Retorno a Dominária: Episódio 4

Posted in Magic Story on 4 de Abril de 2018

By Martha Wells

Martha Wells has written fantasy novels, short stories, media tie-ins, and non-fiction. Her most recent works are The Harbors of the Sun, part of her Books of the Raksura series, and a science fiction novella from Tor.com, The Murderbot Diaries: All Systems Red.

O primeiro pensamento consciente veio a Tiana quando ela estava de pé na Catedral de Serra, banhada pela luz do sol que filtrava por mil cores e formas pelos arcos em vitrais. Ela estava cercada por outros anjos em armaduras brilhantes, além de humanos e clérigos avianos, com seus robes brancos bordados de penas gris para imitar as asas dos anjos. Ela sabia que fora criada com algum propósito magnífico; seu coração se aquecia com isso, cantarolando por suas veias, até seu novo corpo brilhar como o sol. Era um momento glorioso.

E então tudo começou a ir por água abaixo.

Lyra, Portadora da Alvorada, deu um passo à frente. Linda como o nascer do sol, sua pele de tom bronze escuro brilhava contra a luz e sua juba de cabelos escuros fluía contra a perfeição de suas asas. Ela disse: “Tu és Tiana, e nasceste em resposta a preces de mortais, para um propósito.”
 

Ilustração: Chris Rahn

“Para a batalha,” disse Tiana. “Para destruir as forças da escuridão.” Tinha de ser aquele o propósito dela. Com certeza nada além da guerra queimaria daquele modo.

Houve um movimento levíssimo entre os outros anjos, e dois deles trocaram um olhar. O cenho perfeito de Lyra franziu apenas um pouco, e ela disse: “Não, não para a batalha.”

“Sem batalha?” Tiana não queria questionar Lyra. Ela nascera sabendo que Lyra era um dos anjos que viera a Dominária, vinda do Reino de Serra, que Lyra estava o mais próximo possível da abençoada Serra, perdida quando se sacrificou para curar Benália. Mas Tiana sentia como se houvesse algum tipo de erro. “Temos certeza disso?”

A expressão de Lyra ainda estava confiante. “Temos certeza. Não és um anjo de batalha. És a resposta às preces de mortais que precisam de uma guardiã.”

“Uma guardiã,” repetiu Tiana, mais calma. Guardiãs tinham que lutar para proteger algo, óbvio, então era apenas uma variação leve de ser um anjo de batalha. “Eu dedicarei minha vida e minha alma para guardar-” Ela notou que em seu alívio ela se apressou um pouco. “O que eu vou proteger?” Ela esperava que fosse algo grande.

Lyra pode ter hesitado- era difícil saber. Mas sua voz tinha a mesma serenidade confiante quando anunciou: “Um sistema de irrigação muito complicado.”

Tiana não podia ter ouvido aquilo direito. Talvez algo dera errado quando ela fora criada, e as palavras não significavam o que pareciam. “Um complicado . . .  quê?”

“É muito importante,” Lyra a garantiu. “É um sistema detalhado de elevadores e motores que carregam a água do reservatório até a lateral de um planalto, para a cidade construída acima dela. Centenas de mortais dependem dela. Eles a chamam de a Grande Máquina.” O olhar de Lyra estava tão sério. “Eles rezaram pedindo uma protetora. Eles rezaram por ti.”

Tiana forçou sua decepção para um canto. Um sistema de irrigação pode parecer uma coisa estranha, com potencial para ser extremamente chata, de proteger; mas esta Grande Máquina era obviamente muito importante para os mortais que rezaram por ela. Por causa disso, ele provavelmente era atacado com frequência e ela teria todas as batalhas que ela quisesse. Os mortais seriam amigos dela, e ficariam contentes em receber um anjo da guarda tão exemplar pelas suas preces. Ela disse: “Eu o guardarei até meu último suspiro.”

O sorriso de Lyra a aquecia, e os outros anjos ergueram suas armas em aprovação. Lyra disse: “Excelente.”

Os outros anjos levaram Tiana para fora da catedral, e voaram para um céu azul de doer, salpicado com nuvens brancas. Edifícios flutuavam no ar, todos com telhados arredondados com torretas e altos arcos elegantes; as cores fortes dos vitrais brilhavam na luz do sol. Abaixo havia colinas verdejantes e copas de árvores altas, e Tiana ouviu o canto dos pássaros ao longe. O vento era fresco e doce. Tiana sabia que o mundo todo não era lindo, mas nesta primeira manhã de sua vida tudo parecia lindo.
 

