Testando as Águas Turvas

Posted in Magic Story on 17 de Outubro de 2018

By Nicky Drayden

Nicky Drayden is a systems analyst who dabbles in prose when she's not buried in code. She resides in Austin, Texas, where being weird is highly encouraged, if not required.

Conto anterior: Oculto Sob a Neblina


Nem todo cientista maluco nasce em berço de ouro. Alguns de nós têm que merecer, e às vezes merecer não é algo bonito. Enquanto caminho pelos esgotos sob o Décimo Distrito, com chorume até os joelhos, eu ignoro os pedaços de esgoto sólido batendo contra a magia defletora que cobria meu uniforme. Ao invés disso, me concentro na expansão do submundo — domos estonteantes, colunas pomposas, e um arco ornamentado e encaixado com um alto-relevo que mostrava a assinatura do Pacto das Guildas. É bonito de um jeito perigoso aqui embaixo, e se não fosse pelos gases nocivos e pelos quase dois milhões de litros de urina e excremento liquefeito fluindo galeria abaixo, eu diria que é até charmoso.

“Sem tempo para ficar de queixo caído, minha cara,” grita Kel'teth, e eu noto que estou vários passos atrás do meu guia Golgari. Ele é o trol mais tranquilo que já vi na vida, provavelmente por estar o tempo todo mastigando os cogumelos iridescentes que crescem perto de suas axilas. Com olhos calmos e atentos, ele me pede para continuar.

Tem um rato nadando no chorume do meu lado. Um grito sobe pela minha garganta, mas eu seguro; não quero que Kel'teth pense que não sou apta para a tarefa. Um rato de esgoto é praticamente a mesma coisa que um rato de laboratório, não é mesmo? Só que ratos de laboratório não têm presas espumando. Nem olhos ameaçadores. Nem esse guincho hipnotizante. Sou tomada por uma vontade insistente de fazer carinho, bem no focinho dele. Minha mão se estica, trêmula, só mais um pouquinho . . .

Um pedaço de cimento esburacado voa por mim, atingindo o rato bem na cabeça com um tchibum. Ele guincha uma última vez, e depois afunda para o esquecimento imundo. Eu sacudo a cabeça para tirar os pensamentos que me consumiam. Mas o q—

“Sirenos de esgoto,” diz Kel'teth, tirando a poeira das mãos. “Raivoso como qualquer outro, mas não consegue atacar até você estar com a mão na boca deles. Melhor evitar.”

“Sabe, informações desse tipo teriam sido úteis antes de começar a tarefa,” disse eu, limpando respingos de esgoto da minha boca.

Kel'teth ri. “Se eu fosse avisar sobre cada coisinha que possa matar você nos esgotos, não estaríamos conversando agora.”

Eu me mantenho perto do meu guia enquanto ele me avisa sobre as oito variedades diferentes de plantas aquáticas carnívoras que vivem aqui embaixo, e me dá dicas de como evitar ser eletrocutada pelas enguias. Enquanto continuamos, eu noto que há sombras nos espreitando em cantos escuros, atrás de pilares, sob as pontes, e decido que talvez conhecimento nem sempre é poder. Eu me distraio das lições de Kel'teth e começo a me concentrar no equipamento que este trabalhinho extra vai me render — meu próprio balastro de indução arcana. Um desses bem rígidos, de mizzium, com a campânula de retenção dinacromática e o vasilhame de conversão instantânea/inversão dupla. Tem bastante engenhosidade Izzet naquilo, não neste aqui que eu peguei emprestado e estou praticamente arrastando. Vou conseguir fazer análises assim três vezes mais rápido — detectando e identificando traços de mana com facilidade, o que vai me deixar com mais tempo para ficar no laboratório.

Passamos por uma série de arcos em forma de fechadura, seguimos caminho por uma rotunda coberta de musgo, e finalmente chegamos ao nosso destino. É gigantesco, e quase tão impressionante quanto o pórtico de dois andares de altura onde está encostado. É uma placa gigante de gorduras coaguladas e resíduos sólidos presos, formando uma única massa que entope o fluxo de água. Apenas um dos muitos sebobergues que são como uma praga pelos esgotos do Décimo Distrito.

Kel'teth junta os dedos e os coloca na altura do joelho, fazendo um gesto para que eu suba. “Depois de você!”

“Espera. Você quer realmente subir nesta coisa?” Eu ajusto o vasilhame volumoso que carrego nas costas, tentando manter o peso distribuído igualmente.

“Bom, você não vai conseguir ver direito daqui de baixo. Além disso, logo as enguias saem dos ninhos. Elas não costumam atacar as pessoas, mas vão tirar até a quitina de você quando estiverem grogue.”

Eu não preciso ser convencida mais do que isso, e subo apressada no sebobergue. A maior parte dele parece rocha sólida, apesar de algumas partes parecerem feitas de cera, outras têm montes que soltam um gel melequento, e por todo ele há objetos quebrados e descartados projetados pela superfície da coisa. A placa inteira se move levemente, me deixando com náusea — apesar de que, com toda a sinceridade, eu já estava prestes a vomitar desde que desci até aqui.

“Veja,” diz Kel'teth, “normalmente mandamos alguns dragonetes para cá voando e eles vaporizam os sebobergues, mas eles ficaram impenetráveis a magias elétricas. Esse aqui já levou uma dúzia de ataques, mas não tem nem um arranhão.” Ele dá um tapinha carinhoso em uma protuberância de gordura. “Não é impressionante, ela?”

