Retorno a Dominária: Episódio 8

Posted in Magic Story on 2 de Maio de 2018

By Martha Wells

Martha Wells has written fantasy novels, short stories, media tie-ins, and non-fiction. Her most recent works are The Harbors of the Sun, part of her Books of the Raksura series, and a science fiction novella from Tor.com, The Murderbot Diaries: All Systems Red.

Chandra caminhou por entre os planos até Regatha. Ela passou por uma tempestade de fogo para existir novamente no chão rochoso ao pé dos degraus amplos de pedra da Fortaleza Keral. O sol se punha atrás das montanhas, e a fumaça do vulcão mais próximo dava um tom vermelho-brilhante lindo ao céu laranja. O calor do dia inebriava seus ossos, dando-lhe conforto depois do pântano Dominariano. Ela respirou fundo o ar quente com aquela energia craquelada como o ar depois do raio cair, sentindo todos os seus músculos relaxarem.

Mountain
Montanha | Ilustração: Sam Burley

Ela suspirou e esfregou o rosto. Eu sei que não parece, Gideon, mas eu tenho um plano. Ela não estava fugindo.

Nissa também não tinha fugido. Você não precisava sair daquele jeito, me deixar daquele jeito, pensou Chandra com o peito apertado ao pensar na expressão furiosa na face de Nissa. Nissa nem dera a ela a chance de ir junto. Ela sabia que Zendikar poderia estar em perigo por causa do Nicol Bolas, e como Nissa queria estar lá para ajudar a consertar todos os danos. Mas ela agiu como se nunca quisesse me ver de novo, pensou Chandra, e sabia que ela parecia uma criancinha raivosa e ciumenta. Bom... Isso era parte do problema, não era? Você não é forte o suficiente, e precisa consertar isso, pensou ela consigo mesma.

Lá dentro do mosteiro, vozes ecoavam em cânticos noturnos. Ela chegara bem na hora certa; os monges terminariam a cerimônia e sentariam para jantar. Era a oportunidade perfeita.

Ela subiu as escadas em silêncio, se esgueirando para dentro do saguão escuro, e pegou o primeiro corredor. Ao chegar no pátio aberto, ela teve que se esconder atrás de um banco de pedra quando duas figuras passaram apressadas. Noviços, distraídos com seus estudos, e já atrasados - algo que Chandra teve que lidar em seu curto período como abadessa. Ela esperou até que o som de seus passos se afastassem, e então atravessou o pátio rapidamente.

Não era como se algo acontecesse caso a encontrassem, mas Chandra não queria discutir sobre seus planos. E eles veriam que ela estava chateada, ela teria que se explicar . . .  Ela não queria nem pensar no que aconteceu em Amonkhet, muito menos falar no assunto.

Ela precisava de mais poder de fogo, mais foco e precisão, se quisesse causar dano de verdade no Nicol Bolas. Para conseguir, ela teria que estar mais em sintonia com seu eu verdadeiro, ou ao menos era isso que o povo da Fortaleza Keral pensava. O problema é que Chandra nunca teve muita sorte tentando fazer isso. Mas dessa vez ela tropeçara na oportunidade perfeita. Logo depois de Nissa desaparecer, Chandra notou traços frescos da trilha de éter de uma poderosa piromante em Dominária.

Possivelmente a trilha de éter de Jaya Ballard.

A planinauta piromante não era vista há muito tempo, desde antes de Chandra nascer, e todo mundo na Fortaleza Keral achava que ela estava morta. Mas agora pode ser que Jaya esteja em Dominária agora, e se alguém podia ensinar a Chandra os truques para entrar rapidamente em sintonia consigo mesma e aumentar poder, tinha de ser ela.

Depois de passar pelo pátio, ela estava na área menos utilizada da fortaleza, e foi fácil passar rapidamente pelos espaços vazios até a escadaria que ela queria descer. Ela chegou ao salão escuro lá embaixo e abriu a mão, soltando uma pequena chama. Ela subiu até o teto abobadado, iluminando todo o cômodo.