Ilustração: Dimitar

Eles a levaram até um edifício flutuante e a deixaram em uma sala ensolarada, onde clérigos humanos a ajudaram a se vestir em roupas brancas e gris enquanto os avianos voaram para trazer armas e armaduras que ela pudesse escolher. “É muito bom que você esteja finalmente aqui,” disse sua nova amiga, a clériga Afra. “Eu ouvi dizer que essas pessoas rezaram muito, por algum tempo. A comandante ficou muito contente ao saber que você finalmente viria a ser.”

“Eu me pergunto por que demorei tanto,” disse Tiana, enquanto Afra a ensinava como amarrar cadarços. “Isso acontece muito?”

“Ah, tenho certeza que sim. Tenho certeza que já deve ter acontecido antes.” Afra deu uma olhadela para os outros clérigos.

Um deles disse: “Foi bem estranho. Eu não me lembro de ter levado tanto tempo para que orações por um anjo da guarda tenham sido respondidas.”

“Talvez seja porque é um pedido incomum,” outra pessoa disse. “Um anjo da guarda para um sistema de irrigação? É tão . . .  específico. As pessoas rezam por anjos da guarda o tempo todo, mas nunca por algo assim-”

Afra franziu o cenho para ele. “Sim, o tempo todo, e é talvez por isso que tenha demorado tanto. A Abençoada Serra só pode nos mandar algumas guardiãs por vez.”

Houve algum murmúrio entre os outros e Afra fez shhh para pararem, mas a atenção de Tiana estava em um dos retratos no alto da parede. O conhecimento com o qual ela nascera a dizia que o homem com cavanhaque e cabelos castanhos, vestido como um miliciano de Benália, era um retrato do mártir Gerrard. Suas sobrancelhas se juntaram ao estudar a lança que ele segurava. A lâmina apontada para baixo tinha um formato estranho, quase chata em um dos lados, com uma curva serrilhada no outro e uma viga de apoio em um ângulo que de certo modo sugeria voo. Parecia familiar a ela, mas ela não conseguia entender exatamente como. “A lança dele- de onde veio?” Indagou ela.

Mas quando os clérigos avianos voltaram pela sacada com suas novas armas e armadura, a empolgação fez Tiana se esquecer de sua pergunta. Apesar disso, a resposta viria a ela na hora certa.


Logo era a hora de voar até a cidade da Grande Máquina, que Tiana fora criada para proteger. Uma escolta de anjos a acompanharia, liderada pela própria Lyra, Portadora da Alvorada. Tiana seguiu Afra para o terraço amplo onde os demais anjos estavam reunidos. Ela sussurrou para ela: “Isso é normal? Todo mundo ganha escolta?”

“Nem sempre,” admitiu Afra. “Mas as pessoas dessa cidade esperaram tanto tempo, e a Grande Máquina é tão importante para eles, que a Comandante Lyra quer levar você até lá pessoalmente.”

Fazia sentido. Tiana adicionou: “E ela quer garantir que nada esteja errado comigo, já que eu levei tanto tempo.”

Afra se retraiu. “Sim, provavelmente. Mas não se preocupe, não tem nada de errado. A sagrada Serra não comete erros.”

Tiana deu um abraço de adeus a Afra e se uniu às demais.

O primeiro voo de verdade de Tiana foi maravilhoso, e ela brincava com o vento em suas asas enquanto seguia os outros anjos. Eles voaram por cima de colinas pontilhadas com cidadezinhas e vilarejos, e sobre florestas densas, e finalmente sobre planícies gramadas e amplas. Tiana notou uma estrada bem usada serpenteando abaixo delas, e ela sabia que estavam se aproximando. Seu coração pulava com toda a empolgação. Ela estava prestes a ver o motivo pelo qual nascera. Que não era lutar ao lado de Lyra, Portadora da Alvorada, e outros anjos de batalha para destruir as forças da escuridão, mas sim proteger uma máquina grande e complicada. Mas é uma máquina importante, disse ela para si mesma. E eu tenho certeza de que será atacada com frequência.

Acontece que ela estava certa sobre essa parte.

Ao se aproximarem do planalto, uma fumaça pairava sobre ele. A princípio Tiana achou que era normal; as outras cidades humanas que elas sobrevoavam não tinham isso tudo de fumaça, mas talvez fosse algo da Grande Máquina. Mas o senso repentino de agitação dos outros anjos a avisavam que algo não estava certo.