“Ela é linda mesmo.” Uma ânsia seca me escapa. Com certeza a magia anti-náusea está passando. Vamos ter que fazer esta inspeção rapidamente. “Então, eu vou dar uma olhada e ver se consigo encontrar algum traço do que esteja causando isto aqui. Certo?”

“Leve o tempo que precisar,” diz Kel'teth, se acomodando ali em cima. Ele puxa um chapéu de cogumelo da axila para a boca e depois molda um monte de gordura para formar uma almofada. Um sorriso relaxado se espalha em sua face enquanto ele se reclina com as duas mãos apoiadas atrás da cabeça.

Eu desamarro meu bastão de balastro e abro o vasilhame folheado a mizzium que está nas minhas costas. Um zumbido começa — o som de fundo para traços de mana dispersos no ar. Eu seguro o bastão firmemente e passo as bobinas receptoras, coletando restos de mana até que a campânula de vidro se enche com estalidos de eletricidade púrpura. As energias se cancelam e o zumbido diminui até acabar. Estou pronta para começar. Eu miro a bobina receptora de cobre do balastro para a superfície do sebobergue, passando de um lado para outro, lenta e ritmada. O vasilhame aumenta o timbre, um som agudo de ziiip que indica evidência de um artefato. Marcas de pá no sebobergue mostram que já se fora, provavelmente recuperado por reivindicadores Golgari.

Continuo em frente. O refugo dos esgotos não conhece as divisas entre guildas. Em um momento estou passando por uma máscara de javali socada em algum festival Gruul, e no outro estou me retraindo ao ver o elmo com o símbolo do sol de um soldado Boros partido em dois. Eventualmente eu encontro outro lugar onde um artefato esteve. Do gemido trinado que meu balastro emite, consigo identificar que é um artefato comum entre os Rakdos, provavelmente a efígie semi-queimada de um amante infiel ou de um vizinho inescrupuloso que pegou emprestado um atiçador de chamas e se esqueceu de devolver. Definitivamente não é algo com magia suficiente para afetar um sebobergue inteiro.

Mas então o balastro começa a fazer um ruído curioso de fervura, que nunca tinha feito antes. Fica mais e mais alto enquanto eu chego perto do final do sebobergue. Eu olho para Kel'teth, que dorme profundamente. Provavelmente eu devia acordá-lo e pedir para que ele me mostre o caminho mais à frente, mas o que está causando este som é algo poderoso. Arcano. E algo que a Liga Izzet não preparou meu vasilhame para reconhecer. Ou isso quer dizer que eles não descobriram isso aqui ainda, ou que já sabem o que é e queriam manter segredo. As duas opções são igualmente atraentes. E igualmente lucrativas.

Veja bem, eu sei por que fui contratada para esta tarefa — descubra a causa dos sebobergues imunes a eletricidade e faça um relatório aos Golgari para que possam consertar — mas aí é que está: além deste serviço extra no meu tempo livre, sou aprendiz do Mestre Dax Foley, um quimiomante de alto nível especializado em metalurgia arcana e alquimia aplicada. Estou presa à base da pirâmide no laboratório, uma de dois humanos entre umas dúzias de assistentes vedalkeanos, e eu passo a maior parte do dia organizando conectores de cabos e tirando a graxa das turbinas e prendendo elementais rebeldes que sifoneiam energia dos nossos equipamentos laboratoriais. Mas eu tenho ideias, mais ideias do que cabe na minha cabeça, mas até agora parece que eu só vou conseguir subir de nível quando alguém se aposentar, ou morrer. Do jeito que os outros funcionários tomam feitiços de rejuvenescimento, nenhuma dessas coisas vai acontecer em um bocado de tempo. Então, se eu for fazer meu nome, eu tenho que arriscar.

Eu entro na água do esgoto, e depois sigo o barulho de fervura por várias galerias, uma mais estreita que a outra. Eu chego em um ponto sem saída, e a água fluía para dentro de uma grade antiga e detalhada com códigos antiquíssimos, presos com parafusos enferrujados que provavelmente não se moviam desde que Niv-Mizzet tinha dentes de leite. Voltar não é uma opção, não tão perto assim. Eu solto a fivela de segurança do vasilhame, e um refluxo de mana bruto escapa e desliza na direção da grade. O vasilhame drena, fazendo o metal incandescer, e ao expandir os parafusos tremem e depois pulam para dentro d’água.

Três puxões fortes, e a grade se solta. Eu a coloco para o lado, e me agacho lá para dentro. A luz trêmula ainda presa na minha campânula de vidro cria sombras dançantes nas paredes curvas do túnel. Superfícies brilhantes refletem a luz, mas tem um ponto à frente preto como piche, flutuando na superfície do esgoto. Fios de magia rodopiam em torno dele, em um vermelho agourento e fagulhas brancas. Uma fenda espacial.