Era ali onde o mosteiro guardava todas suas relíquias sagradas, mas só havia uma coisa ali que a interessava. Ela cruzou o aposento até o pedestal onde ficavam os óculos de Jaya. O metal levemente dourado estava apenas um pouco descolorido, mas a fivela e a faixa de couro estavam obviamente gastas. Ela vai querer essas belezinhas de volta, pensou Chandra, e servirão de prova que eu vim da Fortaleza Keral. O presente faria com que Jaya a ouvisse por tempo suficiente para que ela explicasse a importância da luta contra Nicol Bolas. E não era roubo se você estava devolvendo algo que era da pessoa.

Ao estender as mãos para pegá-los, uma voz atrás dela disse: “Chandra, o que você está fazendo?”

Chandra agarrou os óculos, segurando-os perto do coração enquanto girava. Era a Mãe Luti, encarando-a da soleira da porta.

Chandra deu um gritinho: “Não é o que parece!” De todas as pessoas que podiam ter pego Chandra em flagrante, Luti era a pior. Ela não tinha uma posição oficial no mosteiro, mas era idosa e vivia aqui desde sempre, com algumas pausas, e todo mundo a respeitava, e ela estava sempre tentando fazer Chandra aprender coisas que ela não tinha tempo nenhum para aprender

Luti veio na direção dela, parecendo mais confusa do que qualquer outra coisa. “Não faço ideia do que isso aqui parece,” disse ela. “O que você está fazendo aqui? Por que veio pegar os óculos?”

“Encontrei Jaya Ballard,” anunciou Chandra.

Luti congelou por um instante, com olhos arregalados. As sombras da iluminação que Chandra conjurou faziam as rugas em torno de sua boca e olhos ainda mais fundas, escurecendo seus cabelos longos e prateados. “Você . . .”

“Eu acho que ela está em Dominária! Nós fomos pra lá depois de Amonkhet - foi horrível, o Nicol Bolas quase matou todos nós, e a gente falhou . . ." Chandra ergueu os óculos. “Mas se eu encontrar a Jaya, vou entregar esses óculos e pedir pra que ela me ensine os segredos e truques que eu preciso saber! Eu tenho que fazer isso, Luti, eu preciso de mais poder para lutar contra o Nicol Bolas. Senão nós vamos perder, ele vai me matar, e todos os meus amigos, e daí-” ela gesticulou e a pequenina bola de fogo que flutuava perto do teto dançava loucamente, imitando a agitação de suas emoções. “Não vai ter mais ninguém para segurar o avanço dele.”

Luti deu um suspiro. “Chandra, você não precisa da Jaya. Você devia estar se concentrando em ajudar seus amigos, se o perigo é tão grande assim.”

“Você não sabe o que eu preciso!” Estourou Chandra. Toda a frustração e medo da batalha desesperada contra Nicol Bolas, do Gideon ficando do lado da Liliana, da saída abrupta da Nissa, tudo entrou em ebulição de uma só vez. "Você não estava lá! Pára de me dar conselhos que eu não preciso e não quero!”

Luti fez um gesto, exasperada. “Chandra—”

Mas Chandra já tinha se virado e chamas fantasmagóricas se acenderam em torno dela quando ela partiu daquele plano de existência. Dessa vez, ela sabia exatamente o que ela precisava fazer.


Chandra seguiu os traços que já desvaneciam do que ela esperava ser a trilha de éter de Jaya e caminhou de volta para Dominária. Ela foi banhada por um ar fresco. Ela estava em um beco, cercada por edifícios de pedra pesada, com ameias e janelas fechadas. Ela saiu do beco para uma praça ensolarada, onde pessoas usando couro rústico e cores cruas passavam apressadas. O sol aquecia os paralelepípedos sob seus pés, e o ar só parecia fresco porque ela estava na Fortaleza Keral, que mais parecia um forno. Aqui era Argivia, capital de Novo Argivo, mais a oeste de Benália e Aerona.