Elas voaram mais para perto, e foi então que elas viram que a cidade estava em ruínas. Ela fora atacada e incendiada, talvez há apenas alguns dias atrás. Os edifícios eram ruínas fumegantes de rocha e madeira desmoronada, e os mortos estavam caídos pelas ruas. Elas sobrevoaram em círculos pelo planalto e Tiana viu o que restava da Grande Máquina. As plataformas de madeira estavam chamuscadas, o vidro quebrado, as pesadas correntes esmigalhadas, tubos de metal e engrenagens retorcidas e dobradas. Era algo enorme, subindo pela lateral do planalto até os reservatórios e canais que traziam água do rio distante.

Tiana estava atordoada demais para sentir qualquer coisa no início, exceto por um caroço pesado na garganta, como se algo estivesse tentando estrangulá-la por dentro. Elas pousaram no que sobrou da praça da cidade para ajudar os sobreviventes, e Lyra disse gravemente: “Isto é obra da Cabala.”

Então as forças da escuridão vieram até o lugar que Tiana nascera para guardar, mas ela chegara tarde demais para lutar contra eles.


Tiana teve de dobrar suas asas com firmeza para se arrastar de dentro da proteção do motor. “Diga a Tien que ela não estava errada. Era mesmo um conector ruim bloqueando um dos controladores do fluxo de mana.”
 

Ilustração: Eric Deschamps

Hadi a ajudou a levantar-se. Apesar dos aventais de couro que usavam sobre suas roupas, os dois estavam cobertos de graxa e do resto da lama do fundo do mar que ainda estava sendo limpa dos sistemas mecânicos do Bons Ventos. Hadi disse: “É um alívio ouvir isso. Eu detestaria ter que refazer todo aquele encanamento.”

Eles subiram as escadas até o convés, e Tiana sacudiu as asas doloridas enquanto caminhava até o guarda-mancebo. A semente de Molimo já quase terminara de crescer em torno do casco do Bons Ventos e do convés interior, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque eles tinham por onde andar e protegiam seus esforços de reconstrução de intempéries. Ruim porque os motores e outros sistemas ficaram mais difíceis de acessar. Tiana certamente faria diferente se ela tivesse sido chamada para supervisionar a reconstrução de outro navio voador lendário algum dia.

O acampamento se expandiu desde que Jhoira partiu, com mais tendas e algumas cabanas de madeira para abrigar a equipe de trabalho e proteger seus equipamentos. Eles também construíram um sistema de andaimes detalhado para apoiar o Bons Ventos e dar acesso fácil para os trabalhadores. O sol se punha além das colinas rochosas que protegiam a enseada e brilhava pelas ondas, e pela queda da luz eles já sabiam que passara da hora de parar por hoje. A brisa fresca já carregava o cheiro de pães fritos e cebolas dos fogos de chão e da cozinha improvisada. Tiana ficou um pouco chateada que anjos não precisassem comer. Ela disse: “Mas encanar de novo não seria um desastre. Ainda estamos adiantados.”

“Estamos,” concordou Hadi, juntando suas ferramentas em uma bolsa de couro. “E isso é por sua causa.”

Sorrindo, Tiana olhou para ele. “Ah, eu sou uma supervisora severa?” Ela pensou que o progresso veloz deles era mais pelo calibre da equipe que Jhoira contratara.

“Você sabe o que está fazendo, e você gosta do trabalho. É o melhor que podemos pedir,” disse Hadi. Ele pausou por um segundo, uma das mãos no andaime. “Admito que eu fiquei surpreso. Eu não esperava que um anjo soubesse tanto sobre motores e artefatos. Pensei que você seria mais . . . "

“Inútil?” Sugeriu Tiana. A essa hora ela já conhecia Hadi bem o suficiente para provocá-lo. Depois de passar horas sem fim espremidos em vários espaços pequenos reconstruindo o sistema de direção de um navio voador mágico juntos, há poucas coisas que não se pode dizer. E Tiana também estava surpresa; ela sabia que seu conhecimento vinha de Serra, e os detalhes sobre os sistemas mecânicos do Bons Ventos preenchiam sua cabeça quando precisava deles. Vem acontecendo desde que ela reavivou a pedra de energia. Mas ela sabia que não era algo normal para acontecer com um anjo. Especialmente um anjo da guarda cuja razão de existir fora destruída.

Ela nem queria a missão de supervisionar a restauração da Pedra de Energia do Bons Ventos. Ela fora escolhida porque tinha sido criada para proteger uma máquina, e o Bons Ventos era uma máquina; esta foi a única coisa que a Ordem de Serra conseguiu pensar em fazer com ela. Ela nunca esperara sentir-se deste jeito sobre os restos esqueletais de um navio voador, não importa quão lendária era sua reputação.