É tarde demais quando eu noto que várias enguias estão serpenteando na minha direção entre as plantas estranhas que crescem em torno da fenda. Eu me tropeço, tentando lembrar o que Kel'teth disse sobre evitar choques elétricos . . . mas a água é rasa demais aqui para mergulhar, e não tem nada onde eu possa me pendurar e subir. Sem opções, eu seguro o bastão do balastro na minha frente. A superfície inteira da água se acende. A eletricidade flui para dentro dos receptores, mas eles foram feitos para sifonar traços de mana dos arredores, e não para absorver um choque elétrico de frente. A energia passa pelo bastão e a campânula de vidro explode em mil cacos. O vasilhame começa a fazer um escarcéu, então eu o solto e jogo o mais longe possível. Ele atinge a água, e segundos depois uma explosão de magia elétrica preenche o esgoto. Por um momento muito longo, meu corpo todo se ergue e meu mundo vira um clarão.

Steam Vents
Bueiros de Vapor | Ilustração: Jonas De Ro

Finalmente, meus pensamentos coagulam. Eu olho em volta, com o pescoço duro e a pele ardendo em brasa. A fenda está bem, e as plantas em torno dela também. Como se nada tivesse acontecido com elas. Nenhuma folha queimada. Nenhuma pétala chamuscada. O contato com a fenda deve ter imbuído imunidade a magias de eletricidade. A mesma imunidade deve ter chegado aos sebobergues ao longo do tempo. Eu pego algumas amostras das plantas, trêmula com a magnitude dessa descoberta. Nunca mais vão me mandar esterilizar óculos de proteção ou deixar grades da fornalha brilhando.

Eu estaria mentindo se dissesse que não notei a pressão dentro da Liga Izzet ultimamente, apesar de não saber de onde ela vem. Os Izmundi exigem descobertas mais significativas e resultados mais rápidos, tanto que os quimiomantes recorrem a rodar experimentos noite e dia por medo de perderem seus laboratórios. Bem, eu tenho uma descoberta significativa bem aqui, então estou correndo com tudo para dentro da sala do Mestre Dax agora mesmo, para que ele me dê a promoção que eu mereço. E logo mais serei eu dando as ordens para ele.


Acontece que as melhores ideias não são formadas quando você acabou de ter o equivalente a dez enguias de eletricidade passando pelo cérebro. Fazer ultimatos sem sentido para o chefe, encharcada com água do esgoto, o cabelo eriçado esbranquecendo nas têmporas, e arrastando cerca de quatrocentos zinos em equipamento laboratorial ilegalmente emprestado e agora quebrado . . . bem, isso só te deixa na frente da escadaria do Pára-Raios, com uma caixa cheia dos seus pertences nas mãos.

Eu observei enquanto revogavam meus feitiços de acesso, tiravam os amuletos das chaves de infinitum do meu pescoço, e tiravam minhas manoplas. Agora eu sou apenas uma estranha de mãos vazias para o edifício, e todas as credenciais que me diferenciavam de infiltrantes Dimir que tentavam roubar nossas invenções e de biomantes Simic tentando sequestrar quimiomantes dos nossos laboratórios se foi. O Mestre Dax pode tirar meu emprego e meu cargo, mas não pode revogar o meu sonho.

Então, eu comecei a rodar um laboratório próprio no fosso de caldeira que passa embaixo do meu prédio. Tem bastante vapor aqui embaixo, além do cheiro de ferrugem e de engenhosidade. Eu catei a maior parte do equipamento que precisava em sucata, construindo um par de bobinas de mana improvisados feitos de restos de mizzium afinados com martelo. Mas eles estão segurando a onda até agora, enviando arcos de luz púrpura quase até o teto. Eu preparei armadilhas pro elemental elétrico que ouvi volteando por aí no meio da noite. É, não é um laboratório bonito, mas está ficando decente. Só uma coisa está faltando mesmo.

Uma batida na porta.

Naquela caixa de pertences, eu consegui passar algo que os guardas Izzet não viram quando me levaram para fora do prédio — ratinhos de laboratório. Mortos. Cadáveres peludinhos, manchados com resíduos de magia experimental. Com o estímulo certo, eles não costumam permanecer mortos, o que faz deles algo bem valioso para reivindicadores Golgari. Eu troquei com um reivindicador jovem seis ratinhos maduros para que ele encontrasse um busca-explosão disposto a usar criações mágicas em um laboratório não-sancionado por uma quantidade inconcebível de dinheiro. Não espero muita coisa, mas qualquer coisa é melhor do que arriscar explodir metade de uma quadra tentando fazer tudo sozinha. De novo.

Eu atendo a porta. Ela é ainda menor do que eu esperava, magrelinha, e não parece que consegue erguer um conversor espectral nem se a vida dependesse disso. Mas depois da minha experiência sendo descontada várias e várias vezes, eu sei que as pessoas podem ser muito mais do que parecem. Eu sorrio. “Você está aqui para o cargo de busca-explosão?”

“Estou aqui se você estiver pagando,” diz ela, com um brilho no olho. “Tamsyn Sweene. Se me chamar de Tammy, vai ser um problema.”

Direta. Já gosto dela. “Tem experiência?”

“Cinco anos trabalhando no Cadinho como busca-explosão. Depois disso, dois na Fundição.”

“Referências?”

“Nenhuma que possa ser pega falando com a chefe de um laboratório não-sancionado.”

Justo. “Que tal um teste prático? Só para ver a compatibilidade?”

