assim.


Antes do alvorecer na manhã seguinte, Gideon abaixou a cabeça antes de entrar na porta aberta da cabine de Chandra. “Como está?”

“Quase pronta,” disse Raff. Ele estava sentado à mesa, folheando o texto arcano que ele costumava manter acorrentado ao seu cinturão. Ele não se preocupara em tirar o feitiço que o fazia flutuar, então o livro flutuava na altura do rosto dele. No outro lado do cômodo, Liliana e Shanna contemplavam Chandra criticamente.

Liliana disse, pensativa: “Talvez você devesse raspar a cabeça.”

Chandra coçou o couro cabeludo vigorosamente. “Eu meio que quero agora, depois de toda a sujeira que você jogou no meu cabelo.” Ela estava disfarçada como uma caçadora de recompensas da Cabala, vestindo calças escuras e uma túnica sob armadura de couro preto. A roupa tinha obviamente vindo de um cultista morto, e estava manchada de sangue e sujeira.

Shanna discordou. “Clérigos raspam a cabeça; não queremos chamar esse tipo de atenção. Mas ela precisa daquelas cicatrizes.”

Raff ficou de pé. “Tô pronto, só tive que conferir algumas coisas. Eu aprendi esse feitiço na Academia, mas não faço ele há algum tempo. É um exercício avançado para ilusionistas.”

Pela primeira vez, Gideon não pensou que Raff estivesse se gabando. Ele parecia atento e preocupado demais. Raff se aproximou de Chandra e adicionou: “Só fique imóvel e olhe diretamente para a frente.”

Uma luz fraca lampejou em volta dos dedos de Raff enquanto ele os passou pelo rosto de Chandra. Sua pele enrugou e repuxou, criando uma cicatriz de espada que corria de um lado de sua testa até o queixo. Gideon ficou impressionado com a transformação. Raff se afastou e disse: “Como está?”

Liliana assentiu com aprovação. “Perfeita. Ela parece encantadoramente tratante.”

Shanna deu um tapinha nas costas de Raff. “Muito bem.”

Chandra tocou a cicatriz cuidadosamente. “Uau, que esquisito.”

Gideon disse: “Precisamos nos mover.” O disfarce dele foi bem mais fácil. Ele tirara sua armadura e armas, rasgou suas roupas, rolou na terra na última parada que fizeram, e Shanna lhe deu alguns socos na cara.

“Tô indo,” disse Chandra, se espremendo para vestir os coldres de suas armas.

Gideon subiu pela passagem até as escadas do convés, e Liliana o seguiu. Ele a perguntou: “Você também está pronta?”

“Mais do que pronta.” Ela esfregou o rosto com as mãos. “Eu quero tirar esse pacto do meu corpo. Quero ver Belzenlok em pedaços.”

“Vai acabar logo.” Gideon tentava parecer reconfortante.

A face de Liliana ficou sarcástica. “De um jeito ou de outro.”

Eles subiram as escadas até o convés aberto, e viram Urborg na luz do amanhecer.

Fungal Plots
Pântano | Ilustração: Jonas De Ro

O céu ainda estava nublado com cinzas, e com isso a luz da manhã era fraca e acinzentada. O bosquete brumoso de floresta pantanosa sob o Bons Ventos parecia inabitado, exceto por uma estrutura phyrexiana em forma de anel que estava semienterrada logo abaixo. Gideon foi até o guarda-mancebo onde Karn estava ao lado de Teferi, que via algo por uma luneta. Teferi abaixou a lente e apontou com o queixo. “Lá está.”

Gideon vira a forma do vulcão na noite passada, contornado pelo céu negro, mas agora as muralhas da Fortaleza estavam visíveis, se estendendo da caldeira vulcânica. Ela fora criada como uma base phyrexiana, e depois fora parcialmente destruída por uma erupção quando os phyrexianos foram derrotados. “Belzenlok andou redecorando,” comentou Teferi. “A maior parte da torre tinha sumido da última vez que eu vi.”