“Distante,” corrigiu Hadi com um sorriso largo. “Com a cabeça em coisas mais elevadas.”

“Navios voadores são coisas bastante elevadas,” comentou Tiana. “Pelo menos depois de conseguirmos colocar aquele motivador para funcionar.”


Eles sempre deixavam pessoas de guarda, e o número dobrava durante a noite. Tiana patrulhava o ar de vez em quando, fazendo círculos acima do navio de suprimentos ancorado e por todo o acampamento. Até agora ela teve que afastar um kavu com sua língua em chamas, e desencorajar violentamente um pequeno grupo de caçadores goblins, mas nada muito extenuante. Proteger a equipe de trabalho era o trabalho que ela deveria estar fazendo como anjo da guarda, e não ajudando Hadi e Tien e os outros a consertarem os motores. Mas terminar o Bons Ventos mais rápido significava que a equipe de trabalho conseguiria partir de Bogardan mais cedo, e ir para algum lugar mais seguro - o que tecnicamente entrava na mesma categoria que cuidar deles. Ao menos era assim que Tiana estava justificando, e era ela quem tinha sido deixada no comando.

E se Serra não quisesse que ela estivesse fazendo isto, ela não estaria lhe dando estes conhecimentos novos. Tiana amava mexer com os sistemas mecânicos do navio voador, amava descobrir coisas e consertá-las. Ela considerou que talvez amasse o Bons Ventos.

Passara muito da meia-noite e Tiana estava descansando, empoleirada em um andaime e contemplando as ondas que rolavam pela praia e as estrelas, quando ela ouviu alguém correr na direção do Bons Ventos. Ela rolou para fora da plataforma e pousou no chão quando Farim, o jovem primo de Hadi, correu sob a luz de uma tocha. “O que houve?” Perguntou Tiana, mantendo sua voz baixa.

Farim relatou quase sem fôlego, “Mari viu alguém. Um homem caminhando pelos prados na direção do acampamento.”

“Certo. Avise aos outros,” ordenou Tiana, e saltou para o ar. Esta parte de Bogardan era bastante desabitada, mas havia enclaves de piratas e caçadores, e outros que podem ter ouvido falar do acampamento. Um homem se aproximando à noite pode ser qualquer coisa, de um viajante perdido a um espião das forças da Cabala.

Ela deslizou de lado pelo vento, inclinou suas asas, e pousou em uma plataforma atrás da pequena colina onde Mari ficava em seu posto. Mari, assim como toda a equipe de trabalho, agora estava acostumada com um anjo caindo do céu abruptamente, então ela nem piscou quando Tiana apareceu ao lado dela. Ela estava agachada e oculta pela vegetação, e entregou a Tiana um dos visores de Hadi. Era um tubo de metal gravado como um telescópio normal, mas ele permitia visão no escuro. A visão de Tiana à noite era muito melhor do que a de humanos, mas ainda assim ela pegou o visor, já que a magia de sua construção tendia a dar uma visão muito mais clara. Mari sussurrou: “Acho que ele está sozinho.”

Tiana encontrou o homem que se aproximava. “Parece.” Ela não conseguia ver mais nenhum movimento. Ele se movia como um humano cansado, uma mochila pendurada acima de um dos ombros... Mas havia algo errado com ele. Ela entregou o visor de volta para Mari e ficou de pé.

Ela partiu para os ares novamente e fez círculos no ar bem acima dos prados. Não havia movimento dali até as sólidas ondas negras dos campos de lava, nenhum sinal de mais alguém se aproximando. O homem a viu e parou, olhando para ela no escuro. Ou ele ouvira as asas, o que era improvável, ou sua visão noturna era pelo menos tão boa quanto a dela. Hrm, pensou Tiana. Ela deslizou e pousou, não muito longe dele.

Ele estava vestido como um cavaleiro Benaliano, com um vitral detalhado encaixado no centro do peitoral da armadura, e na empunhadura da espada que ele carregava nas costas. Era claro que ele já viajava há algum tempo, a julgar pelo estado de suas roupas e da bainha enlameada do seu tabardo. Desta distância Tiana pôde ver o rosto dele melhor. E os olhos dele, brilhando em um vermelho tímido em meio à escuridão. Não havia como se enganar sobre o que ele era. Tiana ergueu sua lança e disse: “Vejo que você é um vampiro. Sinto muito por isso. Últimas palavras?”

Ele ergueu ambas as mãos, com as palmas para cima. “Anjo de Serra.” Ele se curvou profundamente, assim como um cavaleiro benaliano de verdade faria. “Juro por Serra que não vim até aqui para ferir alguém.”