Trabalhamos por três horas sem parar, preparando todos os componentes do meu experimento. A Tamsyn é meticulosa. Ela me ajuda a sobrecarregar as bobinas de mizzium, girando a maçaneta com um fervor que eu só vi em goblins. E então ela corta meus espécimes da fenda com uma consistência incrível. Eu os coloco em uma vala rasa de penetrantes de vacúolo rarefeitos, e depois assisto a magia da fenda se separando da celulose. A Tamsyn até me ajuda a impulsionar campos espectrais nos orbes elétricos que vamos usar para administrar os choques. Por fim, depois de passarmos o soro pela centrífuga e filtrarmos os contaminantes orgânicos, aplicamos o soro nos ratos.

Esperamos cinco minutos inteiros para que o soro fizesse efeito, e então a Tamsyn ergue o conversor espectral com facilidade, conjurando um orbe de eletricidade. Ele saltita no ar como uma bola de relâmpago cor de mel. O ratinho parece ansioso com os olhos rosa-pálidos, e a Tamsyn depois faz o orbe cantar. O rato acende como um elemental de fogo, com tanto brilho que meus óculos de proteção aquecem nas beiradas. A eletricidade toma violentamente a criaturinha, e ela nem mexe um bigode. Ela está completamente imune a eletricidade.

“Nem um fio do pêlo foi chamuscado. Que incrível! Temos que levar até o—” Eu me paro. Não podemos fazer nada com esses resultados. Ninguém vai levar essa descoberta a sério, não sem testes em humanoides. E eu não posso conduzir esses testes sem aprovação do comitê.

“O que foi?” pergunta ela.

“Nada não.” Digo eu, mordendo o lábio. A maior descoberta da minha vida, e eu vou ter que ficar quieta. Vou pedir sancionamento oficial, é claro, mas vai levar meses. Os Golgari vão chegar na verdade acidentalmente muito antes disso, e todos os meus sonhos serão varridos mais uma vez. Eu suspiro e vou fazer a eutanásia no ratinho para dissecá-lo; não é minha parte favorita do trabalho, mas você se acostuma.

“Eu cuido disso,” diz a Tamsyn, passando na minha frente. Ela pousa um pano em um frasco de vapores de construção, vira o frasco, e depois sufoca o rato com tanta rapidez e experiência que ele nem nota o que aconteceu. O jeito com que ela se move, confortável na própria pele, fica claro que ela tem muita experiência em laboratório.

“Que mal lhe pergunte,” digo eu, hesitando um pouco, “por que você quer trabalhar num laboratório não-sancionado? Com habilidades assim—”

“Habilidades como as minhas mataram meu último quimiomante. Foi um acidente, mas o comitê não viu assim. Tiraram de mim as coisas que eu mais estimava.” Tamsyn mostra as palmas das mãos. A marca descolorida onde as rochas de amplificação ficavam embutidas nas manoplas que ela usava são tão familiares para mim que chega a doer. Meu coração quase se estende até o dela, mas eu me endireito, preciso deixar a emoção de lado. Não posso pagar o suficiente para ela, nem mesmo com a ninharia que eu anunciei. Agora não é hora de complicar as coisas.

Izzet Art
Ilustração: Wesley Burt

“Bom, agradeço por ter vindo,” digo eu. “Aviso se deu certo na semana que vem. Tenho mais algumas pessoas pra entrevistar.”

“Sério? Depois do que eu fiz agora?”

“Foi impressionante, admito, mas é justo que eu—”

“Eu preciso desse emprego, Leighbet. Talvez eu esteja desesperada, mas você também está. É por isso que trabalhamos bem juntas. Você tem grandes ideias, mas precisa de alguém que cuida dos detalhes e sabe como o sistema funciona. Sanções não são os únicos jeitos de conseguir aprovação para o laboratório. Eu conheço pessoas que conhecem pessoas. Eu posso conseguir uma declaração de Oficina de Nicho Inovador.”

“Você sabe fazer isso? Como?”

“Me contrate, e eu conto. Você tem uma coisa especial aqui, e eu quero fazer parte. Por favor, você não vai se arrepender.”

Ah, eu sei que vou me arrepender, mas você não pode pendurar uma aprovação de laboratório na frente de uma quimiomante autoproclamada e esperar que ela não morda a isca.

“Eu cuido de você, você cuida de mim,” diz a Tamsyn. “Enquanto o pagamento chegar na hora certa, não temos problemas, certo?”

“Certo,” digo eu. A Liga Izzet gosta de suas supervisões e protocolos, mas as regras foram feitas para serem quebradas.


A Tamsyn fez maravilhas. O Laboratório de Dinâmica do Metafluxo Elemental e Fractalização de Campos de Bobina está entre os laboratórios reconhecidos oficialmente pelos Izmundi. Sim, é um nome enorme, mas a Tamsyn disse que quanto mais adjetivos eu usar, menor a chance de alguém vir com minúcias ver o que estamos fazendo.

Minha incrível busca-explosão entra no laboratório e me pega admirando o lugar. “Tem umas coisas que eu preciso contar. Nada grande," diz ela. “Se alguém bater procurando pela Quimiomante-Mestra Becham, diga que ela está fora em conferência e só volta em uma semana. E o número oficial de funcionários que temos é doze. Memorize os nomes deles e as voltas que estão fazendo. Cada um tem uma história, fica mais fácil de acreditar. Por último, se você for pega e interrogada, você nunca me viu.”

Eu rio. “Você chantageou alguém do comitê para conseguir isso tudo, ou o quê?”