Todos os transeuntes pareciam nervosos, e várias pessoas carregavam cestos com comida, malas, barris e jarros de cerâmica, levando tudo para o centro da cidade. Todo mundo parecia falar em vozes altas e preocupadas. Chandra saiu do caminho de um rebanho de bodes, e esbarrou em uma mulher que carregava uma cesta. Ela se desequilibrou e a cesta virou, lançando maçãs pelos ladrilhos.

“Ai, desculpa!” Chandra se lançou para o chão atrapalhada, para pegar as maçãs.

“Está tudo bem.” A mulher se ajoelhou para pegar as frutas e colocá-las de volta na cesta. Ela riu, um pouco resfolegante. “Se for a pior coisa que acontecer hoje, nós duas estaremos com sorte, não é?”

Felizmente, a multidão não estava em pânico, e caminhava em torno de Chandra e da mulher como se elas fossem pedras em um rio. “O que está acontecendo?” Questionou Chandra. A cidade claramente se preparava para alguma coisa, mas era ordenado e parecia ensaiado, como se todos estivessem acostumados.

“Você não ouviu?” A mulher largou as últimas maçãs dentro da cesta, e Chandra ajudou a erguê-la quando as duas ficaram de pé.

“Estou em viagem, acabei de chegar,” disse Chandra. Não era a melhor das explicações, mas felizmente a mulher estava apressada demais para fazer mais perguntas.

Ela disse, “Ah, são os kobolds da Cordilheira de Kher de novo, e aquele deus-dragão horroroso deles, Prossh. Eles vão atacar a cidade, mas o Guardião Baird tem uma tropa de soldados e uma piromante poderosa para controlá-los. Espero que dessa vez seja permanentemente.”

Prossh, Skyraider of Kher
Prossh, Skyraider of Kher (Commander 2013)| Ilustração: Todd Lockwood

“Uma piromante poderosa?” Parecia promissor. “Você sabe quem é?”

“Não, não cheguei a ouvir o nome.” A mulher encaixou a cesta no quadril. “Se você quer viajar, devia partir logo. Eles vão trancar os portões até que a tropa volte.”

Se o guardião não fosse voltar até que acabasse com a ameaça dos kobolds, não tinha como dizer quanto tempo ele levaria nisso. Chandra tinha que ir agora. “Obrigada!” Disse ela, lançando-se para longe da multidão.


Os portões da cidade ainda estavam abertos e vários viajantes e comerciantes estavam partindo, sem querer arriscar ficar presos na cidade. Alguns mascates empreendedores tinham aberto suas lojas ali mesmo, e Chandra conseguiu comprar alguns suprimentos de viagem, e um mapa, antes de começar. Todos os outros cavalos e vagões e o tráfego a pé estavam pegando a estrada do norte; Chandra foi a única a sair rumo ao sul, na direção das cumeeiras.

Ao caminhar, ela via sinais de que uma grande força montada passara por aqui recentemente. Ela esperava conseguir alcançar o grupo do guardião antes da batalha. Se Jaya realmente estivesse lá, Chandra se ofereceria para ajudar, e isso seria uma apresentação bem melhor do que apenas chegar até Jaya e entregar-lhe os óculos. Que plano ótimo, pensava Chandra consigo mesma. E a cada hora ele melhora!


Alguns dias depois, Chandra começou a sentir um pouco de dúvida. Era o final da tarde e ela acabara de deixar as fazendas próximas da cidade, e a estrada subia gradualmente para as florestas nas colinas. Agora, ela caminhava pela floresta densa, e a estrada era muito mais irregular ali do que perto da cidade. Pelo menos o clima esteve bom o suficiente para não precisar usar a barraca, mas ela estava preocupada com o que aconteceria caso ela ficasse sem comida.