“Não veio, é?” Indagou Tiana, curiosa. “Você é um vampiro, então, sabe, você deve planejar ferir alguém em algum momento.”

Ele meneou a cabeça, e ela viu como ele parecia exausto. “Não. Não sou assim por escolha. Luto contra minha condição com toda a minha vontade.”

“Quem é você?” Indagou Tiana. Seria mais certo perguntar quem você foi, mas também parecia insulto adicional a injúria.

“Sou Arvad, Cavaleiro de Benália. Fui capturado e transformado em vampiro.” Sua voz era estável, mas havia um acorde de resignação nela. “Tentei não ferir ninguém, e tive sucesso na maioria das ocasiões.”

A alguma distância atrás dela, Tiana conseguia ouvir Mari sussurrando uma explicação para trabalhadores que vieram defender o acampamento. “Por que ela não o matou ainda?” Alguém perguntou.

Tiana não tinha total certeza de por que não o havia matado ainda. Ela conseguia sentir que ele era um vampiro, mas algo nele era diferente. Ela pediu: “Defina ‘a maioria.’”

Arvad olhou para longe, e depois admitiu: “Eu luto contra a Cabala sempre que posso. Às vezes, no calor da batalha, não consigo me segurar.”

“Mas somente a Cabala?” Indagou Tiana. Era uma questão moral complicada. A Cabala era, por definição, um bando de assassinos em júbilo que abraçavam até mesmo suas próprias mortes. E não era como se um cavaleiro benaliano mortal não estivesse matando grimnantes e clérigos da Cabala também. Ele só não estaria bebendo o sangue deles.

“Somente,” disse ele, e Tiana sentiu que ele dizia a verdade. Após um momento, ele adicionou: “Não sei onde isso entraria no código moral da Ordem de Serra.”

“Bom, eu estava pensando nisso agora. É uma pegadinha. Eu mesma sou nova nisso,” disse Tiana. “A Cabala mata muitos inocentes, e são tão iludidos que não parecem se importar se eles mesmos vão viver ou morrer. Mas beber sangue . . . " Ela balançou a mão, como quem indica mais ou menos. “Difícil dizer. Mas vamos voltar ao assunto. A Cabala não está aqui, então por que você está se esgueirando até o nosso acampamento?”

“Eu não estava me esgueirando, estava caminhando em campo aberto,” corrigiu Arvad, gesticulando para os campos vazios em torno dele. “E . . .  Eu não sei exatamente o porquê. Fui atraído até aqui - primeiro até Bogardan, e depois até esta região. Quanto mais perto eu fico, menos a minha compulsão me afeta. Vem sendo mais e mais fácil resistir, até . . .  até chegar aqui. Eu mal a sinto. O alívio é indescritível.” Ele hesitou. “Seria você? Estive perto de outros anjos, e nunca me afetaram desta maneira antes.”

“Não, não é por mim.” Tiana pensou que ele parecia honestamente confuso. E se ele realmente vem sentindo sua compulsão ser abatida ao chegar mais próximo do acampamento . . .  Ela tinha uma ideia vaga, mas forte, sobre o que poderia estar influenciando. “Quando você começou a se sentir atraído até aqui?”

Arvad teve de parar para pensar. “Foi na noite da lua cheia, há dois meses. Aconteceu de repente. Eu estava na costa leste de Aerona, seguindo os últimos sobreviventes de um grupo de batedores da Cabala, e senti . . .  É difícil descrever. Eu matei os grimnantes, roubei um pequeno barco, e naveguei até esta região.”

Isto confirmava a teoria de Tiana. Aquele fora o dia em que Jhoira trouxera o Bons Ventos à tona, o mesmo dia em que sua oração trouxe a Pedra de Energia de volta à vida. “Eu acho que tenho uma ideia do que possa estar causando isto.”
 

A voz dele ficou rouca e esperançosa. “Algo aqui perto. Você acha que poderia me curar?”

“Vale a pena tentar,” disse Tiana. Ela abaixou sua lança. Beber o sangue de cultistas da Cabala pode ser uma questão moral complicada para a Ordem, mas a possibilidade de curar vampirismo não é. “Venha, vamos tentar. E não preciso dizer que, se você tocar em alguém daqui, eu te eviscero como um peixe.”

“Isso provavelmente não me mataria,” Arvad a avisou.

Ele estava sendo honesto, com certeza. “Eu vou pensar em algo,” prometeu Tiana.

“Justo,” disse Arvad, e começou a caminhar.