Gideon estimou a distância. “Temos uma longa caminhada pela frente, mas Shanna tem razão; eu não arriscaria aproximar o navio mais do que isso.”

Gideon não conseguia ler a face de Karn, mas de certo modo ele não acreditava que Karn observava aquele lugar com qualquer tipo de preocupação. Karn disse: “Devemos começar.”

Chandra e os outros subiram ao convés com Jhoira. Chandra agora carregava uma espada longa da Cabala nas costas, e um facão longo preso a cada coxa. “Você parece assustadora de verdade,” Teferi garantiu a ela.

“Valeu," disse Chandra, sorrindo. “Meu cheiro tá assustador de verdade.”

Teferi riu. “Eu não ia mencionar essa parte.”

Jaya segurou amigavelmente o ombro de Chandra. “Lembre-se: você está pronta, e você consegue.”

Chandra abriu um sorriso largo. “Graças a você.”

Quando os demais se aproximaram, Jhoira disse: “Estejam prontos para nossa distração. Se der certo, vocês vão saber imediatamente.”

“Ah, vai dar certo, sim,” disse Liliana. Ela hesitou, olhando para Gideon e Chandra. “Não sejam mortos,” disse ela, por fim. “Estragaria tudo.”

Chandra riu pelo nariz, mas Gideon disse a Liliana, muito sério: “Vamos ficar bem.” Ele já a conhecia bem o suficiente para ver que ela estava genuinamente preocupada, apesar de esconder seus sentimentos sob camadas de sarcasmo defensivo. Ela queria se livrar do pacto, ela queria vingança contra Belzenlok; mas ela também não queria ver Gideon e Chandra feridos.

Arvad soltou uma das escadas de corda para eles. Karn desceu primeiro e Gideon o seguiu, saltando o último metro para pousar na lama macia, coberta de musgo. O chão estava quente, mesmo que o céu repleto de cinzas diminuísse a potência do sol. A grama alta e as árvores cobertas de vinhas bloqueavam a brisa, e havia insetos zunindo pela lama e pelas poças cercadas de ervas daninhas.

Gideon ficou ao lado de Karn, de guarda, até que Teferi e Chandra descessem até eles. Quando Karn começou a caminhar por entre as árvores, Chandra disse: “Bom, vamos nessa.”

Gideon apertou seu ombro de leve, para reconfortá-la. “Vai funcionar,” disse ele. Tinha que funcionar.

Ela olhou para ele, preocupada. “Então . . .  você acha mesmo que a Liliana mudou?”

“Acho,” disse Gideon, honestamente. Ele deu de ombros e sorriu um pouco. “Eu só não tenho certeza se ela sabe disso.”

O rosto de Chandra dizia que ela achava ele louco.

Enquanto se moviam pelas ruínas espalhadas, Gideon pensou como a paisagem parecia ainda mais estranha agora do que à noite. Karn abriu caminho por vinhas dependuradas e arbustos cheios de espinhos, testando a firmeza do chão com seu peso. Como o dia estava muito nublado, sombras se prendiam à vegetação e pequeninas luzes fugiam pela grama alta quando eles passavam.

Depois de caminharem por um bom tempo, o chão descia até uma gruta e eles viram vários espíritos, que aparentemente estavam fazendo uma reunião. Com um gesto, Teferi deixou o tempo em torno dos espíritos mais lento, segurando o grupo praticamente congelado até que Gideon e os outros tivessem atravessado a gruta e não estivessem mais no campo de visão deles. Jhoira dissera que os espíritos não apoiavam a Cabala, mas eles decidiram não arriscar. Coisas pequeninas e brilhantes revoaram atrás deles por algum tempo, mas nada os atacou.