Ela ainda via sinais da passagem da tropa argiviana, e encontrara alguns acampamentos abandonados por eles, mas eles se moviam obviamente mais rápido do que ela. Ela sentia cada vez mais que provavelmente já tinha perdido a chance de batalhar. Ela disse para si mesma que isso não importava; se ela encontrasse Jaya, tudo iria de acordo com o plano.

Ela caminhava se arrastando, tentando cavar o último pedaço de fruta da sua mochila, quando ela encontrou algo caído do lado da estrada. Ao menos ela pensou que eram mais restos dos argivianos, um colchão descartado ou esquecido entre as raízes na beira da estrada. Mais alguns passos e ela viu o braço estendido, notando que era um corpo.

Chandra parou, sobressaltada. Não havia canto dos pássaros em volta. A curva da estrada acompanhava uma colina, e ela não conseguia ver muito mais à frente. Era correu até o corpo. Era um homem, usando a armadura leve de um batedor e um tabardo com o símbolo do Guardião do Argivo que ela vira na cidade. A julgar pelos ferimentos de machado em seu pescoço e ombro, ele com certeza estava morto, mas quando ela tocou o braço dele a pele ainda estava esfriando. Não faz muito tempo que isso aconteceu, pensou ela. Talvez ela não tivesse perdido a batalha, afinal. Apesar de que era estranho ela não ter ouvido—

Um baque ressoou pela floresta, não muito longe dali. “Vamos nessa,” Chandra murmurou para si mesma.

Chandra saiu da estrada, pisando no barro firme entre as árvores. Seguindo na direção do baque, ela encontrou outro corpo, outro batedor argiviano - este morto por virotes de besta nas costas. Ela continuou a caminhar, seguindo os sons de luta. Ela alcançou o topo de uma elevação, e viu movimento pelo canto do seu olho. Ela parou e apertou os olhos, tentando ver melhor. E então, ela viu movimento mais uma vez. “Ah, aí está você,” sussurrou para si.

Alguém, ou algo, tinha acabado de empurrar o tronco de uma árvore caída pela estrada onde havia a curva na colina. Isso aí parece uma emboscada, pensou ela.

Não havia muita vegetação entre as árvores altas, mas ela ainda não conseguia ver quem estava se movendo lá em cima. Enfim ela alcançou um ponto mais alto, subindo entre as árvores no topo de uma colina baixa. Dali, ela viu os kobolds.

Kobolds of Kher Keep Token
Kobolds da Fortaleza de Kher (ficha) | Ilustração: Paolo Parente

Ao menos uma dúzia deles trabalhava em cada lado da estrada, e figuras baixinhas com feições encavadas usando uma variedade de metal e armadura de couro e elmos, e armados pesadamente com machados, lanças e espadas. Eles estavam construindo uma barricada na estrada, provavelmente para impedir a tropa argiviana e dar uma chance para os kobolds atacarem. O que Chandra imaginava ser o líder estava sobre uma grande rocha, brandindo uma espada e exortando os outros: “Vamos matar os argivianos pela glória de Prossh!”

“Prossh nos ama,” responderam os outros enquanto arrastavam outra árvore caída pela estrada. “Honramos Prossh.”

Quando o líder kobold continuava sua retórica sobre a grandeza de Prossh, Chandra fungou. Já que Prossh era um dragão, ela tinha bastante certeza de que ele nem se importava com os kobolds, a não ser com o gosto deles. Mas os kobolds devem ter surpreendido os batedores — eles sabiam que as forças do guardião estavam a caminho daqui, e chegariam aqui a qualquer momento. Tudo era muito irritante. Se não fosse pelos kobolds, Chandra já estaria se apresentando a Jaya agora.

E então, mais dois kobolds correram pelas árvores, vindos do sul. Eles correram até o líder e falaram algo, com voz baixa demais para Chandra ouvir. O líder se virou e saltou para fora da pedra, sibilando e gesticulando com os outros. “Os arvigianos estão chegando! Estejam prontos!”