Ela não ri comigo.

Eu continuo a rir, mas agora é uma risada um pouco mais fraca. “Mas você não fez nada disso, né?”

“Achei que você levava sua ciência mais a sério, Leighbet.” Ela me encara. Eu nem ouso piscar. “Eu tomei a liberdade de colocar um anúncio em busca de cobaias. Todos eles estão na sala de espera.”

“Tem uma sala de espera?!” Eu espio pela porta para o corredor, e lá estão três goblins e dois humanos sentados em caixas de madeira. Eu dou um sorriso apertado para eles e volto para dentro do laboratório. “Você fez gente aparecer de verdade? De graça?”

“Eu falei em duzentos zigs no anúncio.”

“Duzentos zigs? Cada?”

“Vai dar certo, Leighbet, e quando der, dinheiro não vai mais ser um problema.”

Eu assinto com a cabeça, e a certeza dela vai me reconfortando. Eu meço e administro cuidadosamente o soro a cada uma das cobaias, documentando tudo. Algum dia historiadores vão querer saber mais sobre a descoberta que me levou de humilde assistente a quimiomante-mestra.

Tamsyn e eu estamos lado a lado, esperando nervosamente até o soro fazer efeito. Minha barriga abre um buraco . . . se isso aqui funcionar - não . . .quando isso aqui funcionar, vou pessoalmente a um comitê fazer uma demonstração.

Tamsyn se aproxima da primeira cobaia. “Eu vou dar um leve choque em você. Por favor, avise se sentir qualquer nível de desconforto.” Bronca como ela é, impressiona como ela consegue deixar as cobaias confortáveis. Até mesmo as feições angulosas do rosto dela parecem mais suaves.

A goblin concorda — fofinha com seu nariz longo e anguloso, olhos amarelos brilhantes, e brincos de bronze na orelha esquerda. Tamsyn ergue o conversor espectral, muda a carga para um, e conjura um orbe menor do que um botão de casaco. Gentilmente, ela o envia até a goblin, que está tremendo e com a pele verde agora acinzentada. O orbe a toca no ombro e depois some sem deixar vestígio.

“Você sentiu alguma coisa?” Tamsyn pergunta.

“Não!” Diz ela, quase pulando de onde estava sentada. Ela se acomoda no assento, tímida. “Desculpa, é a primeira vez que eu sou cobaia. Estou um pouco nervosa.”

“Está indo bem,” diz a Tamsyn com uma risadinha reconfortante, enquanto muda a carga para quatro. “Certo, vou tentar um choque um pouquinho mais forte. Lembre-se, por favor me avise se sentir qualquer tipo de dor.” O orbe tem o tamanho de um ovo de dragonete dessa vez, e a atinge no tórax. Sem efeito.

“Talvez um pouco de cócegas?” Oferece a goblin.

“Certo, esse vai ser grandão. Tem certeza que quer continuar?”

A goblin assente novamente, dessa vez com mais confiança. Tamsyn aumenta a carga para o máximo, oito, e enquanto o orbe se aproxima da nossa cobaia, quem está tremendo sou eu.

Ele a atinge na cabeça — um golpe que a teria deixado inconsciente, mas ela está lá, sentada e boquiaberta. “Eu senti algo. Como um tapinha na testa.”

“Machucou?” Pergunta Tamsyn, oferecendo um copo d’água para que a goblin acalme seus nervos. A goblin bebe rapidamente, ainda trêmula.

“Nem um pouco. Isso é incrível. O que tem na coisa que você nos deu, afinal? No caso, eu sei que você não pode me falar . . . Eu estou tentando conseguir um cargo de assistente laboratorial. É tão competitivo, mas eu não vou desistir!”

“Tenho certeza que você vai estar do outro lado dos experimentos logo,” diz a Tamsyn. “Agora, se você puder sentar na sala de espera, vamos terminar de trabalhar com as outras cobaias e depois fazer seus pagamentos.”

“Jóia!” A goblin sai com um passo leve.

As outras quatro cobaias têm o mesmo resultado, todos um sucesso. Para garantir, Tamsyn solta cinco raios rápidos no tórax do último, sem resposta. Tamsyn e eu nos entreolhamos.

“É isso,” digo eu. “Conseguimos!”

Radical Idea
Ideia Radical | Ilustração: Izzy

“Conseguimos sim.”

“É perfeito! Só que todas as cobaias estão ali fora . . . esperando pelo dinheiro.” Não vai ser bonito, mas eu posso dizer que a papelada ainda está sendo preparada e vai levar alguns dias. Eu vou entrar em contato com alguns investidores iniciais, e depois—

“Leighbet.” A Tamsyn diz o meu nome como se eu fosse uma criança impetuosa. “Imagine o que aconteceria se deixarmos eles sair pelo mundo com magia da fenda. Seria levado até a fonte, é claro. Você era analista. Sabe como são inexoráveis. Onde isso deixaria a gente?”

“Mas o que podemos fazer? Quarentena para todos eles? Por quanto tempo?” Se a Liga souber da fonte da magia da fenda, toda minha influência some. Eu daria adeus às minhas possibilidades de carreira. E então, muito lentamente, eu entendo o que a Tamsyn está tentando não dizer. Esse projeto ainda é meu. Eu estou no comando. Se uma ordem assim vier, ela tem que vir de mim. “Só tem um jeito de garantirmos que essa descoberta não saia daqui,” digo eu.