Fungal Plots
Pântano | Ilustração: Dimitar Marinski

Eles encontraram uma muralha antiga desmoronada, e tiveram que escalar. Quando Gideon chegou no topo, ele viu o contorno de algo que parecia uma grande garra, enterrada entre vinhas e raízes, um resto de qualquer arma phyrexiana que destruíra a estrutura de pedra.

“Tem bastante ruína,” disse Chandra ao descer. “Quanta gente vivia por aqui?”

“Muitas, mesmo,” disse Karn, olhando para ela enquanto circundava a grande garra. “Nosso amigo Venser viveu aqui.”

“O amigo que te deu a centelha?” Perguntou Chandra, retraindo-se involuntariamente em seguida. “A Jhoira disse— eu soube que ele morreu. Sinto muito.”

O olhar de Teferi ficou sério. Karn assentiu, e disse: “Ele foi um bom amigo.”

Agora que o silêncio fora quebrado, Gideon decidiu fazer a pergunta que ele vinha considerando desde Yavimaya. “Depois que matarmos Belzenlok, vocês — os dois — virão conosco, para a luta contra o Nicol Bolas?”

Teferi olhou para ele com um sorriso zombeteiro. “Pra dentro da armadilha?”

Antes que Gideon pudesse responder, Chandra disse: “Ei, pelo menos dessa vez a gente sabe que é uma armadilha!”

Teferi inclinou a cabeça, concedendo o argumento. “Já lutei contra Nicol Bolas uma vez.”

Gideon levou um susto. “É mesmo?”

“Faz muito tempo,” explicou Teferi. “Eu perdi espetacularmente.”

“Nós também, da última vez que lutamos contra ele,” admitiu Chandra.

“Não é uma informação muito reconfortante,” disse Karn, mas sua voz tinha um traço de diversão.

Gideon disse: “Com Liliana no máximo de seus poderes, sem as restrições dos seus pactos, podemos criar uma armadilha para o Bolas. Assim espero.”

Teferi deu de ombros. “Um dos motivos para eu tomar minha centelha de volta foi para ir com vocês. Eu conheço o Bolas, e sei que os planos dele incluirão o meu lar, mais cedo ou mais tarde. E agora que eu tenho uma filha, e netos e bisnetos para me preocupar, acho que minha perspectiva mudou.” Ele segurou amigavelmente o ombro de Karn. “E você, meu amigo? Você vem conosco?”

Karn disse: “Eu preciso levar o Cílix para destruir Nova Phyrexia antes que os phyrexianos voltem a Dominária.”

“Os phyrexianos estão presos lá,” ressaltou Teferi. “Você tem todo o tempo do Multiverso para destruí-los. Como eu—”

Karn o interrompeu: “Não faça trocadilhos com tempo, por favor.”

Teferi riu feito criança. “Tá certo, mas você vê o que eu quero dizer.”

Gideon notou que Karn não disse não. Ele pediu: “Sua ajuda seria útil, Karn. Talvez mais um lutador faça a diferença para nós.”

Karn ficou silencioso por algum tempo, enquanto abria caminho para eles pela vegetação fechada. “Vocês acreditam que a ameaça que ele apresenta é tão urgente assim?”

Chandra limpou o suor da testa. “Ele fez coisas terríveis em Amonkhet. Eu não quero ver aquilo acontecer de novo em lugar nenhum. Temos que impedi-lo.”

Damnation
Danação (Invocações de Amonkhet) | Ilustração:Zack Stella

Gideon concordou. “Não sei ao certo quais são os planos dele, mas sei que nosso tempo está acabando. E eu sei que nosso próximo encontro com ele tem que ser decisivo.”

Teferi ergueu as sobrancelhas. “De um jeito ou de outro?”

“Infelizmente, sim,” disse Gideon.

Karn pareceu ponderar por um momento, e depois disse: “Vou considerar o seu convite.”


Depois de uma breve pausa para comer e tomar água que Gideon carregava, levou a maior parte do dia para se aproximarem da Fortaleza.