Quando os kobolds na estrada correram para se esconder, Chandra saiu da clareira. Ela ia romper essa emboscada.

Ela rolou para trás e sentou-se para olhar em volta. E então ela se viu olhando para dois kobolds, subindo cuidadosamente a colina atrás dela. Um deles gritou: “Matá-la por Prossh!” Ambos ergueram machados pesados, e avançaram.

Ah, dane-se, pensou Chandra. Lá se foi a chance de ser furtiva e esperta o suficiente para impressionar Jaya, que deve estar por perto. Ela resolveria tudo do jeito chamativo e incendiário.

Chandra lançou uma bola de fogo direto no peito do primeiro kobold, que rolou colina abaixo, guinchando. O segundo saltou sobre ela no momento errado, e sua bola de fogo atingiu o seu machado, ao invés do seu corpo. Ele se debateu para trás enquanto a empunhadura do seu machado virava cinzas. Chandra aproveitou a oportunidade para saltar e chutar a cara dele. Ele saltou girando colina abaixo, ao encontro do amigo.

Murmurando para si mesma “Não incendeie a floresta,” ela correu à toda pelas árvores, na direção da estrada, para onde os kobolds tinham preparado a emboscada. O grupo do guardião chegaria a qualquer momento.

Virotes de besta foram atirados no chão, perto de seus pés. Ela girou e viu três kobolds, correndo na direção dela, vindo das árvores. Ela incinerou o restante dos virotes em pleno ar - e as bestas também, para garantir - e depois avançou para a estrada, logo onde os troncos de árvore a bloqueavam.

Chandra invocou seu poder e estendeu suas mãos na direção da barreira improvisada. Um jato bem no meio, pediu ela para si mesma, com foco e controle. E então ela pensou ironicamente, Igual a Mãe Luti sempre te diz e você nunca escuta.

Ela lançou o jato de fogo na direção dos troncos. Ele os atingiu bem no centro, todas as três árvores caídas. Através da fumaça e de fragmentos em chamas, Chandra conseguiu ver um pouco da estrada além da barricada, mas não conseguia ver ninguém se aproximando. Ela precisava aumentar a abertura, para garantir que os argivianos não ficassem presos. Ela lançou outro jato de fogo, mas um monte de kobolds avançaram sobre ela aos gritos.

Ela atravessou a primeira onda com um fluxo de fogo, lutando contra a vontade de explodir tudo. A última coisa que ela queria fazer era incendiar a floresta, arriscando os argivianos ali perto e o que mais vivesse ali. Mas seu temperamento enfurecia mais e mais enquanto os kobolds avançavam novamente. Um virote rasgou a manga de sua blusa, quase a atingindo. O jato de fogo cuidadosamente mirado virou uma conflagração selvagem que fritou a meia dúzia de kobolds que estava no caminho.

Felizmente ela estava virada para o norte, e não atingiu a tropa de argivianos que avançou pela barricada já despedaçada atrás dela naquele mesmo momento.

Os kobolds tentaram se reagrupar para lutar contra os argivianos, mas a resistência rapidamente se tornou uma retirada. Chandra estava do lado da estrada, e ficou alguns minutos dizendo a si mesma que estava completamente no controle de tudo e que queria ter aumentado o jato de fogo daquele jeito e sabia que tinha o lançado na direção certa. Então ela desistiu, e só esperou que Jaya não tivesse visto.

Ela passou os olhos por todos os argivianos em suas montarias e não viu ninguém que parecia poder ser Jaya. Ela deve estar mais para trás dentro da tropa, junto com o guardião, talvez.

Finalmente os poucos kobolds que sobreviveram fugiram, e Chandra seguiu na direção dos restos da barricada onde os vagões de suprimento esperavam. Alguns soldados já tinham começado a rebocar os restos das árvores queimadas, e outros usavam pás para remover os escombros ainda em brasa.

Uma jovem se aproximou dela apressada, e disse: “O Guardião Baird gostaria de lhe agradecer.”