Tiana esperava enquanto Arvad olhava fixamente para a Pedra de Energia. “Está fazendo algo com você?” Indagou ela. A equipe de trabalho mais antiga se amontoava no lado oposto do compartimento de acesso ao motor, armada até os dentes.

“Não.” Arvad se virou. Seus ombros tensionaram sob a armadura batida, como se ele lutasse contra uma onda de emoção. E então ele olhou para ela, mais uma vez resignado. “Agradeço por me deixar tentar.” Ele cumprimentou Hadi e os demais com a cabeça, e estendeu seus agradecimentos a eles. “Vocês gostariam que eu partisse?”

Tiana deu uma olhadela para Hadi e Tien. Tien tinha se inclinado para a frente, espiando Arvad. Ela disse: “Seu rosto está melhor. Menos pálido. E seus olhos estão menos vermelhos.”

Tiana concordava. “Você pode mostrar seus . . . ” Ela apontou para a própria boca. “Sabe?”

O cenho de Arvad se curvou com a estranheza do pedido, mas ele abriu sua boca e revelou suas presas. Tiana apertou os olhos. “Com certeza, estão menores.”

Hadi assentiu com a cabeça. “Também acho.”

Tiana olhou para os outros. “Precisamos decidir algumas coisas,” disse ela para Arvad.

Eles voltaram para o convés, sob o céu repleto de estrelas. A equipe de trabalho montou um sistema de iluminação ligado à Pedra de Energia do Bons Ventos e Hadi o ligou de volta, já que o acampamento inteiro estava acordado agora. Insetos zuniam pelas lâmpadas do convés e o restante da equipe de trabalho esperava perto dos fogareiros. “Nos dê um momento,” pediu Tiana, deixando Arvad de pé perto do guarda-mancebo enquanto eles se retiravam para conversar.

“O que vamos fazer?” Perguntou Hadi. “Ele está falando a verdade. Podemos ver.”

“Mas confiamos nele?” Um dos outros perguntou.

“Deixarei que vocês decidam,” disse Tiana. Eles estavam sob um risco maior. Tiana talvez não seja um anjo de batalha, mas em um confronto contra um vampiro ela com certeza apostaria nela mesma.

Ela esperou enquanto os demais conversavam, com braços cruzados, de olho em Arvad. Ele estava recostado desanimado no guarda-mancebo, e ela pensou sobre como seria crescer e tornar-se cavaleiro, dedicar-se a proteger Benália do perigo e lutar contra o crescimento das forças da Cabala - e ser capturado e transformado à força em um monstro com a compulsão por beber sangue humano. Isso em comparação deixava o problema dela - ser um anjo criado em resposta às preces de pessoas que não mais existiam - parecer uma pequena inconveniência.

Finalmente todos terminaram de falar, e Hadi deu o veredito. Ele não parecia muito feliz com a decisão deles, mas disse: “Não sabemos se ele está dizendo a verdade; não temos motivo algum para confiarmos nele. Mas outros, eu incluso, odiamos a ideia de mandá-lo embora se a exposição contínua à Pedra de Energia puder curá-lo. Como garantia, ele pode ficar se for fora do nosso acampamento, e você deve prometer ficar de olho nele.”

Tiana assentiu e foi contar a notícia a Arvad.

Ele pareceu surpreso em não ter sido expulso imediatamente. Ele disse: “É muita generosidade de vocês. Eu aceito.”
 

Ilustração: Lius Lasahido

Sob influência da Pedra de Energia, Arvad perdera sua sensibilidade vampírica à luz do sol, então ele acampava na praia, e costumava tirar sua armadura e ficar parado na rebentação com uma lança, pegando peixes para suplementar o jantar dos trabalhadores. Tiana, observando-o das dunas, relatou a Tien: “Ele diz que esta é a coisa mais normal que ele fez desde que foi transformado.”

“Você devia ir pescar, também,” Tien disse a ela. “Você vem trabalhando tando, precisa de descanso.”

“Hmm,” ponderou Tiana. Ela não queria descanso, ela queria trabalhar nos sistemas do Bons Ventos enquanto ainda tinha a chance.

Mas ao menos Arvad era alguém que também não dormia, com quem ela podia conversar à noite, e que compartilhava da sua fascinação pelo Bons Ventos. Ela sentou-se na praia com ele durante sua pausa na patrulha noturna, e os dois contemplaram o navio voador. Com o brilho da lua e a visão noturna deles, era quase igual a olhar durante o dia.

“Tem alguma coisa no casco, ali embaixo,” disse ele uma noite dessas. “Aquela mancha escura.”