Eles pararam em um ponto alto, onde a sujeira e a vegetação parcialmente cobriam os escombros de uma muralha gigantesca, alta o suficiente para dar a eles um ponto estratégico. O céu estava escurecendo, e uma tempestade ameaçava se formar sobre as nuvens de cinzas. Mas ainda estava claro o suficiente para ver bem a Fortaleza.

Era exatamente como o agente da Cabala pego em Tolária Ocidental havia descrito. Uma passarela longa de pedra servia de ponte sobre os fossos e canais antigos que cercavam o terreno inclinado à frente do vulcão. Agora, os canais estavam cheios de água enlameada e algumas criaturas cheias de dentes e extremamente famintas, e a passarela era interrompida por muralhas com portões pesados, todos bem guardados por grimnantes de armadura e clérigos com robes, onde senhas e outras provas de identidade seriam exigidas. Um lado do vulcão foi entalhado até ficar liso, e a passarela levava até a muralha semicircular construída a partir dali. O portão naquela muralha era redondo, e ainda tinha a forma espiculada de alguma arma phyrexiana, provavelmente já desativada.

Com a maior parte da torre negra se assomando sobre eles, e o céu ficando ainda mais escuro em volta com fumaça e cinzas, era um cenário intimidante. Gideon ficou contente que eles não teriam de lutar para infiltrar naquelas defesas todas.

Gideon entregou seus suprimentos para Karn enquanto Teferi dizia: “A mágica deve durar mais do que o suficiente para deixar que vocês passem pelos portões. Quando chegarem onde precisam, encontrem um lugar onde vocês fiquem longe da vista de alguém, ou pelo menos nas sombras. Quando a mágica cessar, talvez tenha um deslocamento de ar que possa atrair atenção.”

“Entendi,” disse Chandra. Ela olhou para Gideon. “Estamos prontos?”

Gideon pensou que estavam tão prontos quanto podiam estar. Depois da longa e quente caminhada, eles pareciam ainda mais dentro dos papeis de prisioneiro e caçadora da Cabala do que mais cedo a bordo do Bons Ventos. Ele perguntou a Teferi: “Vamos conseguir ver a mágica lá de dentro?”

Teferi deu um passo para trás, sorrindo com ironia. “Não se preocupe, o efeito será óbvio. Agora, fiquem parados.”

Ele estendeu sua mão. Gideon instintivamente se preparou, mas não sentiu nada. Então ele notou que Teferi e Karn pareciam ter congelado no lugar, que o som da brisa entre as folhas, o zumbido de insetos e o canto dos pássaros, tudo parou abruptamente. Gideon olhou novamente para a Fortaleza e viu que todas as figuras de armadura e todos nos portões estavam imóveis, como estátuas.

Chandra encontrou seu olhar com sobrancelhas erguidas. “Uau, que esquisito.”

Gideon teve de concordar. Então, apesar de Teferi ainda parecer estar congelado, eles ouviram a voz dele dizer: “Vão, agora. É melhor andar rápido e no mesmo ritmo.”

“Certo, vamos,” disse Gideon. Chandra o pegou pelo braço e, cuidando para ficarem no mesmo ritmo, Gideon começou a descer o declive. Levou algum esforço para saírem da grama alta e dos juncos, e estarem no campo de visão dos grimnantes sobre a muralha mais externa, e mais baixa. Mas enquanto Gideon e Chandra se moviam pelo terreno até a passarela, o mundo estava silencioso e imóvel.

Teferi explicara que a mágica criaria uma zona de tempo lento em torno deles, então com sua caminhada em velocidade normal eles se moveriam rápido demais para que alguém os notasse. Eles chegaram no final da passarela, e o chão batido abria caminho para um pavimento liso de pedra escura.