“Ah, certo.” Chandra a seguiu, e seu coração bateu um pouco mais forte ao pensar que finalmente conheceria Jaya.

Mas quando a soldado a levou até onde o guardião estava, desmontado de seu cavalo, não havia ninguém que se parecesse com Jaya. Chandra conseguiu se conter e aceitar os agradecimentos formais de Baird sem parecer impaciente demais, mas na primeira oportunidade que teve, ela disse: “Eu estava procurando pela piromante que devia estar viajando com você. O nome dela é Jaya Ballard?”

Baird disse: “Sim, é ela, mas ela partiu ainda nas cumeeiras.”

“Partiu?” Chandra mal podia reagir. Ela um alívio que ela estivesse certa este tempo todo, que Jaya realmente estivera ali. E era uma decepção horrível que ela não esteja aqui agora. Por favor, que ela não tenha transplanado, pensou ela.

Baird explicou: “Ela disse que viera até Argivia em busca de um amigo dela, e quando ela ouviu que o dragão contra quem íamos lutar estava no caminho, ela me ofereceu seus serviços.”

Era um alívio. Chandra perguntou: “Então, ela está indo mais para o sul?”

Baird apontou estrada acima. “Para a floresta de Yavimaya, acredito eu. Fica perto da costa, do outro lado da Cordilheira de Kher."

Isso estava no mapa de Chandra. Esta estrada se ligava às trilhas sobre as cumeeiras e corria até a costa do outro lado da ilha de Yavimaya. “Eu te agradeço!” Chandra disse a ele. “Tenho que ir. Quero tentar alcançá-la assim que puder.”

Baird a cumprimentou com a cabeça e gesticulou na direção dos vagões de suprimentos. “Se sua intenção é segui-la, por favor, aceite alguns suprimentos e alimentos nossos. É o mínimo que podemos fazer pela sua ajuda.”

Chandra começou a ir na direção dos vagões, mas então pensou em mais uma pergunta. “Ah, Guardião? Quem é o amigo que Jaya está procurando?”

“Não tenho certeza.” Baird sacudiu a cabeça. “Ela disse que era alguém que ficou sumido por muito tempo.”


Chandra viajou por cinco dias, para fora da floresta e além do fim da estrada, acima das inclinações rochosas e a vegetação baixa das cumeeiras. Ela tomou cuidado com a comida, apesar do mestre de suprimentos argiviano ter dito que ela teria o suficiente para chegar na costa, e ela enchia seu odre toda vez que a estrada cruzava um riacho. A caminhada lhe deu bastante tempo de pensar sobre o que ela diria a Jaya, ensaiando de novo e de novo. Também lhe deu bastante tempo para se preocupar com Gideon e com os outros, e para sentir saudades de Nissa. Mas ela tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa.

Subindo o que seu mapa dizia ser a última cumeeira, a trilha ficou mais difícil de ver, e Chandra se viu mais escalando do que caminhando. Finalmente, ela alcançou o topo e parou, respirando com força. O mar se espalhava logo abaixo, vindo de uma praia ao pé da cumeeira, com a água serena sob céu azul e nuvens brancas. Diretamente do outro lado, talvez a apenas dois ou três quilômetros de distância, havia outra costa tão coberta de mata fechada que parecia uma muralha quase sólida de verde intenso. Tinha que ser Yavimaya.”

Forest
Floresta | Ilustração: Jonas De Ro

A bruma flutuava em torno de formações que podiam ser colinas ou pequenas montanhas, mas do ponto onde estava na cumeeira ela não podia ver nenhum sinal de habitação. Nenhuma indicação de caminhos ou estradas ao longo da praia, nenhuma marca de civilização. Frustrada, ela disse em voz alta: “Como que eu vou encontrar—”

De repente, uma seção inteira de árvores enormes em um declive na ilha tremeu, e depois se balançou para um lado e para o outro, como se um vento repentino as sacudissem igual a brinquedos. Carregado pela brisa, Chandra ouviu o som distante de metal batendo, e algo rugindo ao longe.