Tiana espiou. “Parece uma mancha de fungo. Para reconstruir o casco, Jhoira usou uma semente da árvore-espírito chamada Molimo. Notamos que ela tende a brotar coisas de vez em quando.”

Confuso, Arvad perguntou: “Como ela conseguiu uma dessas?”

“Porque ela é a Jhoira.” Tiana abriu um sorriso largo. “Ela é uma força da natureza.”

Arvad pausou por um segundo. “Ela não é . . . aquela Jhoira? Aquela das lendas sobre a tripulação original do Bons Ventos?”

“É aquela Jhoira - e aquelas não eram lendas, todas elas são verdade.” Tiana admirava como a luz da lua refletia no novo vidro das portinholas do Bons Ventos.

Arvad processou a informação em silêncio por algum tempo, e depois disse: “Ela pretende utilizá-la para lutar contra a Cabala, então.” Ele deu uma olhadela para ela. “Você vai ajudá-la?”

Tiana encolheu o pescoço entre os ombros. Não era um assunto confortável. “Não sou um anjo de batalha. Tenho que cuidar do acampamento e da Pedra de Energia. Garantir que ela não seja usada para nada além de propósitos bons e justos.”

Arvad parecia surpreso. “Não achei que você fosse um anjo de batalha; achei que você era um anjo artífice.”

Tiana franziu o cenho. “Não. Não existem anjos artífices.”

“Mas você está dirigindo todo o trabalho.” Ele tocou levemente sua orelha. “Minha condição não me traz muitas coisas boas, mas a melhoria em minha visão e audição é uma vantagem.”

“Não tenho nenhuma habilidade angelical, oficialmente. Não deveria estar trabalhando com os motores, mas eu só-” Tiana moveu suas mãos como se tentasse explicar. “Serra me provê com o conhecimento de onde as coisas devem ir. Eu consigo ver como todas as coisas deveriam funcionar.”

“Se Serra está provendo este conhecimento a você, então é uma habilidade angelical, oficialmente,” disse Arvad.

Tiana não tinha certeza de por que ela queria argumentar nesse ponto. Pode ser alguma lealdade inata à Grande Máquina, já que ela foi destruída. “Mas este não é o meu propósito.”

“Qual é o seu propósito?”

“Eu tinha que ter sido anjo da guarda de uma grande máquina, mas ela foi destruída antes que eu chegasse. Eu nasci tarde demais. A Ordem não sabe o que fazer comigo, agora. Guardar a Pedra de Energia é a minha primeira missão de verdade.”

Arvad indicou o Bons Ventos com o queixo. “Ali tem uma grande máquina.”

Tiana suspirou, exasperada. “Mas também não é minha tarefa. Serra está me provendo com o conhecimento para ajudar a reconstruí-la, mas o Bons Ventos não é a razão da minha existência.”

“Só porque sua razão de existir original foi destruída, não quer dizer que você não pode conseguir outra. Acredite em mim.” Ele notou que ela estava desconfortável com a conversa, e mudou de assunto. “Talvez, quando Jhoira voltar, eu possa oferecer meu serviço a ela.” Ele olhou para ela com uma expressão grave. “Você também devia.”

Tiana não respondeu. Em cerca de um mês o Bons Ventos estaria pronto para voar novamente. Será que ela conseguiria deixá-lo voar sem ela? Você vai ter que deixar, disse ela para si mesma. Ela era um anjo, e entrar para a tripulação de Jhoira não era o propósito dela.


Dias longos e quentes se passaram, o trabalho continuou, e Arvad não bebeu o sangue de ninguém, apesar da Pedra de Energia não o ter curado ainda. Tiana começava a imaginar que ele realmente quisesse ficar até que Jhoira voltasse, para pedir entrada em sua tripulação. Ela se preparava para não sentir ciúmes caso Jhoira aceitasse. Arvad merecia uma chance.

E então uma tarde ela estava no convés com Hadi, conversando sobre o teste final dos motores, quando ela viu um lampejo de luz ao longe. Ela deu um passo à frente para se equilibrar no guarda-mancebo. Alarmado, Hadi seguiu seu olhar. “Foi o vulcão?” Perguntou ele.

“Não. Não, é coisa pior.” Tiana ergueu sua voz e deu o alarme. “Todo mundo, corre! Protejam-se nas rochas!”
 