Tamsyn assente com a cabeça.

Eu penso nos ratinhos de laboratório em que fiz eutanásia ao longo dos anos. Centenas. Milhares. No começo era difícil. Eu me sentia horrível, mas acho que depois de certo ponto virou rotina. Mas não estamos falando de ratinhos aqui, estamos falando de pessoas. Cinco almas no caminho entre mim e grandes feitos. Se eu fizer isso, se eu passar desse limite, não tem mais volta. Meu cérebro sussurra para mim — todos aqueles pensamentos horríveis, e eu estou ouvindo, considerando, e finalmente concordando com eles . . . e esses pequenos passos deixaram o salto para a vilania muito mais acessível.

As duas precisariam segurá-los enquanto pressionamos os panos em suas faces. Eu pego o frasco de vapor de construção. Quatro doses para cada cobaia deve ser suficiente. E então eu me lembro do brilho no olhar daquela goblin conversadeira, com seus sonhos e aspirações . . . “Tamsyn, me desculpe, eu não sei se consigo.”

Ela parece desapontada, mas não está surpresa. “Não se preocupe. Não vai precisar. Eu já dei a todos eles uma dose superconcentrada de elixir do sono com um acelerador etéreo de morte.” Tamsyn cuidadosamente empilha os cinco copos vazios e os joga na lixeira. “Eles morreram em paz. Não é como se fôssemos completamente monstruosas.”

Eu não estou inteiramente preparada pelo frio no meu coração em meio ao calor e ao vapor dos fossos de caldeira.


Eu não tenho certeza de onde eu fui me enfiar, mas sei como me tirar desse buraco. Eu só preciso de dois mil zigs para pagar o que eu devo a Tamsyn, e então eu fecho o laboratório, contrato um mago mental que apague minhas memórias, e sigo com a minha vida. Minhas opções são limitadas, e meu tempo está curto, mas tem um jeito de conseguir dinheiro rápido. Eu repasso as postagens procurando cobaias no mural do Cadinho, em busca dos experimentos que mais pagam. Eu me inscrevo no máximo possível e espero pelo melhor. Os dois primeiros não dão problemas — as vinte injeções ao longo da minha coluna mal doeram, e aquela explosão pequenina quando magias de água e fogo se chocaram . . . bom, eu não precisava de todos os meus cílios, mesmo.

No terceiro experimento eu me vejo passando pelo coração do Combinado Simic. Dizer que tenho minhas dúvidas sobre a empreitada é dizer pouco. Ampliar as fronteiras da ciência elemental é uma coisa, mas mexer com bioengenharia me trava. É perigoso. Antinatural. Mas biomantes Simic pagam cobaias o triplo do que quimiomantes Izzet, então eu acalmo meus medos imaginando os setecentos zigs que estarão tilintando na minha bolsa em breve.

Os laboratórios deles me dão arrepios, com toneis de líquidos esverdeados, silhuetas de coisas se movendo dentro deles com mais braços e pernas do que deviam. A quantidade de formulários que me pedem para preencher intimida — histórico médico completo, e uma concessão de culpabilidade com informações de contato da minha xamã e uma descrição de rituais fúnebres caso o pior aconteça. Estou na penúltima página do último questionário quando eu paro em uma pergunta:

Teve exposição a hélices de crescimento ou encantamentos irradiados nos últimos sete dias?

Minha mão trêmula marca um “não” apesar de eu ter recebido uma dose de cada na manhã de hoje. Não posso deixar essa oportunidade passar. Eles administram o teste, me ligam a meia dúzia de tubos e aplicam suas poções místicas nas minhas veias. Imediatamente eu me sinto tonta.

“Está tudo bem? Consegue continuar?” Pergunta o biomante-chefe. Ele é humano, mas tem escamas reptilianas brilhando por toda sua pele. Seus olhos sem pálpebras são pretos como a fenda espacial era, e eu tenho medo de mergulhar neles.

Eu engulo o nervoso e assinto. Cada pelo do meu braço começa a coçar enquanto a magia Simic me transforma de dentro para fora. A sensação de formigamento me atinge na medula dos ossos e antes que eu consiga notar, meus dentes estão se reorganizando, ficando afiados e serrilhados como se fossem todos presas. Minha coluna retorce, cresce, e cada vértebra se estica, protuberando pontiagudas, e o marrom cálido da minha pele se torna um cinza rústico, como couro antigo. Eu observo minhas mãos enquanto garras em um tom prata-azulado irrompem das bases das minhas unhas.

“Algo não está certo,” diz o biomante. “Tem certeza de que não foi exposta a hélices de recrescimento ultimamente?”

Eu tento responder, admitir que talvez eu tivesse, mas minha boca está espumando tanto que não consigo falar.

Desorientada e aterrorizada, eu arranco os tubos dos meus braços. O biomante tenta me segurar, mas eu arrasto minhas garras pelo jaleco até a pele escamada dele, e fujo o mais rápido que posso. Eu corro pelo corredor, e centenas de faces inchadas me encaravam dos toneis cheios de fluidos. O corredor se abre em um átrio com um espelho d’água enorme, que reflete uma luz cintilante sobre mim. Eu me sinto como se estivesse afogando. Eu luto para chegar até a saída, engolindo ar, mas não paro de correr. Só tem um lugar que merece um monstro miserável como eu. Os esgotos.