“Acho que isso responde a minha pergunta.” Chandra começou a descer a cumeeira, se movendo o mais rápido que podia. O que quer que estivesse acontecendo ali, era um bom lugar para começar a procurar por Jaya.

Abaixo, em uma enseada ao pé da cumeeira, ela encontrou uma pequena vila de pescadores. Um pescador amigável e meio confuso a levou de barco pelo estreito, e Chandra pisou na praia que começaria sua jornada em Yavimaya.


Chandra pensara que a mata perto da costa era fechada, mas as árvores eram enormes, com raízes pesadas em espiral, formando arcos acima do chão. As copas folhosas transformavam a luz do sol em sombras verdejantes, mas havia flores coloridas por todo o lugar. Felizmente, as samambaias no chão da floresta eram baixas, e fáceis de correr por cima. Chandra se aproximou do barulho até chegar na beirada de um vale baixo que possivelmente não era feito naturalmente. Era quase redondo, e o fundo era uma cratera grande e recém-feita, cercado por pilhas de terra perturbada. E as pessoas que a escavaram ainda estavam lá.

Primeiro Chandra achou que estava olhando para gigantes musculosos usando armaduras completas, mas depois ela murmurou para si mesma: “Ah, tá, entendi.” Ela esteve viajando sozinha por tempo demais, porque estes eram obviamente autômatos.

Cada um deles tinha pelo menos seis metros de altura, com mãos em concha feitas para escavar, e grandes blocos no lugar de suas cabeças. Enquanto observava, eles pararam de cavar e saíram da cratera para enfrentar as sombras da floresta.

Chandra hesitou, mas eles não podiam estar atrás dela; eles estavam olhando para o lado errado. E então ela viu que a floresta do outro lado da cratera se movia.

As folhas e galhos se agitavam como se um vento forte passasse por elas. Criaturas que pareciam árvores animadas caminhavam para longe das sombras, vale adentro. Não, ‘pera, elas são árvores animadas, pensou Chandra impressionada.

Elas se arrastavam e torrões de terra caíam dos nós de suas raízes. Algumas delas eram grandes, e seus troncos eram divididos como se fossem pernas, mas outras eram menores e saíam da mata rasteira, movendo seus galhos menores de um modo que, para Chandra, era desconfortavelmente similar ao movimento de aranhas gigantes.

Ela não tinha certeza do que iria acontecer — se era uma batalha, um impasse, ou um encontro. E então, de repente, uma das árvores se lançou para a frente tão rápido que Chandra deu um gritinho involuntário. A árvore saltou sobre o autômato mais próximo e o rasgou ao meio.

Chandra perdeu um fôlego atônita ao ver partes metálicas voando pelo ar, e caindo como chuva. Os outros autômatos correram para atacar e as árvores enraivecidas se lançaram para a luta corporal. Por instinto, ela correu na direção da batalha, mas ao pé da colina ela parou de repente. Ela não fazia ideia de que lado ajudar.

Ela não queria acidentalmente lutar contra os amigos de Jaya — seria um desastre. E então uma árvore se separou da batalha e avançou contra ela, com galhos a estapeando loucamente. Reagindo por instinto, Chandra lançou um raio de fogo. Ele atingiu a árvore em cheio, e seus galhos se incendiaram. Mas ainda em chamas ela avançava sobre Chandra, casca e galhos desintegrando, como se estivesse desesperada para matá-la. Chandra a atingiu com outra bola de fogo quando um autômato menor, do tamanho de uma pessoa, chegou ao lado dela. Com uma voz grave, ele disse: “Tome cuidado. Eles atacarão qualquer movimento.”

Mais árvores rolaram pela colina como amarantos-do-deserto gigantes e raivosos, na direção dos autômatos. Três delas foram na direção de Chandra, acelerando enquanto se aproximavam. Chandra exigiu: “O que são essas coisas?”