A primeira muralha era uma estrutura phyrexiana que pareciam os dentes de alguma grande criatura, com aparência tão orgânica que poderia ter crescido da terra. Estava coberto pelas flâmulas vermelhas de Cabala e o grande portão de metal sobre a plataforma tinha pelo menos quatro metros de altura.

Gideon e Chandra pararam. “Acho que não dá pra abrir, simplesmente,” disse Chandra. “É maior do que a bolha temporal.”

Gideon não tinha certeza do que aconteceria se eles tentassem abrir. Melhor não descobrir. “Vamos escalar,” disse ele.

Com cuidado para ficarem perto um do outro, eles escalaram o portão, e as peças cruzadas serviram de apoio. Foi uma escalada estranha, mas Gideon se lembrou que teria sido muito mais difícil com os grimnantes da Cabala atirando flechas com pontas envenenadas. Do outro lado, eles passaram pelas formas imóveis dos guardas e de alguns orbes negros espalhados - a manifestação de uma mágica para prender intrusos. “Pode levar mais tempo do que a gente pensava,” disse Chandra gravemente, enquanto eles tomavam cuidado para passar por dois alçapões cobertos com pontas de metal. “Espero que o Teferi tenha dado tempo suficiente. Agh, eu não queria ter feito um trocadilho.”

“Eu sei,” disse Gideon. “Só continua.”


Na ponte de comando do Bons Ventos, Liliana estava ao lado de Jhoira enquanto Tiana dirigia o navio, voando baixo sobre o pântano. Elas seguiam até a área onde uma das últimas batalhas ocorrera entre os guerreiros pantera e a Cabala. “Só que foi mais massacre do que batalha, pelo que me contaram,” dissera Jhoira.

Liliana a respondera: “Para o nosso propósito, massacre é ainda melhor.”

Agora Jhoira se inclinava para a frente, dizendo a Tiana: “Tem uma cidade de espíritos ao sul que precisamos evitar.”

Jhoira não queria que a Cabala soubesse que o Bons Ventos estava ali até que estivessem prontos. Mas Liliana conseguia sentir a presença de morte mais à frente. Morte antiga e fúria gélida. Muitos morreram aqui, transformando as árvores e a vegetação fechada em uma vala coletiva, e as plantas se alimentavam dos restos há muito apodrecidos que iam para o solo. Os ossos que restavam berravam, pedindo vingança. Liliana estava muito disposta a dar essa chance a eles. Ela disse: “Já estamos perto o suficiente. Pare aqui.”

Já chamando os mortos inquietos sob o Bons Ventos, Liliana se virou para subir a escadaria até o convés.

Ela saiu e sentiu o vento aumentar, pesado com o cheiro de cinzas, água da chuva, e relâmpagos por vir. Este exército de mortos-vivos seria uma distração, um ataque para distrair a Fortaleza enquanto Gideon e Chandra procuravam pela Lâmina Negra e a utilizavam para destruir Belzenlok. Mas se Liliana conseguisse o que queria, seu exército também quebraria as pernas da Cabala aqui em Urborg. Os clérigos e seus cultistas da morte nunca se recuperariam do golpe que sofreriam hoje.

Ela caminhou até a proa em passos largos, até o convés elevado. Ao erguer os braços, as linhas de seu pacto brilhavam em um tom púrpura por toda sua pele. “Me ouçam,” sussurrou ela. “Conclamo vocês para virem até mim; vou liderar sua vingança e a destruição da Cabala.” Os espíritos Onakke no Véu Metálico sussurravam na mente dela.

E na grama e nos juncos da vegetação baixa, os mortos despertaram.


Pareceu levar uma eternidade, mas Gideon e Chandra passaram por cada entrada sem ter que abrir portões ou mover nada que trairia sua presença. Não era a captura que preocupava Gideon, já que ele sabia estar se movendo rapidamente demais para que um clérigo pensasse em fazer alguma mágica que os atacasse. Mas ele não queria que alguém visse portas ou portões alterados e decidisse fazer uma busca por intrusos na Fortaleza.