Eu me encolho nas sombras de uma ponte empilhada, meio submersa e meio enlouquecida. Estou tão horrenda que nem os sirenos do esgoto se aproximam. Eu acho que esse é o fim e que a vida não pode piorar, mas a Tamsyn aparece com o conversor espectral, conjurando um orbe que ilumina o esgoto inteiro. As sombras se dissipam, e eu sou vista.

“Leighbet,” diz a Tamsyn.

“Tamsyn,” respondo eu. “Ainda não tenho seu pagamento, mas se me der mais tempo, eu posso—”

“Você sabe que não é uma questão de dinheiro.”

É, eu tive essa impressão. “Quando você me falou que seu quimiomante morreu acidentalmente . . . era mentira, não era?”

“Me pegou.”

“Você o matou de propósito?”

“Não existiu um quimiomante, Leighbet. Eu nunca fui busca-explosão.” Algo estranho ondula pela pele dela, e a sensação que eu tinha de como ela se movia confortavelmente, tudo aquilo é drenado da minha cabeça. “E eu nunca trabalhei nem no Cadinho e nem na Fundição. Muitos empecílios e medidas de segurança. Mas laboratórios pequenos como o seu são fáceis de infiltrar, e se a oportunidade for boa, dá pra pegar gênios em ascensão . . .”

“Você me acha genial mesmo?” Digo eu, logo depois ignorando o afago no meu ego para me concentrar no que realmente importa. “Você é metamorfa?” E então eu percebo. “Uma espiã Dimir.”

“Em carne e osso,” diz Tamsyn. A pele dela ondula mais uma vez. “Perto o suficiente dessa ideia.”

Droga. E ela era tão boa no laboratório. Sabia mesmo das coisas. Eu respiro fundo. “Mas quando você disse ‘gênio,’ você quis dizer literalmente, ou—” Mas antes de conseguir esclarecer, eu vejo de relance algo se aproximando rápido— asas esplêndidas como velas sob um vento de tempestade, e olhos amarelos que queimam como fogo. Um dragonete de arco, mandado para cá para romper os sebobergues, voando bem na nossa direção. Tem eletricidade craquelando na boca dele, e eu vejo ele inspirar profundamente. “Dragonete!” Grito.

“Você acha mesmo que eu vou cair nessa?” Diz Tamsyn. A eletricidade dentro do conversor apontado para mim piava em um tom grave e ameaçador.

Não tenho tempo para sentir medo. Minha mente repassa as regras de segurança que meu guia do esgoto tinha me dado: Se conseguir, pode subir. E na água, boa mergulhada. Eu mergulho, prendo a respiração e espero pelo melhor.

A eletricidade é imprevisível, indiscriminada, e uma assassina natural. Ela serpenteia pela água do esgoto, e por mim. Meu corpo inteiro se firma com tanta força que eu sinto como se fosse partir em duas. Quando ela finalmente me solta, eu tenho uma sede tão intensa que eu preciso fazer força para não engolir vários goles enormes de água de esgoto. Meu coração está bem, meu cérebro mais ou menos, mas não acho que minha sorte seja algum tipo de misericórdia. Eu sou atingida novamente, desta vez na barriga, com um punho. Meus pulmões soltam o ar que eu prendia enquanto a “Tamsyn” se joga sobre mim. Bolhas escapam para a superfície e eu tento fazer o mesmo, mas ela me segura e me arrasta para o fundo. Eu a arranho e consigo voltar para a superfície, mas ela dá uma cabeçada no meu queixo e conjura outro orbe enquanto estou tentando me recuperar.

“Desperdiçar uma mente como a sua é terrível, mas o seu soro é uma descoberta Dimir agora. Adeus, Leighbet.”

Não sei por quê, mas a ideia de perder a citação da minha descoberta me assusta mais do que a ideia de perder a vida. Eu olho para minhas garras — afiadas e intimidantes. Não sou nenhuma amoque, até agora não tinha nenhum osso feral no meu corpo, mas não quer dizer que eu não vou morrer sem lutar. Eu ataco Tamsyn, mirando na cara dela. Ela se agacha e manda um orbe direto no meu estômago. Eu me dobro para a frente com a dor - uma cãibra profunda e pulsante que embranquece as beiradas do meu campo de visão. Eu aguento a dor e ataco de novo. Minha garra atinge pele dessa vez, por pouco, abrindo um corte com sangue verde e pálido. O ferimento se costura quase instantaneamente. Ela aumenta o conversor espectral para dois pontos além do máximo e conjura um orbe gigante, movendo-o lentamente na minha direção.

Não está dando certo. Penso, logo não luto. Se eu for vencer, tem que ser usando a cabeça. Eu me afasto enquanto ela se aproxima, mas algo faz barulho onde eu piso — um sebobergue que bloqueia minha saída completamente. Eu não tenho escolha, então me viro, enfio a garra lá no topo, e me ergo até a superfície. Estou completamente exposta, mas estou mais rápida aqui em cima e consigo me abaixar quando ela atira o orbe.