Ilustração: Daarken

Voando das montanhas com um caminho de fumaça atrás dela, vinha uma fênix. Uma ave de rapina enorme, com envergadura várias vezes maior do que a de Tiana, e com o corpo inteiro envolto em chamas. Ela vai queimar o Bons Ventos, pensou Tiana, e uma ira a preencheu - queimando tão pura quanto a luz sagrada de Serra. Nunca, nunca. Não até o seu último suspiro. Ela se lançou aos ares, vagamente consciente que Hadi pulava pelo andaime, ou que a equipe de trabalho saía de suas barracas avisando do alerta.

Quando a fênix varreu o ar, Tiana preparou sua lança e a apontou direto para o tórax da criatura. No último instante, a fênix rolou por baixo dela. Suas garras a atingiram. O calor a banhou, e uma dor queimava pelo seu ombro; ela perdeu altitude e quase todo o ar. Ela bateu suas asas para recuperar altura e fez a volta. Mas a fênix usou a oportunidade para voar baixo pelo acampamento, incendiando as barracas. Tiana gritou furiosa, mergulhando no ar para atirar sua lança nas costas da fênix.

A asa da fênix bateu para cima, atingindo Tiana e torcendo suas asas. Ela caiu, atingindo uma rocha, e quicou. Ela deslizou por uma inclinação de cascalhos e se levantou com dificuldade, desenroscando suas asas. Sua lança virou um bolo derretido. O terror congelava seu coração quando ela se virou para olhar para o Bons Ventos. A fênix mergulhou na direção do navio voador vulnerável e não havia tempo para que ela chegasse lá antes—

E então a fênix deu um solavanco, retirada de sua trajetória de voo por uma flecha encravada no pescoço. Ela queimou a flecha com uma contração de suas penas de fogo, mas outra e mais outra tomaram o lugar da primeira. Tiana subiu aos tropeços até o topo da rocha e viu Arvad no chão, perto do navio voador. Ele segurava um arco longo, e estava lançando mais uma flecha.

Tiana desembainhou sua espada e a ergueu, rezando pela magia sagrada da Ordem de Serra. No mesmo instante ela sentiu o poder divino fluir da espada para a sua mão. Ela esticou suas asas e saltou das rochas, tomando os ares de novo em um ângulo para cima. Quando a próxima flecha de Arvad atingiu a fênix, Tiana lançou-se dentro do fogo e estocou sua espada logo abaixo do esterno da criatura.

A criatura guinchou e se retorceu em pleno ar. Determinada a impedir que ela caísse sobre o Bons Ventos, Tiana a empurrou na direção da praia. Ela continuou a empurrar até que sua pele começou a chamuscar, e o medo primitivo de queimar suas asas a fez soltar. Batendo asas para se manter no alto, ela viu a fênix tombando, tentando se endireitar no ar, e cair amontoada dentro das ondas.

Tiana virou-se de volta para a praia, e lhe ocorreu que suas roupas e talvez seu cabelo estivessem em chamas.

Ela pousou no chão batido próximo ao acampamento e Farim correu até ela, jogando um balde de água. Ela cuspiu água, que pingava por toda sua face. Arvad jogou um cobertor molhado sobre as asas dela e perguntou com urgência: “Você está bem?”

Agora que o fogo havia sido apagado, Tiana podia perceber que o dano era superficial, e anjos se curam rapidamente. “Eu vou ficar bem.” Ela viu que Arvad também parecia chamuscado, e seu tabardo claramente esteve em chamas também. “E você?”

“Arvad nos salvou,” disse Tien, ainda respirando com dificuldade. Ela apontou para uma barraca fumegante e arruinada. “Ele ergueu a lona para que a gente conseguisse sair. E ele salvou o Bons Ventos. Acho que ele salvou você também.”

Tinha muita coisa que Arvad poderia ter feito, com Tiana morta e o acampamento em pleno caos. Se alimentado dos trabalhadores que fugissem do acampamento, ou roubado a Pedra de Energia e fugido com ela. Em vez disso, ele agira exatamente como um cavaleiro benaliano deveria.

E Tiana agira exatamente como um anjo da guarda. O anjo da guarda do Bons Ventos. Pensar no navio voador sendo destruído quase destruiu a ela. Ela sabia agora que o defenderia até a morte. É isto o que queres, Serra? indagou Tiana em seu coração, mas não houve resposta. Talvez fosse porque ela já tinha uma resposta; quando Serra a deu o poder em sua espada, força suficiente para matar a fênix com um só golpe.

Quando Jhoira voltasse, Tiana se ofereceria para servir na tripulação do Bons Ventos. Não era o propósito para o qual ela nascera, mas era o que ela queria mais do que tudo.


Perfil do Plano: Dominária

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