Ao finalmente adentrarem o primeiro salão com portas abertas, Chandra disse exasperada: “Foi bem mais difícil do que pareceu que seria.”

“Se você não tivesse notado que dava para andar sobre a água naquela terceira armadilha, a gente nunca teria conseguido,” disse Gideon.

“Queria ter pensado naquilo mais cedo,” admitiu Chandra ao pararem para compreender onde estavam. O salão era enorme e os pilares que apoiavam o teto abobadado se curvavam para dentro; parecia que eles estavam entrando em uma caixa torácica gigante. Flâmulas vermelhas foram penduradas do teto, e cultistas da Cabala se amontoavam em grupos pelo chão. Uma bruma de incensos também parecia pendurada no ar imóvel, além de tochas flutuantes que iluminavam mal o espaço. Ainda era fácil perceber que este cômodo era alienígena, algo criado pelos phyrexianos e reaproveitado pela Cabala. Chandra adicionou: “A gente devia sair de vista. A mágica do Teferi não deve durar muito mais tempo.”

Cabal Ritual
Ritual da Cabala (From the Vault: Lore) | Ilustração: Kieran Yanner

“Vamos tentar chegar mais perto da arena de lutas.” Gideon seguiu na direção de uma das saídas laterais daquele cômodo, entre dois dos pilares curvos. Pelo interrogatório ao agente da Cabala, eles sabiam que a arena devia estar alguns andares abaixo deste salão, e que os salões de tesouros ficavam perto. Com Chandra disfarçada de caçadora da Cabala e Gideon como seu prisioneiro, trazido para lutar na arena para a glória de Belzenlok e para o entretenimento dos cultistas, eles deveriam conseguir se mover com uma facilidade relativa por aquela área. Depois que Liliana e os outros chegassem com o exército de mortos-vivos, a maior parte das forças da Cabala sairia da Fortaleza para lutar e os dois teriam a chance de encontrar a Lâmina Negra e chegar até Belzenlok.

Pelo menos era assim que eles esperavam que acontecesse.

Depois do salão eles encontraram um grande corredor, também apoiado pelos pilares que pareciam costelas. Mais esôfago do que caixa torácica, pensou Gideon, ironicamente. Iluminado por mais tochas flutuantes, sua textura sinuosa criavam muitas alcovas ocultas pelas sombras. Eles encontraram uma alcova que levava até uma escadaria larga para baixo, temporariamente vazia, sem guardas ou cultistas da Cabala. Gideon achou que a luz da tocha mais próxima podia estar começando a tremular. Ele se virou para Chandra e estendeu os braços. “Rápido, acho que a mágica está quase acabando.”

Chandra prendeu as correntes em torno dos pulsos de Gideon. “Machuca?” Perguntou ela, preocupada.

“Está tudo bem,” ele a garantiu. A luz tremulou novamente e os dois se prepararam.

Lentamente, o silêncio em torno deles foi preenchendo como água derramada em uma tigela. Primeiro as vozes, ecoando da entrada, entoando os títulos de Belzenlok repetidas vezes. Senhor Demônio, Rei de Urborg, Senhor dos Ermos, Herdeiro da Escuridão. E depois, à distância, gemidos, gritos, metais se chocando, berros. As tochas tremularam e cultistas da Cabala correram pelo corredor com seus robes negros, e grimnantes de armadura os seguiam.

Gideon e Chandra trocaram um olhar soturno e começaram a descer a escadaria.


Jhoira subiu ao convés com Shanna para ver Liliana erguer o exército de mortos-vivos.

O céu repleto de cinzas estava ainda mais baixo, e trovões retumbavam ao longe. Sob o Bons Ventos, figuras despertavam na grama e na vegetação baixa. Eram os restos de guerreiros pantera, e seus ossos ainda vestiam sombras da carne que outrora habitaram. Suas armas eram espadas e lanças enferrujadas abandonadas sob o lamaçal, ou rochas e clavas puxadas da terra. Eles formavam grupos, recriando as formações que tinham usado para lutar em sua última batalha. Eles lutaram contra a Cabala pelo tempo que puderam e este pântano era um túmulo coletivo para seu exército.