Tamsyn também está tentando subir no sebobergue, mas eu o balanço para dificultar. Ela escorrega e cai de volta na água. Eu tento correr, mas tropeço em um velho frasco de solda. É pesado e feito de vidro espesso. Eu começo a olhar em volta, surpresa que os reivindicadores não tenham catado nesse sebobergue ainda. Entre o lixo e escombros de sempre, vejo vários objetos que podem ser usados com um pouco de inventividade e esforço. Eu olho novamente para o frasco de solda. Resta apenas um pouco de solda lá dentro, mas o frasco pode servir como campânula de retenção. Se encontrar peças suficientes, consigo construir um balastro improvisado para absorver o choque dos orbes da Tamsyn.

A cabeça dela aparece e ela lança outro orbe contra mim. Ele pega de raspão na minha perna, que endurece e dói muito, eu mal consigo ficar em pé. Eu ergo o frasco de solda como se fosse atirá-lo nela, e ela se abaixa de novo. Não tenho muito tempo. Ela não vai cair nessa duas vezes.

Eu cambaleio até um velho tridente enfiado no sebobergue. O cabo está partido e já não tem mais suas pedras encaixadas, mas ainda consigo sentir um chiado de magia passando por aqueles veios. Seria um bastão excelente para o meu balastro. Duas bobinas de mana rachadas podem servir como receptores. Não acho que alguém tenha tentado isso antes, mas eu tenho que fazer o que dá com o que tenho. A solda está velha, então eu dou um empurrãozinho com magia construtora. Por fim, ele segue até a ponta, juntando a campânula ao tridente, e assim que a última peça se encaixa nas bobinas, eu olho para a frente e vejo que Tamsyn conseguiu subir no sebobergue. Eu ergo meu balastro para lutar, mas não está nem um pouco pronto.

Eu aponto acima do ombro dela e arregalo os olhos. “De novo não!”

Eu me deito, como naquelas simulações que a gente aprende quando criança para minimizar as chances de ser atingida por um raio quando um dragonete de arco está à solta. Tamsyn olha por cima do ombro, apertando os olhos para enxergar pela escuridão, e então eu salto de pé e pego o balastro e o impulso enquanto giro feroz, golpeio o queixo dela com toda a minha força usando o frasco de solda. Ela gira uma, duas vezes, e depois cai de cara na água turva do esgoto. Um bom golpe. Teria deixado um humano desacordado, mas com metamorfos eu não tenho certeza.

Um balastro teria um vasilhame para armazenar a carga elétrica, mas não tem como eu improvisar algo tão complicado. Mas se o princípio de Warwitt-Isley para ganhos e subsídios microfraturais se aplica em circunstâncias abaixo do ideal, posso ter uma chance se encontrar algo para redirecionar a energia. Vejo um pedaço de refugo que talvez sirva, semienterrado em um monte de gel gorduroso. Eu vou até ele e o arranco da gordura. É a tampa de um velho tanque de caldeira — uma bagunça enferrujada no lado de fora, e o lado de dentro é folheado a mizzium tão fino que não valeria a pena tentar remover. Todos aqueles anos polindo grades de fornalhas finalmente ganham utilidade e eu consigo fazer o mizzium brilhar rapidinho, criando uma superfície côncava boa para que a magia atravesse.

Tamsyn me pega distraída do outro lado do sebobergue. Não tenho tempo de prender a tampa, então eu a seguro como se minha vida dependesse dela. Quando vem o orbe seguinte, eu o recebo com o balastro improvisado. A eletricidade passa pelos receptores, pelo bastão, e depois é coletada na parte côncava da tampa. Por um breve momento, Tamsyn e eu ficamos ali impressionadas que tenha funcionado mesmo, mas logo depois ela está se lançando contra mim com braços estendidos e outro orbe pronto para atirar. Antes da minha carga dissipar, eu a lanço na direção dela, e o golpe a atinge bem no peito.

O corpo inteiro dela se acende. O impacto a atira em uma direção, e a tampa sai voando na direção oposta. Eu pisco com força para tirar a imagem de Tamsyn que queimou minha retina e vejo minha inimiga tentando ficar de pé com todas suas forças. Mas antes que ela consiga, eu prendo o joelho nas costas dela, e puxo a cabeça dela pelos cabelos. O monstro feral dentro de mim exige vingança, furioso, mas quando eu olho para os meus braços — minha pele está lisa novamente, minhas unhas estão humanas e pequenas, e eu noto que os efeitos horrendos do experimento passaram. Estou de volta ao normal . . . mas ainda me sinto mudada, e tenho quase certeza que não é tudo magia Simic.

“Essa descoberta é minha,” sibilo eu. “Não posso deixar ela cair nas mãos dos Dimir.”

“Não conto pra ninguém, juro,” implora ela.

“Eu sei que não, Tamsyn,” eu digo e fico como o relâmpago — imprevisível, poderosa, impiedosa — todas as coisas que fazem dele algo belo e mortal. Igual aos ratos, a decisão de matar fica mais fácil dessa vez, e quando a vértebra da Tamsyn se quebra eu me reconforto que ela não tenha sentido dor. Eu me afasto e vejo o cadáver dela sair da forma humana enquanto as magias que a seguravam iam se dissipando. O corpo jaz ali, um tesouro para o reivindicador que eventualmente a encontrar. Eu pego os restos do meu balastro improvisado e levo de volta ao laboratório. Depois de alguns ajustes, terei duas descobertas para apresentar ao comitê, e se não as aceitarem . . .

O monstro dentro de mim se remexe sob a minha pele. Juntos, seremos uma ótima equipe.


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