O autômato se preparou para receber o ataque. “São árvores animadas, criadas e enviadas por Multani.”

Não são pessoas, então, pensou Chandra. Ela invocou seu poder e explodiu as árvores que se aproximavam, mirando nos troncos. Se não eram gente, ela não iria se segurar.

E então o autômato saltou, passando por ela. Chandra girou rapidamente e viu uma árvore que aparecera e estava prestes a bater com seus galhos como se fossem um martelo sobre eles. O autômato socou o tronco da árvore, de novo e de novo, e lascou a madeira maciça até sobrar apenas farpas.

Mais árvores se lançaram sobre a linha de frente dos autômatos maiores, e Chandra correu para ficar logo atrás. Duas árvores se viraram para atacá-la, e Chandra as explodiu para tirá-las do caminho. Ela alcançou um terreno mais alto onde tinha um ângulo de visão melhor, e lançou um fluxo de chama sobre toda a fileira de árvores. Elas não pareciam perceber que estavam em chamas, e cegamente se empurravam para chegar nos autômatos, espalhando o incêndio.

Chandra estourou os poucos retardatários e voltou para o nível da batalha. Finalmente, ela e os autômatos sobreviventes estavam cercados por pilhas de árvores socadas e madeira arrebentada em brasa. Chandra tirou a fuligem do rosto e bateu as cinzas de suas luvas. Ela olhou em volta e encontrou o autômato menor que a salvara. Ele empurrava uma árvore caída para longe da beirada da escavação. Ela correu até ele.

Ele se endireitou e olhou para ela. Naquele momento Chandra percebeu que este não podia ser um autômato. Sua cabeça e face eram muito mais humanas do que as dos outros, mais móveis. Ele disse: “Agradeço pela ajuda."

“De nada. Obrigada por pegar aquele lá, que apareceu de surpresa.” Ela pensou que deve levar algum de tempo para se acostumar com suas feições de metal. Ela conseguia perceber que ele tinha expressões faciais, mas eram difíceis de ler. “Você disse que alguém chamado Multani as mandou atrás de você?” Levou tempo para ocorrer a Chandra que Multani podia ser o amigo que Jaya tinha vindo encontrar, e neste caso Chandra tinha realmente estragado tudo.

A pessoa de metal disse: “Multani é um elemental, e esteve semi-consciente, recuperando-se de ferimentos terríveis. Animar aquelas árvores e mandá-las para nos atacar é uma ação de defesa instintiva.”

Era um alívio. Jaya provavelmente não veio encontrar alguém que estava praticamente inconsciente. “Meu nome é Chandra. Eu estou procurando pela Jaya Ballard, e o guardião do Argivo me disse que ela foi até Yavimaya procurar por um amigo que esteve sumido por muito tempo. Você não sabe quem é, sabe?”

A pessoa de metal inclinou a cabeça, e era difícil dizer mas Chandra achou que sua face parecia irônica. Ele disse: “Eu sou Karn. E eu sou alguém que ficou sumido por muito tempo.”

“A Jaya está aqui—” Chandra começou a dizer, mas alguém atrás dela disse: “Bom, que surpresa me encontrar aqui.”

Chandra girou. A Mãe Luti estava lá, usando um gibão de couro e metal sobre seus robes vermelhos. O que ela está fazendo em Dominária? foi o primeiro pensamento desconcertado de Chandra. E depois, Peraí, como ela veio parar em Dominária? Ela não é planinauta. Eu não pensei que ela fosse planinauta. “Você não pode estar— Como que—?”

A Mãe Luti ergueu uma sobrancelha, e apontou para os óculos de Jaya pendurados no cinturão de Chandra. Ela disse: “Acho que esses aí são meus.”


Arquivo das Histórias - Dominária
Perfil da Planeswalker: Chandra Nalaar
Perfil do Planeswalker: Karn
Perfil do Plano: Dominária

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