“São centenas,” disse Shanna, se apoiando no guarda-mancebo. Raff e Arvad estavam do outro lado do convés com Jaya, observando com cautela. A talídia subiu as escadas, ficou ali parada por um momento, e depois mandou seus bebês descerem as escadas apressadamente.

Uma dúzia de formas escuras apareceram sobre o corrimão da proa e Shanna fez menção de desembainhar sua espada. Jhoira segurou o braço dela. “Não, acho que são os liches, chamados pela Liliana.”

Ao se agacharem no corrimão, suas formas se solidificaram em guerreiros pantera. Eles ainda tinham os ferimentos que os mataram, grandes cortes exangues que perfuraram armaduras, peitorais e braçadeiras. Shanna largou a empunhadura de sua espada mas ainda observava com cautela. “Que estranho,” comentou ela.

“Vai ficar mais estranho antes do fim,” disse Jhoira.

Liliana falava com os guerreiros mortos-vivos em um tom suave, e as panteras responderam. Jhoira conseguia ouvir as palavras, mas era como se ela ouvisse uma língua que ela não compreendia. Então Liliana virou-se para dizer: “Eles estão prontos. Seguirão o navio para a batalha.”

“Bom,” suspirou Jhoira. Ela empurrou o guarda-mancebo. A longa espera finalmente acabara; eles enfrentariam a Cabala. “Raff, diga a Tiana para levar—”

“Jhoira!” Arvad chamou.

Jhoira virou-se e seus olhos se arregalaram. Erguendo-se do pântano ao longe havia uma criatura enorme. Um verde-escuro manchado com a cabeça do tamanho da metade do Bons Ventos, certamente grande demais para o corpo distorcido e longilíneo que saía da lama e das árvores. O grande corte em sua boca se abria para partir a cabeçorra ao meio, revelando um maxilar cheio de dentes que mais parecia uma caverna.

Shanna gritou: “Liliana, isso aí é um dos seus?”

Na proa, Liliana xingou, parecendo mais irritada do que assustada. “Eu não chamei essa coisa! E o que quer que seja, não é algo morto.”

Jhoira murmurou: “Quando eu disse que ficaria mais estranho, eu não estava falando disso.” Ela invocou seus poderes, formando mágicas defensivas de luz e de ar.

Raff correu até o lado dela, encarando a criatura. “Hmm. Se a gente soubesse o que é, talvez—”

Jhoira deu uma olhadela para trás. “Liliana—”

As panteras liches se inclinaram para falar com Liliana novamente. Ela traduziu: “O nome dele é Yargle. Ele foi criado quando Belzenlok transformou algum idiota chamado Yar-Kul em larva, que foi comida por um sapo, que virou aquilo ali.” Ela fez um gesto frustrado. “E isso não ajudou em nada!”

“Eles sabem como matá-lo?” Indagou Shanna.

Liliana fez uma careta. “Não. É a coisa que matou todos eles.”

Jhoira travou o maxilar. “Essa coisa não vai parar a gente.” Mas iria atrasá-los. Gideon e Chandra estariam presos dentro da Fortaleza esperando que o Bons Ventos chegasse a qualquer momento.

E então Yargle rugiu, e lançou-se contra o Bons Ventos.


Gideon estava tenso com a espera. Ele e Chandra estavam do lado de fora da arena em torno do fosso de lutas. Depois dos grandes arcos curvos, os cânticos enaltecendo Belzenlok ficavam cada vez mais altos, quase afogando o clamor das armas e gritos dentro do fosso.

“Elas já deviam estar aqui agora,” disse Chandra disfarçadamente. “Algo deu errado.”

Era isso o que Gideon temia. Eles já se moveram duas vezes, tentando encontrar lugares imperceptíveis para esperar, mas os corredores e salões em torno da arena foram enchendo de cultistas e clérigos vindos em multidões para assistir seus prisioneiros se matarem no fosso. A entrada para os salões dos tesouros, onde seu informante disse que a Lâmina Negra estava, era ali perto, então Gideon não queria se retirar. Mas estava ficando mais difícil não serem levados pela multidão e puxados para dentro da arena.

Ou algo deu errado com a tentativa de Liliana acordar um exército de mortos-vivos, ou pior - algo as atacara. Elas podem chegar a qualquer momento, lembrou-se Gideon. E então os cultistas seriam chamados para pegar em armas e o lugar ficaria limpo quando eles corressem para as defesas externas. Eles só tinham que esperar

Uma multidão de cultistas entrou pelo corredor e Chandra foi empurrada para a frente. Gideon tentou usar suas correntes para segurá-la, mas ele também fora empurrado e eles entraram aos tropeços na arena, junto com a multidão.

Eles chegaram em uma plataforma ampla e aberta que corria pela beirada do fosso. Os gritos e choques de armas eram ainda mais altos, apesar de Gideon não conseguir ver o fosso dali. Centenas de cultistas estavam nas bancadas em torno de uma enorme câmara, entoando um hino. Tochas flutuavam em torno do fosso e flâmulas vermelhas estavam dependuradas no teto abobadado. Chandra olhou em volta para encontrar um jeito de sair, mas Gideon era alto o suficiente para ver que o caminho até o arco mais próximo estava bloqueado pela multidão.

“Sussurro vem,” cantavam os cultistas em torno deles. “Sussurro nos chama para o fosso.”

Uma clériga de robes vermelhos adentrou, e a multidão abriu caminho para ela. Cultistas se jogavam ao chão para que ela utilizasse as costas deles e subisse em uma plataforma elevada. O mal irradiava dela como um miasma enquanto ela erguia seus braços, e suas vestes tremulavam atrás dela. “O Senhor Demônio se aproxima!”

Gideon xingou em um sussurro. Os cânticos intensificaram e portas gigantescas roncaram na outra extremidade da arena. As tochas fulguraram, e das sombras apareceu uma forma demoníaca gigante. Belzenlok. Ele estendeu suas asas e banhou-se nos cânticos e gritos dos cultistas, e a luz das chamas cintilava em sua pele pálida. Seu corpo era forte e musculoso, e sua cabeça parecia pesar sob chifres curvos. Ele caminhou e sentou-se em uma estrutura parecida com um trono, na extremidade da arena. Ele fez um gesto e Sussurro curvou-se profundamente para ele. Ao se erguer novamente, ela gritou: “Para dentro do fosso, pela glória de Belzenlok!”

Por toda a arena, caçadores e cultistas empurravam seus cativos pela beirada, para dentro do fosso. Quando Sussurro se virou, seu olhar recaiu sobre Gideon e Chandra. “Você, mande-o! A não ser que queira morrer aqui com ele?”

Chandra começou a olhar para Gideon, e ele sabia que seria um erro que eles não podiam cometer. Ele se afastou dela com um puxão e disse sob seu fôlego: “Me empurra pra dentro do fosso.”

“Gideon—” protestou ela.

“Vai. Precisamos ganhar tempo.” Sussurro os observava como um predador sentindo cheiro de presa. “Agora!”

Chandra o empurrou, e Gideon fingiu cambalear, e depois tombou de costas para dentro do fosso.


Dominária Arquivo das Histórias
Perfil da Planeswalker: Liliana Vess
Perfil do Planeswalker: Gideon Jura
Perfil da Planeswalker: Chandra Nalaar
Perfil do Planeswalker: Teferi
Perfil do Planeswalker: Karn
Perfil do Planeswalker: Jaya Ballard
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